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Full text of "Decadas da Asia"

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DA ASIA 

D E 

DIOGO DE COUTO 

Dos FEITOS , QUE OS PoRTüGUEZES FIZERAAf 

NA CONQUISTA y E DESCUBRIMENTO DAS 

TÉRRAS, E MARES DO OrIENTE, 

DECADA SÉTIMA 

PARTE PRIM.EIBA. 




L I S B O aV^^Í^ÜIyTi V^> 
Na Regia Officina TypograpicAí 
anno m. dcc.lxxxij. 

fi>mL¡eeitf4 da Real Meta Cmforía, tPríviitgiaRa^ 
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Digitized by VjOOQIC 

í1 



índice 

DOS capítulos, que se contém 

NESTA PARTE I, 

DA DECADA VII. 

L I V R O I. 

CAP. I. De cmo ElRey D. Joao fup^ 
plicou ao Papa provejfe o Imperio 
da AbaJJia de Patriarca : e de hu^ 
ma breve rela^ao do Patriarca D. Joao 
Bermudes , que Idfoi em lempo do Go^ 
vernador D. EJlevao da Gama : e de ou- 
tras muitas coufas. Pag, r. 

CAP. IL De huma breve relagao daChri^ 
Jiandade das térras do Malavar , e de 
feus Bifpos : e de como o Arcebifpo de Goa i 
e Primasi </^ India D. Fr. AÍeixo de Me^ 
nezes , Religiofo da Ordem de Santo Agof^ 
tinho , por ordem do Papa Clemente VlIL 
govemou aquella Igreja , e ficou fuffra^ 
ganea aó Arcebijpado de Goa por mort^ 
do Arcebifpo Mar Abrahao , e depois as 
fot vifitar em pejfoa: e dos grandes tra* 
b albos que pajou até a reduzir ao gre^ 
fnio da Igreja Catbolica : e do Synodo Vio^ 
cefano que ordenou , em que tirou infini- 
tos erros , e abusSes : e de outras cou-- 

. fas. 13. 

CAP. 



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Índice 

CAP. IIL De como ElRey D.Joao eJleatH 
no de I5'5'4. elegeo pera Vifo-Rey da In- 
dia a D. Pedro majcarénhas : e da Ar- 
mada com que partió : e do que fucce- 
^0 na viagem até chegar d Cidade <le 
Goa. 30. 

CAP. IV. De como os Capitaes de Bagaim , 
e Cbaul aiuntdram navios , e fe foram 
íangar foíre a harta de Surrate , fabcn' 
do eftarem dentro as gales : e de como o 
Vijo-Rey D. Pedro Mafcarenhas tnandou 
Jeu fobtinbo Fernáo Martins Freiré com 
huma Armada dquelle negocio : e dos tra- 
tos que teve com Caracen , ^apitSo de 
Surrate : e de como fe ajfentou cerrarem- 
fe as gales \ e da chegada de D.Fernan- 
do de Menezes a Goa. 3^- 

CAP. V. De como o Turco mandou outro 

' Capitdo , chamado Cafdr , a bufcar as 
gales que ejiavam em Baford : e de como 

^ tomou algumas ndos deOrmuz: e de ou- 
tras coufas que pajfáram. 46. 

CAP. VI. De Como o P^ifo-Rey defpachou as 
ndos pera irem a Cochim tomar a car- 
ga : e do que acpnteceo a D. Ajfonfb de 
iToronha com ElRey doChemhe, ejeem- 

' harcou pera o Rey no onde chegou : e como 
a ndo Santa Cruz dejappariceo. yo. 

CAP. VIL Do que áconteceo^FernSo Mar- 
tins Freiré em Surrate : e da Armada 

que 



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DOS Capítulos. 

que o Fíjb-Rey ordenou pera o EJireito 
de Meca : e do recado que mandou áo Int" 
per ador da Abajjia : e do que aconteceo 
a Vajeo da Cunha com EIRey de Cbembe 
fobre as pazes. 5*7. 

CAP. VIII. Do que aconteceo a Manoel de 
Vafconcelks no EJireito : e de como Fer^ 
nao Parto lanfou os Padres eniAr quicé : 
e do que aconteceo ao Padre Mejlre Gon^ 
falo até d Corte daquelle Imperador: e 
de todos os Reys que houve dejde a Rai" 
nha Sabá até ejle Claudio : e do que 
mefmo Padre paffbu com o Emperador. 66. 

CAP. IX. De como D. Diogo de Noronba , 
Capitao de Dio y perfuadio a Tartacan , 
que lanfajfe a Bijcan fóra das térras de 

. Dio y como fez: e de corno D. Dio^o de 
Noronba langou mao de todo o rendimen*' 
to daquella Alfandega : e de outras cou^ 
fas que pajfdram. 83. 

CAP. A. De como fe levantdram contra o 
Idalcan alguns Capitdes feus : e dos trac- 
tos que bouve antre Anel Maluco y e $ 
VifoRey D. Pedro Mafcarenbas. 88. 

CAP. XI. De como o Vifo-Rey D. Pedro 
Mafcarenbas alevantou Meaíecanpor Rey 

• de Vifapor : e dos contratos que com elle 
Jez : e de como paffou a Ponda , e o en^ 

• tregou a Cdlabatecan. 9:}* 
CAP. XIL JD^ comofaleceo o Fífo-Rey D. 

Pe-- 



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Índice 

Pedro Mafcarenbas : e das partes , e qua» 
lidades de fuá pejfba. 103. 

L I V R o 11. 

GAP. I. De como por morte do Vifo-Rey 
D. Pedro Majcarenbas fuccedeo na 
governanfa da India Francifco Barreto : 
e da Armada que fe quetmou na ribeira 
de ElRey com bumfoguete. iií. 

CAP. II. De como o Governador Francif- 
co Barreto paffou a Pondd a fe ver com 
c Meakcan : e de como proveo as Tana^ 
darias daMellas partes , e mandou D. 
Antdo de jüíoronba a tomar pojje de tO" 
do Canean. 117. 

CAP. III. Dos recados que paffaram antre 
jD. Diogo de Noronba , Capitao de Dio , 
e Melique Xeque fobre a Alfandega : e 
de outras muitas coufas que Juccedé* 
ram. 122. 

CAP. IV. Das coufas que fuccedéram em 
Ceildo: edosardís deque oMadune ufou/ 
pera inimizar Tribuli Pandar com os 
Portuguezes : e de como depois fe concer^ 
tou com elies pera o defiruirem , como 
fizeram. 152. 

CAP. V. De como bum Capitao Pegú\ cha-- 
mado Ximidifotao y matou ElRey Brama » 

t 



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DOS Capítulos. 

e fe apoderou do Rey no , e mandou ma-^ 
tar Dhgo Soares de Mello : e de outras 
multas coufas que fuccedéram. 136. 

CAP. VI. De como Mandaragrl , cunbado 
deElRey Bramd^ velo com grandes exer^ 
citos fobre Pegü , e tornou a conquífiar 
aquelle Reyno : e das fafanbas que os 
Fortuguezes fi%eram emdefensao dafor» 
íaleza , onde a Ralnba ejiava : e do que 
fez o Mandaragrl Rey de Pegü y quan^ 
do os velo foccorrer. 148. 

CAP. VIL Da Armada que efle anno de 
flncoenta e finco partió do Reyno , de que 
era Capltdo mor D. Leonardo de Soufa r 
e da perdí fao da ndo Algaravla nova : e 
de como o Governador Franclfco Barre* 
to mandou D. Alvaro da Slhelra por 
Capltao mar ao Malavar : e do que acón* 
teceo a Mealecan até Bllgao : e dos tror 
tos que o Idalcan teve com Anel Maluco 
fobre Iho entregar. ijf. 

CAP. VIII. De como Rama Rayo Rey de 
Blfnagi mandou feu Irmao Vtngata Rayo 
em favor do Idalcan : e de como os Capí-- 
toes da conjurando foram desbaratados , 
e o Mealecan com Anel Maluco fugíram 
pera o Izamaluco , e do que Id Ibes fue* 
cedeo. 167^. 

CAP. IX. Do que aconteceo aD.Antao de 
Noroftba no Coman : e dos recontros que 

te^^ 



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Índice 

teve com alguns Capitaes do Idalcan : e 
da grande vitaría que alcanfou do Xa-- 
coH. 167. 

CAP. X, De como o Governador Francijco 
Barreto teve novas do desbarato deMea^ 
lecanx e da vinda de alguns Capitaes ao 
Idalcan : e de como mandou recolher D. 
Femando de Monroy , e D. Antao de No^ 
ronba. 175^. 

CAP. XL De como o Governador FranciJ^ 
co Barreto defpachou as naos do Reynoi 
e do que aconteceo a D. Alvaro da SiU 

* veira no Malavar : e daspazes que o Qa^ 
morim pedio ^ e fe Ibe concedéram. 180. 

L I V R o III. 

CAP. I. Da embaixada que oGoverna^ 
dor Francifco Barreto mandou a Cam- 
, baya por Trijlao de Paiva , efobre que : 
e dos navios que mandou a recolber o Pa- 
dre Mejlre Gonzalo , que ejiava na Jlbaf 
Jia : e da Armada que defpedio pera a 
EJlreito , de que foi por Capitdo mor D. 
Alvaro da Silveira : e das coufas que Mi- 
guel Rodrigues , Fiosfecos , fe& pela cop- 
ta do Idalcan. i8¿. 

CAP. II. Do que aconteceo a Trijlao de Pai- 
va em Camaya : e de como os queficd^ 

ran 



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DOS Capítulos. 

' ram nos baixos de Pero dos Banbos aca^ 
báram a naveta , e nella vieram a C(h 
cbim. 192. 

CAP. III. Do que Miguel Rodrigues Cou^ 
tinbo fez pela cojla do Idalcan : e do que 
aconteceo a Joao Peixoto na jornada do 
FJireiío : e de como deo em Suaquem , e 
matou aquelle Rey , e cathou alguma gen-' 
te , e roubou os Pagos. 198. 

CAP. IV. Do que fuccedeo a D. Alvaro da 
Silveira na viagem : e das defavengas 
que teve com Bernaldim de Souja , Capi^ 

• tao da fortaleza de Ormuz : e do que 
Ibe aconteceo no EJireito deBacord. 203. 

CAP. V. Das coufas que ejie anno aconte^ 
ctram em Ceilao : e da guerra que fe pro» 
feguio contra oTribuli Pandar: e de cth 
mo elle fugio pera Jafanapatao ^ onde fot 
morto : e da guerra que o Madune tornou 
a fazer a LlRey da Cota. 208. 

CAP, VI. Da Armada queejle anno de fin» 
coenta e feis partió do Reyno , de que 
era Capitao mor D. Joáo- de Menezes 
de Siqueira : e do que Ihe fuccedeo na via» 

* gem : e do em que o Governador Fráncij» 
' có Barreta proveo fobre as coufas do Pa» 

triarca : e da viagem quefizeram as ndos 

- até o Reyf^o. 213. 

CAP. Vil. De como o Patriarca y e oEnu 

^ ¡bailador 4o^ Prejie tratdram com ó G^ 

ver» 



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Índice 

verftadar Francijco Barreto fohrefua ida z 
e dos entretitnentos , e efcufas de que 
ufou , e do confelbo que fobre ijjb tomou , 
em que fe affentou/ojje oBiJpo D. André 
de Oviedo : e de como mandou d liba de S. 
Lourengo Balt bazar Lobo de Soufa. 2 20. 

CAP. VIII. Da Armada que oGwemador 
Francifco Barreta mandou ao Malavar : 
e de como elle partió para o Norte , e 
D. Diogo de Maronba fe foi ver com el^ 
le a Bafaim. 227. 

CAP. IX. De hum Emhaixador de ElRey 
do Cinde , que veio ao Governador Fran^- 
cifco Barreto : e do tempo , em que os Ma^ 
gores conquijldram aquelleReyno damdo 
dos antigos Gentíos. 23o. 

CAP. X. Dafamofa liba deSalfete deBa- 
faim : e dofeu ejpantofo Pagode , cbama^- 
do do Cañar i i e do grande Tabyrintbo que 
a liba tem. 236. 

CAP. XI. Do muito notavel , e efpantofi 
Pagode do Elefante. 25:0. 

CAP. XIL De como o Governador Francif 
co Barreto bouve ds maos as fortalezas 
de Affari , e Manord : e de como Antonio 
Moniz Barreto foi tomar pojje dellas por 
mandado do Governador: e de outras cou^ 
fas , em que proveo até fe partir pera 
Goa. 261. 

iCAP. XIII. Do que aconteceo na jornada 

ai 



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DOS Caíitulos. 

a Vero Jarreto : e do engaño que ctm eU 
U ufou o Principe do Cinde : e de huma 
faganbofa ferpente , que bum foldado cha'- 
mado Gafpar de Montar roio matou. 27 a 
CAP. XIV. De como Vero Barreto Roiim 
dejiruio a Cidade de Tatd , e todas as 
Villas , e Lugares de huma , e outra han-^ 
da do Rio : e donde nafceo o erro aos Geo^ 
grafos modernos cbamarem d Provincia 
do Cinde Dulcinda. ^'jd. 

L I V R o IV. 

CAP. I. Do que aconteceo dndoS. Paulo 
até Cócbim : e de como Pero Barreto 
Rolim dejiruio a Cidade de DabuL aSf. 

CAP. II. De como o Gobernador Francijco 
Barreto pajfou d térra firme em bufia dos 
CapitSes do Idalxd : e da batalba que 
Ibes deo , em que os desharatou : e de ou^ 
tras coufas. 290. 

CAP. III. De algumas coufas , em que o 
Governador Francifio Barreto proveo : e 
de alguns Capitaes que defpachou pers 
fóra : e de huma grande Vitoria que Joaa 
Peixoto houve em Bardes de bum Portu^ 
guez arrenegado. 25>8. 

CAP, IV. Do que aconteceo na viagem a 
Mgnoel Travajfos , até lanzar o Bifpo no 

^or^ 



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Índice 

Parto de Arquicó: e do que fuccedeo ao 
Bijpo até Barod. 304. 

CAP. V. Do que fuccedeo a Balt bazar Lo» 
bo de Soufa na viagem até d liba de S. 
Lourettfo : e da dejcripgao dejia liba , é 
das de Comoró: e qu al Jeja a Mimtbias 
de V t alome u. 310. 

CAP. VI. Do que aconteceo ao Bifpo Dé 
André de Ouviedo até cbegar a fe ver 
com o Emperador da Etbiopia : e do que 
com elle paffhu. 3 1 9. 

CAP.^VIL De como 2X Duarte Defa Ca- 
pí tao de Maluco prendeo ElRey de Ter-- 
nate em buma afperijjima prizao : e, das 
grandes guerras que por iffo fe levanta» 
ram em todas aquellas libas contra os nof 
fes Portuguezes. 326. 

CAP. VIII. Da differen(a que ha antre 
Perfas e Árabes fobre a oPtnido de fuas 
feitas : e de como o Rey aa Perfia man^ 
dou aos Keys do Decan o titulo de Xas , 
com condifao quefeguijfemfuafeita. 3 34« 

CAP. IX- De buma relafao de N izamos 
xd ^e de fuá mor te : e de como que Ibe 
fuccedeo no Reyno fe ajuntou com o Cu» 
tubixd contra o Idakan , e largou o Ini^ 
í&amoxd ao Mea/ecau ^ que tinba pre- 
ño. 33?» 



LI- 



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DOS Capítulos. 

L I V R o V. 

CAP. I. Das coufas , que acontecéram 
na guerra de Goa : e de bum ajfal-- 
to que os nojfos deram na outra banda , 
em que bouve algum defarranjo : e de co^ 
mo os inimigos entrar am a liba de Jodo 
Lopes. 347. 

CAP. 11. Da Armada que ejle anno defin- 
coenta e fete partió do Reyno , de que 
era Capitao jfidr D. Luiz remandes de 
Vafconcellos : e de buma breve reía (do 
da devogdo , que os mareantes tem ao 
Bemaventurado S, Fr. Pero Gonfalves , a 
que elles cbamam o Corpo Sant9. ^^2. 

CAP. III. Das coufas que fuccedéram em 
todo ejle anno em Maluco : e de como os 
moradores prendéram D. Duarte De (a ^ 
e foltdram aquelle Rey. 35-9. 

CAP. IV. Da embaixada que o Governa' 
dor Francifco Barreto mandou a ElRey 
de Cbauly efobreque: e de como os Mot^ 
ros entrar am na liba de Cbordo^ donde 
foram lancados com grande damnofeu: e 
de como o dovernador mandou metter neU 
la D. Francifco Mafcarenbas. 3 69, 

CAP, V. De como o Governador Francijco 
Barreto deftacbou as ndos pera o Key^ 
no^ e os mouros come¡dram a fallar em 



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Índice dos Capítulos. 

pazeSy que fe Ihes conceder am: e de C(h 
mo o Inizamoxd prendeo o Embaixadar 
que o Governador Ihe mandou : e do exer^ 
cito que logo defpedio pera Ibefazer hu^ 
tna fortaleza no Morro : e de como Al* 
varo Paes de Sotomaior partió pera o 
EjlreitOy eficou em Cbaul por caufa da 
guerra. -¡yó. 

CAP. VI. DaJrmada com que oGoverna- 
dor Francijco Barreto partió pera o Nor^ 
te y e chegou a Cbaul: e das pazes que 
Ibe 05 intmigos mandar ¿tm commetter ^ e 
do que nijfo pajfou. 384. 

CAP. VIL De como o Governador FranciJ^ 
co Barreto mandou defapojjar D. "^oao 
de Ataide da Capitanía de Ormuz , pera 
ondefoi D. Antdo de Noronha: e do que 
mais fez até fe partir pera Goa. 391. 

CAP. VIH. De como o Governador Francif 
co Barreto fe partió pera Goa : e da gran-' 
de Armada , e apercebimentos que fesi 

. pera ir aoAcbem. j^f. 



DE- 



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DECADA SÉTIMA. 
L I V R O L 

Da Hifioria da India. 



CAPITULO I. 

De como ElRey D. Joao fupplicou ao Pa-» 
pa proveffe o Imperio da Majjia de Va-* 
triarca : e de huma breve relafáo d^ 
Patriarca D.JoáoBermudeSyque Id fot 
em tempo do Gauernador ,D. ÉJievao da 
Gama: e de outras muitas coufas. 




Epois que ElRey D.Joáo def-. 
pedio a Armada pera a India» 
efte anno de I5'5'3 > ^® ^^^ ^^^ 
porCapitáo mórFernSo de Air 
vares Cabral) logo determinou, 
de prover em duas coufas: huma, mandar 
fucceffor ao Vifo-Rey D. AíFonfo de Nq- 
ronha ; e a óutra , fupplicar ao Papa Ihe cón-^ 
cedefle Patriarca , e Bifpos pera o Impedía 
Qouto.Tm.W.?Ji. A da 



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a ASIA DE DiOGO DE COUTO 

da Abaflia , pela muita inftancia com que 
aquelles Imperadores Iho tinham mandado 
pedir ; porque defejavam de dar obediencia 
á Santa Sé Apoftolica , e renunciar os Patri- 
arcas hereges , que de Alexandriá Ihes man- 
davam , por quem baria tantas centenas de 
annos fe governavam. Eera efte defejo tao 
amigo, que já o Imperador Zeriaco trefavó 
de Claudio , que ao prefente reinava , por 
morte do Patriarca que os regia , nao quiz 
acceitar mais outro de Alexandriá , e dizia 
% que antes perderia todos os feus Reynos ^ 
I» que confentir mais Uie vieíTem Patriarcas 
n hereges;» e aílim dez annos , que depois 
viveo , Ihe nao entrou algum em feus Rey- 
nos. £ depois feu íiiho Alexandre efteve na 
inefma opiniáo treze annos , até que o por 
vo fe Ihe queixou , por Ihe irem faltando 
Sacerdotes pera Ihe adminiftrarem os Sacra- 
mentos ; pelo que Ihe foi neceíTario mandar 
a Alexandriá pedir Patriarca , donde Ihe man- 
dáram dous ; hum delles fe chamava Mar- 
cos , e o outro Jacob, que Ihehavia defuc- 
ceden E aíliin foratn ambos continuando 
muitos annos , até falecer o Jacob , e ficar 
é Marcos fó adminiftrando aquelle Imperio , 
(que he o que D. Rodrigo de Lima , que 
H foi por Embaixador no anno de vinte e 
fcis , ainda achou vivo , e confeíFou ao Pa- 
dre Francifco Alvares ^ que foi neíla jorna-» 

da^ 



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Dec. vil Liv. L Cap. L ^ 

da I fegundo elle ó refere no livro que del« 
la compoz , que era de cento e vinte annos ^ 
pOFqae quando fora áquelle Imperio íizera 
fetenta, e que havia fincoenta que o admi- 
nKlra?a , a fóra alguns que depois vi veo. ) 
Eüe quando U vio D.Rodrigo, ehuinRe- 
ligiofo j que feguia a Igreja Latina Roma-* 
na, (fegundo conta a mefmo Padre Fran- 
cifco Alvares,) da va ^ra^as a Déos, e di« 
zia, que fechegava otempo de^ie cumprir 
huma- profecía, que havia nos livrosAbezins, 
que dizia , » que aquelle Imperio • naa^ xerit 
% inais de cení Patriarcas próvidos por Ale«* 
3» xandria , e que após elles viriam ontros pro- 
» vidos pelo Summo Pontiiice de Rom^ , e 
n que elle era o derradeiro dos cento. » No 
que fe enganou , porque até hoje perfeve- 
ram Patriarcas hereges , podo que alguns an« 
nos depois Ihe foi hum Cathoíico , proví-i 
do peló Papa Paulo III, que foi o D.Joáo 
Bermtides , que D. Chriftováo da Gama le- 
voü , como fica dito no Cap. V. do VIL 
Liv. da quinta Decada. E porque defte Pa-.* 
triarca nao fallamos mais, depois que Dom 
Chriftováo da Gama foi lá morto , nem ti- 
cemos táo inteira informajáo de fuas cóu- 
fas como agora , que no-la mandáram da 
Ethlopia , o farcmos aqui brevemente , e o 
daremos melhor a conhecer. 

Eíie homem eraPQrtugues^, c tinha ida 
A ii a 



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4 ASIA DE DiOGO DÉ COVTO 

a AbaíHa com D, Rodrigo de Lima , quari'* 
doláfoi porEmbaixador.emtcropo doGo^ 
veroador Diego Lopes de Siqueíra , e levoo 
comfigo hum feu fobrioho , cJiamado Dom 
Garda de Noronha , fegundo hum Tratado ^ 
que elle mefnio fez dascoufas que Iheüúc* 
cedéram no.teuipo que eñeve na AbaíSa , fen- 
do Patriarca. E depois de D. Rodrigo de 
Lima de lá vir ^ faleceo caquelle Imperio o 
Patriarca Marcos , de que atrás fallamos , 
por cuja morte o D. Joáo Bermudes perfua* 
4io ao. Imperador da AbaíHa , que mandaif- 
ie dar obediencia i Igreja Romana , e pe- 
dir ao Sucimo Pontífice Patriarca Catholi- 
co ; e como elle Ihe eftava aíFeÍ9oado , def- 
pedio-o pera Roma com cartas aoPapa, em 
que Ihe pedio Iho mandaíTe a elle por Pa« 
triarca. E indo neíla jornada , que foi o 
anno de trinta e lineo, ou trinta e feis, foi 
cativo de Turcos , e levado ao Cairo , don* 
de por fuá induíbia fahio , e foi ter a Ro- 
ma, e o.fanto Padre o ouvio muito bem, 
e leo as cartas do Imperador Claudio. £ fa« 
bendo o rifco em que aquella Chriñandade 
ficava , logo fagrou o D. Joáo Bermudes em 
Patriarca , e o enviou com cartas a Portu- 
gal pera EIRey D. Joao o III. , em que Ihe 
dava conta daquelle negocio , e Ihe pedia 
» quizeíTe !(bccorrer aqqelle Imperador , poig 
}i nénhum o^ Priocipes Chrlítáos tinha me« 

» Ihor 



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Dec. vil Lív. i. Cap. I. y 

nlhor apparelho pera iíTo. » Eeftaíbi acali- 
fa , por que ElRey o defpedio em companhia 
lio Vifo*Rey D. Garda de Noronha , a quem 
^eo por regimentó mandafle huma boa Ar- 
mada defoccorro áquelle Imperador^ e nel- 
ia Ihe enviaíle o Patriarca. E como o Vifo- 
Rey D. Garcia de Noronha achou a forta« 
]eza de Dio dé cerco , em cujo foccorro fe 
occupou todo aqnelle verao , e no feguinte 
faleceo , nao teve tempo pera o mandar. E 
o Governador D. EftevSo da Gama , que Ihe 
fuccedeoy achando eftas inftruc^Óes nos pa- 
péis de D. Garcia de Noronha , quiz fazer 
aquella jornada , que na quinta Decada con'^ 
tamos, aíCm pera eñe eíFeito, deque entáo 
sao tinhamos táo perfeita informado, co» 
mo pera o das gales. Em fím , morto Dom 
Chriftováo da Gama , ficou o Patriarca na^ 
quelle Reyno até que o Imperador teve a* 
quella batalha com o Grada Amet , que cor«* 
eou a cabera a D.Chridovao dáGama, em 
que o desbaratoü , e matou com a ajuda dos 
Portuguezes , como na mefma quinta Deca- 
da fe verá nó IV. Cap. do IX. Liv. , e o Im- 
perador tornou a cobrar feu Reyno , de que 
andava quaíl esbulhado. 

E cofQO todas aquellas coufas , Embai- 
xadas , e peti^óes que fez ao Papa^ foram 
feitas por neceflidade , vendo«fe agora po- 
derofo ; e eftaTa entregue de todo ás maldí* 

tas. 



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6 ASIA DE DiOQO DE COÜTO 

tus y 6 excommungadas feicas dos hereHarr 
cas Eutkhiano , e Diofcoro Alexandrino , 
e tinha mandado trazer de Alexandria Patria 
«rea hcrege , fendo aioda vivo D. Chrifto- 
^áo da Gama ; e porque o elle nSo foubeí^ 
fe , íinha-o pollo no Rey no de Ambea , met- 
tido em hum Mofieiro y que eftava ú'utn graa- 
de lago detrinta leguas, onde omandoule*- 
var aíSm» depois que fe vio defaflbmbrado 
¡dos Mouros. E como aquelle Patriarca era 
máo, cherege, vendo- fe favorecido do Im- 
perador y logo come^ou a tratar maldades 
contra oD.JoáoBermudes, pera o défacre^ 
ditar y e fazer aborrecido a todos. E. pera 
ifto fallou fecretamente com hons Frades he* 
reges, e os índuzio a que lan9aírem denoi*** 
te em certa parte da cafa de D. JoáoBer» 
mudes , hum vafo de ouro da Igreja ; e 
achando«o ao outro día menos , come^áram 
a fazer grandes eftrondos publicamente, á\* 
2endo que D. Joáo Bermudes o tomara : e 
íizeram aínda mais , que Ihe foram dar de 
fupito em cafa, acháram o vafo na parte, 
onde o elles tinham pofio , do que fe elle 
reíentio , e enfadou muito por entender a 
perverfidade de táomá gente» quefoi acam 
la de nio querer eOar alli mais , nemí ücar 
naquella terra^ E indo*fe piedra Tigare , foi 
por todo aquellc caminho maldi^oando- os 
lugares , e povoa^óes por onde paíTava , q 

d¡- 



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Dec vil Liv. L C aK L 7 

dizia algumas vezes aos que o acoropanhü» 
vam , aue via humas formigas negras des- 
truir toaa aquella térra , como de feko acón- 
teceo ; porque dahi a muito pouco tempe 
«ncráram por ella huns Cafres muito barba- 
ros, chamados os Galas ^ e a deftruíram de 
todo , como adiante fe verá nefta Decada. 
Chegado oD.JoáoBermudes aBaroá » dek 
xou-fe allí íicar alguns annos efpenmdo en> 
4>arca96es , em que fe pudeíTe paflar á India , 
até que ao porto deDaleca foram ter huns 
navios noflbs , de cujos Capitaes , ou em 
que tempo nos nSo fouberam dar certa in- 
forma^ao, e nelles fe embarcou pem aln^ 
dia , e depois pera o Reyno. E cm Lisboa 
fe apofentou em S. SebaQiáo da Pedreira^ 
fóra da Cídade , onde o nos vimos; e allí 
viveo alguns annos , e ainda em tempo de 
El Rey D. Sebaft^ era vivo , e depois mor*- 
reo cóm moílrasr de muito grande. Carbóli- 
co, e ainda de fantidade. 

E todavía defejando agora ElRey Dom 
Jríío o IIL de tornar a accender aquella 
Chriftandade, pera que de todo fe nao apa- 
gafle, fupplicou ao Papa Julio IIL, que ao 
prefente governava a Igreja de Déos , mai> 
daífe hum Patriarca , e dous Bifpos áquelle 
Imperio , por cartas que tínha de novo dar 
quelle Imperador , em que Ihe figni&ava a 
grande, vontade ^ e defgo com que quería 

dar 



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8 ASIA DE DiOGO DE CotJTO 

dar obediencia á Santa Igreja Romana ; por« 
que tornavatn a apenar com elle os traba- 
Ihos, e gaerras , que o faziam bufcar efte 
foccorro , e remedio. Daqui tomou ElRey 
D. Joáo motivo pera efcrevcr ao feu Em- 
baixador que tinha em Roma 3 que inftafle 
muito fobre aquel le negocio , e pediíle ao 
-Padre Ignacio deLoyola, vifta aimportan- 
cia delle, Ihe défle alguns Religiofos don- 
tos , e Virtuofos pera mandar áquelle Im- 
perio; 

Vendo o Summo Ponti6ce aquelle tao 
fanto zclo de ElRey D. Joao , quillo fatis- 
fazer ; e tratando com o Padre Ignacio de 
Loyola, Fundador da Companhia dejefus, 
fobre aquella materia , elle Ihe oíFereceo al- 
guns VarÓes efcolhidos pera as dignidades 
que pedia. EnefteMar^o de íincoenta eunu- 
co andando o Papa Julio III. occupado nefa- 
ta obra , veio a falecer , e^ fuccedeo-lhe ni 
Cadeira de S. Pedro Marcello II. , que tam- 
bem faleceo no primeiro dia de Maio fe* 
guinte. E por feu falecimento foi eleito Pau- 
lo IV. , que approvando . por boa a ten^ao 
de EIRjey D. Joáo , pedio ao Padre Igna- 
cio lííe déífe os Religiofos fobre que já fe 
fallava , e elle Ihe apceíentóu pera. Patriar- 
ca o Padre Joáo Nunes Barreto , Portüguez , 
que já tinha andado em África , exercitan- 
do 9s obras de mifcricordia no r^ fgate dos 



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Dec* VIL Liv. I. Cap. I. 9 

cativos , que era irmáo do Padre Ignacio Nu- 
nes , que eftava por Reitor da Companhia 
da India , ambos VarÓes de vida exemplar , 
e de muitas letras , e virtude. £) pera Bifpos 
os Padres Beichior Carneiro , Portuguez , e 
André de Oviedo , que entáo eftava por Rei- 
tor da Companhia em Ñapóles. E efte fa- 
grou logo com titulo deBifpo Hierapolita- 
no , e ao Beichior Carneiro paíTou letras pe- 
ra o fagrarem na India , e Ihe deo titulo de 
Bifpo Niceno ; e a ambos paíTou letras , em 
que os fazia, Coadjutores, e futuros fuccef- 
lores do Patriarca. Eftes Varóes chegáram 
ao Reyno acompanhados de outros Padres 
doutos , e virtuofos » que o Padre Ignacio 
elegeo pera efta Mifsao, e foi já a tempo^ 
que eftavam as naos de verga d'alto pera 
partirem pera a India. E porque nab era 
poflível embarcar-fe o Patriarca táo dcpref* 
fa , ordenáram os Prelados da Companhia , 
que foflem algiins Religiofos naquella Ar- 
mada pera paSarem diante a Abaília a fa^ 
zerem a faber áquelle Imperador da elei^o 
do Patriarca, e Bifpos, e de.como ficfi^Eam 
jio Rey no pera fepartirem ñas naos feguii»- 
tes ; epera faberem o animo cdm que aqueir 
le Imperador eftava , porquje quando o Fa«- 
triarcachegaíTe, foubeífe oque havia deía- 
zer. 

£ parece. certo que tlnha Déos noíToSé- 

nhor 



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lO ASIA DE DiOGO DE COUTO 

nhor pollos os olhos ñas coufas do Orien* 
te ; porque no mefmo tempo em que o Sutn- 
mo Pontífice eftava occupado nefta obra do 
Patriarca da Abaífia , chegáram aquella Ci- 
dade Siináo Sulaca , Bífpo de Caerimi , Ci« 
dade cabera da grao Mefopotamia ; e Mar 
£lias, Biípo de Ninive, e fe lan^áram aos 
pés do Vigario de Chrifto , e Ihe deram a 
obediencia de Catholicos , por ñ , e por co- 
dos os feus fubditos ; porque até entáo fe* 
guíram os erros do faifo Neftor , cuja cabe- 
^ era o Patriarca de Antioquia , que o Sum* 
IDO Pontífice recebeo com muita alegría, e' 
contentaniento ; e fagrou ao Simáo Sulaca 
cm Patriarca de Mufal ; e ao Mar Elias em 
^ifpo de outro lugar feu fuíFraganeo. E el- 
los deram a obediencia de Catholicos poríl^ 
f pelos mais Bifpos de fuas jurdi^oes , e os 
deípedio com grandes Breves Ápoftolicos. 
£ no mefmo tempo fagrou tambem a Mar 
Jofeph em Arcébifpo de Ninive, pera ir ás 
térras do Malavar inftruir aquelies Chrilláos 
do Apoftolo S^Thomé por ferem governa- 
lios por Mar Abraháo , Arccbifpo Neftoria- 
nó^ como todos os atrás foram , que eram 
próvidos pelos Patriarcas de Babylonia , a 
<]áem tambem paflba Breves Apodolicos ; e 
cortil elle mandoü o Bifpo D. Ambroíio 
Monte Celi , feu Penitenciario , de cafta Ita^ 
•liánó, Frade Dominico^ pera ir emcompa- 

nhia 



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Dec. vil Liv. T. Cap. T. ti 

iiliia do Patriarca de Mufal , e dahi paflar 
aos Georgianos a ver fe os podía reduzir á 
obediencia da Igreja Romana. 

r^ Chegados eíles Patriarcas , e Bífpos a 
Mufal, tomou o Patriarca pofle, e ajuntoá 
08 BifpQs fuilraganeos , e deram obediencia 
aoPapa. Oqueíabido pelo Patriarca deAn- 
noquia, fepaflbu a Babylonia y e alli fe fez 
cabera dos hereges Neílorianos, ficando át 
<]uelle Patriarcado dividido em dous ; mas 
o Cathoiico durou pouco , porque o mata* 
ram os Turcos; e prefumio-fe que. por or* 
dem do Patriarca de Babylonia. E o Arce- 
bífpo de Ninive com o Bifpo D. Ambro^ 
PmO y que aínda eftavam com elle , tiv.eram 
tempo pera fugir aos hereges , e foram ter 
stOnxmZy edalli á india efte veráo em que 
andamos ; a por ordem do Govemador Fcaa* 
cifco Barrero paíTáram á Serra ^ elle , e o 
Mar Jofeph , e tomou poíFe daquelle Arce-» 
bifpado y e depoz o Mar Abrahao com kn^ 
timento dos Chriftáos que o acceitáram. E 
o D. Ambrofio depois de o deixar de pot» 
fe daquella Chriflandade , fe tornou pera 
Goa , e em S. Domingos leo a fagrada 
Theologia aos Religiofos daquella Ordem. 
E depois indo*fe embarcar a Cochim pera 
oReyno, faleceo naquella Cidade , ejaz en- 
terrado na Cafa de S. Domingos. Foi efte 
homem douto ñas Letras Divinas , e huma- 

- ' ^ ñas , 



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11 ASIA'Dfi Dioao £>e Coüto 

^s , grande Mathematico , e Geografa i 
niuito vifto ñas letras Gregas , e Caldeas* E 
antre os papéis que Ihe ncáram fe acháraifi 
algamas íembran^as deftas coufas , que nos 
lium Religiofo da Ordem de S. Domingos 
deo , de que nos aproveitámos pera efias iti^ 
ibrma^óes. 

E já que eftamos com efta Chriftandá- 
de y e ¿US Bifpos ñas maos , parece que nSo 
{eri defpropolito fazermos hum breve dií^ 
curfo de todas fuas coufas até darem obe-» 
diencia á fanta Sé Apoftolica , podo que o 
niais proprio lugar dellas he a onzena D^ 
cada , pera onde guardamos a rela^áo de 
tudo. E por ido nao faremos aqui mais , 
que tocar de paflagem o fubftánciaí ; por* 
que íenáo chegarmos áquelle tempo ou pe- 
la muita idade , ou pelo pouca gofto , da 
parte dos I^omens , e feus efquecimentos ^ 
com que procede^mos nefte negocio , ao m&> 
nos ficara já aquí efta lembran^a. 



CA- 



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Decada VIL Liv. !• 13 

C A P I T U L Q IL 

De btíma breve reía cao da Cbrifiandade das 
térras do Malaxar , e de feus Bifpos : e 
de como o uírcehijpo de Goa , e Primasi 
da India D. Fr. Aleixo de MenezeSj Re^ 
ligio fo da Ordem de Santo Agoftinho , por 
ordem do Papa Clemente J^IL governou 
aquella Igreja , eficoufuffraganea ao Jír^ 
cebifpado de Goa por marte do Arcebifpo^ 
Mar Abrabao , e depois osfoi vijitar em 

. pejfoa : e dos grandes trab albos que pafi 
Jou até a reduzir ao gremio da Igreja 
Catbolica : e do Synodo Diocefano que or^ 
dfnou , em aue tirou infinitos erros , e 
abusSes : e de outras coufas. 

N.O primeiro Cap., do X. Liv. da nofla 
quarta Decada , que já anda impreíTa , 
damos larga conta , e rela^áo das parces , por 
onde o Bemaventurado Apoflolo S. Thomé 
andou pregando a nova Lei de feu Meftre 
Chrifto JeüiS noflb Redemptor ; e no fim det 
ta fetinia fe verá fuá morte y e milagres. E 
neíle Capitulo diremos brevemente de como 
fe governou até agora aquella Igreja , funda- 
da por elle nos Reynos do Malavar , aíSm 
no efpiritual , como no temporal. Paffado o 
Santo Apollólo da IlhaSacotorá (como fe 
verá em fuá lenda ) g eílas partes da India , 

mi- 



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14 ASIA DE DiOGO DE COUTO 

milagrofamente veio aportar á cofia do Ma<» 
lavar , e nao fe fabe em que porto ; mas' 
devia de fer em hum dos Rejrnos de Co* 
chim , porque logo por elle come^ou a fe- 
xnear a femente da Lei Evangélica , ou íbf- 
fe no Reyno de Cranganor , ou no de Cou- 
láó , em que tinfaa aínda hoje Igrejas fuas , 
yai pouco niíTo ; mas por ambos eftes Rey- 
Bos andou convertendo multas almas á Lei 
de Chrifto y e nelles Ihe acudíram , e o fe- 
guíram homens virtuofos , que elle acceitou 
por difcipulos , e inftruio muí bem na Lei 
do Tanto Evangelhp. E depois de ver o mul- 
to fruito que tinha feito por aquellas par- 
tes y tratando de paíTar a outros Reynos , fa<^ 
grou os difcipulos que Ihe meihor parece- 
ram em Bifpos , e os deixou governando 
aquella Chriftandade , e elle fe paifou pera as 
partes de Tartaria, China , e outras , co- 
mo temos dito no Cap. L do Liv. X. da 
noffa quarta Decada , e por ellas andou con- 
vertendo grande número de infléis , e idó- 
latras, até fe paífar a Meliapor, onde foí 
morto y e onde cada dia rcfplandece com 
muitos milagres. 

Os Bifpos que deixou naqucllas partes 
do. Malavar governando aquella Chriítanda* 
de , fundáram Igrejas na Cidade de Cran* 
ganor , e na de Couláo y que ainda hoje fe 
vem nos mefmos lugares ^ e confervam em 

mui- 



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Dec vil Liv. i. Cap. II. ijr 

multas coufas fuá memoria, e antiguidade , 
e antre ellas em huns padrees , e em lami« 
nas de metal , de térras , e rendas , que a^ 
quelles Reys concedéram pera a fabrica da« 
quelles Templos , que nos ainda achámos na 
Feitoria de Cochim , que andáram des do 
principio daquella fortaleza , por entrega da 
cafa, de Feitor a Feitor , ha bem poucos an^^ 
nos. £ querendo cu faber dellas , pera por 
obriga^o doofikio as recolhermos na Tor- 
re do Tombo , como coufa táo antiga, e 
tanto pera fe guardar, e honrar, ja nos nao 
fouberam dar razáo dellas , nem os Feito- 
res que de lá vem a fabem dar. Em fim , 
paíTados muitos tempos depois da morte do 
Bemaventurado Apoílolo S. Thomé , fuften^ 
tando-íe' aquella Chriílahdade na Fé , e dou« 
trina que Ihe elle eníinou , fazendo o tem-* 
po mudanza naquelles Reynos , como o tem 
feito em todas as Monarquías do Mundo, 
até a ellas irem os Mouros Arabios , fegui« 
dores da faifa doutrina , e }ei de Mafame* 
de , que ie apofentáram pelos pórtos marí<!- 
timos de todo aqueile Malavar , como aiiv> 
da hoje eílam , parece que avexados delles 
osChrifiáos, íe recolhéram ásferras, e ma- 
tos daquelles Reynos , onde fundáram fua^ 
povoa^Óes , e vivéram naquella primeira dou* 
trina até Ihe faltarem os Bifpos , e Sacerdo- 
tes della j que fe mandáram foccorrer ao Pa» 

tri- 



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l6 ASIA DE DiOGO DE COUTO 

tríarca de Babylbnia , que era cabera dos 
hercges Neftorianos , que os provéram de 
hum Arcebifpo Metropolitano , com titulo 
de Arcebifpo do Indo ; e de dous Bifpos 
fuíFraganeos , hum com titulo de Bifpo de 
Sacappa ^ e o outro de Macina , que nao 
fabemos hoje onde fejam , mais que achar-> 
xno-los alllm nomeados em fuas efcrituras; 
mas por conjeéluras íe prefume que fejam 
pera a parte do Catbayo / e China , por 
onde o gloriofo Santo andou fazendo gran- 
de conversáo. £ eftenome de Arcebifpo do 
Indo reteve até á morte de Mar Abrahao ^ 
que (como no primeiro Capitulo diñemos) 
foi fagrado em Roma , e viveo até os an- 
310S de 1^97* 9 íeguindo fempre os erros Ncl* 
torianos , de que toda aquella Chriítandade 
efiava infada ; porqué depois que foi go- 
vemada por Arcebifpos Armenios, que eram 
feguidores daquella faifa feita, perdéram o 
lume daFé, em que eflavam doutrinados pe- 
lo Santo Apollólo , e mifiuráram nella aquel- 
Íes falfos , e diabólicos erros Neftorianos \ 
em que aquelles Prelados os foram creando. 
Em íim , morto o Arcebifpo Mar Abra- 
hao » tendo*fe ja havia muitos annos extin- 
guidos os Bifpos fuíFraganeos de Sacappa , 
e de Macina , fendo Summo Ppntifice em 
Roma Clemente VIIL, avifado diflb, pafr 
íbu dous Breves Apoftolicos > huin feito a 

viu'- 



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Dec. VII. Liv. L Cap. It. 17 

vinte e hum de Janeiro de noventa e fete ^ 
e outro a vinte e fete do mefnio mez de no- 
venta e oito , ein que mandava ao Arcebif- 
po de Goa D. Fr. Aleixo de Menezes » qué 

> como Primaz da India Oriental mandaíTé 
3» tomar pofle daquella Igreja , e Arcebifpa- 
» do , e de toda aquella Chriftandade do 

> gloriófo Apoftolo S. Thomé ; e nao con- 

> lentiíTe mais entrar nella Bifpo , nem Pre- 

> lado Armenio , por fefem todos bereges ; 
» e que creaíTe qq dito Arcebifpado Gover- 
j» nador , e Vigario Apoftolico , pera o go- 
» vernar aílim no efpirltual , como no tem-* 
» poral , em quanto a Igreja Romana a nao 

> provía de Bifpos. » 

E porque fallamos no temporal , he de 
faber , que os Prelados deña Chriftandade 
sao Juizes no temporal dos Chriftáos feus 
fubditos ; o que parece foi tambem dado em 
privilegio ao Bemaventurado S, Thomé A* 
poílolo por aquelles antigos Reys Gemios , 
o que até hoje fe guarda infallivelmente , fem 
nunca fe quebrar. 

Por virtude deftes Breves , tratou logo 
o Arcebifpo D. Fr. Aleixo de Menezes com 
muita caridade do proveito efpiritual da« 
quelles próximos , e zelo do férvido de Déos 
noflb Senhor. E porque tambem Ihe ficava 
em obriga^ao como Primaz da India , por 
ítquella Igreja nao ter Cabido , a quem per-^ 
(kmt9.Tom.ir.P.L B ten- 



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l8 ASIA DK DiOGO DE COUTO 

(encefle o governo della , no teinpo da Sé 
vagante , e elle fer Metropolitano de todas 
as Igrejas da India , determinou mandar pro- 
ver niflb , como fez , pera tornar a fomet* 
ter y e fujeitar aquella Igreja i obediencia 
da Romana i o que tratáram as peíToas que 
a iflb enviou , por todos os modos que Jhe 
parecéram neceíTarios. Mas como todos a- 
quelles Sacerdotes Chriftáos eftavam entre* 
gues aquellas diabólicas , e abominaveis he- 
refias do Hereliarca Neílor , nao quizeram 
obedecer aos rogos y e perfuasóes que fobre 
iíTo Ihe fizeram ; do que o Arcebifpo Dom 
Fr. Aleixo de Menezes fentio graviílima dor , 
e grande dcfconfolacáo ; e todavia nao de* 
fiílio de obra táo íanta , e de táo grande 
ebrigagao fuá , antes por efpa^o de dous an- 
nos foi continuando por feus Miniftros na* 
quelle negocio , em que todos faziam pou- 
co , ou nenhum fruito , antes achavam a to* 
dos cada vez mais endurecidos. 

Pelo, que commovido o Arcebifpo de pic- 
dade de ver tantas mil almas , que do lem- 
po do Apoftolo S. Tbomé le conlervavam 
na Fé de noflb Senhor Jefas ChriQo , no meio 
de tama gentilidade , e efpalhadas por táo 
diverfas partes , rodeadas de tantos Ídolos , 
e pagodes , em qu^ o demonio era cada ho- 
ra tantas vezes venerado , e fujeitas fuas 
Igfejas> e Templo3 a tantos , e tao diver« 

Tos 



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Dec. vil Liv. L Cap. IL xp 

ios Reys rodos idólatras , fem poderetn ter 
communica^áo com outros Chriftáos até os 
Portuguezes entrarem com fuas Armadas nef- 
te Oriente , onde come^áram a povoar Cí- 
dades, e fundar fortalezas: E vendo quan- 
to efie negocio era de férvido deDcos, de- 
pois de Iho mandar encommendar por to» 
das as ReligiÓes , determinou de elle em peP 
foa viíltar aquella Chriftandade 9 pera yer fe 
com fuá preién^a os podia obrigar, mode- 
rar y e trazer á obediencia da Santa Igreja 
Romana » com táo grande zelo defta obra ^ 
que i he nao deixava tempo , nem lugar pe- 
ra ver os grandes traballios , rifcos , c pe- 
rigos a que com ella fe oiFerecia > e aíEm 
poz logo em eífeito fuá fanta determinado » 
pro vendo fuá Igreja de Governador , pera 
em fuá aufencia a iícar governando. E no 
principio do anno de noventa e nove fe em- 
barcou pera Cochim , acompanhado de mui- 
tos Clérigos , Conegos , e outros SacerdO'^* 
tes 9 e de criados , e doutra mais gente n^ 
ceíTaria ao férvido de fuá peífoa , e digni- 
4ade. Chegando aquella Cidade » fol mui oem 
xecebido; edepois que tomou fuas informa* 
^6es , fe partió pera as (erras j onde os Chri- 
fiaos viviam » acompanhado de muitos mo- 
radores daquella Cidade. 

Entrando o Arcebifpo D. Fr. Aleixo de 
^enezes naquella Cliriílandade y come^ou lo* 

B U go 



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80 ASIA DE DiOGO DE COUTO 

go a viíitar as Igrejas , e Prelados dellas, 
em quem achou muíto grandes diíHculda- 
des , pelas larguezas , e íimonias com que 
viviam, ofFerecendo-fe-lhe tantos trabalhos, 
e rífeos de fuá peiToa , que por multas ve- 
zes efte ve perdido; mas como a obra a que 
hia era táo fanta , favoreceo-o noífo Senhor 
nella de maneira , que fe livrou de todos 
com muita prudencia , e fofFrimento, e de 
muitas conjura^Óes que contra elle fizeram y 
levando avante feu jntento com as efperan- 
yas em Déos noflb Senhor , por cujo ref- 
peito eftava offerecido a tudo que Iheacon- 
tecefle , que houve por bem , e foi férvido , 

?elos merecimentos do feu Santo Apoftolo 
i'homé , de fahir , e levar ao cabo o que 
tanto delejava. E affim com muita clemen- 
cia , e bondade quietou todos os tumultos 
que contra elle fe levantáram ; e por fim de 
muitas admoefta^Óés , orajóes , e prega jóes , 
que fez por todas fuas Igrejas , os trouxe á 
luz da verdade , e á coníifsSo da fanta Fé 
Catholica , dando todos os Sacerdotes , co- 
mo cabecas , e todos os mais íubditos , obe- 
diencia a Santa Igreja Romana ; o que o Ar» 
cebifpo feftejou muito no íntimo de feu co- 
ra^áo com grandes alecrias , e louvores a 
Déos noíTo Senhor, cuja a obra era. 

Finalmente, vendo o Arcebifpo que ti- 
nha alcanzado oíkn tSodefejado defeustra^» 
» ^ ba- 



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Dec vil Liv. i. Cap. II. if 

balhos , tratou de ajuntar Synodo Diecefa- 
no emalguma parte mais accommodada, da«» 
quella Chriftandade ; aflim pera mais a con- 
nrmar na Fé Catholica , como pera nella 
plantar de novo os Tantos y e bons coftumes 
da Igreja Romana , e extirpar tantas abo* 
mina^óes , vicios , e heredas , como antre el- 
les havia , e pera reformayáo de fuá vida, 
ebons coftumes. EaíTentou que fefizefleer- 
te ajuntamento na Igreja de Diamper y o que 
fez logo a faber á Cidade de Cochim , e ao 
Capitáo della D. Antonio de Noronha , que 
aflentou com os Vereadores , e muitos mo- 
radores , de fe acharem prefentes a táo boa y 
e fanta obra , pera onde logo partíram com 
grande alvorogo , por verem recolher na ma- 
nada de Chriílo ovelhas táo bravias , e mon- 
tezinhas. 

Tanto que o Arcebifpo D. Fr. Aleixo 
de Menezes fe difpoz pera ido , fez logo 
chamamento de todos os Sacerdotes , e pef* 
foas principaes que havia naquelle Arcebif- 
padp , fazendo-lbes a faber por fuas cartas $ 
que havia de coroejar o Synodo a vinte dias 
de Junho , em que caliia a terceira Domin- 
ga depois da fefta do PentecoSe ; ao que to-* 
dos logo acudíram com grande alvorogo.* 
E no tempo determinado ie ajuntáram na- 
quelle lugar de Diamper as pelToas feguin-* 
les. . 

Pre- 



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li ASIA DE DiOGO DE COUTO 

Prelados , e Sacerdotes , cento ííncoentá 
€ tres , a fóra Diáconos , e Subdiaconos , c 
outros Procuradores dos póvos , com outras 
peflbas principaes , feiscentos e feffenta , a 
fóra todo o povo do lugar de Diamper, e 
doutros vizinhos , e finco Religiofos da Cora- 

})anhia , Theologos y e doutos na lingua Ma- 
avar, e dous delles na Caldea, e AíTyria, 
Fr. Braz de Santa María da Ordem de San- 
to Agoftinho , Theologo , e Confeffor do 
mefmo Arcebifpo , com outros Conegos da 
Sé de Goa , Clérigos feus criados , e outros 
Religiofos, que foram em companhia do mef- 
roo Arcebifpo , e o Capitáo de Cochim , Ci- 
dade, ealguns moradores. OSynodo feha- 
via de celebrar na Igreja da vocajáo de To- 
dos os Santos. Depois do Arcebifpo fazer 
fuas preparajóes , e admoeftajoes , e tomar 
fuas informa^oes , entrou na materia do Sy- 
liodo , na primeira ac^áo , que continha fin- 
co Decretos , todos de preparagóes , e ad- 
moefta^oes pera atalhar alguns inconvenien- 
tes ; e allim foi profeguindo ñas acjóes , de 
que daremos breve relafáo, 

A fegunda foi de dous Decretos , em que 
todos os prefentes fizeram profifsáo , e Pro- 
tefia^o da Santa Fé Catholica , tomando- 
Ihes o Arcebifpo a todos juramento daFé, 
dando a obediencia ao Papa em fuas máos. 
A terceira de vinte e dous Decretos. O 

pri- 



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Dec. vil Lív. i. Cap. IL aj 

prlraeiro continha quatorze Capitulds de cou- 
fas pertencentes á doutrina da Fé Caiholi- 
ca , e todos os mais pera deílerrar as abiH 
sóes, ritos Neftorianos , e máos coílumes da* 
quella Chríftandade , e pera emendar , é alim- 
par as Efcrituras , MiíTaes , e Breviarios , que 
andavam falfíficados com luuitos erfós , e he* 
reHas mifturadas , e as principaes verdades 
Catholicas tiradas; e fe deo ordeín pera íé 
rezar o OfEcio Divino a feu modo , con- 
formando-fe coín o Breviario Romano , é 
pera fe defterrarem dos feus livroe , é catá- 
logos muitos hereges, de quem elíes reza- 
vam por Santos , com outras coufas em gran- 
de bem daquella Chriñandade. 

A quarta acjáo continha vinte e tres De- 
cretos fobre os Sacramentos do Báutifmo , 
e Confirma^áo , de que até entáü nao havia 
ufo , e no Bautifmp andavam muho defvia- 
dos da Santa ígreja Catholica , e miftura« 
dos infinitos erros , herefias , e defordens ¡n- 
toleraveis, e abominares mui prejudiciaes , 
que tudo fe emendou , reformou , e alim- 
pou de infinitas herefias Neftorianás. 

A quinta ac5:áó continha nove Decretos 
de doutrina do fanto Sacramento da Euca- 
f iília , e do modo que fe haviá de dar aós 
Chrlftáós ; porque tudo anda va corrupto , e 
inficionado de rtiuiras herefias : com mais 
quince Decretos fobre o fanto Sacrificio di 

Mif. 



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^4 ASIA DE DiOGO DE CoüTO 

MiíTa y em que catholicamente fe tiráram 
mil abus5es , e erros , que naquella Igreja /e 
ufavam. 

A fexta ac$áo era de quinze Decretos , 
qué continham a doutrina do Sacramento da 
Penitencia , que tiráram , e degradáram in- 
finitos erros que nelle havia , e fe declarou » 
e eníinou o modo que fe havia de ter con<^ 
forme i Igreja CathoJica; porque fe nao ufava 
deíle Sacramento em quaíi todo eíle Arce- 
bífpado , antes era aborrecido nelle. Cora 
xnais tres Decretos da doutrina do Sacramen- 
to da Extrema-Unfáo , de que antre aquel- 
íes Chriftáos até entáo nao havia conheci* 
mentó , nem fe fabia o efFeito , e eíBcacia ^ 
e inftituijao delle , pela falta de Miniftros Ca- 
tholicos ; em que fe dava ordem de como 
fe haviam de ufar , e fe dava a conhecer fuá 
yirtude , e efFeitos. 

A fetima acjao era de vínte e tres De- 
cretos , que continham o Sacramento da Or- 
dem Sacerdotal , em que mui doutamente fe 
tiráram as abusoes , que naquelle Arcebiípa-r 
do fe ufavam , torpezas , e ritos dos feus Sa- 
cerdotes , e defterrárajtn as manifeflas fimo- 
nias , que antre todos corriam. E fe man- 
dón trasladar os Breviarios , e livros de re- 
zar ao modo da Igreja Catholica em lingua 
Su rana , e accrefcentar-lhe o Sjrmbolo de 
Santo Athanaíio^ e tirar delles infinitas be- 

re- 



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Dec VII. L IV. I. Cat. II¿ 2f 

leíids , que andavam em ufo ; e ordenou o 
Arcebifpo Freguezias com feus Parocos. E 
porque Ihe tirou as ílmonias , de que aquel- 
íes Sacerdotes fe fuílentavam ^ pedio o Sy- 
nodo a ElRey noífo Senhor , que mandaí^ 
fe proveraquelles Vigarios , como faz ato* 
dos os da ludia , e Ihes ordenaíTe mil e quí« 
nhentos cruzados cada anno , pera fe repar- 
tirem por todos. E o Arcebifpo D. Fr. Alei- 
xo de Menezcs fe oíFereceo y e fe obrigoa 
por fuá vontade aos prover de fuas rendas , 
em quanto EIRey o nao fazia , como fez , 
em quanto foi o recado ao Reyno ; com que 
EIRey D. Filippe noíTo Senhor, como mui- 
to Catholico , e Chriftianiflimo Principe , lo* 
go como o foube Ihes ordenou dous mil cru- 
zados , cobrados na Alfandega de Dio , que 
Ihes sSo mui bem pagos. Affim mais pedio 
o Synodo a EIRey , que mandafle prover 
aquellas Igrejas de vinho pera fedizerem as 
MiíFas , o que elle com o mefmo zelo man* 
dou, que Ihesdéífem duas pipas delle cada 
anno ; e em quanto efie recado tardou os 
proveo o Arcebifpo cada anno de fuá ca- 
fa com pipa emeia. Continha mais ella fe- 
tima ac^ao dezefeis Decretos dedoutrina fo- 
bre o Sacramento do Matrimonio , de que 
até entáo ufavam mui defviados da Igreja 
Catholica y deftruindo mil abomina^óes , de 
que por todo aquelle Arcebiípado le ufava ^ 

c 



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16 ASIA DE DiOGO DE CoüTO 

c reformou , c cmendou outros infinitos cr* 
ros, que até entáo eftavam introduzidos. 

A oitava ac^So continha quarenta e hum 
Decretos de reforitia^ao das coufas daquel«» 
h Igreja , e do ufo dos Tantos Óleos , pe- 
dras de Ara y Cálices , e outras coufas do 
que até eñtáo nSo ufavam , e hum catalogo 
de todos os dias de fcfta , que a Igreja ce- 
lebra , e oütras muitas coufas neceílarias , e 
importantes. 

A rtona , ederradeira ac^ó continha vin- 
tee finco Decretos , todos de reformajáo da- 
quella Chriflandade , em que Ihes dava mui- 
to bom modo de viver, e Ihes tirou infini- 
tos erros , e abusóes ; enfinandó-lhes muito 
fantos, e bons coflumes pera fepoderem go-^ 
vernan Efte Svnodó fe celebrou , e acabou 
com muita quieta^So , e applaufo de toda 
aquella Chriflandade , e ó Arcebifpo deo or- 
dcffl pera fe trasladar em lingua Aífyria , e 
Caldea , t fe repartir pelos Prelados de to- 
do dquelle Arcebifpado. E ordenou ó Padre 
Francifco Roz da Companhia , por faber 
bem eftas linguas , pera ficar adminiflrandó 
todo aquella Arcebifpado; emandou depoia 
ao Summo Ponfifice o Synodo , pera qué 
vifle o modo que fe rivera na reforma^áo da- 
quella Chriflandade , que Corñ entranhas de 
pai , e bom , e verdadeiró Paftór o feftejou 
tom muitas grabas , e loüvores que deo ap 

Al- 



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Dec. VII. Liv. I. Cap. II. i;f 

Áliiflimo Déos , e proveo ao Padre Fran- 
cifco Roz em Bifpo daquelia Chriftandade , 
fazendo-o fuffraganeo ao Arcebifpado Me- 
trópoli de Goa , que hoje eftá de poíTe , fa- 
zendo muiros férvidos a noíTo Senhor , e 
grande fruito por toda aquella Chriftandade* 
E porque le veja quanto aprouve á Di* 
vina Mageftade eñe Synodo, ferá beoí que 
nao paíTemos por hum cafo que nelle acon- 
teceo multo milagrofo , efoiefte. O dia qué 
fe acabou o Synodo , ordenou o Arcebiipo 
D. Fr. Aleixo de Menezes huma ProcifsSo , 
em que déííem todos grabas a Déos noíTo 
Senhor pela mercé qué Ibes fizera em deixaf 
acabar aquella obra tanto em feu férvido ^ 
como foitrazer aquelles pÓTOS áluz daver^ 
dade. £ eftando a Procifsáo ordenada den-¿ 
tro na Igreja , efperando que déíTe o tempe 
algum jazigo pera poder fabir pera fóra ^ 
porque ha via tres dias que chovia fem cef* 
lar , por fer na for^a do invernó ; e nefte 
dia mais que nos outros , parecía que fe ti* 
nham aberras as cataratas do Ceo , com o 
que todos eftavam parados , e fe recolhéram 
por onde puderam , por nSo caberem na 
Igreja. O Arcebifpo veftido em Pontifical^ 
cfleve nos degráos do Altar muito efpago , 
efperando que ceíTaíTe alguma cmifa aquel- 
le diluvio de agua; e vendo que toda via faia 
por diante cpm tanta braveza , que ^tp^ 



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%S ASIA DE DiOGO DE COÜTO 

^ram aquelles tenros Chriílaos (que sao muí 
dados a agouros , e prognoilicos ) a resfriar 
daquelle alvoro^o. E o que era aínda peior , 
que alguns aue aínda nao eítavam bem ñas 
coufas da Fé , difleram a outros , que fe- 
riam táo fracos como elles, que aquella obra 
tísio era de Déos , pois elle nao dava tem- 
po pera fe poder fazer a Procifsáo, E ou o 
Arcebifpo foíTe avifado diíTo , ou o fuípei- 
tafle , quafi agallado contra todos , mandou 
que íahiíTe a Cruz fóra da Igreja , e que fe 
profeguiífe a Procifsáo , ha vendo que era 
menos incron veniente mol harem- fe todos , que 
íicar aquelle agouro nos cora^Óes de alguns 
fracos. E dando o recado ao que levava a 
Cruz, foi pera fallir y e nao featreveo com 
a grande for^a da agua que chovia, O que 
mno pelo Arcebifpo, do lugar donde eftava 
brádou que fahiíFe , que fahiííe a Cruz , co- 
mo logo fez. Em fahindo fóra da porta da 
Igreja , e em fe levantando em alto , couía 
maravilhofa ! fupitamente ceflbu a chuva , e 
ficou o ar táo claro , fercno , e bem alfom- 
brado , que nao fe vio no meio do veráo 
outro mais alegre día ; com que a Procif- 
sáo fe profeguio , e acabou com grandes 
louvores de Déos noflb Senhor. Os que dan- 
tes eílavam com aquellas dúvidas , vendo 
táo claro milagre, lan^áram de íi todas fó- 
ra , e ieváram eftas novas a feus póvos , fi-; 

can- 



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Dec. VII. Liv. I. Cap. II. 19 

cando toda aquella Chriftandade confirmada 
na verdade do que o Arcebifpo Ihe tinha en- 
iinado no Synodo , e na obediencia que to« 
dos tinham dado á Santa Igreja Romana. 

Outro cafo aconteceo tambem de náo 
menos admira^áo. Efte foi , que era quanto 
durou o Synodo , como o Arcebifpo no 
principio delle tinha mandado , que todos 
os que quizéflem di (putar das coufas daFé, 
por duvida , ou fallar ñas que íc decreta* 
vam , o pudeífem fazer livremente , e vir 
com fuasdúvidas publicamente á Congrega- 
ndo de todos , onde Ihes elle fatisfaria ; in- 
duzidos alguns pelo demonio , e afferrados 
ainda a feus erros , e com o odio que ti* 
nham i Santa Igreja Romana , fe ajuntáram 
fóra ; e dadas as maos pera fe unirem nejf- 
te mal que queriam fazer , em virem encon* 
trar o que fe decretava , e baralharera a Con- 
¿rega^ao ; e entrando com eftes intentos ná 
Igreja , tanto que chegavam ao Arcebifpo , 
que eftava venido em Pontifical , ficavam co- 
mo mudos y e tolhiam-fe-lhes os pés , e as 
maos , fem poderem bullir comfigo , nem 
ainda fallar, eaflim fetornavam pera fóra, 
e lá pelejavam huns com os outros , e fe 
reprendiam de cobardes , acanhados , e pe- 
ra pouco , pois fe fahiam fóra fem pórem 
por obra a determina^ao que levavam. E 
tornando- fe a ratificar em feus damnados in-^ 
i- . tcn- 



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JO ASIA DE DiOGO DE COUTO 

teneos, entravam outra vez de novo na Igre- 
ja , onde Ihes acontecía o mefmo que da pri* 
xneira : andando ñeñes propoíitos tres días 
continuos, quegailáram em entrar, efahír, 
Xem fazerem coufaalguma do a que hiam; 
até que convencidos interiormente de feus 
proprios males , confeíTáram fuá culpa, epe« 
uindo perdáo della , fe reduzíram , e deram 
obediencia á Santa Igreja Romana , e ao Ar« 
cebifpo em feu nome. Acabado oSynodo, 
foi o Arcebifpo D. Fr. Aleixo de Menezes 
vifitar todas as Igrejas daquella Chriftanda* 
de , fazendo dar á execu^o todas as coufas 
que no Synodo fe deterraináram ; e deixan- 
do tudo pofto em ordem , fe tornou pera 
Cochím, e dahi pera Goá. 

CAPITULO IIL 

De canto ElRjy D. Jo^o ejle anne de ISS^ 
elegeo pera Vi Jo-Rey da India a D. Pe* 
dro Mafcarenhas : e da Armada com que 
partió : e do aue fuccedeo na viagem até 
cbegar d Ciaade de Goa. 

HAvendo quatro annos que D« Affbnfo 
de Noronha eftava na India , defejou 
ElRey de o mandar vir , e prover naquelle 
lugar de hum Fidalgo , a que todos tiveíTem 
multo grande refpeito , e que foífe muito ri- 
co ^ porque trataiTe tnais do que cumpria «o 

bem 



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Dec. VII. Liv. L Cap. IIL 31 

betn daquelle Eftado , que ao feu particii^ 
lar; e que tambem nao tiveíüe iilhos, por* 
que a governan^a da India nao andaíTe de 
promeio. Eíla era a rasáo , por que o Sena- 
do de Roma nao confentia elegerem-íe Le* 
gados pera andarem nos exercitos com os 
Confules , que foíTem feus parentes , porque 
o haviam por grande prejuizo. E huma das 
coufas, que fe deve louvar mais naquelle gran* 
de governo do Imperio da China , he , que 
ñas elei^óes que fazem dos Ofiiciaes da Juí^ 
ti^a , e Fazenda pera todas as Provincias, 
nunca elegem fenáo peíToas de huma pera 
i)utra mui diílantes , e onde nao tenham pa- 
rentes , nem amigos , porque ailim poflam 
¿overnar mais livremente y fem haver quem 
ihes fa^a fazer defordens. AíIIm querendo 
ElRey eleger pera efte Imperio Oriental , 
tao apartado delle , huma peífoa livre y e 
deíintereíTada , nao achou por entáo outra 
que ofoíTemais que D. Pedro Mafcarenhas , 
que elle tinha dado por Mordomo vñór do 
Principe D.Joáo feu íilho, (que era faJecip 
do no principio defte anno de fincoetita e 
quatro em que andamos , em idade de dezr 
efeis annos,) e commettendo-o pera íflb, fe Ihe 
efcufou com dizer » que era de mais de fe» 
}» trata anqos , e que nao tinha já forjas , nem 
iidifpofi^áo pera os tv^h^lhos de w>. comr 
ji prida yiagem , como en a da India ; e 

1 que 



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32 ASIA DE DiOQO DE COUTO 

> que tanibem nto fe atrevía a mandar , e 

> governar gente táo livre , e voluntaria co- 

> nio nella havia. » E por muitas vezes que 
IheElRey niflbfallou, fempre Ihe pedio de 
mercé que oefcufaíTe; masElRey pelo que 
Ihe relevava , ( que era fervir-fe delle effes 
poucos annos que viveíTe , por fuá muita 
prudencia , authoridade , e mais partes ne« 
ceflbrias pera quem ha de governar a India , 
ou pelo que outros diziam , que defejavam 
tle o lancar fóra do Reyno alguns privados 
pela fombra que Ihe elle fazia , e pelo muí'- 
to refpeito que Ihe ElRey tinha , ) nao de* 
fiftio do negocio , antes Ihe lan^ou o Infan* 
te D. Luiz , que era muito grande feu ami- 
go , e a quem o D. Pedro tinha muito gran- 
de refpeito , que pelo godo que fentio a El- 
Rey , apertou com D. Pedro muitas vezes , 
fem o poder render áquelle negocio , até 
que o Infante concluio com Ihedizer «que 
» hum delles havia de ir á India ; que fe el- 
% le fe nao quizeíTe embarcar , que elle o fa- 

> ria , porque aíllm o tinha promettido a El- 
^ Rey feu Senhor, e irmáo.o» Vendo Dom 
Pedro Mafcarenhas a grande obriga^áo em 
ique o Infante o punha , Ihe difle )i que an- 
31 tes elle quería tomar fobre fi aquelles tra- 
^ balhos , e ir acabar por cíTe mar , que nao 
ji inquietar-fe S. A. » 

Dada efia palavra ^ mandou ElRey , ai 



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Deg. vil Liv- i. Cap. IIL 33 

D. Pedro Mafcarenhas , que fizeíTe feus a* 
pontamentos , como fez , e Ihe concedeo ru- 
do , porque o menos que pedio foi pera íi , 
que toi y que os oito mil cruzados de orde- 
nado, que os Vifo'Reys tinham na pimen- 
ta da Cafa da India , fe paga (Te delles em 
Goa ; porque elle nao havía miíler coufa ai* 
guma no Re/no , que tinha muita renda , 
e nao quería poupar nada na India , fenáa 
gadar tudo em férvido deS. A. E aíÉm Ihe 
concedeo Provisáo , pera que todos os Fi- 
dalgos , e moradores da Cafa de ElRey y que 
ie embarcaíTem na fuá Armada , venceflem 
foldo , e moradia em quanto andaífetn na 
India. E affirma-fe , que algumas vezes pe- 
dirá de mcrcé a ElRey , que ihe diíTeíTe a 
peíFoa que ihe havia de fucceder na gover- 
nan^a , fe Déos fizeífe delle alguma coufa 
na India; e que até niíFo o quizera fatisfa- 
zer , e Iho diflera ; mas o mais certo he , que 
fcmpre fe efcufou diífo : todavía ao tempo 
que o defpedio , Ihe diflfe » que tivefle mui« 
» ta conta cora Francifco Barreto , porque 
» tinha grande fatisfa9áo de feus férvidos ; » 
no que claramente Ihe deo a entender, que 
Ihe íuccedia. Só o cargo de Capitao mor 
do mar da India , que Ihe pedio pera Fer- 
jiáo Martins Freiré leu fobrinho , filho de 
fuairmá, (fobre quem elle queria defcarre- 
gar a mor parte dos trabalhos do governo , ) 
. Cmío. Tom. IF. P. I. C fe 



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34 ASIA DE DiOGO DE COUTO 

íelhenáo concedeo, porque houve no Con- 
fclho fobre aquelle negocio differenies pare- 
ceres ; mas deo-llie por regimentó , que pu- 
zeíTe na India em confelho de Capitaes ve- 
Ihos , fe era neceíTario aquelle cargo ; e que 
affentando-fe que íim , o proveíTe em quem 
Ihe parcceíTe. 

Defpacbadas as coufas da India , e as 
Daos, foiElRey em peíToa fazellas á vela, 
e o Infante D. Luiz levou oVifo-Rey Dom 
Pedro Mafcarenhas aré o metter dentro na 
uáo, e fez-íe á vela por fim deMarjo deC- 
te anno de íincoenta e quatro. A Armada 
era de fcis naos muito formoías , S. Boaven«« 
tura , em que o Vifo-Rey bia. A Conceiyáo , 
de que era Capitáo Manoel de Cafianhoio. 
De Santa Cruz , Belchior de Soufa , da cora- 
panhia de Fernáo de Alvares Cabral , do 
anno paflado , que tinha arribado ao Rey- 
no. A nao Efpadarte , de que era Capitáo 
Fernáo Gomes de Soufa , que hia defpacha- 
do com a Capitanía de Cochim. Da nao Fra- 
menga era D. Manoel Tello , que levava a 
Capitanía de Dio. E da ourra nao era Ca- 
pitáo Francifco de Gouvea. Embarcáram-fe 
nefta Armada dous mil homens de armas , 
em que entravam mais de quatrocentos mo- 
radores da Cafa de ElRey, antre Fidalgos ^^ 
e de todos os outros foros. 

Os Fidalgos conhecidos sao os feguin- 

tes: 



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Dec. VII. Liv. I. Cap. III. 3J 

tes : Fernáo Martins Freiré , D. Francifco- 
Mafcarenhas , filho do Capitao dos Ginetes , 
fobrínho do mefmo Vifo-Rey , o que de- 
pois foi Conde de Santa Cruz , e Vifo*Rey 
da India. D. Pedro Mafcarenhas , irxnáo de 
D. Joáo Mafcarenhas , que fuftentou o fe- 
gundo cerco de Dio. Ruy Barreto Mafca* 
renhas de Ludo ; D. Rodrigo Coutinho de 
Montemór o Novo , filho de D. Gonzalo 
Coutinho , o que os Mouros matáram no 
Bori, como no fim da quarta Decada Liv. 
X. Cap. III, fica dito. Joáo Lopes Leitáo ; 
Louren^o deSoufa, íilho de Alvaro deSou- 
fa de Aveiro ; Chriftováo Pereira Homem ; 
D.JoaoBéllez, primo deElRey deBéllez, 
que fe fez Chriftáo , e ficou em Lisboa , 
quandoaquelleRey velo pedir foccorro pe- 
ra cobrar feuReyno. EfteD.Joáo cafoude- 
pois na India com huma pare^ita dos Reys , 
ou dos Guaziz de Ormuz. D. Antonio de 
Noronha , de alcunha o Catarraz , que de- 
pois foi Vifo-Rey da India , que trooxe mil 
cruzados de ordenado cada anno pera feu 
cntretimento. 

Partidas as naos , foram feguindo faa der-^ 
rota , em que todas tivcram mtiitos contraf- 
tes , e por ñm tomáram differentes pórtos. 
A nao Framenga , de que era Capitío Dom 
Manoel Tello , af ribou ao Rcyno deftroja- 
da. A Efpadarre üi muito tarde tomar Mom- 
C ii ba- 



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3^ ASIA DE DiOGO PE COUTO 

ba^a, edabi paíTou a invernar aOritiuz. As 
Daos Santa Cruz , e Concei^ao tomáratn por 
fóra da Ilha de S. Louren^o , e foram to- 
mar Cochim entrada de Novembro. A nao 
S. Francifco chegou tarde a Mozambique , 
eficou alli invernando: fóoVifo-Rey, que 
levava melhores Oíficiaes , paflbu o Cabo de 
Boa Efperanja cedo , e chegou a Mo^am* 
bique entrada de Agofto ; e fazendo fuá 
aguada , e tomando provimentos , fe partió 
pera Goa , e furgio na barra a vinte e tres 
de Setembro , onde foi vifitado da Cidade , 
e Fidalgos y e logo defembarcou , e fe foi 
pera Goa , fem querer aguardar que Ihe fi- 
zelíem recebimentos , por vir anojado pelo 
falecimento do Principe D.Joáo; e o Vifo- 
Rey D. AfFonfo de Noronha Ihe entregou 
a India , e fe foi logo pera Pangim nego- 
ciar fuá embarcajao. Simáo Boteiho, Vea- 
dor da Fazenda , acudió logo a defcarregar 
a nao do,Vifo-Rey , e a recolher o cofre 
do cabedal ; e mandou que fe tirafle logo 
o cofre, que vinha noporao, tendo a nao 
ainda toda a carga dentro em íi ; e defcui- 
dando-fe ós'Officiaes de Ihemetterera outro 
lañro , deo-lhe hum dia hum tempo rijo , e 
achando-a defalaftrada , e com o pezo todo 
em fima , a virou logo , e a aíTo^obrou ; e 
acudindo-lhe o Veador da Fazenda com ro- 
dos os Oificiaes , já ihe nao pudéram valer , 

o 



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Dec. vil Liv. i. Cap. IIL 37 

o que fentio tanto , que fe foi metter Fra- 
de em S. Domingos , onde viveo alguns an- 
nos Sacerdote , e morreo religiofamente. O 
Vifo-Rcy D. Pedro Mafcarenhas apofentou- 
íe ñas cafas do Sabayo , o antigo apófento 
dos Governadores ; e porque eram de dous 
fobrados , e de mui compridas efcadas , e 
elle era velho , e muito magro , davam-Ihe 
inuito trabalho ; pelo que mandou negociar 
as cafas da fortaleza , em que os Capitáes 
fe coftumavam agazalhar , e paíTou-fe pera 
ellas , e foi o primeiro Vifo-Rey que alli 
fe apofentou , e depois o íizeram todos ; 
porque na verdade he apófento mais pro* 
prio pera os que governarem , por eftar fo- 
bre o caes ; e nada pode entrar pelo rio aC- 
íima , que elles nao vejam. Efte anno cafoft 
o noflb Catholico Rey D. Filippe com a Rah- 
nha María de Inglaterra , com cujo cafa* 
mentó feefperava a total repara^ao dascou? 
fas da Fé naquelle Reyno. 



CA- 



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3? ASIA DE DlOGO DE COÜTO 

CAPITULO IV. 

De como os Capitaes de Bafaim , e Chaul 
ajuntdram navios , e fe foram lanzar fo- 

, bre a barra de Surrate , fabendo ejiarem 
dentro as gales : e de como o Vifo-Rey 
D. Pedro majcarenhas mandou feu fobri- 
nho Ferndo Martins Freiré com huma Ar^ 
mada dquelle negocio : e dos tratos que 
teve com Caracen , Capitao de Surrate : 
e de como fe ajjentou cerrarem-Je as ga^ 
les : e da cbegada de D. Fernando de Me* 
nezes a Goa. 

REcoIhidas as gales a Surrate, e toma- 
da a barra pelas caravelas , como no 
ñm da Sexta Decada no Cap. ultimo do X* 
Liv. fica dito , logo corréram as novas a 
B^ü^aim , e Chaul , onde eftavam por Capi- 
taes Francifco de Sá dos Oculos , e Joáo 
de Mcndoja Cafáo , que com muita prefla 
armáram dez navios de remo cada hum : 
embarcando- fe nelles com muita gente , e mu- 
nijóes y deram á vela pera Surrate , em cuja 
barra acháram as caravelas , e furgíram to- 
dos nos pofos , onde fe deixáram eftar até 
Ihes vir recado do Vifo-Rey , a quem efcre- 
véram de fuá jornada. O navio que Dom 
Fernando de Menezes defpedio a Mafcate 
com as novas da vitoria, chegou a Goa hu- 
ma 



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Dec- vil Liv. L Cap. IV. 39 

ma noire , juntamente com as das gales fe^- 
rem recolhidas a Surrate ; e dando-le as no- 
vas a D. AíFonfo de Noronha , que e({a\ra 
na cama, faltou fóra deÜa em camifa com 
tamanho alvoro^o , que como doudo aífim 
mal compodo fahio fóra áfala, onde jália* 
via muitos Fidalgos , parentes , e amigos , 
que com elle eftavam em Pangim ; e ven- 
do-o os criados daquella maneira , chegá« 
ram a elle , e Ihe pedíram que fe recolhet» 
fe , e aínda apegáram delle pera o levarem ; 
mas o bom velho que eftava como defalfi- 
fado com as novas dofilho, por ferem táo 
boas , refiftio a rodos , dízendo » que o dei- 
» xaflfem , ainda que eftiveíTe pouco honedo , » 
e todavia tomou hum roupao que Ihe trou- 
xcram, eaflim em pé efteve pergunrando ao 
Capitáo do navio muito particularmente pe- 
la batalha, porque o filho ñas cartas fe re- 
portava a elle. Edepois que foube tudo, o 
mandou ao Vifo-Rey , que já eftava reco- 
Ihido; edando-llie a nova, a recebeo com 
fnuito alvorojo , efezmercé ao Capitáo do 
navio , mandando logo que fe repicaflem to- 
dos os finos da Cidade , por onde fe efpalhá- 
ram tao boas novas. Ao outro dia pela ma- 
nila foi o Vifo-Rey a Pangim avifitarDom 
AfFonio de Noronha , c dar-lhc os parabens 
da Vitoria do filho. 

PaíTado efte alvorojo , affentou o Vifo- 
Rey 



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40 ASIA DE DiOGO DE COÜTO 

Rey de mandar logo huma Armada a Sur* 
rate , pera o que fez preparar trinta navios 
de remo , c dous galeóes. E porque dcfe- 
java de fazer feu fobrinho Fernao Martins 
Freiré Capitáo mor domar da India, ajun- 
tou todos os Ca pitaes do confelho , e fem 
Ihcs declarar efia fuá rengáo , Ihes moftrou 
o Capitulo do Regimentó de El Rey fobre 
aquelle negocio , como no primeiro Capitu- 
lo di (Temos ; e como os mais dos que allí 
eftavam eram de tanta authoridade , que 
qualquer delles ihes parecía Ihe cabía aquel^ 
le lugar, votáram fobre o cafo, e concor- 
dáram fer muito neceíTarío haver aquelle car- 
go , apontando pera iíTo muitas razóes. E 
fendo todos conformes , mandou o Vifo- 
Rey fazer hura auto pelo Secretario, emque 
todos fe aflignáram. 

Feitoifto, logo alli nomeou pera aquel- 
le cargo feu fobrinho Fernao Martins Frei- 
ré, o que tomáram todos muito mal; por- 
que aquelle Fidalgo era Reinol , criado fem- 
pre em Corte , e nunca curfára a milicia ; 
mas caláram-fe , porque nao podiam fazer 
outra coufa. Nomeado o Capitáo mor do 
mar , comegou logo a correr com a Arma- 
da , a que deo tanta preífa , que quando fo- 
ram dez de Outubro , fahio pela barra fó- 
ra cora todos os navios, de que eram Ca- 
pitáes D. Francifco Mafcarenhas , D. Dio- 



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Dec VII. Liv. I. Gap. IV. 41 

{JO Lobo , Gafpar de Mello , Ruy de Mel- 
o da Cámara , Pero Barrero , e Jeronymo 
Barre tó Rolim , ambos irmáos , e primos de 
.Francifco Barreto , que foi Governador da 
India ; Fernáo Peres de Andrade , Baftiáo 
Machado , André Pereira , Manoel Trava- 
jos , Jeronymo de Mefquita , Joáo de Sou*^ 
ía , Ruy de Mello Pereira , Vicente Bello , 
Heytor Nunes de Goes , Antonio Ribeiro , 
Antonio de Siqueira , Barnabé de Sá, Af- 
fonfo Pereira de Lacerda, Heytor de Mel- 
lo Pereira , Francifco de Mello Pereira , 
Chriftováo de Mendoza , Diogo de Men- 
doza , Francifco Sodré , Gemez Barreto em 
hum galeao , Pero Rodrigues Barriga Feitor 
da Armada em outro , carregados ambos de 
proviraentos , e munijóes pera a Armada. 
t)eo o Vifo-Rey por regimentó aoCapiráo 
mor, que fenáoiahiíTe defobre a barra de 
Surrate , até Ihe entregarem todas as gales ; 
e que tanto que lá chegafle , defpedilTe os Ca- 

f>itaes de Ba^aiiti , e Chaul pera fuas fortal- 
ezas , e que ficaflém com elle todos os na- 
vios que lá tinham ; e Ihes efcreveo cartas 
de agradecimentos pela prefleza com que 
acudíram ao fervifo de ElRey. O Capitáo 
mor foi em breves dias furgir fobre a bar- 
ra de Surrate , onde achou aquellas Arma- 
das ; e os Capitáes de Bagaim , e Chaul o 
vüitáram : vendo as cartas do Vifo-Rey que 

Ihes 



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4^ ASIA de Diogo de Coüto 

Ihes elle deo , Ihes entregáram logo rodos 
os navios que tinbam , e cada hum em feu 
navio fe foraní pera Aias fortalezas. 

Caracem , Capitáo de Surrate , (que era 
genro de Coge C^ofar , ) tanto que foube fer 
o Capitáo mor do mar da India naquella bar- 
ra, logo o mandou vifitar, e fazer muiros 
cumprimentos , que elle agradecep ; e em 
companhia do que Ihe levou o recado , en- 
viou hum homem , que elle pera iíTo clegeo , 
por quem Ihe mandou pedir da parte do Vi- 
fo-Rcy da India » Ihe mandaíTe entregar as 
» gales , e os Turcos que dentro eftavam , 

> por lerem inimigos dos Portuguezes ; por- 

> que pelos contratos das pazes os nao po* 
»dia recolher em nenhum dos feus pórtos; 
)i e que nao quizeffe que chcgaíTem as cou- 
» fas a rompimento , porque o Vifo-Rey vi- 
» nha muito apodado a correr com elle em 
9 muita amizade , por faber quáo aflFei^oado 
n fora ferapre ás coufas dos Portuguezes. )i^ 
Caracem recebeo bem efte recado , c ao En- 
viado fez mtritas honras , e refpondeo » que 
i> quanto ao Turcos , que Ihe mandava pe- 
» dir , eram idos pcraCambayete j e que ain- 
B da que allí cftiveram , nao era licito entre- 
» gar homens , que com trabalho fe recolhé- 
» ram a feu porto ; e que quanto ás gales 
línáo Ihe convinha entregallas , porque ti- 
31 nha fuas naos em Meca , e que chegando 

»lá 



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Dec. vil Liv. i. Cap. IV. 43 

% lá as novas fe Ihas entregafle , Ihe lan^a- 
n riam os Turcos máo dellas. » Com eña re- 
fpoíta , e defengano tornóu o Capitáo mor 
a fazer grandes requerimentos a Caracem , 
fobre o que foratn , e vieram muiros reca* 
•dos , e por fim do negocio fe refumio Ca- 
racem nifto » que elle de^ejava de fuftentar 
n a amizade dos Portuguezes , e refalvar as 
•)ináos que tinha em Meca , e fobre tudo 
% fuftentar feu crédito ; e que o meihor meio 
}i que pera JíTo havia era , que fe cerraíTem 
» as gales em eres , ou quatro partes de fei- 
% jáo , que mais nao pudeíTem fcrvir , c que 
1» aíllm íicaria elle cumprindo com fuá obri- 
^iga^áo, e o Vifo-Rey fatisfeito , pois elle 
» deixava as gales em eñado , que tanto mon* 
)» tava como queimadas. n A efta refolu^áo 
Ihe mandou dizer o Capitao mor » que n^o 
» podia acceitar aquelles partidos , íem dar 
n conta diflb ao Vifo-Rey ; que elle defpe* 
» dia logo hum navio ligeiro , e com o que 
» elle Ihe mandaíTe fe refumiria. » E com iC- 
to defpedio o navio com cartas pera o Vi- 
fo-Rey , em que Ihe relatava tudo o que 
icra paífado, deixando-fe íicar no porto cm 
que eftava até Ihe tornar refpofta. 

Chegado o Catur a Goa , poz o Vifo- 
Rey aquelle negocio em Confeliio ; e affen- 
tou-fe 5 que fe acceítaífe o oue Caracem pro- 
mettia , porqiie era o mais que elle podía 

fa- 



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44 ASIA DE DiOGO DE COUTO 

fazer , pelas razóes que dava ; e com ífto 
dcfpedio o mefmo navio , por quem man- 
dou o aflento que fe tomou , e efcreveo a 
Caracem huma carta de muiros cum primen- 
tos. Chegada a refpoíla , e dada a carta do 
Vifo Rey a Caracem , aíTentou com o Ca- 
pitáo mor , que fe cetraflem as gales em feis 

Í)artes cada huma , e que foíTem a iíTo pef- 
bas que o viflem ; ao que mandou o Ca* 
pitáo mor Ruy Freiré, humFidalgo feu pá- 
rente , e com elle o Patrao mor da India. 
Chegados eftes homensí a Surrate , Caracem 
os reccbeo bem , e apofentou na Cidade , e 
logo mandou vir muitos officiaes , que co- 
megáram aquella obra ; o que íizeram á von* 
tade dos noíTos , em que fe detiveram feto 
dias ; e aqui os deixaremos , porque he ne- 
ceflario continuar com D. Fernando deMe- 
nezes , que deixámos em Mafcate. 

EfteFidalgo depois de feprover do ne- 
ceífario , deo á vela pera Goa com toda a 
Armada que iheficou, levando ásgales que 
tomou repartidas pelos Capitáes:, que no 
fim da fexta Decada no Cap. XX. do Lm X. 
diílemos. E como traziam vento em popa , . 
chegáram alguns dias de Novembro a Goa. 
E logo na barra achou D. Fernando de Mc- 
nezes recado de íeu pai , como feu tío Dom 
Nuno Alvares era falecido , e Ihe mandou 
dó feito pera defembarcar. D. Fernando o 

^n- 



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Dec. vil Liv. i. Cap. IV. 45: 

fentio tanto , que defembarcou ero Pangiro 
fó , onde feu pai o recebeo coro muito amor , 
e alvoro9o y os outros Capitáes foram entran- 
do pelo rio deniro coro as gales dos láureos 
díante ; e aíüín ellas y como a mais Arma- 
da , formofamente embandeiradas , faiváram 
a Cidade com toda a artilhería até furgir no 
caes. Os Capitáes todos juntos foram aoVi- 
fo-Rey D. Pedro Mafcarenhas , que os re- 
cebco com muita honra , e palavras, e fo* 
bre rudo com obras , porque a todos fez 
mercés ; e depois diño foram todos a vifitar 
D. AíFonfo de Noronha , que os recebeo 
mui honradamente, e compalavras de mul- 
los louvores. Ao outro dia foi D. Fernan- 
do deMenezes em huma manchua com pou- 
cos parentes, que pera iíTo efcolheo , a vi- 
fitar o Vifo-Rey , que o efperou á porta da 
fala , onde o abra90u , e Ihe difle multas , 
e mui avifadas palabras de honra , e louvor 
feu , e de todos os que o acompanháram. 
Paflfada efta viíita , que fol breve , recolheo- 
fe D. Fernando pera feu pal ^ e tratáram lo- 
go de fuá embarca^áo. 



CA- 



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46 ASIA DE DiOQO DE COUTO 

CAPITULO V- 

De cerno o Turco mandou outro Capitao , 
chamado Cafar , a bufcar as gales que 
ejiavam em Baford : e de como tomou aU 
gumas ndos de Ormuz: e de ou tras cou-^ 
fas que faffdram. 

DEpois do Turco ter defpachado Ale 
Chelobi pera tomar as gales a Mora- 
dobec', (como no fim da fexta Decada no 
Cap. XX. do X, Liv. fica dito , ) havendo 
que era homem arrifcado, e de nao multo 
negocio , defpedio ñas fuas coftas hum Ja- 
niflaro » chamado Cafar , grande coíTairo , 
esforzado, e de bom confeiho, (quefoi o 
que tomou Luíz Figueira , como na omra 
Decada atrás no Cap. III. do IX. Liv, fe 
dille , ) e Ihe deo por regimentó , que onde 
qtier que achaífe Ale Chelobi Ihe tomaíTe 
as gales , e as levaíTe ao porto de Meca. O. 
Cafar fe foi a Stiez , e ncgociou duas ga-* 
les , e dous Bargantins , hum delies a galeo- 
ta que foi de Luiz Figueira. E fahindo-ie do 
Eftreito o Agofto paíTado , foi correndo a cof- 
ta da Arabia, echegando áenceada daMa- 
cieíra , achou as novas da perdi^ao das ga- 
les ; e lanzando efpias em térra pera faber 
da noíTa Armada , deixou*fe alli íicar até Ihe 
tornar recado de como já era partida pera 

a 



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De a VIL Liv. I. Cap. V, 47 

a India. E como era coíTairo y e muiro prá-* 
tico lias coufas daquclle mar , determinou de 
fe ir na efteira da Armada , porque fempre 
Ihe íicaria por ella coufa que preaíTe. E fe- 
guindo fuá derrota y antes que cliegaífe á 
ponta de Dio , defemmafteou y e deixou-fc 
fícar ao mar pera efperar pelas naos que ha- 
viam de vir de Ormuz , que forjado haviam 
de ir demandar aquella paragem. E andan- 
do aquí, Ihe foram cahir nasmáos por ve- 
zes quatro naos ; huma de hum foáo Sal- 
gado , outra de hum Cirieiro de Dio , e as 
outras duas de Tana , ou Cbaul , em que 
tomou íó emdinheiro cento e íincoenta mil 
cruzados. E porque as naos Ihe faziam el^ 
torvo , metteo-lhes alguns Turcos , e as deí^ 
pedio pera Meca , e em fuá companhia hum 
dos Bargantins , e os Portuguezes que achou 
ñas naos , deixou ir nellas prezos a ferro. 
Indo aílim eftes navios, vieram apparecer a 
huma galeota de hum Balrhazar Lobato , que 
tambem vinha de Ormuz y que vendo as 
naos y e reconbecendo-as , as foi demandar , 
fem faber o que era paíTado. Os Portugue- 
zes que hiam nellas , em vendo a galeota y 
e conhecendo-a y parece que infpirou Déos 
em todos hum mefmo confelho , porque a 
hum mefmo tempo fe foltáram , e tomáram- 
as armas, e remetiendo com os Turcos, os 
xiiettéram todos á efpada. O Bargantim ou- 

vin- 



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4? ASIA DE DiOGO DE Cotjfo 

víndo a revolta , e vendo a galeota , aco- 
Iheo-fe o mais que pode. Balthazar Lobato 
chegou a huma das naos , e entrou dentro , 
e dos Portuguezes foube tudo o que era paf- 
fado , e a paragem eni que as gales ficavam ; 
e acháram antre eftes cativos Joáo de Qua- 
dros , e tomando parecer fobre o que fa"* 
riam , aíTentáram , que fe foffem por dez- 
efete graos de mar cm fórademandarChaul, 
cu Dabul , porque aílim fe defviariam da 
paragem em que os Turcos ficavam ; e mu- 
dando o rumo , foram feu caminho. O Ca- 
far iicou naquella parte alguns dous , ou tres 
dias mais efperando porhum galeáo de hum 
Gomes Farinha , que Ihe diíferam ficava atrás; 
e vendo que tardava , emmafteou , e deo á 
vela pera o Eílreito de Meca 5 e foi gover- 
nando pelos mefmos dezefete graos , pera ir 
demandar os Uheos de Curia Muría. E quiz 
a defaventura , que aos dous dias dóítcm 
com as mefmas naos , que híam em compa- 
nhia de Balthazar Lobato ; e demandando-as, 
as alcan^ou , e as tornou a toman Balthazar 
Lobato vendo as gales , deo á vela toda , e 
foi-Ihe fugindo tudo o que pode , e o Ca- 
far após elle com o baftardo dado ; e co- 
mo o vento era frefco, foi-o entrando, ea 
tiro de camello Ihe atirou huma bombarda- 
da a amainar. Os que hiam na galeota, que 
íbriam perto detrinta peíFoas, tomáram an- 
tre 



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Dec. Vil. Liv. I. Caí* T. 49 

tfC fi confelbo fobre o que fariam , e foram 
todos de parecer , que pois a galé os entra- 
ra , e Ihe nao podiam fugir ^ que amainaf-* 
fem y já que nao podiam pclejar com 8 ga- 
lé ; que menos mal era ferem cativos , que 
nictterem-nos no fundo , porque logo fe ref* 
gatariam. Só humFrancifco Anes, da obri- 
gajao de Fernáo de Soufa de Ta vora , reque- 
reo y e brádou » que tal nao (izelíem , e que 
>íe deixaflem ir íeu caminho, que Déos os 

> ajudaria ; e que quando Ihe nao pudeíTem 
3) fugir , que nSo fabia coufa mais honrada , 
)» que morrerem todos com as armas na» 
'» máos ; » mas como elle era fó , amaináram 
a vela , e entregara m- fe. O que viílb pelo 
Francifco Anes, defpio huma coura de la- 
minas , quetinha armada, e tirouhummor- 
riáo , que levava na cabeja , e a efpingar- 
da , e a eípada , e deo com tudo ao mar, 
dizendo » que já que fuas armas Ihe^iJo ha- 
1» viam de valer , que nao quería que foíTehí 

> a poder dos inimigos, » O Cafar metteo 
todos a banco ; e ao Francifco Anes pelas 
armas que lan^ou ao mar (qué nao faltou 
quem Iho difleíTe) tratpu mal ^ e tomapdo 
as naos comfígo , fe foi na volca da coda da 
Arabia, e enirou em Meca profpero. De? 
pois fe refgatáram todos eftes homens. O 
Grao Turco lógofoube dadeftrui^ao de fuá 
Armada , o que fentio muito , por Ihe ficar 

Cauto. Tom. IF. P. L D aquel- 



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I 

JO ASIA DE DipGO DE CoiTTO 

aqueUe EAreiro fem guarda , além da graq- 
de perda que recebeo cm quinze gales , que 
daqueila pancada perdeo , COQ tanta art¡ihe« 
m, e amellidr chufiria que tinha noEílrd* 
lo , Q que tuda liie cuftou huní po^o de ou<» 
fC'y €i coo) aquella mágoa mandou com mul- 
ta preíTa reformar as mais gales que havia 
aioaa cm Suez , das da companhia do Baxá 
Eunuco, que foi cercar a fortaleza de Dio, 
fendo Capitáo Aütonio da Silveira. 

CAPITULO VL 

l)e COMO o Fífo'Rey defpacbou as naos pera 
irem a Cocbim tomar a carga : e do que 
. aconta eo a D. Agonfo de rloronha com 
ElRey do Chembe , e Je emharcou pera o 
Reyno onde cbegou : e como a ndo Santa 
Cruz» defappareceo. 

VEndo o Vifo-Rey D. Pedro Mafcare^ 
iihas , que de íeis naos com que parti» 
la do Reyno , nao bavia mais novas , que 
da Concei^áo, e 'Santa Ouz , que eñavam 
em Cochim , e que a fuá íe perderá na bar* 
fá , d^rerminou negociar alguma nao mais 
pera mandar ptmenca ao Reyno , pelas ne« 
cefldades em que ficava. Peló que fe coih 
tratou com hum AntSo Martins , cafado em 
Goa , que tinha naqúeUe porto huma mui 
£e»?moía aáq > ckaiaadá S« Paulo , que fez 

no 



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Dec* vil Ljv. i. Cap. Vi. fi 

no rio de Aneóla, qoe porfer grande, no^ 
va , ^ eílar muico bem negociada , a efco^ 
Iheo D. AfFouíb deNoranba pera ir nella: 
o Vifo-Rej ihedeo codas as coufas queliie 
foram neceíTarias, e o Aotao Martina, ú^ 
nhorio da nao , mandou por Capitáo ddla 
hum genro feu, chamado Antonio Femam 
des ; e como foi tempo, ft embarcou pen| 
Cochim , defpedindo-fe D. Afibníb de No^ 
ronJia do Viib«Re}r , que correo miiiro pon* 
tual com fuas cou&a , e lesrou iic^nja fuá 
pera eoi. Cochim acabar de condoir as pa« 
zes , que tinbam Gome^adas com ElRef do 
Chembe. 

Chcgado aquella Cidade y tracou íbbre 
efle negocio que defejava de acabar , pera 
levar as novas dtfib a EIRey ; e corréram 
antre elle , e o Rey da Pimenta recados » o 
vieram a (Tentar , qae fe vüTem pera condait 
rem as pazes ; o que D. Affbnlb de Noro^ 
nha Jogo pot por obra ; e negociando to« 
dos os navios que pode , ie partió pera o 
Chembe ,. aoompambado do Capittfo , Aicai» 
de mor y e dos cafado» principáes , e foi fur* 
gir defxcKnte doPagode, donde Ihe mandón 
recado, ea pedir-Iheabbre^iaffe aqiidle oo^ 
gsfcio , porque eftava pera fe embarcar pe* 
ra oReyno, en&o fe podia decer. Mascón 
mo eftes Gentíos tem grandes TupefUi^Óes ^ 
e nada fiaem fem >eIeid[o de horas ,. e fem 
u ii con- 



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yí ASIA DE Dioda'Dí CotJTo 

coofultaretn cóm feus Pagodes tudo ,. fo^ 
ram-lhc feus Brámanes achando tantos in- 
convenientes , que de dia em dia gafiiracii 
feis , ou fete , fem acharem hum bom. Ven- 
do D. AiFoníb de Norooha. tamanha dila- 
to, mandou-Ihe'dizer »que fehia embar-* 
n. car pera oReyno, eque fe nao pedia de-^ 
» ter mais que aquelle dia , e que viíTe o 
>que determina va..» ElRey Ihe niandou pe- 
dir » que fe detiveíTc até o outro dia , que 
» fem dúvida ]fae viria fallar , e que Ihe man-* 
^daíTe Chriñováp de Azevedb Alcaide mor 
T$£om olingua, e alguns piaes pera oacom* 

> panharem ^ » o que logo ihe mandou. £ 
ao tempo q.ue efperava por ElRey , ouví- 
r^m em térra grandes gritas , e após ellas 
víram vir fugindo Chriftováo dcAzevedo, 
crecolher-fe ao feu b^iláo ,.que eftava com 
a proa era te^rra ; e chegando a D. AíFonfo 
de Noronha muito affrontado , Ihe diíTe : 
» Ah Senhor , que nunca vi láo mi gente 
jicomo eña; chegando ás cafas de ElRey, 

> deram em mim' , e feríram o lingua y e ma- 
» táram-me alguns ipo^os , e eu milagrofa- 

> mente efcapei : ide-vos , que aqui nao ten- 
ar, des que fazer.» Vendo D. AfFonfo de No* 
ronha tamanha imaldade , poz os olhos nos 
Ceos , e levou as maos ás barbas , dizen- 
do : »Ah Senhor, nao fe pudéra agora fa- 
>^er troca ^ de quatro ^nnos quegovernei 



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c^. . D¿ó. VIL Li V- 1. G Aív: VI. y^ 

» a India porhum-fó, pera me-^vingar deí* 
»te negocio ?» e aflim fer vendo em ira, é 
&iror maodbu levar ancora , 'e. foi-:fe cotn 
aquella Qiágoa pera Cochinu E' porque fó 
fázia tempe de fe embarcar , mandou dap 
preflTa ao aviaaienco das naos , e a carga prin* 
cípalmence da nao Santa Cruz , que eftavá 
aberta , que foi vifta pelos Officiaes , que jut 
ráram queeftava pera fazerviagem; porque 
a cubica dos homens he tamanha, que faá^ 
ter em pouco rodos os perigos da vida ^ 
' pondo os Officiaes os olhos , nao no rifco 
que corria huma nao aberta pelo meio , fe^ 
nao no proveito que eíperavam daquella via« 
gem; por nao haver naquelle atino mais que 
tres naos. D- AfFonfo de Noronha foi cor-* 
rendo com a carga , e defpachando muita^ 
coufas de Juftí^a , porque os Vifo*Reys ,0 
Governadores j que acabavaoi feu tempo , pot 
cfpecial Próvisáo tinham os mefmos pode^ 
res , em quanto eñavamem Cochim ^ na Juf« 
tija, e carga das naos. 

Recolhida a carga , dcraro i vela até quin« 
ze de Janeiro delle anno de 1555' , em qué 
com o favor Divino entramos , embarcan- 
do-fe nefta Armada muitos Fidalgos , pera 
irem reguerer feus ferviyos ; e dos que pu- 
demos íaber. os nomes , sao os feguintes : 
D. Fernando de Menezes , filho do Vifo-f 
Rey D. AiFonfo de Noronha } D. Manoel 

Maf. 



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f^ ASIA de: D1060 DE CotTo 

MafcarenlKis , irmáo do Conde de Santt 
Cruz , que faleceo pouco d^pois de cbegac 
iMi Reyno j Gil Fernandes de Carvalbo; e 
D. Jeronymo de CafteJlo-branco , que ít 
embarcáram na nao Santa Cruz com Bel- 
chior de Soufa.; porque a nao deD.Affon* 
fo de Noronha hia muito pcjada , e defap-i 
pareceo nocaminho, fém nunca íefahefco^ 
mo j nem onde ; mas prefumio-fe que fe abrió 
pela proa , por onde já abrirá vindo do Rey-f 
pQy e acabaran) aJIi aquelles. dous Fidalgos , 
c esforjtados. Cavalleiros , que todos geral^- 
mente fentíram , fenv chegarem a lograr o 
gálardáo de ieus feitos , nem pendurarem 
Bos Templos da Europa os pendóes de feua 
trofeos , porque a morte invejofa del les os 
áialhou emflor; mas por muito que ella fa<» 
$a , nao o poderá fazer á memoria que nef* 
ta nofla efcritura Ihe temos dado , porque 
fobre iíTo nao tem ella poder algum. A nao 
Concei^áo, eS. Paulo ^ em que D. Affonfo 
de Noronha hia, cbegáram aoReyno. Foi 
éfte D. AíFonfo de Noronha, filho de .Dora 
Fernando de Menezes , fegundo Marques 
de Villa- Real , c de Dona Guiomar Freiré^ 
Senhora da Villa deAlcoutim, por ayoca- 
famento fe ajuntou aqtielle Condado á cafa 
de Villa-Real , e ElRey D. Joáo Ihe fea 
mereé, que os primeiros íilhos dos Marque* 
tt$ íe. ¿nriíulaírem Condes deAlcoutim* Foi 

ef- 



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Dbc. vil Liv. i. Cap. VL yy 

cfte D. AíFonfo de Noronha calado com 
Dona Maria Deja, irmá de D. Pedro Deja % 
o de Santos o Novo , leve della D. Fernán* 
do de Menezes o Gago , que he efte que com 
e!Ie veio á India , e totnou as gales. Dotti 
Miguel de Noronha , D. Jorge de Noronha ^ 
e outro. Teve mais Dona Catharina Deja ^ 
que iendo Dama da Rainha Dona Cacharía 
na , cafou com D. Rodrigo de Mello , Con^ 
de de Tentugal : feu filho D. Fernando cooi 
tomar ásgales na India o nao vimos. defpa^ 
chado ) nem luzirem nelle muitas mercés ; 
ainda que fedizia, que Ihefahíram com as 
fortalezas de Cofiala , e Mozambique. Vivco 
D. Affonfo de Noronha pobre ; e tanto , qut 
depois de 1er dé fetenta annos, fervio a Irtíp 
fa nte Dona Maria de feu Mordomo mor ^ 
e Governador de fuá cafa. Foi de mea ef* 
tatura , bem alfombrado , homem de vcrda* 
de , continente , de pouco artificio , pelo que 
foi havido por de n^o muitó negocio : mor* 
reo de mais de fetenia e finco annOs, com 
muitos filhos f e ñeros honrados» £ ^ elle 
tambem Deoí nolfo Senhor o honrarla ni 
Gloria , porque era muito bom Chrifláo. Al*- 
gumás coufa^ fez na India muitó boas, bá« 
teo patdc6e» de prdca , que f<3i a melltor moe^ 
da que na India houve , porque por fuá pú^ 
reza corría em todos os RejrAOs ellrartgéi* 
ros. Come^QU a fortaleza, queeítá no mono- 
te 



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yá ASIA DE DioGO de Couto 

te dos Reys Magos , fobre o banco da bar- 
ra pera defensao daquelle canal , fe vieíTem 
gales contra Goa , do que fe temia , a que 

Í)oz nome CaJlello^Real ; mas ficou imper- 
eita , c affim eñeve muitos annos , porque 
x\to coftumavam os Vifo-l<.evs acabar o que 
os outros coroefáram , por íhes nao appro- 
varem fuas coufa?. E fendo Governador da 
India Manoel deSoufa Coutinho, fe refor- 
niou , e ao fopé mandou fabricar huma for- 
te coura^a , que corre até á borda da agua y 
pera ficar mais íenhora da barra , que con* 
tinuou Mathias de Albuquerque , e o Con- 
de da Vidigüeira D. Francifco da Gama a 
acabou , e mandou alimpar , e perfeijoar a 
fortaleza, que D. Affonlo deNoronha fez, 
que eftava hum mato bravo , e fa^er nella 
cafas pera apofento dos Capitáes ; e em feu 
tempo fecomecou da outra banda da praia 
defronte hum forte , que fe chama S. Fran* 
cifco, fobre o banco grande, que refponde 
a eítoutro , com o que ambas aquellas bar- 
ras ficam leguras , c fe podem cerrar com 
huma cadeia de maños , que nao deixem paf« 
far embarca^áo aIguma,por pequeña que feja ; 
€ com eflas obras corre a Cidade de Goa, 
e faz as defpezas do dínheiro de hum por 
cento, que os moradores concedéram pera 
á fortifíca^áo da Cidade. 



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Decada VIL Liv, I. ¡fj 

. C A P I T U L O VIL 

D9 que aconteceo a Termo Martins FréU 
re em Surráte : e da Armada que o Fi-^ 
Jo-Rey ordenou pera o bjireito de Meca z 
é do recado que mandou ao Imperador da 
Abajfia : e do que aconteceo a Vafeo dá 
Cunba com ElKey de Cbembe fihre as 
pazes. 

DEpois da cbegada de D. Fernando de 
Menezes a Goa , a poucos dias che- 
garam ao Vifo^Rey D. Pedro Mafcarenhas 
;is novas das naos que tomotí o Cafar , ó 
que elle fentio muito , edeterminou deman- 
dar huma Armada ao Eftreiro de Meca > pe^ 
raver fe fe podía encontrar comaquelle cof- 
fairo ; pera o que mandou preparar alguns 
navios de alto bordo , e outros de remo , e 
ajuntar marinhciros pera efta jornada» Dom 
Pedro Maícarenhas , filho de D, Nano Maf» 
carenhas, que tinha vindo com o Vifo-Rey, 
(e era lium Fidalgo de grande opiniáo , e 
defejofo de fervir a ElRey em lugares hon* 
rofos y ) tanto que teve efta nova fe foi ao 
Vifo-Rcy , e Jhe pedio de mercé aquella Ar- 
mada , pera come^ar a fervir a ElRey por 
aquelle lugar , pera delle fubir a outros , 
que elle trabalharia por merecer. O Vifo- 
Rey Ihe refpondeo por termos , que nem 

Iho 



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yS ASIA DE DiOQO DE COÜTO 

Iho concedeo , nem Iho negou de codo ; e 
todavía fempre elle efperou qne Iba déíTe. 
O Vifo-Rey corría com cHa etn fcgrcdoy 
íem fe declarar com alguem ; e porque a 
cofta do Malavar edava ÍÓ , defpedio pera 
ella a Gómez da Silva, (hum FidalgoGal^ 
lego grande cavalleiro , em quem muirás ve- 
zes remos fallado em nolTas Decadas , ) e Ihe 
dcohumagalé, e finco navios, que poren- 
táo Ihepareceo baftavam. Andaiwlo occupa- 
do nifto , Ihe chegáram cartas do Rey da Pí- 
fnenta, com outras doCapiráo deCochim, 
em que Ihe pedia aquelle Rey Ihe mandaC» 
fe hum Capítáo velho , com feus poderes, 
pera aííentar com elle os contratos das pa*» 
Tes ; porque D. AíFonfo de Noronha , pela 
grande preíTa que rivera de fe embarcar pe^ 
ra o Reyno , nao quizera acabar aquelle ne- 
gocio , pondo-I he a culpa que elle tinha ; 
porque como fe fentio culpado , quiz dar 
efla defculpa , (coufa muico ordinaria neftes 
Gentíos de rodo o Oriente , e aiiida de mui* 
tos Chriftáos da nofla Europa , o que fe íen^ 
te mais culpado , acudir primeiro a fazer o 
queixumc , por faberem <^viÍo ordinario he 
no Mundo aprimeira informajáo fazermais 
imprefsáo nos ánimos dos bomens. ) O Vi- 
fo-Rey > pofto que nao falrou qaem Ibe dif- 
le a verdade do cafo , quiz díflimular , e en- 
fecar aquelle Rey i jporque como era ehe^ 



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Déc- vil Liv. L Caí. VIL 59 

gado de úo pouco á India , bao quiz logo 
entrar com terror , nem moftrar-le pouco fof- 
frido i porque quando tambem foíTe nece£r 
fario , haviam de achar nelle rigor , e caf- 
figo. £ dando conta daquelle negocio aos 
Capitáes do confelho , pareceo a todos bem 
fuá determinajáo , e logo alli elcgeo a Vaf- 
eo da Cunlia , que acabara de fer Capiíáo 
de Chaul y pera íe ir ver com aquelle Rey , 
por fer hum Fidalgo muito prudente , de 
grande confelho, e muito refbluto nos net 
gocios da India ; e Ihe deo todos os feus 
poderes pera aífentar as pazes com acuelle 
Rey , e le fez á vela com finco , ou feis na- 
vios, quaíi nomefmotempo que Gómez da 
Silva partió pera o Malavar ; e em quianco 
faz feu caminho , continuaremoé com Feri*» 
nao Martins Freiré , que deixámos em Sur* 
rate no negocio das gales. 

ahí efteve no po^o , em quanto Ruy 
Freiré , e o Patrao mor fe deiivcram em cer- 
rar as gales , que foram fete dias , c em to- 
dos elles corrcram antre o Capitáo mor , e 
o Caracem muitos recados , com prcfentcs í 
e brincos curiofos de hum pera outro. Con- 
cluido o negocio , e desfcitas as gales em 
feis partes cada huma , ordenoü o Capitáo 
mor ficar naquella cnceada Pero Barrete Ro* 
]íai com dez navios pera efperar as naos ^ 
^e ba^iam devir doAchéqi femCartazcsj 

e 



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6o ASIA DK DioQo D12 Caufb 

e elle fe fez á vela pera Bagaim. E porque 
neíla jornada de Pero Barrero nao iuccedeo 
coufa noravei , o deixaremos aquí. 

Fernáo Martins Freiré acliou emBa^aim 
multo dinheiro, que o Vifo-Rey Ihe tinha 
mandado , com que fez huma paga aos íoU 
dados ; é dcpois de fazer. alguns negocios , 
deo á vela pera Goa , aonde chegou em pou* 
eos días , e o Vifo-Rcy pelo honrar o ef- 
perou no rio na fuá manchua , e o recolheo 
nella com muirás honras , e depois Ihe fes 
mercés a eile,^e a todos. E porque nao e& 
perava mais que por elle pera fe declarar na* 
Armada que fazia pera o Eñreito , o com* 
metteo com ella ; mas (obre mais navios , 
e coufas que Ihe pedio, defarmáram; o que 
vifto pelo Vifo-Rey , mandou chamar Dom 
Pedro Mafcarenhas , que Iha tinha pedido , 
c o commetteo com ella ; e como elle ti-^ 
nha já fabido que Fernáo Martins Freiré 
iha engeitára , tomou-fe tanto diflb pelas 
coufas que ambos tinham paíTado , que em 
íe fahindo do Vifo-Rey , frctou hum navio , 
cm que logo fe embarcou pera Dio , onde 
inyernou com D. Diogo de Noronha , Ca- 
pitáo daquella fortaleza , e o anno feguin-^ 
te fe embarcou pera o Reyno fem querei: 
ver o tio. Vendo- fe o Vifo-Rey defarma* 
do de Fernáo Martins , e de D. Pedro , 
ideo a Armada a Manoel de Vafconcei* 

los^ 



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-Dec. vil Liv. L Cap. VIL 6t 

los y que foi conrendo com ella coro inui«> 
ta prefla. 

£ porque trazia muito encommendado 
de EIRej mandar vifitar o Imperador da 
Ahaília , e mandar-Ihe as cartas que Ihe eí* 
crevia fobre o Patriarca , e Bifpos , que o 
Papa. Ihe rinha concedido , ajuntou a confe» 
Iho o Bifpo D. Joao de Albuquerque, eos 
Prelados das Religióes , e Ihes deoconta da-' 
quelle negocio , e a todos pareceo bem que 
fe niandaíle hum Religiofo da Conipanhia , 
e. com elle .Diogo Dias do Prefte , que fe 
achou prefente naquelle confcUio , por fer 
hum dos que láandáram emtempo deDom 
Chriftováo da Gama, e que a voltas da vi-* 
lita^áo apalpaflfe o animo com que aquella 
Imperador eftáva na mudanza dos coílumes ^ 
e recebimento do Patriarca Catfaotico ; e que 
achando-o fácil , como ElRey defejava , ft* 
caíTe o Religioíocom elle inftruindo-o nof 
coílumes Romanos , e preparándolo pera 
quando cbegaflfe, oPatriarca.; porque fe nao 
navia de abalar de Goa fenao dcpois que 
foubeíTe fe eíláva. capaz do que fe perren^ 
dia» 

Concluidos üifto, nomeou o Provincial 
da Cómpanhia , o Padre Meftre Gongalo; 
por fcr hum Váraa douto , e dr vida ex^ 
emplar ; e por companheiro ap irmao Ful- 
gencio Freice^ que foraFeitor de.Ba^aiqíf 



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6t ASIA DE DiOQO DE COUTO 

e ^persí o levar , roandou o Vifo-Rej nego- 
ciar huma galeota , de que fez Capitáo Fer« 
nao Farto, (por íer o mais amigo homem 
daquelle Eílreito , e ter entrado nelle fete » 
ou oito \czcs , ) que partió de Goa em Fe^ 
verciro , em que tamfaem Manoel de Vafcon- 
cellos fe fez á vela com a fuá Armada y que 
era de tres navios d'alto bordo, e finco rul^ 
tas , de cujos Capitaes nao achámos os no* 
Oles y que foram feguindo fuá viagem ^ em 
que os deixaremos , porque he neceflario con» 
tinuarmos com Vafeo daCunha, quedeixá-* 
mos partido pera Cochim. 

Chegando efte Fidalgo aquella Cídade | 
defpedio Chriílováo de Azevedo , Alcaide 
mor, com recado ao Rejr da Pimenta i^do 
n como era chegado com poderes do Vifo- 
9 Rey , pera acabar de concluir as pazes com 
» elle y por Ihas elle mandar pedir por fuas 
» cartas ; que elle eílava prefies pera tudo , 
~3 que viíTe o modo que niífo queria ter ; e 
B por Ihe eile mandar dizer , que eftava mui 
» alvoro^ado pera cuniprír tudo o que ef» 
)icrevéraaoViíb-Rey, que fefoílever com 
% elle , o fez ; » e foi furgir com huma foiiv» 
má de embarca^óes , qjue em Cochim k a* 
juntáram defronte do Pagode de Vaigéta j 
4>nde logo teve recado de ElRcy de vifira* 
$ao , e Ihe pedio ji que aquelle dia defcan** 
f gafle ^ que ao outra pela manhafe viriam ; j^ 



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Dsa Vil. Liv. I. Cap. VIL 6} 

ao que o eaganou , porque gaftou quatro 
em recados , e entretimeotos ^ e ao quinto 
Ihemarxiou dlzer » que fe quería que fevi& 
» iem , havia de fer á borda da agua y com 
» fó unco Portuguezes de efpadas , e rode- 
)» las » e que elle havia de ter dez dos feus 
y Naircs. » Nido nao reparou Vafeo da Cut^ 
nba , e Ibe mandou dizer ii que era diílb mui* 
» to comente ; » e adim fe íscou preparando 
pera as viíba do dia feguinte. Eihixlo já 
preñes , efperando que ElRey chcgaíTc , ha* 
vendo oue nao haveria düvida nas vidas , 
chegou oum Naire , que fervia delingua de 
ElRey , e diOe a Vafeo da Cünha 3 que El- 
91 Rey Ibe snandava pedir, que fenáoenfa^ 
1» daíle y que Ihe fuccedéra bum negocio de 

> muita importancia , porque o nao podía 
»ver; que Iberogavamuito, queficaflepe* 
31 ra o outro dia , que fem dúvida fe viria 
]»ver eomelle.ji Vafeo da Cunhamuito en- 
fadado daquelles engaños , Icvou o Naire pe» 
los cabellos, e apunbando da efpada y difle 
ao lingua : nDizei a efte Naire que Ikei^o 
acorto a cabera, porque leve a EIRey e& 
>te recado; que ibe vá dizer, que a snim 
)» me cbam^icn Vafeo da Cunha , que. fou 

> muiro conbecido por toda a India , e que 
iimelboress lrf¿ravos teaho naminha eftceba^ 

> ria pera fcr viren) os meuis cav altos y do que 
>elle ke.» O lingua ¿í;ük».qtte tAa'koj^ 

B tu- 



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¿4 ASIA OB Dioóo DÉ CovTo 

^tumava a fallar aílim aos Reys;» do que 
Vafeo da Cunha fe irou tanto , que arran- 
cou da efpada , e diíTe ao lingua n que fe 
» Ihe nao dava aquelle recado , Ihe havia de 
% cortar a cabefa. m O lingua multo medro- 
fo iho deo ; mas como era em lingua Ma« 
lavar , que Vafeo da Cunha nao entendía , 
feria qual elle quizeíTe. Vafeo da Cunha fol- 
tou o Naire , que fe tornou multo aflbm- 
brado pera a térra, e lá contou aEIRey o 
que Jhe fuccedéra. Tanto que fe elle delem- 
barcou , mandou Vafeo da Cunha levar an- 
cora, e tomar o remo pera fe Ir pera Co- 
chlm ; e fendo hum tiro de efpingarda af- 
faftado da térra , Ihe capeáram da prala : o 
que vifto por Chriílovao de Azevedo , che- 
gou*fe ao navio de Vafeo da Cunha, e Ihe 
diíTe ique o bom feria tornar a voltar a 
n ver o que aquelle Rey quería ; » ao que 
elle multo apaixonado Ihe refpondeo d que 
jifetiraíTe dediante delle, porque mals me- 
» recia elle que IhecortaÁem a cabeja , que 
9 ao Rey da Pimenta ; » e paíTando por di- 
ante , fe fol pera Cochlm , íicando aflím ef- 
tas coufas , fem fe tomar nellas conclusao. 
Era ¡fto na íemana Santa , e logo día de PaP- 
coa pela manhá entrou Gómez da Silva , 
Capirao mor do Malavar , pela barra dentro 
com quatro , ou finco paros de Malavares , 
que tbax)u c<^ todo leq^recheic. E reco^ 
...;tt Ihen- 



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' Dec. vil Liv. i. Caí. VIL 6f 

Ihendo alli as naos de Malaca , China , Ben« 
gala , e mais partes y fe partió pera Goa ^ 
aonde chegou com huma formóla frota de 
navios , carregados de multas fazendas. Qua- 
íi no mefmo tcmpo íurgio tambem na bar- 
ra de Goa a nao Efpadarte da companhia 
do Vifo-Rey D, Pedro Mafcarenhas , que 
foi invernar a Ormuz , como diflemos. E 

f)or(jue Fernáo Gómez de Soúfa, que nel- 
a vmha por Capiráb , trazia a Capitanía de 
Cochim , o defpachoü logo o Vifo-Rey pe- 
ra ir entrar nella ; e o mefmo fez a AiFon- 
fo Pereira de Lacerda , Capitáo úue lá ef* 
tava , pera de lá ir fervir a Capitanía de Co* 
lambo em Ceiláo ; e defpachoü tambem Dom 
Duarte De^ , pera ir entrar na Capitanía de 
Maluco , que foi embarcado na nao Con* 
pei^aOy de que era Capitáo D. Jorge De^a, 
que eftava defpachado com aquellas via- 
gens. Defpedidos eftes Capitáes , e recolhi«« 
das as Armadas , fe cerrou o inverna 



(Súuto.Tom.lF.P.l E CA- 



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^6 ASIA PÉ DiOGÓ DE COÜTO 

CAPITULO VIII. 

Do que aconteceo a Manoel déVafconceUos 
no FJlreito : e de como Ferndo Farto lan* 
cou os Padres em Arquico i e do que ^- 
conteceo ao Padre Mejire Gonzalo ati á 
Corte daquelle Imperador : é de todos os 
Reys que howve defde a Rainha Sabd ati 
ejíe Claudio : e do que o mefmo Padre paf^ 
Jbu com o Imperador. 

PArtido Manoel de Vafconcellos de Goa , 
como diíTemos atrás no Cap. VIL , e.em 
iba companhia Fernlo Farto , que levavaos 
Padres pera irem a Abaflia , foram ieguindo 
fna derroca até ktverem vida da cofia daAra-f 
bia ) e Manoel de VafcoiKeilos k foi lanr 
pr com toda a fuá Armada a Monte de Fé- 
lix ^ como levava por regimeato , pera allí 
eíperar as naos que haviam de vir do Achem } 
«alli eflere até fe Ibe gaftar a mon^áo , fem 
Ihe vir. cibiralguma nasmaos. Efeodo teoar 
po de fe recolher a invernar em Mafcate, 
pera recolher as naos de Ormuz , e Ihe ir 
dando guarda até Goa , por fe recearem do 
coíTairo Cafar , fe fez á véJa , e foi furgir 
naqueJle porto , onde defapparelhou , e ef- 
teve até Setembro , e entrada de Outubro , 
em que recolheo a íi todos os navios* E por- 
que ella jornada nao foi de mais effeito ^ con- 
cluimos aqui com ella. 



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D«€- VIL Lir. I. Caf. VIH. «7 

T^Dto queFernío Farto homre vifta da 
cofia d« Arabía » foí demaiidaf « boca do 
EñrcitQ da banda do Adiém , ppr onde f »•• 
irou y e fol daJU tomar Mapuá. E no porto 
deArquico ianfou os Padrea > eDiogoDiaa 
do Prefte , e eíle fe foi pelo Eftrf itp per» 
lomar fai Ja das gales ; e acbaiido certe» wt 
nao fe buJJia cojn ellas, e que f<i aa i^C^r 
fár efiavam varadla vv^it^u pera Goa , e 
deo relajo ao Vifo^^y do que fAffBv$^ 
íh Padí«« depok que df fembarcáríim ero Af^ 
qiiico , í:cmb algum appareiKo qu« allí achá-^ 
ram, foram ter aterras doBamagaía, q«ie 
os recebao bem , e Ihes deo todo o mc¿{r 
farío fara paflára» i Corte do I(Qperadi>f 
Claiidio , a Qii^ 0$ ajudáram alguoa Forjtu- 
guezea que aUi^ftavam^ que 09 r^cebérain ^ 
eag^z^lbira» outto ^qi, e ie negociáram 
j>era os acompanhar , como fizeram , e pjar- 
tmm d^ ftároá muiu> ben^ proy^a ái tu- 
llo > efbra«n na derrota daProyiflcia ésCíh 
rajé > oode o íisperador ^ava , que iie co^ 
áa de (^earioa , ^ jaí^áorfe da ¡M^ocederem 
¿Qs ^oo^aiüos , que aüi ficáraro , de quando 
^queü^ PfoyiAcias foram £iaa ; ie em pou^^ 
<aa diaa irliegáüam á Corte ^ onde fora^i muir 
«o baiQ redbiáw ie noy^nra e tres ?omr 
^9Ki • ^om» tmmp limpoa , .« iboiuradoa » 
tque :§eii9to da ícompanhia df PirCbrjdovió 
4a C^MM. £fta9ra mOt teofip m^^ Impp- 
£ ii rio 



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*68 ASIAde DioQO de Couto 

rio muito attribulado , equaíi perdido coiti 
guerras , que Ihe faziam dous crueis ininií* 
gos: huns, eram osMouros deAdel favo* 
recidos dos Turcos deZebit, queja des do 
tempo de D. Chriftovao da Gama continua- 
vatn , como no Cap. XIIÍ. do VIII. Li\r> 
da nofla quinta Década demos larga conta ; 
e os outros , huns Cafres crueis , e barba- 
ros , chamados os Gallas , que confináo pe- 
lo cenáo com as térras daquelle Imperio , 
3ue faziam muirás , e mui continuas entra* 
as por ellas com grandes damnos , e crue* 
2a$ , com o que aquelle Imperador andava 
inquieto , e attribulado. Os Portuguezes , que 
diflcmos , cujo Capitáo era Gafpar de Sóu- 
fa y agazalháram na Corte os Padres muito 
honradamente , e fizeram fabef ao Impera- 
dor de fuá chegada y que os mandou viíitar , 
e prover. 

E primeiro que paflfemos daqui , ferá 
bem que demos rela^áo de todos os Reys » 
que reiiiáram nefta parte da Ethiopia , des 
da'Rainha Sabá até hoje ; porque no Cap. 
X. do VII. Liv. da noíTa quinta Decada a 
nao demos de mais , que daquelles Impel" 
radores, que fuccedéram depois que defcu- 
farimos a India , pela nao termos táo perfei- 
íamente como hoje , que no-la mandou de 
lá o Padre Belchior da Silva , Sacerdote 
•Theologo Fregador , Cííwiitn de nafáo , naP 
i . ci- 



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Dec vil Lir. I. Cap. VIIL é^ 

cido em-Goa , que nó anno de noventa 6 
oito, fcndo Vifo-Rey da India o Conde da 
Vidigueira , o mandou por adminiftrador d4 
Chriííandade daquelle Imperio até prever de 
Religiofos en) quanridade y havendo commó* 
didadepera fe embarcarem* Ecomo eftebo- 
mem era curiofo , tirou de huns livros an« 
tigos , que achou em huma daquelias Igre- 
jas , o catalogo de todo* os Reys , que reiná- 
ram na Ethiopia fobre o Egypto , depois 
da Rainha Sabá , a quem fe deve dar mais 
crédito que a outros efcritores i porque 
fempre osChronidas prpprios tem mais au« 
tboridade no fundamento de feus Reynos > 
c origem de feus Reys ,, que os alheios. • 
£ porque entre alguns efcritores hagraíi» 
de controveríia fobre efta Rainha Sabá , qim 
alguns cuidáram mal , que he a mefma qg& 
CandaíFes , dirismo^ agpra o que fobre ido 
efcrevem , e fe he efta a que chim^m Nít 
tochris / Nicaula , ou CandaíTes , e a difl^ 
ren^a que ha de huma a outra» Jofefo , e 
Heredóte conformam ambos no ten(ipo do 
reinado deíla Sabá ,. ou Nitochris ( como Ihe 
cllesxhamam. ) Dizeixieftes, que depois que 
em Egypto reinóu Merte , que fundou^Mem^ 
fis , ( pofto que Apolodojro diz , qwe a fun^ 
dou Ephapho , ) reináram trezentos ¡e trin** 
ta Reys , de que os dezoito foram Ethio- 
pes» £ depois deftes. reinou Nitochris » que 

Jo- 



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76 ASIA üE Dto«6 DÉ CaxJfh 

Jofefd áit , QM foi Rairtha dó Égypta fiiM 
bre á Ecbiopia ^ e cpxt ion vi&m a £lRejr 
SdlamSo. 

Así hiftórías Abeitini dizetñ , que a R^h 
nba CandaíTes , por outro nome Guiñdich ^ 
era da Cidade de Acutuma 5 e que etn feu 
ttíStipú entrara a Chriftandade naqtieUa térra ^ 
pelo modo que fe conta nos Adiós dos A-» 
poíblos , onde diz que apparecéra hum Anjo 
a S, Fiiippe , e Ihe diíTera , que fe alevan- 
táfít y e fe fbfle pera o meio dia , e feguil^ 
le aquella eftrada dckrtÁ , que vai de Jeru- 
faiem a Ga^a ; o que S. Fiiippe fizera y e na* 
quelle cáminho encontrara hum Eunuco da 
Kainha CandaíTes , que vinha de vifitar o 
Templo de Jerufaiem , e hia fobre huma car- 
ftra lendo huma profecia de Ifaias ; e que 
S. Fiiippe Ihe perguntára fe a entendía : e 
fefpOñdeñdóelhe que nao , Iha declarara ^ é 
póf ella fe converteo logo alli , e S. Fiiip- 
pe o bautizara. £ que chegando eíle £unu« 
eo i Raifiha , Ihe Cobrara tudo o que paíFá- 
fli com o Santo , e ella fe converteo logo , 
t ó feú Reyno com día* Pelo que fe verá 
a grande difieren^a que ha da Rainha Can^ 
daflea i kainha 8abá ; porque efta concor»- 
reo em cempo de EiRey Salamáo , que foi 
antes da viuda de Chrifto ; e a ourra no de 
S. Fiiippe* , qué ha muitos annos de dííFe- 
ftn^« E fegundo parece a alguns doutos i 

nao 



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Dbc. vil Liv. i. Ck7. VLIV jt 

fláo era muico que nefta Ratnha Sa6á ,íc a» 
cabaíTe a Oioaília 2i. e ElRey Sefac.^ Dif 
zem imis Jofefo , Nauclero , e Cedreno ^ 
que añtre as coufas que a Rainha Nicauli 
levou , e offcrcceo a Salattiáo , foi a arvoi- 
fK , ou parra de Balfamo , e que dalli por 
diante ficou plantada em Judéa ; pofto qué 
Solmo diz, que efta preciofa parra , depois 
que os Romanos le feíilioreáraní do Egjr*' 
pro, a plantáram emmukas partes. Era eíf- 
ta Rainha tamanha Senhora , que fe eften*- 
dia feu Imperio des do mar doEgypta até 
o de Cofala. ^ 

Já que eíhmosi com eftas coufas entrt 
maos, ferá bom que medremos queProrin^ 
cias sao as de Ophir , e Tharíis , onde Sa^ 
Jamao Rey de Jeruíalatn manda va bufcar as 
coufas prectofas pera o Templo, pelas Ta^ 
rias opinióes que ha fobre iífb antre os e& 
crítoces. E trataremos primciro da de Ophir ^ 
ique todos tem por Q)fala ; porque parece 
que aíiim diamavam entáo a toda aquella 
Cafraria ^ donde hia o ouro pera o Teni^ 
pío de Salamáo y e que o Rey de C^o&la , 
que todos tem porOpfair, devia de fer na^ 
queile tcmpo Senhor de rudo o que hojt 
poíTue o Manamotapa; ecomo fe nomeava 
por Rey de Q>£ala , comprendía debsixt^ 
deAe titulo t<^as as térras que poébia. Mas 
a verdade be ^ que Opiíir he jiuma Provine 
:^ cía 



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7^ ASIA DE DiOGO DE COVTO 

cia deManamotapa ^ que fe chama ^a(ca» 
pa , onde eftá huma grande y e formofiffima 
ierra , que fe chama Afura , ou Aufur , que 
tem muita femelhan^a nonome comOpnir. 
Efta ferra fe vé de muito longe por fer niui^ 
to alta y e nao deixam fubir a ella nenhum 
Portuguez , porque he mui rica de ouro ; e 
alguns que lá foram ás efcondídas , acháram 
ruinas de grandes edificios que alli eñiveram , 
que os Mouros muito antigos aíErmáram ^ 
pelo ouvirem aíEm a íeus antepaííados , que 
ja alli eftivera a Rainha Sabi. Mas o m'ais 
certo he , que teve alli fortaleza , e feitoria , 
como tambem o foi aquelle grande edificio , 
chamado Zimbaoe , que eñá no Reyno de 
Butua. Eeftas fortalezas, ou feitorias man* 
dou aquella Rainha fazer pera fenhorear a- 
quellas minas de ouro y por ferem as mais 
profperas de toda aquella Cafraria , de que 
ella (conforme asefcrituras Abexins) foi fe» 
nhora , e depois della feu filho Salamáo , e 
daqui fe tlrou o ouro y que ella levou a of* 
ferccer ao Templo de Jerufalem. 

Pelo que feenganam os quedizem, que 
Ophir era huma Ilha pofta no mar doSuI, 
que foi defcuberta por Chriftováo Colon , 
que devem de dizer pola Hefpanhola. E al* 
guns fazem (^matra a Ophir , e outros a 
p6e por outras partes , 4iáo íei com que fun- 
damento* E prova mais eila minha opiniáo 



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Dec. vil Liv, i. Cap. VIIL 7j 

a tradi^áo dos livros Caldeos dos Chriftáos 
das ierras de S. Thomé , que dizem Ophír , 
eAufur^ eque efta heQ>rala, conforme ao 

2ue me efcreveo o Biipo da meAna ierra 
). Francifco Roz. 
A Provincia Taríis y onde Salamáo tam- 
bem mandava fuas Armadas a bufcar coa-** 
fas pera o Templo , por fem dúvida tenho 
fer todo aquelle feio de Pcgú , e Tanaja- 
rim , que em alguma couía parece efte no» 
me. £ em Onefecrito author Grego achá- 
mosy que fallando na Tapobrana , diz^ que 
era de finco mil eftadios , e que eílava apar- 
tada dos póvos Prafis fobre o Gange efpa^o 
de vinte jornadas. £ deixando fe falla aqui 
de C^amatra , fe de Ceiláo , porque iífo te^ 
nho averiguado no Cap. V^ do I. Liv. da 
oiinha quinta Decada , onde fe ifto veri mui^ 
to bcm , vamos á Provincia Tarlis , que te- 
nho pola dePegú, eTana^arim, que One* 
fecrito chama Parfíjs , que diz eílar fobre o 
Gange , em que difiere táo pouco , que náó 
be mais que na primeira letra fer T ^ ou P, 
Efta Provincia he riquiffima de ouro y epe^ 
draria y e infinidade.de marfim, pela gran* 
de dSpia , e numero de £lefantcs que jnella 
ba. £ as Armadas de que a Divina £fcritu* 
x^ falla y que Salamao mandava a Ophir y, e 
Tarfis, fendo táo diftante como he o de (Ro- 
íala aPegií^ nao ha pera que p6r dúvida a 
. . * if- 



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74 ASIA deDíogo'd E Courb 

iflb, porque ascoufas hiam-febufcar aonde 
as havia. E ainda nao duvido que as naos 

2ue hiam a Pegú bufcar as coufas que di& 
s , que pailaílem diante a Malaca , e a Ga*^ 
matra , e a Manancabo 5 e ainda a Timor 
a büfcar o ouro , e a rica , e formofa ma- 
deira de Águila , e de Sándalo branco , e 
vermelho ^ e todas as mais coufas precioías 
que ha por aquellas partes. E como faziam 
táo diferentes viagens donde fe haviam de 
efperar mongóes , de forja , e neceíBdade fe 
baviam dederer otempo detresannos, que 
a Efcritura Divina d¡*z. 

£ quanto ao que diz Rábano , author 
que fe tem por grave 5 que Ophir era hu* 
tna Ilha deferta no mar da India , onde ha«> 
via multas feras , e muito ouro , nao Ihc 
acho fundamento ; porque fe era deferta , e 
chela de bichos pejonhentos , quem a pe^ 
netrou , e vio o ieu ouro pera dar razáo 
delle ? E hoje temos defcuberto tudo o que 
ha nefte mar do Oriente , a que chamamoá 
India , aílim intra , como extra Ganges , e 
fAo fabemos Ilha alguma que tenha ouro ,. 
nem aínda térra firme, fenao os Rey nos de 
Pegií , e Siáo , e Manancabo , e Qmatrai 
Se nao fe eflas Armadas paíTáram adiante i% 
Uhas de Salamao , que eftam junto i térra 
firme da nova Guinea , onde diz haver mul- 
to ouro> que ha poucoa annos que s3fo fa¿ 

bi- 



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DfcC. VIL Liv. I. Cap. Vllt 75 

bidas denos. Epela ventura que deltas Ar- 
madas fe ñcafíetñ chamando as Ilhas de Sá» 
lamSo I porque nSo ac^bo donde pudeflten 
ttr efte noroe. Tomemos agora a Kainha 
Sabá. 

Alguns efcritóres duvklam que ella fefle 
Rainha herdeira direítamente daquellcRey^ 
no , e allegam pera iíTo Lei feita per Sala* 
máo, em que defende, que naheran^a da* 
quelle Reyno nufica fuoceda femea , como 
ó afiirma o Bifpo Zagazabo , de que démoa 
rth^io no Cap. V. do I. Liv. da noíTa quar« 
ta Decada, de quando foi por Embaixador 
a Portugal em companhk de D. Rodrjgd 
de Lima , que era douto , aflim ñas letras Di* 
vinas , como humanas ; e trata ido muito 
bem tm hum livro, que compo2 das coufas 
da Ethiopia , muito diligentemente^ Ao que 
alguns eícf ¡torca dSo fuas razóes ^ e vem as 
mais a concordar, que fe chamaría Rainha ^ 
por fer mulher de Rey , como he coíhime 
itíitre os Reys ChriñSos , principalmente no 
noflb Rcyno de Portugal, onde as mulhe* 
fes dos Reys , depois de viuvas , em quanto 
▼ivem y nSo peidem o tal nome , ntm a ve* 
nera^io que fe Ihes deve. Mas a mim me 

Í)arece que foi verdadeira herdeira daquel* 
e Reyno , e que fuccedeo nelle a feu paí 
})or nao ter flthó , áflim como fuccedeo no 
de Caftella a CathoÜca Rainha Dona IfabeU 

E 



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yS ASIA DE Dreao de Couto 

E pofto que o Bifpo Zagazabo allegue 
aquella Leí ^ pode fer nao feja feita por Sa* 
]amáo Rey de Jerufalem , lenao por feu fir 
Ihd Salamáo , que houve nella Rainha Sa« 
bá , como logo diremos ; porque o Rey di 
Jerufalem nao era Senhor dos Reyno^ da 
Ethiopia pera IhesdarLeis. Eque Jeja ver- 
dade que eña Rainha Sabá viera prenjie. d^ 
EíRey Salamáo , quando o foi vifitar a Jer 
rufalem , fe verá muito claro no Tratado 
do Padre Francifco Alvares , que quando-foi 
áquelle Imperio com D. Rodrigo de Lima> 
diz que achara huma Chronica em lingua 
Abexim, em cujo principio dizia, que for 
ra feita em Hebraico , e depois em Caldeo ^ 
que come^ava defla maneira: 

Sabendo a Rainha Maqueda os grandes » 
e admiraveis edificios que ElRey Salamáo fa« 
zia em Jerufalem , dcterminou de os ir ver , 
ecarregou alguns camellos deouro pera as 
defpezas daquella obra. E indo feu caminho^ 
íendo perto da Cidade de Jerufalem, eflan- 
do pera paífar hum ribeiro , que fe íervia 
com huma ponte de pao , ou por dous for« 
tnofos madeiros^ arrebatada de hum efpiri« 
to pfofecico , defcavalgou , e pofta de gio- 
Ihos adorou aquelles madeiros , dizendo : 
»Que nunca Déos permittiíTe que feus pés 
31 tocaflem aquellas través fobre que havia 
31 de padecer aínda o Salvador do Mundo;» 



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Dec vil L IV. i. Cap. VIH. 77 

6 foi rodeando o rio, e bufcando váo. E 
chegandd ajerufalem, feaprefentou a Sala* 
mSo , e Ihe oiFereceo os dóes que levava ^ 
e Ihe pedio » que mandaífe tirar dalli aquel- 
»1es madeiros , » dizendo a razáo porque. E 
vendo os edificios , diíTe : y^ Que nao Ihe fou* 
>beram dizer da grandeza daquella obra , 
)» e que verdadeiramente era muito maior do 
31 que Ihe diíTeram ; e que ís foubera a tna« 
9 gnificencia del la , nao trouxera táo pjeque» 
jinos dóes ; mas aue tornaria a feus Rey« 
^ nos , e que de lá Ine oíFereceria outros ma* 
3i iores ; » e nos dias que efteve em Jerufa*» 
lem, houve Saiamao nella hum filho , que 
fe -fícóu creando na Corte atQ idade de dez^ 
efeis annos , que era táo feroz , e foberbo , 
que por fe queixarem ospóvos delle aopai^ 
b mandou pera Erhiopia , onde a mai reí- 
nava , e Ihe nomeou o Reyno de Gazé ; c 
^ue viera a fer tamanho Senhor , que fenho* 
Teára de tnar a mar , e que no da India tra- 
nsía de continovfetenta naos groíFas pera de- 
fensSo de feuEftado. Tudo até aqui he da 
Chronica Abexim , que o Padre Francifco 
^Alvares refere no livro que compoz daquel- 
Javiagem. Donde inferimos oque diílemos) 
que nao iicou ao marido deila Rainha Sor 
bi herdeiro algum • por fuá morte , e qu? 
c íilho que houve de Saiamao veio a herdar 
tudo i e que antes de víf aferRey. fe ^ha- 

ma- 



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78 ASIA DÉ Diooo DB Cqvvó 

ftava Mihiiecha , c a mai maiidou qtie f« 
cbaroaíTc Salamao como o pai , e n^ik fe 
cometa o catalogo dos Reya ouc depois dd* 
la houve , como o nóa aqui fa^eoioa. > 

Salamáo , Amna Sahacam , Baren Gabp t 
Sabacio , Thoafca , Adona , Aufayo , Orna* 
ció 9 Choá , Luvo I Autata , Bahaca , Sava^ 
da , Adina , Gotolea • Safalca , £lgabu) « 
Bautaul , Bavarcs I. Bavares IL Mahafe ^ 
Nalque, BalzoL 

No oitavo anno defte Balzol , dJzem fua« 
efcrituras que nafceo Chrifto , e depois de 
íeu Nafcímento reináram os Reys leguíntes* 

Chempaa Gad , ou Bfaur Sagad , Grima 
Cafír , Sarado , Cucu Bacbeon , Sargay , Ze- 
ray , Saoa Afgad > Cheona Gaya , Macugjna ^ 
Sa&rad, Agdar. 

Abraba , e Cabaha , ambos írmeos , qm 
reináram juntos , e conformes, emcpjocem- 
po foi á Ethiopia hum Patriarca , chamado 
Minaros , e por outro nooie FantaJeao , <\w 
prégou a Lei de Chrifto ; e ppdo que no 
priocipio fugíram delle , depois que eoceo*- 
deram fuá dootrina, a toroáram a ouvir, e 
nuiifos íe cooverréram á F^ de Chrifto , e 
Ibepuz^ramnom^AbafaJáot quequerdizer^» 
|mi da paiu A ellos fucc^deram os feg^mes* 

Haípba , Arfid , Anci , rodos tres irméos , 

2U^ govemácam fucceflivameote, Arada , Afa 
adovj y Aiaafliid. . 

No 



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cD«G. vil* Lxv. I. Gar VIII. 79 

": No Tcin^do dcftc Amamjd foram tef 
a Abadía ihuitos Frades íántos a pregar a 
l^ei rde ChriAo , e doue H.eys ChríftSos com 
grandes exercitos por vía do mar Roxo, « 
os natttfM! íerecolliéram pera os matos, e 
Ofi Rej^a ñciv^m fenhoreando a térra » ina$ 
íuas eicrittiras os nÍo nomeam , oem dizem 
fe reina ram Juntos , mas dizem que depoii 
delles houve os Ktys feguintes» 
' Thazena , Caleb , Gabra Maíeal , Con- 
fianrinus , Bafgar , Zanfagad , JPrey Seoay ^ 
Adoraza , Aidar , Madai , Calaudamo 9 Gri* 
ma Asfar j Zérgaza , Digna ft^icliael 9 Bud 
Gaza , Arma , Aabanani , Oigfu Zaoa > Am^ 
hafa o dcm o Delnaad. 

Todos eftes Reys dizem que yem pof 
litiba direiía da Ramha Sabá , ou de Sala- 
mió íbu íiibo ^ e que eftoutroa que fe le- 
guem sao de outco Tribu ; por oode pare-^ 
ce que aqoeiJes dous Keys , q«e eniráram a 
fouquifiar aqueile Reyno , fe acabiram ]ieilc« 
Hicu jámale , Agba Acheon , Bhar Sa-» 
gad 5 H^faa Sarad ^ Cama Afgad , Udamo 
Arad , Anda Cbeon* Cci& Arad , Ud Do^ 
ina , David , Tbeadros ^ Ifac , Andonas » Adn 
oavi , Anda Jefos , Bad LtnaTi , Jarai acob> 
Beda Mariad ^ poj* outro fiome Zeriaco. 

. Heiomder ^ por . optxo oome Aiezan» 
dre. , s}iie ialftceo 00 ^mp o que Vafeo da 
Gama defcubrio a. india y qtm &l q iqpm 

t. . u que 



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8o ASIA DH DroGo de Couíro 

qae fiallou Pero de Covilhá , que foí por 
térra. 

Anda Cheon , por outro nome Naut ^ 
que reinou doze annos. 

David feu íilho , que íicou menino de* 
baixo da tutoría de fuá mái Helena , que he 
o que mandou o Imperador Matcheus ao 
Reyno , e a quem EIRey Q. Manoel man- 
dou D. Rodrigo de Lima. 

Oena Saged , filho de David , em cujo 
lempo foi D. Chriftováo da Gama áquelle 
Imperio. 

Claudio , ou Athana Saged , filho de Be* 
na Saged , que he efte que reina nefie tem-* 
po , e efte foi morto pelos Mouros , e fuc<« 
cedeo-lhe elle. 

E tornando a continuar com o Padre 
Meftre Gonzalo , depois de defcan9ar alguns 
dia$y muito bem férvido, eagazalhado de 
todos os Portuguezes , foi levado ao Impe-» 
rador Claudio , que o recebeo muito bem ^ 
e elle Ihe deo as cartas de ElRey , e do Vi- 
fo-Rey , efcritas em lingua Portuguez , e 
Abexim , que elle recebeo com muito alvo- 
ro^o , e por ellas entendeo a ten9ao de El* 
Rey ; e defpedindo o Padre ^ mandou que 
o proveíTep] de todo o neceíTario ; e dahi a 
alguns dias o ourio, prefentes os feus Gran- 
des , e elle Ihe deo a embaixada que kva^ 
va y que continha o íeguinte^ 

»Que 



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Dec. VII. Liv. L Cap. VIH. 2t 

^ Que EIRey de Portugal feu irmáo Ihe 
» mandava pedir ^ que a exeniplo de feu pai , 
)ie avó, fegüííTe o verdadeiro caminho de 
» fuá falva^áo, e communicaíTe com os Ca- 
li tholicos , dando a obediencia á Santa Sé 
»ApoíloI¡ca , c Igreja Romana, como ca- 
9be9a de toda a Chriílandade ; que elle ti« 
)» nha fignificado ao Summo Pontífice feu de- 
» léjo , conforme ás cartas que elle fobre 
> aquelle negocio Ihe efcrevéra. Que movi- 
)»do de feu fanto zelo, Ihetinhqi concedido 
)i hum Patriarca , e dous Bifpos , que fica- 
)) vam em Lisboa , pera virem na primeira 
)» Armada ; que havia elle de eñimar muito 
)io amor com que o Vigario de Chrifto fe 
» movia a acudir a feus rogos , e a Ihe man- 
» dar os mais efcolhidos Varóes que pode , 
» pera o inílruirem a elle , e aos feus nos 
3» coftumes Romanos , pera poderem digná- 
is mente fer chamados irmáos dos Fiéis , e 
1» filhos da Igreja. % EIRey ouvio mui bem 
tudo o que Ihe o Padre difle; mas como eC- 
tava traftornado de feus primeiros intentos* 
e tinha determinado de nao mudar os cof- 
rumes antigos de feus antepaífados , fícou tur- 
bado , e confufamcnte refpondeo com pala- 
vras duvidofas , ou por fer inconftante de 
natureza , ou por eílar perfuadido , e acón- 
felhado dos feas, moftrando-fe logo muito 
arrependido do que fobre iíFo tinha efcrito 
Couto.Tom.ÍF.PJ. F a 



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2l ASIA DE DiOGO DE COUTO 

a El&ey ; e refpondeo ao Padre )» que elle 
)» nao fabia de carta alguma que eícreveñe 
31 a ElRey de Portugal feu irmao fobre a- 
31 iquella isateria , porque nunca tivera ten* 
31 ^áo de mudar as ceremonias y que havia 
31 tantas centenas deannos feufavam naquel* 
« les Reynos ; que fe alguma coufa fallava 
31 a carta , o feu Secretario a efcreveria , fem 
» Iho elle mandar. Mas que por íima de tu- 
31 do elle era grande fervidpr de ElRey de 
D Portugal , e nao deixava de Ihe agradecer 
))a boa vontadcy zelo, etrabalho, que na« 
))quellas coufas tinha moftrado. » O Padre 
Meftre Gonzalo vendo a tengáo de ElRey , 
nao traíou de apertar logo com elle , mas 
deixou-fe ficar alli , adminifiraodo os Sacra- 
paentos aos Catholicos , e vifitando o Im- 
perador algumas. vczes , tornándolo a pal- 
par pera ver fe achava nelle alguma mudan- 
za , declarando- fe com elle , e moürando* 
Ihe pela Efcritura quáo neceflario era pera 
fe falvarem , deixarem o Bautifmo da Cir- 
pumcísáo , e tomarem o da agua , e darem 
com iflb a obediencia á Igreja Romana ; mas 
como elle eílava obftinado , e refoluto com 
os feu8 Grandes de nao coníentir mudanza 
na lei, defenganou o Padre de todo. Epor 
fim de raz6es diíTe » que bem podia ir o Pa- 
» triarcp y porque folgaria de o ver , e que 
» em Ma^uá acbaria todo o apparelho necef-« 
i 31 fa- 



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Béc. Vil. Liv* i. Cap. IX. íj 

^» farío pera feu caminho ; e que depois dé 
» feria, Déos noílb Senhor tinha poder pe* 
» ra o encaminhar a feguir o que foíTe me- 
» Jlior pera fuá falvajao. » Com eñe defen- 
■gano fe deixou o Padre ficar até á moiifáo , 
eni que o haviam de ¡r bufcar , exercitando 
com os Catholicos o officio da caridade ^ t 
'aífim o deixaremos até feu tcmpo. 

CAPITULO IX. 

De como D.Dio^o deNoronha^ Capitaode 
Dio , perfuadto a Tartacan , que lan^af- 
fe a tifian fóra das tetras de Dio , co* 
mo fez : e de como D. Diogo de Noronha 
langou mao de todo o rendimento daqueU 
la Alfandega : e de outras coujas que 

. pajfdram. 

NO fim da fexta Década no Cap. XIX. 
do X. Liv» demos conta de como 
D. Diogo de Noronha , Capitáo de Dio, 
tomou a fortaleza , que os Mouros tinham 
na Cidade, e de como deitou fóra da Ilha 
os Abexins : e com tudo ifto nunca quiz bul- 
lir na Alfandega , que fe arrccadava a me- 
tade pera o Abifcan , ( por huma Provisáp 
de ElRey de Cambaya , por nao romper eom 
elle ; ) mas como o Abifcan era homem in- 
quieto , e muito foberbo , nao deixou de 
bufcar todo$ ós modos peta tornar a met- 

F ii ter 



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84 ASIA DE DiOGO DE COUTO 

ter pé na I] ha de Dio , até determinar de o 
fazer porfor^a, ecommetteo a entrada por 
alguns paíTos , que Ihe D. Diogo de No- 
ronha mandou defender com as manchuas 
pelo rio , e com Toldados ; com o que te- 
ve efte veráo grandes trabalhos , e inquie- 
ta^oes. E vendo D. Diogo de Noronha que 
nunca teria bom vizinho no Abexim , tra- 
tou de o janear fóra de todo daquellas tér- 
ras, porque antes queria vizinhar comqual- 
quer outroMouro^ que com elle i eperait 
to teve efte modo. 

Na fexta Decada no Cap. XVL do X, 
Liv. demos conta , como os Senhores da 
Provincia de Cambaya le levantárara cada 
hum com o que governava , quando víram 
EIRey morto. Deftes foi hum delles Tarta- 
can , Turco de na jao , (que governava aquel- 
la parte de Junager até o Pagode de Jaque- 
te,) e era valorofo , de boa naiureza , e 
muito bem inclinado. A eftedefpedio Dom 
Diogo de Noronha hum homem leu em hum 
navio ligeiro, porquem o mandou vifitar, 
e a pedir-Ihe mandafle hum homem de con- 
fianza , porque tinha que tratar com elle cou- 
fas , que importavam muito a elles ambos. 
Efte homem recebeo elle muito bem , e eí^ 
timou a vifitajáo ; e Jogo mandou embar- 
car no mefmo navio hum Mouro , chama- 
do MeliqueXeque , Guzaratedenajáo, ho- 
mem 



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Dec vil Liv. i. Cap. IX. 85* 

inem de qne elle fiava muito , a quem Dom 
Diogo de Noronha recebeo honradamente; 
e recolhendo-fe com elle a huma camera , 
Ibe diíTe ellas palavras : 

]» Mandei pedir a Tartacan hum homem 
)i de confianza pera faber delle , qual era a 
)i razáo , que pois o tempo Ihe offerecia ta- 
)imanhas occalióes pera fe fazer grande Sc^ 
)i nhor , e aínda Rey de todo Cambajra , 

> porque fe defcuidava naquelle negocio , 
>fendo elle hum Capitáo dos maiores , e 
)i mais beneméritos que havia em todo aquel- 
* le Reyno , e era quem melhor eftava tu« 
» do ; que pois ido aílim era , porque con- 

> fentia alli táo feu vizinho Abifcan , que era 
>hum Abexim fraco, falfo, e fem merecí- 
)» mentó algum , e de quatro dias naquelle 

> Reyno , e vir elle a ter tanto bico , pelo 

> defcuido delle Tartacan , que lángara máo 
' de hum Eftado tamanho , como aquelle que 

> pofluia ? Que convinha a feu crédito , e 

> authoridade langallo fóra daquellas térras y 
)»eapoírar- fe deltas, com oqueficaria o mor 

> Senhor de todos os de Cambaya , e que 
>elle o ajudaria por mar, e por térra, pe* 

> lo grande gofto , e proveito que tinha de 
)i o ter a elle por vizinlio. » Com iflfo Ihe di(- 
fe outras muitas coufas, e o metteo em tan- 
tas vaidades, que o fez cuidar poder fer aín- 
da Rey de Cambaya. O Melique Xeque Ihe 

agrá- 



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Z6 ASIA DE DiOGO DE COVTO 

agradeceo aquellas lembran^as, e jhediiTe^- 

> que elle as faria a Tartacan , a quem íi- 
)ignificaria as obriga^óes eni que Ihe íicava 

> por aquella vontade. » E defpedindo-o Dom. 
Diogo de Noronha , o tornou a enviar no 
mefmo navio. Chegado elle ajunager, deo 
conra a Tartacan detudo oque tratara com 
elle D. Diogo de Noronha , e Ihe fez tam- 
bem fobre aquellas coufas multas admoefta* 
jóes , com o que levado Tartacan de vai- 
dade , e de ambi^áo , quiz logo por máos 
aquella obra , e come^ou a ajuntar fuas gen- 
tes , e poz em campo paíTante de vinte mil 
homcns , e defpedio recado a D. Diogo de 
Noronha de fuá determinajáo , e pedir-lhé 
)i que o favorecefle com huma Armada pe- 

> la colla de Madre Faval, porque elle co- 

> megava a marchar. » E aíllm neíle mez de 
Abril , em que andamos , partió de Junager ; 
e entrando pelas térras do Abifcan, tomou 
logo as Cidades de Por, Mangalor, Pate, 
c outras; e D. Diogo de Noronha , tanto 
que teve feu recado , defpedio alguns na- 
vios pela coila até Gogi , que nao iizeram 
roa«, queandareti) á vifla da térra porcum- 
primento, Abifcan tanto que foube que o ou- 
tro Iheentrava por fuas térras, e osdamnos 
que por ellas hia fazendo , ajuntando fuas 
gentes, o foi bufcar, e encontrando-fe vie- 
ram a batalha^ cm que o Abexim foi des--, 

ba- 



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Dec. vil Liv. T. Cap. IX. S:^ 

baratado de todo , e o Tartacan o foi fe- 
guindo até o lanzar fóra das térras , e o 
metter pelas deCambaya, onde feacolheo;. 
e defta vez ficou o Tartacan fenhor de to- 
do aqüelle Eftado , deixando-fe ficar na Vil- 
la de NovaNager alguns dias, até concer- 
tar , e aflegurar as coiifas da térra. Alli a 
xnandou D. Diogo de Noronha vifitar , e 
antre ambos corréram todo aquelle tempa 
grandes cunnprimentos ; e ficáram correndo 
em tanta amizade todo o tcmpo que andou 
por aquellas térras, que vinham o$ do fea 
cxcrcito á Uha , e a ver a fortaleza com li- 
cenja de D. Diogo , que foi nifto táo libe- 
ral, queentráram de huma vezperto dequi- 
nhentos Mouros na fortaleza; equando Ihe 
deram rebate , já as fúas cafas eflavaiti che- 
las delles ; e acudindo D. Diogo de Noro- 
nha com a gente que havia , os langou fórá 
fem efcandalo. Efte defcuido, ou confianza 
defte Capitáo Ihe eftranhou EIRey tanto , 
que dizem que por elle ( e poT aquella" pa- 
lavra que difle , quando tomou a fortaleza 
da Cidade aos Abexin^, como na fexta De- 
cada no Cap. XIX. do X. Liv. diíTemos > 
o nao poz ñas fuccefsóes da governanfa dai 
India. Apodado o Tartacan do Eftado dcf 
Abifcan, ferecolheoperajunager, edeixoií 
por Governador naquellas parres a Meliqucf 
Xeque^ que veio a Dio a fallar com Don» 

Dio- 



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88 ASIA DÉ DiOGO DE COVTO 

Diogo de Noronha , e ficou fazendo feu af- 
fenio na Villa de Nova Nager. Tanto que 
D. Diogo vio recolhido o Tartacan, logo 
deitou máo de toda a Alfandega , que era 
o que elle perteudia , e lan^ou fóra os oí* 
ficiaes Mouros, que alli eftavam da máo do 
Abifcan , e comejou a arrecadar os rendir 
inentosperaElRey , edaqui Ihe ficou apoP 
fe que até hoje dura. 

CAPITULO X. 

He como fe levantdram contra o Idalcan 

alguns tapitaes feus : e dos tratos que 

bouve antre Anel Maluco , e o Vijo^ 

Rey D. Pedro Mafcarenbas. 

NO Cap. VIII. do IX. Liv. da quinta 
Decada demos larga conta de como 
por morte de Maluco Rey de Vifapór , e 
do Decan , fuccedeo Abrahemo feu irmáo , 
que foi o que fe concertou com o Gover- 
nador Martim AflPonfo de Soufa , pera que 
Ihe entregaíTe Mealecan feu tio, que oAce- 
decan Senhor de Bilgáo , e de todo o Con- 
can trata va de metter de poíTe do Rey no , 
concertando- fe o Idalcan/ com o Governa- 
dor , que mandaífe a Mealecan pera o Rey- 
no, ou pera Maluco, e por iíTo Ihe fergou 
as térras firmes de Salfete , e Bardes , o que 
o Governador nao fez. Succedeo eíle ve- 

ráo 



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Dec. vil Liv. i. Cap. X. 89 

rao em que andamos alevantar-fe contra El- 
Rey Abrahemo hum grande Capitáo feu , 
chamado Anel Maluco « Governador de to- 
do o Concan , e em authoridade , e poder 
outro Acedecan. Efte fentindo-fe oíFendido » 
e aggravado de ElRey ^ como tinha muita 
gente ^ poííe , e poder , e fobre tudo a mal- 
dade , e tyrannia , que em todos eftes Mou« 
IOS de contino reina , folicitou outros Ca- 
pitaes princlpaes do Rey no , que tambem 
fcntio defgofiofos, e íizeram todos antre íi 
huma conjura^áo contra EIRey , e tratáram 
de odeíapoíTar doReyno. Epara eíla mal* 
dade ter aJguma cor de defculpa , aSirmáram 
pertencer o Reyno mais a Mealecan , que 
eílava em Goa , aue ao íobrinho Abrahemo. 
AíTentados niüo , quizeram-fe valer de 
Rama Rajo Rey do Ganará , e do Vifo-Rey 
da India , pera quem logo defpedíram feus 
Embaíxadores em muitoTegredo. Oque en- 
viáram ao Vifo-Rey , entrou na llha de Goa 
muito encubertamente , e vio-fe com elle 
em fegredo ; e da parte de Anel Maluco 
Ihe deo conta de tudo o que eftava antre 
elles ordenado , pedindo-lhe )» que Ihe qui- 
)i zefle dar Mealecan pera o fazerem Rey ^ 
> e favorecellos pera iflb ; e que pera o fa- 
» zer com mor gofto , e vontade , elles of- 
) fereciam pera EIRey de Portugal todas as 
3» térras do Concan com íuas Alfandegas , e 

>Ta- 



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^O ASIA DE DiOGO DE COUTO 

» Tañada rías , que monta vatn todos os an< 
» nos de vantagem de hum tnilháo de ouro. » 
O Vifo-Rejr deo orelJias áquelle negocio , e 
rnformou-íe bem da pofle daquelles Capir 
táes , e achou que eram os principaes do' 
Reyno , e que fem dúvida levariam avante 
o que pertendiam ; e certiírcado bcm deñe 
negocio , o poz em confelho dos Fidalgos 
velhos, e dealguns moradores, eCídadáos 
príncipaes ; e debatida a materia , aíTentá- 
ram todos » que fe deviam de acceitar os 
» partidos que commettiam, porque fe fea- 
^juntaíTem ao Eílado as térras do Canean, 
)i ficaria proíperiífimo ; e que fegundo as cou- 
* fas eftavam difpoftas , fe arrifcava pouco 
)i entrar na liga; quanto mais , que elles náo> 
l> queriam mais que entregarem-ihe o Mea- 

> lecan ; porque pera- o metterem lá de pof-^ 
» fe do Reyno , elles baftavam , e o Rey de 

> Bifnagá , que era o mais poderofo de to- 
» dos os vizinhos , a quem fempre fe havia 

> de favorecer pera tornar a coorar aquelle 

> Reyno que fora feu , pelo grande provei- 

> to , e feguranja que diflb refultava ao EC- 

> tado d& India ; porque nunca elle fora prof- 
)> pero , fenáo no tempa em que o Reyno 
>de Bifnagá eftava inteiro, oque nao teve 
^ depois que o Idalcan llie tomou algumas 
)• Cidades , que vizinhavam com Goa ; por- 
]i que o commercio dos Cañarás fora fem^ 

» pre 



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Dec. VII. Liv. I. Cap. X. 91 

51 pre inais proveitofo em commum , que ro-^ 
» dos. » Depois de todos votarem niño lar* 
gamente , o fez o Viío-Rey por derradeiro , 
e diíTe » que Ihe parecía bem dar-fe*lhe o 

> Mealecan , e todo o favor que foíTe necef». 

> fario pera fuá paflTagem ; mas nao que fe 

> metteue na liga o Rey de Bifnagá , porquct 
>como era muito poderofo, logo havia de 
» querer lanzar máo dos Reynos do Decan ; 
* e que pela ventura Ihe crefceria a cubija^ 
)i de fe tornar a fazer fenhor da Uha de Goa y 
)» ( que era a mais eñimada , e religiofa cou- 

> ía , que os Cañarás fempre tivcram. ) Que 
)» o poder dos conjurados era tamanho , que 

> bauava pera tudo fem mais ajuda. E que 
)• fe fe achaífe naquelle jogo o Rey de Bit» 
X naga , toda a honra havia de íicar fuá , pe« 
T^ lo poder que trazia ; e que nao vinha bem 
» aos Portuguezes , pelo crédito em que eC*. 

> tavam , que Ihes era neceflario fuftentar. » 
Tantas coufas dilTe fobre ifto , que convencí 
ceo a todos , e aíFentáram , que fe déííem al- 
guns Portuguezes aos Capitáes da liga pera 
os ajudarem. Efta refolu^áo foi a total per-* 
di^áo daquella jornada ; porque tanto que o. 
Idalcan foi avifado de todo aquelle nego«. 
cío, e queElRey de Bifnagá ficava fiSra da 
liga , logo Ihe mandou Embaixadores a Ihe 
pedir foccorro contra os alevantados , com- 
niettendo-lhe grandes partidos, que elleac-?, 

cei* 



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^1 ASIA DE DiOGO DE COUTO 

eeitou , quando fe vio engeitado da outra par* 
t^. AíTentado aquelle negocio , defpedio o 
Vifo-Rcy o Embaixador com os apontamen- 
tos do que fe Ihe havia de conceder ^ que 
eram os feguintes. 

yi Que tanto que os Capitáes tomaflcra 
íi cm Ponda pofle de Mealecan , Jogo Ihe en- 
» tregariam as Tanadarias do Concan pera as 

> prover de Capiráes , e que comeyariam logo 

> as térras a render peraElRey de Portugal. 

n Que todas as coufas que eftavam aC- 
» íentadas ñas pazes pafladas fícaíTem no ef- 

> tado em que eílavam , fem fe innovar cou- 
% fa alguma nellas. 

Chegado efte Enviado a Bilgao , onde 
eftava Anel Maluco com os conjurados, aC- 
fignáram os contratos , e os tornáram a man- 
dar ao Vifo-Rey , com outros que conti* 
nham o feguinte. 

» Que o Vifo-Rejr alevantaria na Cida- 
)i de de Goa a Mealecan por Rey de Vi- 
)i fapór , e que em peflba o iría entregar a 

> Calabatecan dentro em Ponda, porque allí 

> o havia de efperar com dez mil homens , 

> e que dalli o havia de levar a Anel Malu« 
)i co , e aos conjurados onde eftiveffem. 

Defpedido efte Embaixador , ficáram el- 
les ajuntando fuas gentes ; e o Viíb-Rey tam- 
bem como teve efte recado , fez feus prepa- 
ramentos pera aquella jornada. 

CA- 



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Década VII. Liv. I. 95 

C A P I T U L O XI. 

De como o Fifo-Rey D. Pedro Majcarenbas 
aJevantou Mealecan por Rey de Vifapór : 
e dos contratos que com elle fez : e de 
comopajjou a Ponda , e o entregou a Ca-' 
labatecan. 

TEndo o Vifo-Rey preñes , e negocia-- 
das ascoufas quepertendia pera aquel- 
la jornada , que determina va fazer com gran- 
de magcñade , porque era muiro váo , e gran- 
diofo , ordenou hilm dia pera o auto do a^ 
levantamento do Mealecan em Rey , e deo 
recado aosVcreadores, pera que com todos 
os moradores fe achaíTem preíentes, omais 
cuñofamente que pudeíTem ; e que ordenaf* 
fem todas asreñas poíliveis pera obrigarem 
muito áquelle Rey , com que haviam de fí- 
car tendo tanta vizinhan^a , e amizade. E o 
mefmo pedio a todos os Capitáes , e Fidal- 
gos. Tinha o Vifo-Rey mandado ordenar 
no terreiro do Pa^o hum formofo cadafalfo , 
toldado todo por íima , e elle todo alcati** 
fado , e guarnecido de pannos de ouro, e 
íedas y e o terreiro todo enramado , e em- 
bandeirado , e pelas janellas muitos inftru- 
mentos alegres , e guerreiros ; e elle pera 
fuá peíToa tinha mandado fazer grandes opas 
de. coreados ricos .^ e todos osfeus criados ^ 



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¡5^ ASIA DE DiOGO Di: COUTO 

e guarda vellidos muito cuílofainente. Epa-> 
ra ElRey Mealecan tinha mandado fazer muí- 
tas Cabayas de horcado a feu modo , e de 
Telados de cores , de efcarlatas finas , e qua- 
tro cavallos formoílllimos guarnecidos á gi- 
iieta de jaezes de prata dourados , com ca- 
pa razóes riquidimamente broslados. Ao día 
aprazado abalou o Vifo-Rejr de fuá cafa á- 
companhado de todos os Fidalgos, e Cida^ 
<iáos a cavallo , todos táo ricamente traja- 
dos , que foi coufa muito pera ver. E em 
fuá companhia muita fopima detrombetas^ 
<:haramellas , e atabales ; e com eíla pompa 
chegou ás cafas do Mealecan , que já eftava 
efperando por elle a cavallo com dous filhos 
feus , e muitos criados ; e tomando-o o Vi- 
foRey á fuá máo direita , o levou comfigo 
até o cadafalfo , onde fe fubíram , e aíTen- 
táram cada hum em fuá cadeira , debaixo de 
hum muito rico , e formofo docel de hor- 
cado, e allí o alevantoü por Rey de Vifa- 
pór , e de todo o Décan , conforme a feu 
coftume ; o que fe fez com muitos inftrumen- 
tos, e falvas de artilheria, e muitas feílas, 
momos , e invendSes , que a Cidade Ihe ti- 
nha ordenado. Foi eíle auto feito com a 
mor mageñade , e folemnidade que podia fer , 
e com táo grande concurfo de gente , Mou- 
ros , e Gentíos , que nao cabiam pela Cida- 
de. Acabado efie auto 9 fez oVifo-Reycont 

aquel- 



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Dec. VII. Liv. I. Cap. XI. py 

•aquelle Rey noves contratos , que o Secre^ 
tario do Eftado aprefentou , que ElRey com 
íeus fílbos aí&gnou ^ cuja fubftancia era o fe- 
guinte. 

» Qiie elle dava , e doava a ElRcy de 
> Portugal y e a todos íeus fucceíTores, daquel- 
»le dia pera todo íempre, as térras firmes de 
^ Salfete , e Bardes , e todo o Concan com 
m íuas Alfandegas , Tanadarias, e jurdl^Óes. 

]» Que as fortalezas de Ponda , Banda , 
* e Cúrale fe entregariam logo a Capitáes 
)» Portuguezes , tanto que elle folie entregue 
>d Calabatecan. 

1» Que ficariam em Goa fuá mulher , c 
)» filhos em refens » até fe fegurarem as cou* 
» fas do Balagate. 

» Que todos os mais concertos , queefta« 
)»vam feitos com A nel Maluco, k guarda* 
3iriam muito inteiramente. 

» E que elle Mealecan depois de eílar no 
)i Reyno , poderla mandar levar de Goa vin- 
Dte cavallos forros dos direitos, edousmil 
% pardáos de fazendas , e brincos , fem pa* 
J» garem direitos , nem lagimas. » 

Aílignados eftes contratos, tornou o Vi- 
fo-Rey a levar ElRey pera fuá cafa, eco» 
me^ou a preparar as coufas pera a paflagem , 
mandando ajuma r toda agente de armas que 
havia na Ilha de Goa , e ñas mais circumvi- 
2inhas , e deo recado aos Capides pera ajun« 

ta- 



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9^ ASIA'DE DiOQO DE CÓVTO 

tarem a foldadefca toda de Goa , e ao Cw^ 
pitáo da Cidade , pera que eftiveíTe preftes , 
e apparelhado com todos os moradores de 
cavaílo. Ordenado ido rudo , mandou o Vi* 
fo-Rey ao Tanadar mor Antonio Ferrao , 
oue com todos os piáes Gentíos , e Chriíláos 
le paflaíTe da outra banda do paíTo de Sant- 
lago , porque ao ourro día íe havia de aba- 
lar y como fez , e partió de Goa nefta or- 
dem. 

Os Capitáes das bandeiras da foldadef- 
ca , que eram fínco , ( Martim AíFonfo de 
Miranda , D. Fernando de Monroy , Dom 
Antáo de Noronha , Baíliáo de Sá , e Fer- 
nao Martins Freiré , ) foram dianie com fuá 
foldadefca , que feriam perro de tres mil ho^ 
mens ; e logo após elles abalou o Vifo-Rey 
de Goa , e tomou Mealecan , novo Rey , á 
fuá máo direita. Hia o Vifo-Rey venido de 
huma opa roíTagante de borcado alto com 
muítas pontas de pedraria , e fobre os hom- 
bros hum muiro rico , e formofo colar de 
pedraria , huma efpada , e adaga de ouro ef- 
maltada. Levava diante de fi a fuá guarda 
com fuá libré de cores , e no meio o feu 
Capitáo da guarda , e mais atrás doze for- 
mofos ginetes ajaezados de ouro , e prata ^ 
com relizes de damafco de cores , franjados 
de ouro , e detrás del les o feu Eílribeiro ri- 
camente veílido j mais arras feis Porteiros de 

maP 



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Dec. vil Liv. L Cak XL 97 

tnaíTas de prata , e quatro de canas ; e de« 
tras de todos o feu Veador ; e detrás del le 
hum Rey de Armas de Portugal , com hu- 
ina opa rica , e no peito as armas Reaes em 
Jiuma lamina de ouro grande ; e diante de 
tudo ido hiam atabales, trombetas , e cha- 
ramelas , e outros infirumentos. Detrás do 
Vifo-Rey hia Gafpar de Mello Capitáo da 
Cidade , com duzentos moradores de for* 
ínofos ginetes , e armados úe fortes y e ga« 
lantes arnlas. 

Com eña mageílade chegou ao Paíío de 
Sant-Iago , onde fe apofentou aquella noi- 
te, e a outro dia defpedio os Opitáes das 
bandciras , e Gafpar de Mello Capitáo da 
Cidade , com todos os moradores , por Ca- 
pitáo geral de todo aquelle exercito , e coni 
elles hum Capitáo do Rey novo , pera ireni 
tomar pofle da fortaleza de Ponda, e efpe^ 
rarcra allí até elle chegar. Eftes Capitáes paP 
fáram á outra banda , e foram marchando 
pera Ponda ; e antes de chegarem á fortale- 
za , Ihes fahio hum Capitáo , chamado Mea- 
le , que eftava nella da máo do Idalcan , qué 
nao quiz entrar na liga ; e com duzentos dé 
caballo efcolhidos veio commetter a noíla 
dianteira , e traváram huma arrezoada efca- 
ramuda , ém que os noíTos Ihes derribáram 
dezefete , e feríram muitos , e com efle to^ 
que fe foram recolhendo i e nao fe fiando 
Couto.TomJKPI. G da 



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98 ASIA DE Diaaó i>£ Couto 

da fortaleza , deíviando-fe della , fe foram 

Era o certao : os noflbs chegáram á forta-f 
^ , que acháram defpejada ^ e fóra della 
aíFentáram fuas tendas , e fe valáram á ro<^ 
da ; e o Capitáo Gafpar de Mello partió a 
gente toda em quatro quartos pera vigiarem 
de aoite. 

Aqui aconteceo hum cafo de muito en- 
fadamento , e que houvera de dar grande 
irabalho ao Eftado ; e foi eíle. Hia na corn^ 
panhia Francifco Barreto , que nao quiz le«^ 
varbandeira^ porque efperou que Gafpar de 
Mello ( que era feu tio ) Ihe largaíTe o go^ 
rerno de toda a gente de pé, e que ficafle 
elle com a de cavallo , « elle aílim Iho pe- 
dio ; mas nao Iho quiz conceder , porque 
entendeo que os Capitaes das companhias p 
nao haviam de confentir. E como eíle F> 
dalgo era homem naturalmente arrogante; 
amigo de honra, e demandar, aquella noi<- 
fe fahio a roldar os quartos , e acábava-fe 
e primeiro que vigiava D. Fernando de Mon^ 
foy , ( que me contou ifto , ) e perguntou aos 
íbldados, quem Ihe fuccedia ^ que Ihe dif^ 
íeram , que Martim AíFonfo de Miranda ; e 
defpedíndo hum pagem , Ihe mandou por el- 
le dizer , que vicíFe vigiar. Martim AfFonfo 
eflava^fe já armando pera fe ir vigiar , quan* 
éo efte pagem chegou, e em Ihe dando o 
secado de Francifco Barreto ^ tomoa*fe tai> 

...... to 



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' Dec. vil Liv* L Cap. Xí. ^9 

to diíTo , que fe tornou a defarmar , e lan- 
pr na cama , e deo recado aos feus nque 
jifeoutra vez tornaffe alguem cotti outro re- 
n cado , o nSo aCordaíTem ; » e aíEm o fize* 
ram, porque Francifco Barrero tornou a fe- 
gundar; e foi a coufa de fei^áo^ que íicoü 
D. Fernando de Monroy vigiando ambos os 
guarros» 

Ao outro dia pela manhá , eílando os Ca* 
pitaes aíTentados ao foalheiro em converfa- 
jáo , chegou o Martim AíFoníb de Miran- 
da, armado eo) huma coura de laminas, hií» 
ma gineta na máo , e fallou a todos. Fran- 
cifco Barreto , que cftava alli , quiz gálan* 
tear fobre elle fazcr vigiar dous quartos t 
D» Fernando de Monroy ; mas como Mar- 
tim Afibnfo hia enfadado , e tomado , fo& 
fréo-lhe mal as galanterias ; e aílim de pa-^ 
Javrá empalavra chegáram a fedefcompori 
c a levar máos ás armas , ao que acudió to- 
do o exercito , e fe repartió em dous ban- 
dos. Gafpar de Mello , Capitáo geral, acu- 
dió áquellc negocio ; e mettendo-fe no meío 
d'ambos , liou-íe com elles ; e como era á 
porta da fortaleza , e elle liomem muito gran- 
de , c forfofo , aos impuxóes os foi metten- 
do dentro , e fechou Ibbre fi as portas , e 
delpedio hum correio com huma carta ao 
Viío-Rey , cm que Ihe dava conta do nego- 
cio. Efta carta Ifae deram já de noite \ x venf 
G ii do 



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loo ASIA DÉ Dioao de Couto 

do a importancia do cafo, íejpaíTou logo a 
Ga^aim , onde eftava por Tanadar André 
Gorjáo , e com elle , e com poucos de fuá 

Íuarda , e criados fe foi pelo río aílima a 
^erubate ; e dahi em huma faca andeira par- 
tió pera Ponda , onde chegou á roeia noi- 
te ; e entrando na fortaleza^ mandou vir per- 
ante fi aquelles Fidaigos , e os reprendeo. 
E fallando primeiro com Francifco Barreto , 
Jhe diíTe : n Se quer vos , Senhór , que fóis 

> hum Fidalgo , de quem EIRey confia aln- 

> dia , em tal tempo , e em térra de infíeis 
>fazerdes eíta uniáo? Que conta haveis de 

> dar a EIRey de coufa táo mal feita , co^ 
31 mo foi pordes hoje a India em balando ? » 
E fallando com Martim Aílbnfo de Miran- 
da ^ o reprendeo tambem afperamente, ma^ 
com palavras graves , e muito honradas ^ 
( porque de todas aquellas tres partes , que q 
grao Capitáo Gonzalo Fernandes de Gordo- 
va punha ao que havia de governar , que 
sao ) fer clemente ^ ter mao larga y e boca 
prudente ; eíta he a mais neceflaria que to* 
das , porque com taes palavras me pode hum 
Vifo-Rey reprender , ou negar huma coufa ^ 
que Iho agrade^a tanto , como fe ma dera» ) 
O Vifo-Rey D, Pedro Mafcarenhas os fez 
logo amigos , ficando o refto da noite na for- 
taleza , e pela man ha fe partió pera o Paflb 
de Sant-IagO| onde ficaya o Rey novo. 

Al- 



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Dbc. vil Ljv. 1. Cap. XI. lot 

Allí fe deteve tres días até Ihe vir reca- 
do , que era chegado Calabatecan , a quem 
havia de entregar ElRey ; pelo que logo pat- 
fou da outra banda , onde os noíTos Capi*^' 
táes o efperavam com tendas armadas. Allí 
le aíTentou o Vifo-Rev debaixo de humas* 
arvores, e com elle EÍRey , cada hum em' 
íua cadeira rica , em íima de formofas al- 
catifas ; e aíHm da Cidade , como dos paí* 
ios todos da Ilha , houvc todo aquelle dia 
grandes falvas de artilberia , e o melmo fe 
kz noexercito. Eftando aílim, chegou hum 
Capitao dedous mil cavallos , que o Cala- 
batecan mandava pera acompanhar EIRey 
até Ponda; e defcendo-fe , chegou ao Vi- 
fo-Rey com as máos cruzadas , e Ihe fez fea 
acatamento , e depois fe poz de joelhos di- 
ante de ElRey, c com asmáds no chao Ihe- 
metteo a cabera antre as pernas , em íinal 
de íua fujei^ao , como antre elles fecoíluma. 
Levava efie Capitao as mangas da Cabaya, 
que eram largas, com huma fomma depa-' 
godes de ouro , moeda do Balagate , que- 
cada huma valerá quínhentos reís ; e ao aUi- 
xar que fez, fe llie efpalháram todos pelas 
alcatifas ; e depois de alevantado , foram 
recolhidos pelos pagens do Vifo-Rey , fo- 
bre o que houve algumas rebatinhas , que 
tambem deram gofto. Coftumavam os Mou- 
xosneílesReynos ifto^ deixarem aquelle di- 

uhei- 



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I02r ASIA DE DiOGO DE'CoVÍ^O 

nheiro aps pés de feu Rey em final devaf* 
iallagem. 

Feíto ifto , abalou o Vifo-Rcy com to* 
da aquella mageltade Real pera Ponda , e 
fóra da fortaleza achiram Calabatecan y que. 
aflim acá vallo fez fuá cortezia aElRey^ e 
o Vifo-Rey fe, agazalhou com ElRey , cí 
Calabatecan , ficando fóra o mais exercito ; 
a noíTo com as codas na porta da fortale-^ 
2;a ^ e o dos Mouros hum pouco defviado , 
rendo aquella noUe muito grande vigia. Ao 
qptro dia fez o Vifo-Rey entrega do Mea* 
lecan a Calabatecan , do. que mandou fazer 
hum auto pelo Secretario , em que elles , cj 
os Capitáes Mouros feaífígnáram; edepoia 
deram todocí a menagem ñas máos de El* 
Rey , conforme a leu cofiume , e fiwram feujs; 
juraojentos , e fdemnidades. Ao outro dia 
fe defpedio ElRey do Vifo-Rey , e elle Ibe 
deo hum Capitáo com cem foldados pera o 
irQm fervindo , e acompanhando até Vifa- 
pér. O Galabatiscan levou ElRcy a huma 
aldea , que eílava adiante , pera alli efperar 
recado do Anel Maluco, a quem defpedio 
Ipgo córrelo com cartas de tudo o que era 
paflado. O Vifo-Rey deixou na fortaleza de^ 
Poiid^ a D* Antáo de Noronhii com fei&- 
CüS^atosíbldadios, com feusCa pitaes, pera Ihe^. 
darem mezas ; e Coge Cema^adim ,, com: 
gente de cavailo pera and^ quietando a/s ^^\ 

dé- 



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D«c."VIIi Liv. I: Cap. XIL loj 

4¿ds , e po\roa96es. £ por fe achar abalan 
do do trabalho dacjuelle caminho, fe reoo-» 
Uieo pera Goa , fem acabar de concluir naa 
coufas do Concan« % 

CAPITULO XIL 

J)e como faleceo oVtfg-Rey D.Pedro Map^ 

carenbas : e das partes , e qualida^ 

des de Jua pejfoa. 

GHegado o VifoRey a Goa , fe deitoit 
logo em cama , por vir muito mal di&L 
pofto ; e como era de fetenra aimoa , idáde 
mais pera o repoufo , que pera o rrabalho ^ 
foi-fe logo acfaaiido mal ^ e a declarai^fe-^ 
lile huma íebrezinha lenta ; e a£Brmava«-fe ^ 
que Ihe nafcéra do trabsilbo daqueUa neite ^ 

2UC acudió a Ponda ás dííFeren^as daquelleí 
ousFidalgos» Emfim, a &bre apertou cont 
elle de fei^áo , que come^áram os Medkot 
a defconfiar , e dífleram ao feo ConfeíToryL 
que íizeflle com elle , que ttataíle das cou^ 
fas de fuá alma ; o que Ihe elle diíle coixi 
palay ras moito prudentes, e de^uitá con^ 
b>Ia9ao, que Ihe elle agradeceo, dando lo-» 
go demáo a todas ^ coa&s , e ferecolhea 
com eQe, fazendo feu teftamento multo de 
vagar , ordenando todas fuas coufas mmt<> 
bem \ depois tomou os Dirkios Sacramen^^ 
toS' dk £ucarü\ia> e Extítema^Un^ao^ ^ i^% 
^■^.j ^ to« 



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I04 ASIA DE DioGó DE Couro 

lados os mais autos de Catholico Chrifiáo ,- 
e bom penicenre. 

Depois de tudo ido feito , e elle muito 
confolado , e conforme com a yontade de 
Déos , fentindo-fe no cabo , mandou cha- 
mar Francifco Barrero; echegado elle, Ihe 
difle , que fe aflentaíTe em huma cadeira do 
eílado, que tinha ao longo da cama; o que 
elle náoquiz fazer; e depois de porfiar hum 
pouco , Ihe difle : )» Aflfentai-vos , Senhor , 

> nefla cadeira , que o quef aífim S. A. , e 

> yós Iho merecéis , » e entáo fe aflentou ; e 

Vifo-Rejr praticou com elle fó algumas 
coufas , e Ihe pedio )»que tanto que noífo 

> Senhor o levaíTe pera íi , recolhefle feus 
n criados y que íicavam defagazalhados , por- 
n que nao tivera tempo de Ihes fazer bem.» 
Francifco Barrero Ihe refpondeo n que Dcos 

> noflb Senhor Ihe darla faude pera os gp- 

> yernar a todos , o que elle eñimaria maís 

01 que todas as .gobernantas ; e que quando 
}i.elle difl'o foíTe férvido , elle faria o que Ihe 
ndevia; » e com ido Ihe diíTe outras pala- 
yras muito graves, , moftrando imuito gran- 
de fentimemo de o yernaquelle eflado. Era 
iño aos quinze dias do mez de Junho de 
quinhentos e íincoenta e finco anuos , e aos 
dezefeis faleceo com muirás moflras de yer-* 
dadeiro Chriíláo , e de arrependido pecc^- 
dor y e com grande mágoa y e dor de to^ 

dos. 



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ÜEC VII. Liv. I. Cap. XII. 105: 

dos, tendo governado nove mezes. Abrid» 
fe feu teftamento, e achou*fe mandar, qué' 
o enterraíTem na Sé de Goa , e que feus of- 
Ibs foíTem depois levados pera oReyno; e 
affim o leváram a fepultar com a mor pom- 
pa funeral que podía fer , e fe Ihe fizeraiii 
£sus Officjos , e fabimentos com grande fo* 
lemnidade , e triñeza de todos. Nefte auto 
aífiftíram todos os Fidalgos^ eVereadores^ 
yeftídos de dó. 

Era D.Pedro Mafcarenhas fiiho doCa* 
pit§o dos ginetes D. Fernáo Martins Maf- 
carenhas. Foi Eftribeiro mor de ElRey Dom 
Joáo , e depois vendeo efte cargo ao fegon-* 
do Conde da Vidigueira ; e conta*fe delle hu-- 
ma coufa que Ihe difle , que fe Ihe notoii 
a glande vaidade , e foi , que perguntando-^^ 
Ule o Conde , quando Ihe comprou o car- 
go , pelas obriga^óes delle , Ihe refpondé-* 
ra, que pelas nao querer faber Iho vendia. 
Foi depois General das gales do Reyno : 
nefte cargo cobrou nome de muito bom Ca* 
pitáo. Deppis o mandou ElRey por Embai* 
xador a Álemanba a couías mtiito impor* 
tames , onde efteve alguns annos com a mót 
cafa , e apparato que todos os Embaixado* 
res , que até entáo houve , e ficou por fuá 
prudencia , authoridade , liberaiidade , e to- 
das as mais partea , muito querido do Im- 
perador Carlos Quinto ^ e: moito ^ acredita^ 

do 



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KXS: ASIA DE D^ioGO'DE Courd 

do oom todos os Pocefitados de Alemán 
oha» 

. Depois foi porEmbaixador a Roma , e. 
de lá troQxe os Padres da Companhia ao: 
Eeyno , (como i» <|uinra Decada no Cap. U 
do VIIL Liv. teflüos dito , ) e cobrou em to- 
lias e^ coufas tanto crédito com ElRey ^ 
que quándo ordenou cafa ao Principe Dom 
jp&q ku filho ^ liio deo por Mordonio mor y 
e Ihe entregou todo o governo de fuá cafa y 
porque Qoíz ElRey que tirefle feu filho mui« 
to grande refpeito a fuá idade , e muita au» 
thorídade. Foi cafado duas vezes , e de n^ 
nhuma teve filhos: a prioieira com Dona. 
Filippa Henriques, filfaa de Simáo de Mi* 
randa , Camareiro mor do Cardeal D. Hcn*' 
cique; e a fegunda com Dona Helena , ñ^ 
Ihft de Pero Mafcarenhas y o das diíferengasL 
com Lopo Vaz de Sampaio , que era tea 
fobrinho y filho de leu primo com irmao Joao 
Mafcarenhas , e neto de D. Nuno Mafeare* 
nhas , irmao do Capitáo dos ginetes Dont 
Femando Martins Mafcarenhas , pai.defte 
D« Pedro; epor nao lia ver filhos de nenhu^ 
nía deftas mulheres, perfílháram elie,^ e ft» 
anilher Dona Helena Mafcarenhas a Donv 
Joáo Mafcarenhas 9 (o que £oi Capitao de 
Dio , quando £bi o feguado cerco,) e ar 
Pona Helena fuá mulher , filha de D. Joáo 
de Cafldio^^bcaaco ^ que era fobrínha daiiK 

bos i 



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Dec. vil Liv. i. Cap. Xri/ rojr 

bos ; porque D. Joáo Mafcarenbas era Sm 
Iho de feu irmáo D. Nupo Mafcarenbas ^ 
e D. Helena filha de D. Catharina , fiUia de 
Pero Mafcarenhas , que foi cafada eom effe^ 
D. Joáo de Cañelio-branco , filho de Dora 
M^rtinho de Caftello-branco , Conde de VU« 
la-Nova. 

Foi elle Viíb-Rey homem mui inteiro 
lia juftj^a ; e tanto que chegou á India , msoír^ 
illou fazer htun rol de todos os cargos que* 
eSavam vagos , e que iiiam ragando ; e man- 
dou langar pregóes , que todos os criadoa 
deEIRey, que na India andavam íerT^indoy^ 
acudiflem com feus papéis pera osdefpacba-r 
lem, o que todos fizeram , e dle os foi de j^ 
pacliando conforme a feus férvidos , íem dar 
qargoalgum a criado feu; porque dizia, que 
os cargos que eram de EIRey , nao Se¡ ka- 
viam de dar íenao a feus criados q^ie o fer- 
yiacn , e nao aos dos Vifo-Reys ^ a quen 
aáo tioha obríga^áo alguma. 

Aquí fe conta delle huma coufa igual a^ 
todas as fuas , e foi , que andando élle de(^ 
pachando eftea homens , llie aprefeotou leus, 
papéis hura criado de hura valida do Rey-* 
no , que havia tres annos que andava na In-« 
dia: efte tardaodo-lhe o defpacho, appare* 
ceo muitas veaes diante do Vifo-Rey y (pot 
Jhe vir muito encommendado do amo , ) c Ihe 
&¡ei fuas lembran^as , e de huma Ihe di& l 



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Í08 ASIA DE DiOGO DE COUTO 

yV.S.náo me defpacha y fendo euhutn ho-^ 
» mem , que ha tres annos que ando neftas 
9 partes fervindo , e que merejo me fajam 
>mercé?» O Vifo-Rey mui fevero Ihc re- 
fpondeo : » Ando agora defpachando os de 
)i vinre , e quinze annos ; como chegar aos 
» de tres, entáo tere! lembranga devós.ii 

Eftando hum dia no tronco fazendo au- 
diencia aos prezos , e vindo diante delle hum ^ 
3ue trazía hum grilháo nos pés por dividas 
e EiRey , Ihe diíTe n que havia muito que 
nalli eílava prezo daquella manelra , por- 
)ique devia a EIRey huma quaniia de di- 
nnheiro , e que EIRey Ihe devia muito mais,- 
urnas que Ihonáo queriam defcontar, ele- 
)i var em conta, n Pergúntando o Vifo-Rey 
pelo cafo, e lábendo fer verdade, mandou 
chamar logo o Veador da Fazenda , e Ihe 
difle: n Aquelle grilháo queaquelle homem 
»tem, tirai-lho , e lancem-no a mim, e a 
ivós , já que fomos Officiaes de EIRey, e 
» nao queremos pagar fuas dividas ; » e lo- 
go mandou foltar o homem , e que fe Ihe 
abatefle a divida da que fe Ihe devia. Fol- 
gou muito de ouvir os homens , e de Ihes 
nizer juftija. Todos os dias tinha certas ho- 
ras limitadas pera ouvir partes , o que fa- 
zia deitado em huma camiiha. 

Tanto que entrou na India , quiz tirar 
alguns coñumes ^ fobre o que fez algumas 

leis> 



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Pbc. VII. Liv. I. Cap* XII. 109 

leis , que nao foi poílivel guardarem-fe. Hur 
tpsL dellas era , defender os fombreiros altos 
de tomar a chuva , e Sol, por efcuíar aos 
homens os gados dos que Ihos traziam ; c 
elle rambem os nao trouxe , e uíbu de huns 
fombreiros de la com feus cordóes , a que 
fe chamáram muico rempo delle os Mafca*- 
renhas. Depois vendo que o Sol era intole- 
ravel , e as chuvas defcompafladas , tornou 
a largar os fombreiros altos , com condi- 
jao , que os trouxeíTem efcravos proprios, 
cativos , por forrarem as defpezas dos que 
os trazem , que sao Gentíos , a que com» 
mummente chamam bois defombreiro. Quiz 
defender os cavallos aosFidaigos, pelas deP- 

g*zas que Ihes fazíam i o que Ihe mandava 
IRey tambejn em feu regimentó , c que fó 
os cafados os tiveíFem y mas atalhou*o a 
morte. 

Dcfendeo que nenBuma muiher pública 
andaífe em Palanquim , fenáo defcuberta. Or- 
denou na fortaleza de Ormuz feiscentos foI* 
dados , com obriga^ao de dormirem dentro 
na fortaleza (ifto no invernó ; ) mas que no 
veráo nao pagariam mais de quatrocento?. 
Em Ba^aím ordenou outros feiscentos pera 
feguran9a daquella forta^leza pelas alteragóes 
de Cambaya. Em Chaul cerno. E fez regí- 
mentó , que os Capitaes das fortalezas nao 
tiveíFem outras vigías y fenáo os foldados 

da 



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(fio ASIA DE DíOQO D£ COUTO 

-da obriga^o deltas , porque coftumavam a 
'pagar niuitas vigias fantafticas ; e que no nú- 
tnero dos da obriga^áo das fortalezas erh 
traíTem os homens que Ihe davam a elles, 
a fóra outras coufas muito bem ordenadas^. 
£ cm tudq viveo táo puro , e morreo com 
tantas moftras de contriyáo , que fe pode crer 
que eftará no Ceo gozando do galardáo dé 
4ua6 obras. 




DE- 



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3íC^ 



DECADA SÉTIMA. 
L I V R O IL 

Da Hiftoria da India. 

■ »i— — » 

C A P I T U L O L 

De tmno par marte da Fifa-Rey 2). P€dr§ 
Mapcarenhas fuecedea na gnernatifs da 
India Francifca Barreta : e da Armada 
que fe queimou na ribeira de ElRey cam 
hnmfaguete. 

ESTANDO o corpo do Vifi>Rc7 Dom 
Pedro Mafcarenhas em feu ataude , 
pofto na Capella mor da Sé de Goa ^ 
snandou o Chanceller trazer o cofre das fue* 
refsóes , que eftaVam em S. Francifcú ; e 
abrindo-o , tirou a primeira , e a entregou ao 
Secretario , que a amoftrouem alto ao povo, 
pera que viíie que eftava cerrada, e lelladft 
com o fello pendente das Armas Rcaes , e 
a dep ao Capitáo da Cidade , qac naquelk 



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na ASIA DE DioGo de Couto 

auto preíidia, pera que com oOuvidorger 
ral a examinailém bem , íé eftava inteira » e 
fem fe nella tocar. Feito ifto , a abrió o Se* 
cretario , e a foi lendo alto , e achou^fe nel- 
la Francifco Barreto , que eftava prefente vef» 
tido dedo; eem onomeando, foi logo le- 
vado nos bracos de todos , e na Capella mor 
deo a menagem do Eftado da India ñas máos 
do Capitáo daCidadeGafpar deMello, na 
forma coftumada naquelles Eftados. 

Feito efte auto , que foi aos dezefeis de 
Junho defte anno de íincoenta e finco, en- 
terráram o corpo de D. Pedro Mafcarenhas , 
e o Goverñador Francifco Barreto fe reco- 
Iheo a S. Francifco, até Ihe defpejarem oe 
Pa^os ; e a primeira coufa que fez , foi man- 
dar chamar todos os criados , que foram do 
Viíb-Rey D. Pedro Mafcarenhas , e os con- 
folcu , e recolheo em fuá cafa, e fefervio 
delles nos mefmos cargos , que o Vifo-Rejr 
Ihes tinha dados. E todos os oíficios , de que 
tinha providas algumas peífoas , os confir- 
mou , e nada revogou do que o Vifo-Rey 
tinha feito. 

E nao havendo mais que oito dias , que 
p Governador eftava de pofle , fuccedeo a 
mor perda, e defa ventura , que nunca a In- 
dia te ve, efoi, que vefpera de S.Joáo, já 
de. noite , lan^ou huní homem hum fogue- 
te de humas cafas ^ junto a noíTa Senhora dp 

Ro- 



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' Dbc. vil L IV. II. Cak i. II} 

farb ^ que o demonio encatninhou pera a 
ribeira das Armadas , e foi cahir fobre o ga<* 
kio S. Mattheus , que eílava varado , cu- 
berto depalha, que tomou logo fogo com 
tanta braveza , que foi efpanto ; e como eí^ 
tava abalravento dosmaís galeóes, que ef* 
tavam varados tambem junto delJe, e o ven- 
to era rijo , foi-fe pegando o fogo de ga- 
Jeáo em galeáo com tamanho eftrondo , e ter- 
remoto, que parecia que fe aíToIava todd a 
Cidade. O Governador vendo aquelle in* 
cendio ,- acudió á ribeira com todos os Fi- 
dalgos, moradores, efoldadefca qucíiavia, 
c arremettéram a defcubrir todos os galeóes 
que eñavam varados , e aos mais aue eña- 
vam no mar , que dos que o fogo tinha to- 
mado pofle, nao houve remedio algum. O 
Governador aínda va como doudo , mettido 
pela agua , e pela lama , e ainda antre ó& 
galeáes que ardiam , amfcado ás labaredas , 
e través que cahiam , por remediar qiie a 
mais Armada fenao perdeíFe. E neftetraba- 
Uio o feguíram todoy ; c houve foldados , 
que commettéram nefte negocio grandes te- 
meridades, mettendo-fe nos galeóes que ar- 
diam , por verem fe Ihepodiam valer; mas 
nada aproveitou , e muitos fe recolhéram mui- 
to queimados , e abrazados , a quem o Go- 
bernador abra^ou , e a hum ían^ou a cadeiá 
que trazia ao pefcof^o, e aoutro deo o feu 
€outo.Tom.ir.PX H an- 



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JI4 ASIA DE DiOQO DE COVTO 

annel de íinete , e a outros outras pe9as , 
que depois mandou refgatar ; e aíHm andava 
animando a todos poracudirem aotrabalbo^ 
promettendo mercés , que depois fez ; e foi 
cíla diligencia que poz , tal y que foi parte 
pera fe falvar toda a mais Armada. Durou 
efie incendio toda aquella noite > e odia fer 
guinte , em que fe queimáram , e confumír 
ram feis galeóes Reaes , quatro caravelas , 
e duas formofas gales , coufa que todos fen- 
tíram muito , porque era a mor for^a que 
o Eñado tinha. O Governador o fentio em 
eftremo , e hoqve aquella defaventura em 
principio de feu governo, por grande mofi- 
na fuá , e mandou tirar grandes devaíTas , e 
inquiri^Óes fobre aquelle negocio , e deicar 
grandes pregóes, em que perdoava gravilfi- 
moscafos aquem Ihedefcubriílequem quei* 
mdra a Armada , fem nunca fe poder íaber 
coufa alguma ; pelo que houve muitas fuí^ 
peitas , e juizos temerarios , mas a verdade 
foi n que hum Joáo Rodrigues , de alcunha 
o Calandar ( que he o meímo que peregri^- 
no ) foi o que lan^ou o foguete que diíTe* 
mos , fem ter tal ten^ao , e depois que vio 
o incendio fe paífou pera o Halágate , e dahi 
pera Cambaya , onde andou muitos annos 
como peregrino , e dalli cobrou a alcunha 
Calandar. Foi efte homem depois cafado 
em Ormuz , onde vivee muitos annos. O Go^ 



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Dec. vil Liv. II. Cap* I. Jif 

vernador íempre fufpeitott que aquelie da« 
mno fora mandado fazer por ordem do Idal« 
can, pelo favor que fe deo a Mealecan; e 
receando-fe da maís Armada , armou muí* 
tas manchuas pera andarem de longo da Ar* 
mada, e da ribeira, vigiando; e ordenou, 
que os Capitáes da foldadeíca vigiaíTem de 
noíte aos quartos na ribeíra, pera acudirem 
aonde foíTe neceíTario : eftcs Capitáes vigía* 
vam huns navaranda dalgreja dasChagas^ 
e outros ñas terecenas dos mallos. £ai to* 
do eíle invernó bouve muitos banquetes , jo- 
gos , e paíTatempos , e aos Toldados íe de» 
lam mezas muito aballadas. 

Como o Governador Francifco Barrero 
era homeqi de grande animo , determinou 
de em feu tempo tornar a renovar aquella 
perda, e fa^cr outros tantos navios, como 
os que fe queimáram , c logo mando» ar-* 
mar alguoias quilbas, e trazer dos rios vi* 
2Ínhos muita madeira pera come9ar a por 
as máos á obra , como fez , pedindo á Ci« 
dade ajuda pera ifio , que Ihe ella deo , e 
acudió com o que pode ; e os Bramanes de 
Goa tomáram á fuá conta fazerem huma ga« 
lé , que foi huma das mais formofas pe^as 
que vi , e delles tomou o nome , e fe cha** 
mou a galé Bramana ; e os mais Gentíos oo* 
rives , e mercadores deram de férvido pera 
ajuda d$ outra galé dous mil e quinhentos 
H ii par- 



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tt6 ASIA DE DioGo DE Couf o 

pardáos. O Governador por nSo perder teiñ-^ 
po , defpedio córrelos pera as fortalezas do 
Norte, Chaul, eBayaioi, eefcreveo aquel- 
les Vereadores , e povo , que o quizelTem 
ajudar com alguma coufa pera a reforma- 
dlo da Armada; » o que Ihe elles concede- 
ram com muito gofto ; e paflbu Provisócs 
pera os Capitáes, e Feitores daquellss for* 
talezas , pera que dos rendimentos del las ar- 
maffem logo em cada huma dellas dous ga^- 
JeÓcs 5 e duas caravellas : e efcreveo aos Of* 
ficiaes de Dio , que mandaíTem pera ilTo aquel- 
les Feiiores todo o dinheiro que as naos de 
Meca ríndeíTem em Agofto ; e tal prcíTa 
deo em feu tempo , que quando chegou Dom 
Cónrtantino (que Ihe fuccedeo) Ihe tornou 
a entregar outras tantas vaíilhas novas , cor^ 
rooadiante melhor diremos. E de fe que- 
rer poupar a fazenda de EIRey , fuccede 
muitas vezes mórperda dellaj porque de fe 
nao determinarem os Vifo-Rey«, e Gover-^ 
nadorés a fazcrem humas terecenas , ao me* 
nos pera gales, e navios de remo ^ ficamto* 
dos os invernos arrifcados a outra femelhan** 
te defaventura , gaftando-fe pelo miudo mul- 
to mais do que efla obra poderla cuftar } 
porque todos osannos fedefpendem, fóem 
cubrir toda a Armada de palha , dous mil 
pardáos; e em tantos annos com eftas def-^ 
peías fe; poder ¡am tcr feitas dez terecenas* 

.; ;. ' E 



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4>Ec; VH. Liv.il Capí, i; 117 

E poQo qué os galeóes nSo caibáo ndlas ^ 

Eor táo barato havemos cubrirem-fe de te- 
la, como de palba ;. porque ainda que íe 
quebrem multas , nao deve de montar a me^ 
tade do. que cada anne fe gaíla napalha, a 
fóra o rilco , que correm , que val tanto , 
quanto o feguro de toda a Armada : niaf 
piles defcuidos , e defordens ( que aílim Ihe 
podemos chamar ) nafcem de algunsVifo- 
Reys y c Governadores eftarem com olho 
cm feus refpeitos particulares , e tambcm de 
outros , quando fuccedem , nao querercm aca- 
bar as obras, que os que acabáram tinham 
comcfadas ; porque a póucos vimos parecer 
bem as couTas daquelles, emuitas, em que 
tinham feito grandes defpezas, fe perdéram 
por efle refpeito. , que nao apontamos por 
nao infaniarmos a alguem. 

-CAPITULO IL 

'De como o Governador Franctfco Barreta 
pajjbu a Pondd a fe ver com o Me alee an ! 
e de como proveo as Tanadarias daquel^ 
las partes ^.e mandou D. Antao de No- 
ronha a tomar pojfe de todo Concan. 

DEpois de Meálecan ficar entregue a Ca- 
labatecan , (como atrás titmos dito no 
Cap. X. do I. Liv. , ) ferecolheó pera aqueU 
la^aideia a cfperar o rccado/de.AnelMalur 
.. . COi 



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Il8 ASIA DÉ DíÓÓO DÉ CóUTO 

co } e em quantó alli eftéve , Ihe acudíram 
todos os moradores das povóa^Ócs ao redor 
ao verem , e darem fuá obediencia como a 
feuRejr. OGovcrnador Franciico Barrero, 
tendo por novas eftar aínda alli , defpedio 
hum correio com huma carta , em que Ihe 
pedia » fe nao abalaíTe , porque Ihe impor- 

> tava muiro verem«fe ; a que elle refpondeo , 

> que o faria , e que viíle onde quería que 
% o efperaíTe ; n com o que fe come^ou a pre* 
parar , e ordenar fuá paíTagem , que quiz fof> 
le com tamanha mageftade , como a do Vi* 
fo-Rey D. Pedro Mafcarenhás , por nao di- 
minuir na authoridade do Eñado. E mandou 
logo ajuntar toda a foldadeíca em feis ban- 
deiras , cujos Capitáes eram , Martim AíFon- 
fo de Miranda , (de quem o Governador de* 
pois de fucceder ña governan^á fe moílrou 
mais amigo , que de todos os Fidalgos , por- 
que nao cuidaíTe que pelos defgoftos pa(^ 
íados Ihe ficára tendo má vontade ) Alvaro 
Paes deSoto-Maíor, D.Fernando deMon- 
roy , Jeronymo Barreto Rolim , Pantaleáo 
de Sá, e D.Alvaro da Silveira. E deo re- 
cado aoCapitáó da Cidade , *que já era Jor- 
ge de Mendoza , ( porque Galpar de Mello 
efiavá prezo , por huma affrontá que dentro 
M Cámara fez a hum Vereador , ) pera que 
ajuótáíre toda a gente de cavallo que na tér- 
ra haviá} eaoTaoadarmór> pera que tam* 

bem 



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Dec. vil Liv. II. Cap, II. T19 

bem o fizeíTe á gente das Ilhas , e aldeias 
de fuá obriga^áo. 

Preñes tudo, paíTou oGovernador aGa- 
^aim, e dalli mandou recado a Mealecan^ 
e ao Accedecan , que o cfperaírem no cam- 
po de Ponda , porque ahi o iria ver , e yí* 
íitar ; e mandou logo paílar toda a gen« 
te a Salfcte, e elle fe pairou por derradei» 
ro , e de lá paíTou á térra firme pelo lugar 
de Durubate, (por onde D. Pedro Mafca» 
renhas paíTou aquella noite , ) e foi marchan* 
do pera Ponda , com o mefmo apparato ^ 
poder , e na mefma ordem , que o Vifo-Rejr 
tinha paflado. Nefla ordem chegáram a Pon* 
dá , onde eílava D. Antáo de Noronha , que 
o fallió a receber com toda a gente qtie ti* 
nha , poíla em armas , e Ihe deo grandes fal* 
vas de arcabuzaría , e fez outras mtíitas feí^ 
tas ; e aquelle dia fe apoíentou o Governa- 
dor na fortaleza. Ao outro dia chegou Mea* 
Jecan com o Calabatecan , e mais Caplcaes 
que com elle ellavam. O Governador o fa- 
llió a receber fóra ; e depois de paífadas as 
cortezias ordinarias , fe recolhéram em ten^^ 
das , que pera iíTo eftavara armadas , e tor* 
náram de novo a confirmar os contratos! , que 
eftavam aflentados com o Vifo-Rey D. Pe* 
dro Mafcarenhas, e Ihe paffouElRey Pro* 
visóes pera logo Ihe entregarem as forta* 
lezas de Banda ^ Cúrale , e outras daqtiellas 
, par- 



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120 ASIA DE DiOGO DE Coufo 

? artes ; porque das fujeiras á jurdi^áo dé 
onda y logo mandou tomar poíTe , eas pro- 
veo de Tanadares , e recebedores , Mouros ^ 
e Gentíos. 

PaíTadas eílas coufas, fe defpedio Mea^ 
lecan do Governador , e fe tornou pera a 
mefma aldeia a cfperar o recado de Anel Ma- 
luco , pera cometa r a fubir o Gate. O Go- 
vernador ficou dando ordem ao recebinaen- 
to das Tanadarias da jurdigáo de Ponda , 
que eram doze , Autrúos , Pernás ,' Batiga- 
cao , Ajuré , Soppá , Orubá , Daúr , Atiga- 
rá , Chandovari , SanguiíTcr , Armarbarca^ 
e Dobati. Todas eftas arrendou a Gentíos 
naturaes , aíEoí , e da mefma maneíra que 
corriam em tempo dos Mouros^ fem inno^ 
var coufa alguma nos Foraes , antes Ihes fez 
muiros favores, e deo muitas líberdades; e 
deixou hum Jorge Manhás , de füa< obrigat 
jao , por recebedor de todas , com poderes 
de Veador da Fazenda, e Ihe ordenou mil 
piáes da térra, com feus Naíques, reparti- 
dos por todas as Tanadarias pera fuá fegu- 
ran^a , e pera o favor da arrecadagáo de lúas 
rendas. 

Feito ido , em que gaftou alguns djas., 
deixou na fortaleza D. Fernando de Mon? 
roy com quinhentos homens , e recolKeo 
D. Antáo de Noronha pera o maadar to- 
mar poíle das Tañgdarias de Banda > Cura* 

le. 



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Dec. VIL Liv. II. Gap. II. iir 

le, e das mais daquellas partes, e de todo, 
o mais Concan , que era o mais importan-» 
te, e paftio-fc pera Goa. 

.'. Chegado aquella Cidade , defpedio lo- 
go D. Anráo de Noronha pera o Concan 
com qulnlientós Toldados Portuguezes , de« 
baixo de tres bandeiras , cujos Capitáes eram^ 
Jorge de Moura , Joao Lopes Leído , e hum 
fóao Pereíra , que , fegundo nos parece , era 
Chriílovao Pereira Homem , e Ihedeo mais 
oitenta moradores de -cavallo , multo bem. 
concertados, e porOpitSo do campo ham 
D. Joáo , que foi Mouro , e em Goa fe fez 
Chriftáo , ( hum dos principaes Capitáes do 
Reyno do Idalcan , bomCavalleiro , e mul-^ 
to fiel , ) e Ihe deo mi/ e quinhentos piáes 
jcom feusiNaiques. Neíb jornada pafláram 
com D. Antáo de Noronha por aventurei-? 
IOS muitos Fidalgos , e Cav;alleiros ; e dos 
que pude faber os ñomes , sao os feguintes. 
, í). Loiz de Almeida , fiiho de D. Lo* 
po de Almeida, Alexandre de Socfa, que 
foi Capitao deChaul , Alvaro Pereifa , Ruy 
JBarreto , Joáo de Mello da Cunha , Jerony- 
mo de Soufa , Diogo de Vafconcellos , Luiz 
Pinto Pimentel , García Queimado,. Vafeo 
Correa , e putros. E pera Tanadar da for- 
taleza de Banda hia Antonio Ferráo , Tana? 
(dar mor de Goa , e pera Juiz da Alfande- 
gz Antonio do Valle* Preftes.D. Amáo de 

No- 



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121 ASIA DE DiOQO DE COUTO 

Noronha, paflbu-fe a Bardes, e dalli tomou 
o caminho de Banda , onde o deixaremos ^ 
porque heneceíTario continuarmos com ou-^ 
tras coufas , que nefte tempo fuccedéram. 

CAPITULO IIÍ. 

Vos recados que pajfdram antre D. Dioga 

de Noronha , Capitao de Dio , e Melique 

Xeque Jobre a Alfandega : e de ou- 

tras multas coufas que Juccedéram. 

A Tras no Cap. IX. do I. L¡v. demos 
conta de como Tartacan deitou fóra 
das térras de Dio ao Abifcan , e de como 
deixára por Governador naquellas partes que 
elle poíluia , a Meiique Xeque Guzaraie. Efte 
como fe vio alli com o poder , e mando ^ 
come^ou logo a querer puxar por ametade 
do rendimento da Alfandega de Dio , aíiim 
como a arrecadava o Abifcan ; e aífím o 
mandou tratar com D. Diogo de Noronha, 
de qucm fe tinha moftrado grande fervidor , 
e amigo, aprefentando-lhe odireito quenif- 
ib tinha. D. Diogo de Noronha vendo fuá 
len^áo, e requerimento , o raandou defen<- 
ganar, affirmando-lhe n que na Uha de Dio 
n ninguem havia de ter quinháo , porque to*- 
)>daera deElRey de Portugal: que fe con- 
)» tentaíTe Tartacan de poflTuir as térras , que 
3ifor<im do Abifcan.» Sobre iíb corréram 

mui- 



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Dec vil Liv. It Cap. Ilf. laj 

tnuitos recados , fem D. Diogo de Noronha 
deferir a elles ; antes mandou fortificar os 
paíTos da Uha , e proveo os ríos de mdn^ 
chuas , porque Ihe nao pudeíTe entrar na liba» 
Vendo o Melique Xcque quáo doro oacha* 
va naquelle negocio, o mandou commetter 
em fegredo com cem tnil Madrafarls , que 
cada hum tem dous larins de praca , que vi* 
nham a montar íincoenta mil patacóes, pe* 
ra que Ihe largafle ametade da Álfandega | 
e que quando \úo quizeHe, qué Ihefazia a 
faber, quebavia de mandar carregdf as naos 
deCambaya naCidade deGogá, e que Ihe 
havia de impedir todas asfazendas, quepof 
térra coílumavam ir a Dio , corfi ó que a«> 
quella Alfandega fentifle maior perda , que 
ie Ihe largara ametade do íeu rendiftiento. 

Efte ponto poz D. Diogo de Noroftha 
em eonfelho das peíToas priiicipaes que ai* 
li eftavam, e quaíi todos foraifi de parecer 
)iaue fe havia de largar a ametade da Al* 
» fandega , antes que perdella toda ; porque 
n fe Melique Xeque fazia o ^ue dizia , fiCá* 
» ria. aquella Alfandega deferta , e que ó 
» tempo podía depois ofFereccr oütra occa* 
91 fíáo , em que fe lán^aíle mió da Alfandega.» 
Depois de votarem todos fobre ifto largo ^ 
o fez D. Diogo de Noronha , e difle : n Que 
^ elle era de contrario parecer de todos ; 
> porque quanto aos inconvenientes que a* 

poo- 



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124 ASIA DlE Dioao DE COÜTO 

^pontavam, cram de fei^áo , que íepodiam 
natalhan £ que irem as n4os de Cambajra 
icarregar a Gogá , iflb fe ihe poderla de* 
3 fender com a Armada , que elle logo laih; 
ufaría ao mar. E que quanto ásfazendas» 
n que vinham por térra , era o que imporr 
y tava menos , que fó as naos de Meca era 
» Q Tubílancial , e que cíTas forj^ado haviaai 
>devir a Dio, fem Ihoninguem poder de- 
ofender. E que quando iíTo nao rivera re- 
ik medio , aínda era de parecer , que antes 
31 EIRey de Portugal perdeíTe tres , ou qua- 
n tro annos todo o rendimento daquella Al* 
» fandega , que dar nella quinháo a EHley 
^ideCambay-a ; porque tendo-feefte nego- 
» cío aífim em tezo , fe enfadariam os Mout 

> ros da guerra , c os mercadores chamariam 
)i pelos pro vei eos , que todos os de Cambaya 
9» tinham de trazerem fuas fazondas aquella 
» Uha y e que forjado fe haviam de tornar 
}» a largar , e que aílim íicarla toda aquella 
nAlfandega livre pera o EJftado. » Ifto pa- 
receo táo bem a todos , que fe toroáram a 
retratar , e feguírara o parecer do Capitáo 
D, Oiogo de Noronha. 

i Com ella refolu^ío mandou t). Diogo 
de Noronha dizer ao Melique Xeque »qué 

> quanto ao dinheiro com que o commettia ^ 
}ináo era. elle homem que pornenhum the- 
31 íburo da vida foíTe contra o férvido d^ feu 

» Rey : 



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^Dec. VIL Lív. IL Gap. TIL i¿^ 

jKey : que dos an^ea^os que Ihe fazia Ihe 
»dava pouco, porque elle iría em peíToaa 

> Gogá , e traria as naos que lá carregafleiri , 
» e as tomaría per perdidas, E que a Jhe de* 
]» fender a paíTageiti por térra ás fazendas y 
» fcígaria muito , porque eniáo o obrigaria 
»ao ir bufcar aNovaNager, onde efiava, 
)»e lan^allo fóra daquellas térras , que elle 

> tinha iyrannizadas a ElRey de Cambaya , 
» e' tornar-lhas a entregar. )» Com eíla reípofi- 
ta comejou Melique Xeque a Jangar gente 
de guerra da outra banda , e a defender a 
paílagem aos mercadores ; o que fabido por 
D. Diogo de Noronha , defpedio hum Lou* 
fcnjo Pereira por Embaixador a ElRey de 
Cambaya apedir-lhe que bouveíTe por betn 
iicar aquella Alfandega toda a ElRey de 
Portugal , porque aflim Ihe vinlia melhor , 
que comer ametade dalla aquelle alevanta- 
do , porque era bem enfraquecello no* cabe- 
dal , pera fe nao poder fulíenrar em fuá ty- 
rannia ; porque quando ElRey fe quizefle 
reftituir em feüEftado, opudeffe fazer com 
tnais facilidade. Eftehomem chegou aCam-< 
bayeic, eachou o Rey mogo em poder dó 
Ithimítlcan , porque havia pouco tinha fú-^ 
•gido de Madre Maluco pera elle , por aN 
rufos que tcve; mascumprio-fe niño aquel-' 
le adajo Italiano, que diz, fugio da certa ^ 
r foi dar n^s brazas j. aíüm cfte fugio do qn^ 



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126 ASIA DE DiOGO DE COUTO 

O Fez Rey, e otrazia na IJberdade queque- 
ría , pera outro tyranno que logo o fechou ^ 
e encerrou de feÍ9áo , que ninguem o via , 
celle ficou governando tudo, ficando oído* 
fo como huma eílatua , fem elei^áo de aue* 
rer em nada ; porque como o tinha deDai* 
xo de fuá chave , razia tudo o que quería » 
e mandava foberanamente , com capa de di- 
zer j que EIRey o mandava aífim i e por der- 
radeiro Ihe veio a tirar o Reyno , e entre*' 

gillo aos Magores , como adiante na nona 
ecada fe verá* 
Chegado Louren^o Pereira ao Ithimiti* 
can , deo-lhe o recado de D. Diogo de No- 
Tonha j que elle logo ouvio bem , e mandou 
que fe detiveíTe até l'aber a vontade de El- 
Rey i e aflim íicou muitos días fcm Ihe da« 
tem refpofla , porque era homem de pouco 
negocio , e tacanbo ; e os bomens que hao 
de negociar com Mouros, o hao de fazer 
com a máo abcrta. E nao fó o nao ouviram 
iem iífo , mas ainda o trátáram mal , como 
6zeram a efte» Do que D. Diogo de Noro- 
nba foi logo informado » e deipedio Diogo 
Pereira , ( hum Cavalleiro honrado de iba 
obrigajáo , homem prudente , liberal , e gran« 
dioío no trato de lúa peíToa, e cafa,) que 
chegando á Corte , achou o Louren^o re* 
mra muito mal tratado do Ithimitican , por« 
/que Ihe fez multas^ c publicas defcortezia$^ 



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Decj. vil Liv. II. Cap. III. 127 

c eftava comoreteudo, e encurralado. Die- 
go Pereira fe vio com o Iihimitican , c ira^ 
tou com elle o negocio que levava a car- 
go , fobre o que levou difFerente modo , c 
com tudo iflb nao Ihe refpondep a propo- 
íito , de que avifou a D. Diogo de Noro- 
nha pelo mefmo Lourenjo Pereira, que fe 
foi pera Dio; e íabendo das avexa^Óes que 
Ihe lá fizeram , tomou-fe diíTo tanto , que lo- 

fo deterroinou de fe vingar do Ithjmitican. 
\ tendo noticia certa , que tinha huma nao 
fuá em Meca com cartaíz , que Ihe paíTou 
o Vifo-Rey D. Pedro Mafcarenhas , pera 
¡r defcarregar em Gogá , e que fe efperava 
por ella na entrada de Agoílo, determinou 
de fe fatisfazer nella ; pera o que armou qua* 
tro navios , de que dco a Capitanía a Duar* 
te Paim de Mello, e Ihe deo por regimen- 
tó , que fe foíTe por na enceada dos Rabáos ; 
equc como aquella nao appareceíTe , afizeí^ 
fe arribar a Dio, fem tocar nella, nem fa? 
zer for^a alguma , nem aíFronta aos merca* 
dores. Duarte Paim de Mello íe foi pera 
aquella enceada , onde efteve poucos diaj?, 
porque logo houve vií^a da nao , que era 
inuito formofa , e vinha a maÍ6 rica qu« 
nunca partió do porto dejudá; porque qo^ 
mo era forra , embarcáram^fi? wlh todos 
<^ marcadores groíTos com todo o ouro » 
prata ^. coral , e outras fa;z;endjis ricas rú% 

mor 



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128 ASIA DE DiOGÓ DE COITTO 

mor parte das ouíras naos , que erara obri^ 
gadas a ir a Dio a pagar os direitos. O Duar« 
te Paim vendo a nao ^ a foi demandar, e á 
fez amainar , e recolheo dentro o Capitáo , 
e Officiaes , fem baver alterando algúma da 
fuá parte ; porque como vinham coní fcgu- 
ro , nao houve refufar. E como os teve no 
feu navio, osquietou , efegurou , aíErman- 
do-Ihes 9 que o Capitáo de Dio nao quería 
mais , que fazer com elles certa diligencia ; 
e indo feu caminho , foram furgir na bahia 
de Dio , e todos os navios á roda della. 
D. Diogo de Noronha mandou recaído a 
Duarte Paim de Mello , que nao deixaífe en- 
trar , nem fahir della peflba alguma até feu 
recado, porque, náofofle aCambaya algum'^ 
primeiro que o feu. E no mefmo dia deí- 
pedio hum correio muito apreíTado , com hír- 
ma carta pera Diogo Pereira.^ em que man- 
dava, que tanto que aquella vifle, logo de 
noite fe partiflé defconhecido pera Cambaye- 
te , onde acharia hum navio j e que fe em- 
barcafle logo nelle , e fe vieíTe pera Dio; 
Eñe correio chegou á Cidade de Amadabá 
em poucos dias, e deo a carta aCiogo Pe^ 
reirá , que tanto que a vio , diílimulou com 
o negocio; e em anoitecendo, fevefilo em 
trajos de Mouro , e pofto em hum formo- 
fo cavallo fe partió pera Cambayete , onde 
chegou ao outro dia ^ e achando a oavÍQ 

que 



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Dec* vil. Liv. IL Caip. in. lif 

3ue Ihe Dé Diogo de Noronha tinha maiH 
ado , fe embarcou nelle , e fe veío pera 
Dio. D» Diogo de Noronha ^ tanto que o 
teve lá , mandou defcarregar a nao em mui^ 
tas embarca^óes ^ fem dar pelos requerimen* 
tos que os mercadores Ihe íizeraai ; e que ü 
metteíTem todas as fazendas na Alfandega 
pera pagarem os direito^ , o que Ihe man? 
dou lazer com favor , dízendo aos mercado*' 
res , que aflfás de amizade Ihes fazia em Ihea 
fiáo tomar a nao com todo o recheio* Ven^ 
ido os mercadores quemo tinham remedio ^ 
antes de ie Ibes bullir ñas fazendas , man* 
dáram commetter a D. Diogo de Noronha 
com dez mil Venezíanos de férvido , e qu9 
os deixaíTe ir pera Gogá ; mas como Dom 
Diogo de Noronha o nao vencía intereflc 
dgum ) pelejou com quem Ihe levou o re* 
cado. Pagos os direitos » Ibes tornáram fuaa 
fazendas , e Ihes deo licenja pera fe irem 
pera Gogá » dizendo aos mercadores vqus 
» difleíTem ao Ithimitlcan , que foubeíTe tra-r 
> tar bem os homens ^ que Ihe lá mandavam 
» os Capitáes de Dio. » lílo fentio elle mui« 
to , mas fofffeo i porque como tinha tyra» 
nizado o Reyno y nao qulz bullir em cou« 
ía alguma por n^ perder tudo. Eíle anno 
Jondeo a Alfandega de Dio com ella gran« 
de pancada « cento e vinte mil pardáos ^ de 
que fe fizeram as defpezas da tortaleza » « 
CoHío. Tom. ir. P. L 1 m jiQ- 



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tjÓ ASIA DE DlÓGÓ DE COÜTO 

maddoa depoie áo Governador Francifco 
Barreto feíTénta mil pardios» 
' Pouca depois diftó na entrada de Setem* 
bfd , entrou pela barra de Dio dentro hu* 
ma fufta muiro embandeirada , atirando muit 
fas bortibardadas* A eñe tempo andava Dom 
Diego de Noronha paíTeando eiti huma va** 
randa *fobf6 oñiar; e vendo entrar o navio 
torñ tmtó al toroso , (cotno tinha por car- 
fes dd "invernó, que o Vifo-Rey D, Pedro 
Mafcatenhas ficava mal ,) houve que er;i 
morro, e que elle fuccedia na governanjav 
porque á merecía a EIRey/ O Capitáo do 
navio entrotí ña fortaleza , e Ihe pedio al- 
Viraras ^ que Francifco Barreto era Gover* 
hador dá India , por morte do Vifo-Rey 
Di Pedro Mafcarenhas , e Ihedeo cartas do 
tnefíTio Governador. D. Diego de Noronha 
fe^üvindo aquillo que nao elperava ^ ficou 
fobrefaltado y e chamando pelos criados, mar>- 
fleu que Ihe levaíTem o Capitáo do navio 
ao tronco 5 porque fora coiifi támanho alvo- 
k)90 dar-Ihe nova^ da mórte de hum táó 
tionrado Fidalgo , cómo o Vifo-Rey Dom 
fedró Mafcarenhas ; eaffim foi levado o po- 
bre bortiem nos ares , e mettido no tronco» 
D. Diego <}é Noronha deitou as cartas do 
Governador por effe chao , e comejou a paí- 
fear , e a difeer : » D. Diego na Ihdia , e 
H Fraociíco Barreto Govertiador della ? ora 



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dL)tc vil. Lív. if. CAfei íii; í^t 

H ifto he acabado : faze^te D. Diogo Clerl- 
n go ) já que nSo preñas pera nadáis 31 Depoíá 
que fe andou defaíFogando hum efpa^o ^ cha-, 
mou o Alcaide itiór , e Ihe mandou ^ qué 
foltaíTe o Capitáo do liavio ^ e que etnbati'' 
deiraíle a fortaleza ^ e deíparaíTe a artilhería , 
e que feílejaíTe aquelle doudo de Franciíco 
Barreto , porque nao quería que difleíTem ^ 
que de inveja odeixára defazer; e que £l^ 
Rey podia dar a fuá goVeman^á a quem 
^uizeíie* E tomando o dinheiro que tinha 
junto , ( que era Os feíTenta mil pardáos que 
diflemos , ) o mandou embarcat no mefmo 
navio ) emcompanhia de outros^ e refpon^ 
deo ao Governador as fuas. cartas. E&e dU 
nheiro chegou a Goa depois das naos d^ 
Reyno , que o Governador feílejou oiuito i 
porque Jhe foi a itiuíto bom tempe ; e ef» 
creveo a D* Diogo de Noronha cartas che-» 
las de obriga^Óes , e agradecimentos , don 
muitos férvidos que tinha feitos a ElRey na-t 
queila fortaleza* Agora deixaremos hum pou^ 
CD eftas coufas /porque he neceíTario con^ 
tinuemos com as que fuccedéram neíle teiti^ 
po em Ceiláo , primeiro que entremos ñas 
0o veráo- 



I U CA- 



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132 ASIA DB DiOGO DE CoiJTO 

C A P I T U L O IV. 

Das coufas que fucceiéram em Cei/ao : e 
dos aráis deque oMadune ufoutera ini^ 
mi zar Tribuli Pandar com os Portugués 
s&es : e de como depois Je concertou com 
tiles pera o dejlruirem, como fizeram. 

FUgido Tribuli Pandar da prizao , em que 
D. Duarre o tinba , ( como já na feíta 
Decada no Cap. XIL do Liv. X. fica dito , ) 
foi-fe elle por no lugar de Bandale (depois 
que fez os damnos que diííemos. ) O Madu* 
fie como era manhofo , e aquellas defaven* 
fas todas Iheficavam cortadas á medida da 
que defejava , defpedio logo peíToas de re» 
cado a Tribuli Pandar , por quem o man* 
dou perfuadir a fe vingar das aíFrontas , que 
os Portuguezes Ihe tinham feito , oflPerecen- 
do*lhe pera iílb toda ajuda que quizeíFe ^ de 
gente , c dinheiro \ o que Ihe o Tribuli Pan- 
dar acceitou , e elle Ihe mandou feisccntos 
Chíngalas com feus Modeliares ; e com a 
gente que mais ajuntou , come^ou a fazer 
muito grande guerra aos noflbs , e deftruio 
os lugares de Paneturé , Caleturé , Macü y 
Berberí , Galé , e Beligáo , e derribou por 
elles todos os noflbs Templos , que os Fra- 
des de S. Francifco em todos eftes lugares 
tinliam ^ e nelles feitos multos Chriftáos com 

gran- 



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Dec vil LiV. ir. Cap. IV. 135 

grande edifica^So , e exetnplo de vida , re* 
cebendo alguns delles deíla vez gloriofo mar^ 
tyrio por máos defte Bárbaro , que a nenhu* 
ma coufa perdoava ; e a muitos dos Chri* 
íláos cativou y tratou mal , e aínda nietteo 
a tormentos. Nefta conjunto chegouAíFon- 
fo Pereira de Lacerda (que atris deixámos 
partido deCochim) pera ir fucceder naquel* 
[ a Capitanía ; e depois de tomar pofle del* 
a , fabendo os grandes damnos , que o TrW 
3uli Pandar tinha feitos , tratou de Ihe fa* 
ser toda a guerra que pudeíTe , pera o que 
fcx fuas preparajóes. OMadune, que nao 
perdía occafiáo , tanto que vio o Tribuí! Pan-^ 
dar bem liomiziado com os Portuguezes ^ 
defpedlo embaixadores a AíFonfo Pereira de 
Lacerda , por quem o mandou viíitar , e ofr 
ferecer-lhe contra o Tribuli Pandar tudo o 
que Ihe fofle neceíTario; o queAíFonlb Pe^ 
reirá de Lacerda Ihe acceitou , e agradeceo « 
fázehdo antre ambos concertos , que cada 
hum por fuá parte fizefle guerra ao Tribu- 
li Pandar , e nao levaflem mSo della , até 
de todo o ríio deílruirem ; porque em quan« 
to fofle vivo , havia de dar trabalhos áqueK 
la Ilha. Eftes concertos fe fizeram com con^ 
<lÍ9áo, que fe arrecadariam pera ElRey de 
Portugal os direitos da térra , e pórtos , que 
antigamente Ihe pagavam , que o MadunQ 
41ie trazia ufurpados\ e eram os feguimes: 

«Dos 



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134 ASIA DÉ DiOGO DE COUTO 

' «Dos pórtos de Licáo mil fanoes y de 
1 Belícote trezentos , as térras da Rainha tres 
31 mil e trezentos ^ as de Mapano fetecentos ; 
iras deMuliara dous^mil, o Regir dousmil 
9 e quinbentos y o porto do Matual tres mil 
ye trezentos e vinte , o de Columbo dous 
» mil 35 Paneturé quinhentos e feffenta , o por- 
3ito de Majú, Beligáo, e Galé, e Chuca-* 
^ rí noye mil c fetecentos.i E aíTentáram mais, 
que o Capitáo prendeíle o Camareiro mor 
do Rey da Cota , e feu cunhado Alaca , Mo« 
deliar, ehum filho do Capitáo preto , (que 
eram as tres pefibas de que mais o Madu- 
ne fe temia , ) fazendo os Embaixadores crer 
90 Capitáo , que eíles eram os induzidorcs 
das coufas do Tribuü Pandar ^ que o favo^ 
recéram nos damnos que tinha feito ; por-* 
que havia oMadune, que como nao tiveA 
ie eíles contra fi, logo Ihe feria muito fa*^ 
cil fazer-fe fenhor de toda a Ilha. 

Feitos todos eíles contratos á vontade do 
Madune , fem AíFonfo Pereira de Lacerda 
entender fuas invcnjóes , logo fe preparáram 
pera profeguirem a guerra ; e o Capitáo pren* 
deo as peíToas que o Madune pertendia , e 
o Camareiro mor mandou no cometo do ve*» 
rao pera Goa , a quem o Govcrnador Fran*^ 
cilco Barrero recebeo bem , e o mandou en* 
tregar aos Frades de S. Francífco , onde ef- 
teve, « Ihe mandou d^r todo o neceíTarlo^ 

c 



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Dec VII. Liv. II. Cak IV. t3f 

éotratáramcom tantos mimos , ^W ovi|> 
ram a fazer Cbridao , e o bautizáram cooi 
grandes feftas , fendo o Governador Fran*» 
cifcQ Barrero feuPadriaho, e Ihe poz ofeu 
nome ; e depois o toriapu ai mandar pera Cei* 
láo com .mimos, c honras. 

Aflentados os contratos antre o Madi;* 
ne, c AíFonfo Pereira de Lacerda j cjefpe* 
dio oMadune hiim íilho feu bafi^rdo^ cha* 
cnadoRajú, (que foi o mor inimigp, equ^ 
mor trabaiho deo aquella fortaleza que to- 
dos > e que Ihe poz dous muito apertadojs 
cercos , hum fendo Capitáo Manoel de Sou- 
fa Coutinho i e qutfo Jogo Correa de Bri- 
tx), como na nona, e decipia Decada fe di- 
rá.) EfteRajá com grande exercito fóicon^ 
tra oTribuli Pandar pela parte deCaletúré* 
Affonfo Pereira de Lacerda mandou Ruy 
Dias Pereira com duzenros homéns, e An- 
tonio de Efpindola'com cento j pera'irem 
jcadi hum por íua parte accommetter 9 Gi- 
dade de PaUnda , onde o Tribuli Pandar 
edava, porque o Rajú havia de.if por oíh 
tra parte, porque aíTim^ Ihe. nao pudeíT^ e^ 
capar. Chegados todos a ella , aíTentadp^ 
feus eiercitos, coromettéramosnoíTos aCjr 
dade com muitíi determinajáo ; -e poflo q^ue 
•o Tribuli Paodar fe defefi4ep/ muito vaí^Qh 
.rofamente , todavía ella/oientrada com morr 
«c de muitos de dentro i e o Trihu|i E^ndaf 
^ ^ ^* ven-* 



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í^6 Asia üe Diogo de Couto 

vendo-fe perdido, teve modo com que eí* 
capou , e ñigio pera Tanavaré , e os no& 
fos Ihe entráram as cafas , e cativáram fuá 
knulher , oue era filha do Madune , e havia 
pouco tinna recebido ; e Ihe tomáram todb 
o fervigo de fuá cafa , e peífoa , e com ií^ 
fo fe recolhéram pera Columbo, e o.Rajú 
pera Ceitavaca. O Tribuli Pandar nao fe ha^ 
vendo por feguro em Tanavaré , fe paflbu 
ás fete Corlas , até onde o Rajú depois o 
feguio, e Ihe íicou pondo cerco muico de* 
vagar ^ como adíame fe yerá* 

CAPITULO V- 

JDe como bum Capitao Pegüf chamado JS^' 
midifotao , matou ElKey Bramd , e Je 
apoderou do Rey fío , emandou matar Dio^ 
go Soares de mello : e de outras muitat 

. coufas que fuccedéram. 

DEixámos as coufas de Pegú no Cap» 
IX. do VII. Liv. da fexta Decada , em 
íe recolher o Brama de fobre a Cidade de 
Camambé , fem a poder toman E porque 
em todos efies annos , que fe mettéram em 
meio atégora , fuccedéram muirás coufas no- 
taveis , que deixámos de contar , porque fo- 
ram efpaihadas , nos pareceo bem recopiláis 
mos todas nefte Capitulo , e ñeñe lugar , por- 
^^ue «atram nellaa aJguds feitos famofos d« 

Ppr- 



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Dec VIL Lilr. II. CaK V, Í57 

Fortuguezes , que nao he bem fe percáo , 
neiti nos o fagamos á ordem que levamos 
nefta hifioria , <jue he contar as coufas alheias 
no tempo do invernó y em que fomos en<* 
trados« 

Pelo que fe ha de faber , que em quan« 
to o Brama andou conquiftando a Cidade de 
SiSo, « de Camambé, fe alevantou cá em 
Pegii hum grande Capitáo , chamado Ximih- 
do , e comegou em fegredo a convocar gen- 
te , e a fe cartear com algumas Cidadesprín* 
cipaes , peiti em quanto o Brama andafle au« 
ícnte ( cuidando que foíTe devagar ) fe ale- 
vantar com o Reyno. Antre eílas Cidades 
«ntrava tambem a de Pegú , que era a ca* 
bega do Rey no , cuios moradores folgáram 
de elle tomar aquella empreza , por íer Pe- 
gü I e fe livrarem da fujeigáo dos Bramas ; 
e vindo ElRey dáquella jornada , em que 
o deixámos , chegou a Pegú , fem faber aín- 
da coufa algoma da conjurag^o , e fe foi met^ 
ter na Cidade, e defpedio Oiogo Soares de 
Mello pera fe ir a Cofmim , que era o Ban- 
^el , onde o navio do trato já era chegado 
pera Ihe fazer os direitos 4 ^ com iflo deí-> 
pedio feus Capitáes , pera que foflem defcaí^» 
^r. E íicando fó , e bem defcuidado , Ihé 
deram novas , que o Xímindo íicava na Ci- 
dade de Cevadi , (que era poucas leguas , ) e 
^ue Qa de Pegú havia alguma alterajáo ^ por- 
que 



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138 ASIA t)E Diaao de Couto 

que EIRey eftava na fortaleza , a huma par? 
te da Cidade , onde fe provép , e fortifico^ 
tnuito bem ; e defpedio recado a Diogo Soa* 
res de Mello, pera que fe tornaííe logo per 
ra e!Ie , e fez chamamento de alguns Capir 
táes de mais perro. 

Efte recado tomou a Diogo Soares de 
Mello no Bandel , e logo com muita preíTa 
ajuntou todos os Portuguezes que alli ha* 
via y e por todas as povoa^óes daquelles rio$^ 
que feriam perto de duzentos , e fe foi pe* 
\o rio aífima pera Pegü , achando já os ca-- 
minhos quaíi impedidos por ordem do ale<- 
yantado , de que efcapou por fuá induftria ^ 
e esforgo ; c chegado á Cidadc , fe foi pe* 
la banda de fóra demandar os Paps <le£Ir 
Rey , e cntrou pelos pateos , a tempo que 
elle eftava em huma varanda ; e em o ven- 
do entrar, que o conheceo, fealevantou com 
grande alvorofo , e Ihe diíTe de íima : » Ah 
'% irmáo , (porque alfim Ihe chamava elle femf 
* pre , ) eu no meu Elefante , e tu no teu 
Jícavallo, venha todo o Mundo;» e fahia- 
ÁQ pera fóra , o recebeo com muitas honras , 
e o mandou agazalhar com todos os Portu- 
^ezes dentro na fortaleza por fuá guarda* 
Éaílim todas asnoites vigiavam cada quar^ 
to vrnte e finco Portuguezcs na fuá antc^ 
cámara , onde ElRey todos os quartos ce 
hía vifitar ^ e Ihe daya grandes banqueies;. 



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' Dec: VII. LiY.'IL Cap. V. i^ 

c dínheiro pera jogarem , e elle eftaya muí^ 
tas vezes vendo o jogo , e aos que perdiam 
mandava dar mais dínheiro. 

E chegando-lhe os Capitáes que tinha 
mandado chamar , foi bufcar o alevantado , 
dando a dianteira a Diogo Soares de Mel-* 
lo com os Portuguezes todos. OXimindOj 
que eftava na Cidade de Cevadi , em Ihe 
dando o recado que o Brama o hia bufcar ^ 
-fe fahio com todo o ppder , e furtando*lho 
a volta , deo fobre a Cidade de Pegú táo de 
fu pito , que a entrou logo , porque os con-» 
jurados líie deram lugar pera iíTo , c a Kslí* 
nlia fe fechou no caftelio com os feus ot^ 
diñarlos , e com alguns vinre Portuguezei 
que allificáram, e fedefendéram muito va* 
lorofamente do Ximindo , que bateo o caí^ 
tello mui furiofamente ; e affiritiavam, que 
hum Fidalgo Capitao do navio da viagem 
provéra o alevantado de pólvora , e muni- 
fóes pera iíTo. O Brama teve recado difto 
pela poda ; e voltando a grande preña , che^' 
gou á Cidade de Pegü , e fabendo-o o Xi- 
mindo , fe acolheo logo della , e foi fugihdo 
pera os matos, já fem poder, porque, todo 
fe Ihe foi. ElRcy fe deixóu ficar fóra fem 
querer entrar na Cidade , e mandou alguiib 
Gapiíaes que foíFem dentro , e mataffem á 
efpada todos os moradores della , mulheres | 
ineninos , e ainda todos brutos aaimaes ^ pot«- 
■ que 



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^4^ ASIA DE DieGo DE Cottto 

^tíe na Cidade traidora nem a elles íe ha- 
via de perdoar ; e que fó os que fe acolhef^ 
km ás cafas de Diogo Soares de Mello j 
( porque tinha allí feu fato , e criados , ) fe 
Ihes perdoaíTe : o que os Capitáes fizeram 
com tamanha crueza , e carni^aria , que foi 
efpanto. O Capitáo Portuguez » que alli efr 
tava com todos os que tinha em fuá com- 

ganhia , parece que tiveram avifo de Diogo 
oares de Mello , e naquella revolta tive^ 
raen tempo de fe acolherem ás fuas cafas ^ 
(que fe entulháram de gente , cafas , pateos , 
e até por lima dos telhados , e ainda por 
derredor das paredes da banda de fóra , ) aon* 
de os Bramas n^o chegáram , porque Jhe ti^ 
nham tanto refpeito, que chegando á viíla 
das cafas de longe , todos os que híam a 
cavallo , ou em Palanquim , logo fe apeavam 
por obediencia ; efcapando mais de doze mil 
almas , que áquelle circuito fe acolhéram , 
e tudo o mais até os caes , e gatos foram 
mettidos á efpada. 

Acabado eíle cruel facco , chamou o Bra* 
mi Diogo Soares de Mello , e Ihe diífe , 
<)ue foífe com todos os Portuguezes , e que 
tomaíTem na Cidade tudo o que quizeflem » 
porque a fazenda dos traidores razáo era 
que fe déíTe aos leaes ; e mandou a hum Ca« 
pitáo Brama > que Ihe prendeíFe aquelle Ca^ 
|)itáo Portuguez ^ que alli eftava fázendo a$ 

via-^ 



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Dkc. vil Liv. II. Cap. V. 141 

viagens , pelo favor que dera a feus inimi* 
gos » cujo nome calamos por razóes que a 
líTo nos iDOv¿ram , por nao affrontamos fi* 
Ihos y e netos , que tem no Reyno bem hon» 
rados. DiogoSoares de Mello com oscom* 
panheiros cntráram pelas cafas , e tomáram 
o que pudéram , e e]le foi levado por pef* 
foas , que fabiam as cafas dos ricos i e áíEr* 
ifnark y que fó em pedraria tomara pera fi 
perto de tres milhóes de ouro , e que os 
feus tambem houveram bom quinháo» Abaf* 
tados elies, e fatisfeitos, mandou o Brama 
a todo feu exercito , que fofle faquear a Ci-» 
dade , o que os Bramas iizeram , fem nella 
deixarem coufa alguma. PaíTado ifto , man» 
dou El^ey queimar todos aquelles corpos 
monos no campo em fogueíras muí gran* 
des^ que pera iíTo fe fizeram ; e depois da 
Cidade limpa , e defpejada , entrou ElRey 
nella, efoi ver aRainha ao caftello, efez 
multas mercés ^ e honras aos Porniguezes que 
a defendéram. Diogo Soarcs de Mello na« 
quelle alvoro(0 pedio de mercé a ElRey » 
que mandaffe foltar o Capitao Portuguez ^ 
que tinba prezo , o que Ihe elle concedeo ^ 
ainda que contra fuá vontade.Todas eftas cou- 
fas fuccedéram <lcfde aera de qua renta eoi-* 
to até a de fincoenta , em que ElRey &: 
cou pacifico, e quieto. 

£ na entrada da primavera íe foi recrear ,; 

e 



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t4i ASIA DE DioGo dk' Corto 

e defcan^ar dos trabaihos paitados a huníl 
Cidade muito frefca, chamada Saiáo^ que 
^ftá fobre aquelle formofo rio , de que era 
Senhor humPegú, que fechamavaXimide 
Satáo , que he tanto como dizer Duque de 
Satáo ; que por aggravos que tinha de El- 
Rey , e com a anibi^áo que Ihe entro^ de 
fe fazeí Rejr , detcrminou de o matar. Eef* 
tando EIRey mui defcan^ado no campo ^ 
onde andava á ca^a , cntrou de noite por 
iiuma janella , ( com confentímento de fuá 
guarda, que pera iíTo tinha peítado , ) e id 
fldagadas o matou , tendo reinado dezefete 
annos. E como elle tinha negociado aquil** 
lo de boa fei^áo , com alguns Capitáes da 
fuá banda , logo fe apoderou das cafas de 
EiRey ; e de tal manha ufou , que Ihe acu« 
díram os Pegüs todos , por fuas liberdades , 
e o appeliidáram por Rey , e fahio dos Pa« 
^s a dar nos Bramas, que eftavam no ex« 
crcito pera os matar a todos. Nefte tempe 
eílava tambem no arraial Diogo Soares de 
Mello com alguns Portuguezes , que EIRey 
jiunca largava deíi; eouvindo ñas fuas ten*» 
das a rerolta ^ acudió com os compánheiroa 
ás cafas de EIRey» Os da conjura^áo , que 
andavam já foltos , deram nelle , e Ihe ma» 
táram tres companheiros , e a elle feríram 
muiro mal em hum brajo; e vendo a cou# 
i^ táo mal parada ^ puzeram-fe emcayaUos , 
ü * e 



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fDfia VIL Liv. n. Cap. V. 143 

r fe foram pera a Cidade de Ova , onde 
cílava hum cunhado de ElRey , chamado 
Mandaragrl. 

Era ^Mandaragri filho de huma Ama 
^e ElRcy Brama , que Ihe creara hum filho ^ 
que já era morro ; e como andava das por» 
t^s a dentro , fem fe Ihe fechar couia algu- 
ma) e elle era mancebo muíto Jiobre , egen<- 
til-homem , tratou amores com huma irmS 
de ElRey , tambem moga , e muito formo* 
fa; e concertando-fe ambos, vieram a cflfe* 
iSuar leus defejos. Mas receando o manee* 
bo que o viefle ElRev a faber , defappa* 
receo hum dia , e foi-íe pera outros Rcyno$ 
apartados ; e como neftas coufas o fegred» 
■dellas nunca dura muito, chegando aos ou» 
vidos de ElRey o máo recado da irma ^ 
mandou-a prender , e que fe bufcafle o Man* 
idaragri pelo Mundo todo , pitMaiettendo mui- 
to a quem llie defcubriíTe aonde eftava : e 
afllm mandou muitos Capitaes , que fe e^- 
palhaifeai por todos aquelles Reynos após 
elle; E como a paixáo fempre tcm termo^ 
-algaDs grandes privados de ElRey ^ em o 
íbntindo hum pouco brando, Ihe pediraon^ 
"c aconfelháram , que já que o m» recado 
era feitó , devla de perdoar a iua irmi , t 
-remediar aquillo com a cafar, cora o Man- 
•^aragri , e fazello grande Sénhor em feui 
áleynos. Tamas-cov&s Ihe diíreram4ieíkc^ 
•* > fo. 



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t44 ASIA üis DioQó Dt CouTo 

<ío , que o abrandáram de todo ^ e mandofl 
vir oMandaragrí, (que logoíedefcubrio^) 
e os cafou , e Ihe deo titulo de Xemim , que 
he dé Duque, e o trazia comíigo no exer* 
cito, niuito mimofo, e em lugar de filho^ 
porque os nao tinha. 

O Xemim de Satáo, quematouElRej^ 
xlepois que feapoderou doexercito, abaloa 
contra a Cidade de Pegú, e Diogo Soares 
de Mello com os Portuguezes o fahíram a 
receber, eareconhecer por Rey; e elle Ihe 
fez honras , e gazalhados , e o defpedio que 
fe foíTe pera Pegú , onde elle todos os dias 
que alli efteve , depois que fugio do exer* 
cit0 y fempre governou abfolutamente tudo 
como Rey , e os Pegüs Ihe obedecéram co- 
ino eíTe. O tyranno do Xemim de Satáo 
nao quiz entrar na Cidade , poraue Ihe de- 
ram novas , que o outro Xemindo ( de que 
atrás fallamos ) depois de faber da morte de 
ElRey , ajumara grandes exercitos , e que 
vínha muito poderofo em bufca delle , ap- 
pellidando-fe Rey de Pega ; pelo que com 
muita preíTa ajuntou eftoutro Xemim de Szr 
táo todo o poder que tinha , e o foi efpe» 
rar ; e antes que fe partiíTe , mandou chamar 
Diogo Soares de Mello , que com todos os 
Portuguezes o foíTe acompanbar , o que el- 
le logo fez. E antes de chegar aonde éfta^ 
ya o Xemim de Satáo ^ o leváram alguq» 

Ca- 



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Dec Vil. Liv. II. Cap. V. 14^ 

Capitáes no mek) , e entráram com elle em 
Huma varella y e allí o retiveram , dizendo^ 
IhQ , que mandaíTe bufcar feu íilho , aue fi- 
cava emPegu, pera tambem irnaquellajor^ 
nada. Diogo Spares de Mello , como era 
prudente , logo fe receou , e bou ve aquillo 
por ruim negocio , e defpedio hum Fernád 
Rodrigues , que boje vive na Cidade de Goa ^ 
e ferve o oíncio de Modacadáo dos Fara^ 
2es , pera que folie chamar o íilho , e di& 
feffe aos Portuguezes , que eftavam em Pe- 
gó y que fe puzeíTem em cobro , porque ha-* 
via ruins íinaes ; e áquelle Fidalgo Capitáo 
da viagem Ihe difleíTe , que já vira o que 
tanto defejava ; porque imaginou Diogo Soa- 
res de Mello , que elle o mexericára com o 
X^mim de Satáo. Fernáo Rodrigues trouxdi 
a filho de Diogo Soares de Mello ^ e che- 
gando com elle á efcada da vareila , onde 
Q pai eftava , Ihe comáram os Pegús o ca-; 
vallo, e o prendéram , e deípiram : o pai 
tanto que vio fazer aquella offenfa aofilho^ 
dando*Jhe a paixao , langou máo dé huma 
cana mocifla ( a que na India chamam bam- 
buz ) aue alli eftava chela de boninas , que 
pfiereceram ao Pagode , e arremettendo com 
os Pegús , os levou ás pancadas diante de íi ; 
e lanzando a todos fóra da varella , arre- 
metteo pera fe fahir por outra porta ; e fen-t 
tdo em baixo, foi cercado^ e atado com as 
Couto.fom.ir.P.L K máos 



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146 ASIA DB DiOQÓ DE COIJTO 

tnáos detrás ; e hum daquelles algozes le* 
vantou hum íuzente trabado pera Ihe cortar 
a cabera ve vendoo elle, difle a húm-Ca- 
pitao, chamado Xemim- da guedel ha y gran- 
de feu amigo »que pois o queriam matar i 
>que fizefle efperar hum pouco^ e Ihe fol- 
H taíTe a túio direita , porque quería ptdir a 
» Déos perdáo de feus peccados ; )• e Xemlm 
da guédelha o fez aílim , mandando-lhe def« 
atar a máo direita ; e abaixando*fe elle em 
gjolhos, tomou hum tijolo, (que haviaal* 
li müitos , ) e com os olhos no Ceo deo cooi 
elle muitás pancadas nos paitos y com tanta 
forga , que logo Ihe arreoentou o fangue , 
dizendo : Senhür , tibi foli peccavi ; e allí 
fiaquelle breve tempo fez muito alto huma 
confifsao de feus peccados em particular ¿ di- 
2endo: Offendi-vos ^ Senhar ^ emtal , e em 
tal \ e allím foi dífcorrendo por todos a¿ 
quelles que ihe lembráram, com tantas la^ 
grimas, e pancadas nos paitos, que moveo 
a todos a compaixao ; é naqúelle aél^ó Ihé 
deo hum verdugo por detrás hum tamanho 
golpe , que Ihe deitou a cabeja fóra dos hom- 
bros. E fegundo aquelles exteriores, pode- 
mos crer da mifericordia de Déos noíTo Se^ 
fihor que a haveria com elle. 
^' Ofilho, que atrás diíFemos, foi tao di- 
tofo , que naquella revolta ( quando o pai 
lanfou ás pancadas a todos da varella ) tor* 

non 



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' Dkc. YII. Liv; II. CaK V: Í47 

nou a cavalgar no cavallo ; e fetm terem ten« 
to nelle , deo coiiifigo efn Pegú ^ onde fe fou- 
he logo a mor te de Diogo Soares de Meí- 
lo. PaíTados pouco$ días depois diílo , £01 o 
Xemim de Satáo bufcar o Xemindo ; e che» 
¿ando á viíla huiti do outro , vieram a ba- 
-talha , onde o Xemim de Satáo foi desba- 
ratado y e prezo , e o Xemindo paíTou adi- 
ante , e entrou pela Gidade de Pegú triun- 
fando ; e mandou levar por toda ella o Xe- 
mim de Satáo , afüm atado , com pregóes 
^ue dÍ2Íam , qué aquelle era o traidor y qué 
matara ElRey Brama, £ indo elle naquelíc 
tranfe , paflando pelas cafas que foram do 
Diogo Soares de Mello , pondo os olhos 
«ellas , difle alto : » Eu merejo efta morte ^ 
» e deshonra y porque mande! matar Diogo 
» Soares de Mello fem razáo , e por más 
itinforma^óes.» E depois de todas eílas af* 
frontas y Ihe cortáram tambem a cabera. 



K ¡i CA- 



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t48 ASIA DE DiOGO DE CovTo 

C A P I T U L o VI. 

De cama Mandar agr i , cunbado M EIR^ 
Brama , veto com grandes exercitos fi^ 
bre Pegü , e tornan a conquijlar aquel- 
le Rey no i e das fafanbas que os Portu^ 
guezes fizeram em defensao da fortale^ 
za , onde a Rainba eftava : e do que fez 
o Mandaragri Rey de Pegúj quando ot 
nieto foceorrer. 



DEfta vez íicou Xemindo Rey de Pega 
até efte anno de íincoenta e finco em 
3ue andamos, que o Mandaragri, cunhado 
e ElRey Brama , > ( que, como diíTemo^ , foi 
fugindopera aCidade de Ova,) tornou fo^ 
breeIJe; porque os RegedoresdaquelJe Rey- 
no o alevamáram por Rey, por fer cafado 
com a irmá de ElRey Brama , a quem de 
dircito pertencia o Reyno« E vendo^fe elle 
potente , e íabendo das revoleas que em Pe- 
gú havia , e como o Xemindo matara a Xe« 
mim de SatSo , e fe intitulara Rey , ajun- 
cando grandes exercitos, entrou pelo Reyno 
de Pegü} e depois de ter muitos recontros 
com a gente do tyranno , vieram ambos a 
batalha , que foi multo cruel , e por fim del- 
]a íicou o Xemindo desbaratado de todo , e 
foi fugindo em trajos disfar^ados pera os 
mais apartados matos dosfins do Reyno. O 

Man- 



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Dec. vil Liv. II. Cap. VI. 149 

Mandaragri , vencida abatalha, feapoderoa 
de todo o Rey no; e como fe vio quieto ^ 
m^ndou Janear grandes prcg&s , que toda 
a peíToa que Ihe dií&fle onde eftava o ^o* 
mindo y e liie déíTe ordem pera o haver 
4s máos , o faria grande Senhor em feu» 
Reynos, e Eftados; e tanta diligencia poz 
nido -y que o bouve ás máos por eíla ma?« 
neira. 

- Fugindo o Xemindo , ( como aílima dilL 
femos , ) fe foi por nos matos mais efcondi- 
dos , c]ue havia nos fins do Reyno , e alii 
em trajos deiavrador fecafou comliuma fi* 
Iha de hum^ que neftes matos vivia pobres 
mente, onde come^ou agrangear ávida ro« 
(ando , e femeando a térra y . vivendo neflc 
eílado mais de dous annos. £ parece que de^ 
via de ícr mui aflei^oado a fuá mulher , por-« 
que fe Ihe defcubrio de todo. £ ufando el* 
la da naturesa das mulheres , (que he nao 
poderem acabar qomfigo guardar íegredo em 
coufa alguma , ) deo conta a feu pai de quem 
elle era, que vencido logo daintereífe aue 
EiRey promettia a quem o defcubriiTe , aif- 
íimulando fe foi a Pegü , e deo conta da« 
quelle negocio a £lRey, e fe Ihe offereceo 
ao entregar , como fez. £lRey o mandou 
trazer diante de íi pera o conhecer ; e ven- 
do fer o proprio, o mandou alli logo ma- 
tar i e fobre.fua vida y e morte, fizeram q$ 

Pc- 



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I5'0 ASIA DK DiOGD^DE COTJTO 

Pegús muitos Romances y que hoje em áü 
cantáo em fuas feftas. 

E tornando a continuar com a ordem de 
noíTa hiíloria : tanto que o Mandaragri fe vio 
fenhor doReyno dePegü, quizobrigaraoe 
naturaes: ao amarem , com beneficios , amor , 
e mercas ; e logo repartió os títulos todos , 
e eflados com os ñlhos dos que os poíTuí- 
ram , le eram já mortos ; e fe vivos, confir- 
mava-os nelles : e deo outros moitos de no- 
vo , e proveo nelles todos os oíHcios , fem 
dar hnm fó , nenv térras , rendas , nem ou* 
tm coufa alguma a nenhum dos Bramas , que 
comfigo trouxe. Mas como a malicia dos Pe* 

füs he mui grande ; e fuá natureza altera-* 
a, nao fe quietáram com tudo ido, antes* 
come^oulogo ahaver antre elles muitos tu- 
multos, a que o Brama acudió com o caí^ 
tigo , abrazando Cidades , dcftruindo póvos , 
e mandando matar iiifínitos Pegüs , e a to- 
dos os mais fez tirar as armas , e os inha» 
bilitou de todo; e pera mais os domar, or« 
denou de íazer huma formofa Cidade pera 
íua Corte, pegada á velha, a que poz lo- 
go as mSos , e come^ou a levantar os mu- 
ros de adobes em forma qaadrada , e tSo 
grande , que he eíla Cidade huma das nota- 
veis coufas do Mundo ; de quina a quinsí 
tinha íinco portas, efobre cada huma hum 
formofo baluarte^ e de hum aroutra íinco 

gua- 



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Dec. vil LiVi II: Cap. VL lyi 

guantas , e a mandou cercar de huma niui 
feirinofa cava, át largura de hum bom ti- 
ró de pedra / e de finco brajas de fundo ; 
e no meló da Cidade fez, apofenco pera ít 
dg tanta mageílade , de caías , íalas , varan? 
das y guantas , pateos , e jardins , que era 
couraeípantofa, etodos cercados ároda de 
hura groflb «lyro , e de outra funda, e for- 
móla cava ,: chelas, aipbas da agua dos ríos ^ 
que fez entrai', e fahir por ellas j tudo ido 
por órdem de Arquiteftos Chins , que Ihe 
iJzeram os Pa^ps pela forma dos do Rey de 
GiÚQd , que elle mandou trazer daquelle Rey- 
no com grande dadivas. Nefta obra traban 
Ilúram o^Pegú*, e em outra demuita ma^ 
geft^de, qxie mandou logo fazer p^ra oster 
fppéados^ CQoío Faraó ao povo de Ifrael; 
mas nem JftoJtKiftaya pera os quietar, por- 
que cada diaihay.lavaiure elles muitas altera^ 
f oes ira íjuCídle acudía com rigor. 

Ém fim^ depojs de ter quieto tudo , o 
methcrr -que pode ,■ ajuntou grandes exerci- 
tos.'de hum' milh^ eifeis^ntos mil hor 
menslde armases P^^^ i*" canquiftír, alguna 
JSLeyaos cbma:rd5os,:e deixou a.muUier , e 
ülfaos na Cidáde:, e ^fortaleza veiha ^ porque 
a. nova aínda- icítev^ mpejrfejta -, e fehia fa* 
zendo» Meaendo-fe por eíTe, certáo , foi con- 
quiftando; c Jcnhoneando lodqs os Reyno» 
4ts-hayia i.Si^é ¿faégat áos eftremos do de 

Cau- 



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^ ijri ASIA DE OiOGÓ DÉ Covro 

.Gauchí China , em que nÍo guíz bullir ; 
nem tocar ; e o Aitáo da Cidade , que em 
o Governador , o mandón TÍfitar , e prover 
.de mantimentos j e refrefco mui abundan- 
temente. Dalli voltou , levando comfigo mui^ 
tos Chins , que íe quizeram vir com elle ; e 
.deña vez íicou aquelle caminho aberto até 
hoje. E aílim daquellas Provincias todas vem 
todos os annos á Cidade de Pegú muitod 
tnercadores groíTos com fazendas , almifcar y 
pe^as de fedas de diferentes cores , e lavo^ 
res, lou^a, e outras multas coufas. Eaíüih 
fe I he aíFei^oou o Brama , que tomou o^ 
Chins , que com elle quizeram ficar ^ por feus 
criados , e os fez multo- honrados nos feus 
Reynos, que deixou naquelles que^onquif-» 
tou os mefmos Reys , fera querer delles mais , 
^que o reconhecimento de vaflTallagem: fó o 
Reyno de Camboja , que fica antre Siáo j e 
Cauchi China, nao pode fenhorear por fer 
coufa grande, e o Rey multo poderofo. 

Em quanro elle andou neftas conquift» , 
fe alevantou outro tyrannó , e foi com hum 
poderofo exefcito fobfe a Cidade dePegü, 
.e a Raihha com cis Regedores fe recolhé* 
ram á fortaleza, ^smettéraov dentro osPor* 
tuguezes que allí havia , é alguns Monrot 
das naos de Mieca pera íua deiensáo ; e aps 
, Portuguezes , que feriam trinia , de, que eta 
Capitáo hum Fxancifco X^igo ^^ ^e eílés jan*. 

trc 



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Dec. vil Liv. II. Cap: VI/ 15'j 

tre ü elegéram , entregáram as portas por 
iiomens de tnais confianza , affim na lealda- 
de, como no esforzó. 

O tyranno tanto que chegou a Pegú , lo- 
go fe fenlioreou da Cidade , e come^ou a 
bater a fortaleza eoi que a Raínba eftava y 
que fempre fora entrada , fenSo houvera an- 
tre elles huma multo antiga abus^o , que 
siünca fe poderia entrar aquella fortaleza , fe- 
náo foíTe por huma certa porta daquellas , em 
que a Rainha tinha póftos os fortuguezes^ 
e Ihes tinha entregue as chaves de todas as 
mais , pera que elles as vigiaíFem , e roldáis 
fem , como faziam todas as noites. O itámU 
m foi combatendo a fortaleza , e pez todo 
teu poder fobre aquella porta das abus6es , 
c a combateo, e commetteo por multas ve» 
ZC8 com grande determina^áo ; mas os valo- 
rofos Portuguezes Ihadefendéram com mul- 
lo grande eftrago feu ; e aílim a Rainha os 
fiívorecla, e pro vía detudo, comoquemti« 
sha nelles fó todo íeu remedio. 

Difto foiElReylá por onde andava avi- 
fado por córrelos apreíTados ; pelo que lo* 
gp com muita preíTa defpedio alguns Capi<> 
táes dlante , e elle fe defembara^ou de tu«» 
do , e partió após elles. E para o fazer mais 
defembara^adamente , mandou por o fogo a 
toda a fazenda , e fato , qué havia no exer^ 
cito , pera os feus nao terem que levar > que 

08 



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15^4 ASIA DÉ DioGO D« CoxrTft 

os impedíflTe ; e foi caminhando tao aprel^ 
fado , que andando mais de dous mezes do 
caminho aíFaftado de Pegú , em menos de 
huhi chegou aquella Cídade, que já achou 
defcercada ; porque os Capitáe» , que chegá^ 
ram diante , deram nos inimigos , e os des* 
baratáram, ehouveram o ty ranno ás oíaos 9 
que logo foi elpedajado. > 

Chegado o Brama a Pegú , alTentou fór 
ra o feu exercico- ; e como já tinha novas 
detudp o que era paflfado , mandou Ade<» 
chanchas y que era hum capado , Veador da 
fazénda , que foíTe i Cidáde , e Ibe trouxefle 
os homéns^ e o capado Ihelevou osMou* 
ros , que tambem eíliveram na fortaleza ; e 
vendoK)s ElRey , fe agallón muito, e diíTe 
ao capado : » Eu mando-te chamar homens ^ 
ne.tu trazes-me gailinhas? Ora vai, e tra« 
»zc*me fó os que tem nome de homens.» 
Tornou o capado á Cidadc , e levou todos 
os Portuguezcs ^q^e fe vedíram muito ga* 
Jantes : EIRey Ihes fez multas honras , e Ihes 
dlíTe : )i Vós*outros me fizeítes á yontade ^ 
n agora vos quero cu fazer a voífa, pedí ó 
i^que quizerdes« » Elles íicáram embara^ 
dos j oihando huns pera os outros , fem fé 
íaberem determina! no que pediflem, c a& 
fim^íicáram fem Hie refponder. Vendo El* 
Rey que Ihe nao ;refpondiam , Ihes mandou 
dar multas pe$as de ouro > e Ihes dlífe pa»* 

la- 



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Dec. vil Liv. II. Cap: VI. i^f 

lavras muito honradas , e de tnuito louvof 
da na^ao Portugüeza. Feito ifto , entrou na 
Cidade , e foi ver a Rainha , que Ibe diíTe , 
que íó os Portuguezes a lívráram de a achar 
catira , contando-lhe muirás faganhas qué 
Ihes vira fazer y c ella fez tambem mercés á 
todos. 

Reinou eíle Rey íincosnta annos coni 
tanta juñiya , e inteireza , que íe pode met- 
ter no contó dos famoíos do Mundo. Poí^ 
fuá morte ihe fuccedeo naquella Monarquía 
leu filho Para Mandará , que tambem foi 
muito valoroíb , e governou íeus Reynós em 
muita paz , e juíli^a , como em feu lugar di^ 
femos. 

CAPITULO VII. 

Da Armada que ejle anno dejincoenta ejin^ 
co partió do Reyno , de que era CapitSo 
mor D. Leonardo de Soufa : e da perdU 
fao da nao Algaravia nova : e de como 
o Governador trancifco Batreto mandou 
JD. Alvaro da Silveira por Capitao mar 
ao Malavar : e do que aconteceo a Méa^- 
lecan atéBilgao: e dos tratos que oldaU 
can téve com Anel Maluco fobre Iho en-^ 
tregar. 

PReftes a Armada , que ElRey determi-* 
nava de mandar efte anno á India , que 
era de finco naos muito formofas , deram 

to- 



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i^6 ASIA Dk DroGo DB Couto 

todas á vela até vinte de Marpo. Era o Ca- 
pitáo mor dellas D. Leonardo de Soafa , qaé 
vinha na nao noíTa Sen hora da Barca ; e os 
inais Capitáes eram , Francifco Figueira de 
Azevedoem S. Filippe , Vafeo Louren^o de 
Barbuda Carracáo em S. Pedro , Jacome de 
Mello na Algaravia velha , e Francifco No- 
bre na Algaravia nova. Nefta Armada hía 
embarcado o Bifpo Carneiro , e o Padre An» 
tonio de Quadros , ( que havia de fer Rei- 
tor do Collegio de Goa , ) multo bom Theo- 
logo ; e o Padre Francifco Rodrigues o Man* 
iquinho , muí douto em Cañones , e multo 
acceito Prégador, de quem em Lisboa ovh 
vimos aRhetorica, e a Esfera no Collegio 
de Santo Antáo, e outros Padres, que ha- 
viam de paíTar a Aballía ; e por Provincial 
da India ( que entao fe fez Provincia ) h¡a 
o Padre Ü! Gonzalo da Silveira , irmáo do 
Conde da Sortelha , Varao douto , de vida 
^pprovada , e que depois morreo martyr na 
Cafraria, como em feu lugar diremos. Le- 
vavam eftes Padres muitos, e mui ricos or- 
namentos pera a Abaífia , porque viíTe aquel- 
la Chriftandade a grande riqueza , e appa- 
rató cotri que a Igreja Romana celebrava o 
culto Divino , e foIgaíTem de feguir feus coC- 
túmes, e ceremonias.. 

Deftas naos , as quatro chegáram a fal- 
vamento á India > fó a nao Algaravia novar ^ 

de 



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Dec.. vil Liv. IL Cap. VIL ly; 

^c que era Capitáo Francifco Nobre y to« 
mou a derrota por fóra da llha de S. Loa- 
ren^o ; e indo demandar Cochim , foi va« 
rar nosbaizos de Pero dosBanhos, que ef- 
tam cm altura de fete graos do SuL Vendó- 
le Francifco Nobre varado em térra , fe inet<> 
leo no b^tel com alguns Oificiaes ; e rece» 
Ihendo algum mantimento , e agua ^ cota 
grande deshumanidade fe foi peraCochim, 
deixando toda a gente na liba , (que eram 
perto de quatrocentos homens , ) e elle oo 
oatel foi ter a Cochim , e dahi fe paíTou ^ 
Goa. Os daperdi^áo, queeflavam na Ilha^ 
yendo que o Capitáo os defamparára , e deir 
xára fem remedio, eque ibes convinha trar 
tarem delle , e de fuá falva^áo , puzeram eo^ 
confelbo ordenarem algumas jangadas da ma« 
deira da nao ^ a que comecáram por as mSos^ 
Mas D. Alvaro de Taíde , íilho legití^ 
tno de D. Alvaro de Taíde ^ irmáo baUar^ 
do do Conde da Cafiánheira , vendo que 
aquella detcrmina^áo feria total perdi$ao dé 
todos , ajuntando-fe com tres Padres da Comr 
panhia , que alli hiam , comecáram a perf 
luadir aos OíEciaes , e a túdos os mais ,. que 
dsL madeira da nao fízeí&m Imma naveta ^ 
em que todos fe falvaífem ; porque a sáp 
ficou de íei^áo ique fe podía desfazer , e z£f 
4im a mor parte da fazenda j e .mnmimentc^ 
que levaya ^ tinham pollo em. térra » e k 

bolíi' 



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tfS ASIA DE DioGO DE Coirro 

bom recado pera feu provimento ; poftoque 
üfl Ilha havia tnuica agua ^ cocos , e muito 
peixe , e marifco , de que fe podiam fuften- 
tar muico tempo. Tanto trabalháram niño, 
e tantas coufas diíTeram, que fizeram defíf^ 
tir das jangadas, ecome^áram a por emteiw 
Ta toda a cordoalba y mácame , poleame , 
antenas, vergas, leme , e toda a tnais oía- 
deira , e pregadura ; e aílim foram desfar 
sendo a nao com muita facilidade , e reco>p 
Ihéram tudo em terecenas , e ordenárain aiy 
mazens , em que recolhéram as fazendas , e 
mantimentos da nao pera a viagera y e aíEm 
amiáram logo a quilha y e come^ram a ]a- 
vrar a madeira , e a forjar a plegadura y fa- 
sendo-fe todos carpínteiros , fcrreiros, fen- 
radores , cordoeiros , calafates y e todos os 
mais officiaes que i he foram neceífarios. E 
porque fáltavam ferras grandes , as fizeram 
de montantes ^ e aílim com muito grande 
confianza em nofla Senhota , a quem oíFere^ 
céram a nao , foram continuando na obra 
com tanta alegria , e confian^ , que já nao 
fentiam a perdi^áo, nem os trabalhos, an» 
dando os Padres de contino confolando , con- 
fortando , e animando a todos , e a obra fot 
crefcendo a ollio y e táo bem feita , e pri- 
ma y como fé fora feita na ribeira de Lis- 
boa y onde tudQ eftá á máo ^ e aífim os del- 
Itapemos até áeu témpo». 
' s Che» 



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Dec vil L IV. ir. Cap: VIL 15-9 

Chegado Francifco Nobre a Goa , e daih» 
do coma de íua perdi^ao ao Governador ^ e 
de como aquella gente ficava nos baixos , 
fez logo negociar dous fu(liarr6es. grandes , 
e mandou Francifco Nobre em faum , e o 
Patráo mor em outro , pera que foílem aos 
baixos, e recolJieíTem a gente. que Já fícou; 
p.*que ^elles nao íizeram , nem acháram os 
baixos , e fe tornáram. O Governador tan^ 
to que as naos chegáram , logo tratou da 
Armada , que havia de mandar ao Mala^ 
var , de que nomeoü por Capkáo mor Dom 
Alvaro da Siiveira , com huma galé pera fuá 
peflba, e vinte navios de remo , cujos Ca*^ 
pitaes eram , Diogo Lopes de Lima Pereif 
ra. Gomes da Silva, Lopo deBrito, Chri*- 
ftovSo de Mello , Vicente. Cameiro , Lui2 
Mendes de Vafconcellos , Joáo Rodrigues 
de Soufa , Joáo Ferreira , Jorge Gomes , P^ 
dralvares de Cananor , Gonzalo Sanphes , 
Belchior Godinho , Pero de Figueiredo , Bal» 
thazar Pimentel 5 Baftiáo Figueira ,LuizCafr 
tánho, FrancifcoSanches , RuyFernandes^ 
eoutros, efizeram-fe á vela por fim de So 
tembro; e do que Ihe fuccedeo' efte veráo, 
daremos razSo adiante, porque agora hene* 
ceiTario coniinúarmos com Mealecan , Rey 
novo do Balagate , que deixámos efperan^ 
do por recado de Anel Maluco, 

Efte coffio^ tevé todos os Capíc&s do fea 

baa- 



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x6o ASIA DE DioQo DS Covra 

bando juntos , o mandou buicar , e o Ac'* 
cedecan o ievou até Bilgáo y e dalli paíTou 
até áCidade deCheri , tres legaas adiante^ 
já em fima do Gate , onde Anel Maluco o 
eflava efperando com todos os conjurados } 
etendo recado de fuá cJiegada, ofahiram a 
xeceber , e Ihe fizeram fuá venera9ao como 
a Rey , e o tornáram a levantar por tal , 
conforme a feus coftumes , com grandes fel« 
tas, e públicos al voro^os. Allí fe deixáram fi« 
car , ordenando as coufas neceflfarias pera 
irem por cerco a ElRey Abrahemo , aue el* 
lava naCidade deVifapór, quejátinnaavir 
fo da chegada do Mealecan a Cheri, e ti* 
aba recolhido comfigo feus Ca pitaes , mui- 
tos mantimentos, emuni^óes, eeftava muí» 
.to bem fortificado ; e com tudo iílo fe quiz 
valer de dous ardis. O primeiro , defpedir 
córrelos a Rama Rayo , Rey do Cañará , 
por quem llie mandou pedir o fofle foccor^ 
rer , e que Ihe faria todas as defpezas dó 
exercito , e outros partidos favoravels. O 
outro ardil foi , deípedir peflbas de muita 
confianza , e fegredo a Anel Maluco , por 

3uem o mandou perfuadir a que defifiiflc. 
a empreza, e Ihe entregaíFe Mealecan , ¿ 
que Ihe daria logo na máo fetecentos mil paí- 
gpdes de ouro » e o titulo de Accedecan 
com multas rendas , e que a todos os Capi^p 
t2es da conjurado perdoa^a. UvrementQ , e 
' . .! lo- 



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Dec. Vil. Liv. II. Gap. VIL i6t 

logo IhepaíTou hiitn fegüroReal pera elle, 
c; rodos os mais. Eílas peíToas cratáram efle 
Jié^ocio cotn Anel Maluco por modos que 
o rendéram , e quiz acceitar os partidos , e 
entregar Mealecan , depoís de Ine ter feico 
as ceremonias de Rey. 

Eftando já de todo pera fe concluir efta 
entrega , em muito fegredo , cliegoQ o cafa 
á noticia de Calabatecan , que o levou , que 
como Mouro de mor fé , e verdade que to- 
dos , fe foi logo a Anel Maluco , e Ihe fez 
huma falla muito grave fobre aquelle nego- 
cio^ em que ihe dizia : 

» Que fe tal fizeífe , íicaya o mais lnfa« 
% mado homem de todos os da vida , por- 
9 que acabava de confirmar que era o trai- 
)idor , e que ordira aquellas coufas toda» 
9 contra judiga, além da deshumanidade que 
n tratava em entregar á morte hum homem , 
>que debaixo de lúa palavra fefora metter 
)i em feu poder , e mais tendo-o alevaniado 
}^ por Rey , e dada menagem de yaífallo ; e 
]» que aínda aquelle ajuntamento que fizcira^ 
^ contra ElRey Abrahemo , poderia ter al- 
}>guma pequeña de cor pera fe poder llvrat 
}» da infamia de traidor ; mas que aquella , 
)i fe entregaíTe Mealecan , nenhuma podia 
)» ter com Mafamede , nem com os homens. 
» Qiie elle reccbéra Mealecan das roaos do 
> Vifo-Rey da India , e que aíügpáia hum 
Couto.Tam.IFJ^J. L }i af- 



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iéi ASÍA ÚE Diodo DE CoUTO 

> aíTento que diíTo fe fíaera , e que em ne»> 
jinhuma inaneira havia de quebrar fuá pa- 
ji lavra , neni confcniir que le entregaíTe aó 
ji facrificio hum homem innocente , que et 
% taya na Cidade de Goa muito feguro , e 

> quieto com fuá muiher , e ülhos ; e que 
* íoubeífe de certo , que fobre iffo havia el- 

> le Calabatecan de perder a vida , e a al- 

> ma • E que fe eftava arrependido do que 
jitinha feito , que Ihe tornafle a entregar 
9 Mealecan pera o por em Goa , donde o 
3> trouxera ; e que dépois delle pofto em fal- 

> yo y fizeífe todos os partidos que quizeíTe 
3^ com o Idalcan. Que ponderaíTe muito de- 
% vagar aquellas doufas , e que fe nao deixaf^ 
Sfe vencer de peitas?, porque por derradei* 
31 ro fempre haviam todos de ficar odiado» 
iicom o Idalcan , que nunca já mais fe hz^ 

> via de fiar delles , antes eftava muito cen* 
% to fólicitar-lhes a morte , por nao vireni 
% a tentar outra maldade femelhante. » 

Tantas coufas Ihe diíTe fobre efte cafo , 

que o eavergonhou , etornou a defiftir do» 

■ partidos , e de novo fez juramento de feguir 

Mealecan até o metter de poíTe do Reyno. 

Gom efta refolu^Só fe preparáram peraiílb» 



CA- 



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DscAOA VtL Liv. It . t4^ 

CAPITULO VIII. 

De como Rama Rayo Rey de Bifnagd tnati^ 
dou feu ifm^o Vtngata Rayo, tm favor 
do Idalcan : e de como os C^phdes d^ 
conjura ¡do fot am desbaratados , e o Mea^ 
lecan coni Anel Maluco fugíram pera f 
Izamaluco , e do que Id Ibes fúccedeoé 

CHegados os Embaixadores do Idalcari 
aBifnagá, dando fuá Embaixada áqueh 
le Rey , e reprefentando-lbe a nec'elfidadje 
em que o Idalcan eftava , moveo^fe a Ihp 
acudir , e foccorrer, mandando com muit;i 
preíTa fazer preftes feu irmáo Vín^ata Rayp 
pera aquella jornada ^ que em breves días 
pez em campo cento e (incoenta mil hq-* 
iiiens , e comcjou a marchar pera Vifapóré 
O Idalcan leve logo avifo do foccorro que 
fe ordena va , pelo que foi detendo o Anel 
Maluco corahuns partidos ,'¿ outros , e.cá- 
4^ ye^ maís fayoraveis , nao fe modrañdó 
avaro, noque depois (fe Ihos acceitaíTe) nip 
havia de cumprir. E aflim foi dilatando o 
tempo até chegar Vingata Rayo \ a queni 
logo o Idalcan avifou do eílado em que áa 
conjurados eílavam , e onde fícáram ^ pedíñ«* 
do-lhe que logo os fofle bufcar. Com eíte 
.recado fe apreflbu o Cañará (juanto pode', 
.até chegar pertq donde osinimigoseftavam. 
L ii ' * Mea- 



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l6'4 ASIA DE DiOGO DE CotTTa 

Mealecan , e Anel Maluco , que já eftavam 
avifados do poder do Vingata Rayo , e que 
cftava duas jornadas dalles , tomando anire 
1¡ confelho , aflentáram de o nao efperar , 
|3iíorque nao tinham mais de trinta mil ho- 
mens ; e alevantando o campo , fe foram re- 
colhendo , derramando-íé todos por onde 
melhor pudérara. Mealecan, Anel Maluco , 
Calabatecan, Camalcan, e outros Capitáes 
com a gente de fuas cevadeiras , com mu- 
Iheres , e filhos , fe foram recolhendo pera 
o Zamaluco , e da arraia delle mandáram 
pedir feguro áquelle Rey pera fe recolhe^ 
rem nelle , que logo Ihe mandou , e elles 
foram entrando pelo Reyno até chegarem a 
hum lugar aíFañado daCidade deAmadana- 
ger , onde ElRey eftava , e alli fe detiv^ 
xam aquelle dia. Ao outro feguinte man^ 
doü ElRey que Ihe levaíTem Anel Maluco , 
e Calabatecan , e que Mealecan ficafle alíi 
até feu recado. 

Ifto fez ElRey aconfelhado dehum Ca- 
pitáo feu , chamado Caccm Beque , que o 
perfuadio mandaílé matar Anel Maluco , fa- 
2endo-lhe crer que por fuá ordem, e con- 
felho Ihefizera o Idalcan multas vezes guer- 
ra, An^I Maluco tanto que vio, que oman- 
dáva EíRey levar, logo fe,remeo , e difte 
a Camalcan , que hia muito pejado naquel- 
le negocia i qué ]he pedia , recólhefle fiia 

mu- 



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Dec vil, L IV. II. Gap. VIIL i6^ 

xnuiher , e filhos , e fe puzeíTe em fima de 
hum outeiro; eque fe elle fizeíTe hum final 
com a touca , fugiíTe com elles , e fe foíTe 
pera o Reyno de Madre Maluco, que era 
ieu amigo. Os que vieram chamar Anel Ma- 
luco , e Calabatecan , puzeram-nos em fima 
de hum Elefante, e o que o góvernava de 
lima levou de hum terjado , e foi pera ma- 
tar Anel Maluco ; mas elle fe delviou ., e 
lan^ou do Elefante abaixo , e o mefmo fez 
Calabatecan; e tirando a touca da cabera , a 
lanjou pera o ar; e emfendo no chao, fo- 
ram ambos logo defpeda9ados. O Camalcan 

3ue teve tentó no Anel Maluco , em Ihe ven- 
o lanzar a touca pera oar, tomando a mu* 
Iher , e filhos em camelos mui andadores , 

.e elle cora fuá gente em ca val los ligeiros,^ foi 
fugindo ; e defviando-fe do Reyno do Idaí- 
can , e por fima del le , foi na derrota do 
Reyno de Madre Maluco , aonde chegou , c 
aquelle Rey o agazalhou ; e honrou a mu-- 
Iher, e filhos de Anel Maluco, moftranda 
grande mágoa , e fentimcnto de feus traba- 

,lhos. Mortos Anel Maluco , e Calabatecan , 
mandou Cacem Beque levar o Mealecan pe- 

^ ra outra aldeia mais defviada , e deo reca- 
do aosCapitaes, que a ¡ño mandou, que o 

. mataíTem a elle , e a hum filho badardo que 
comfigo le va va ; o que nao pode fer em tan* 

- to fegredo , que o nao vielTe a faber Bibia- 

ma- 



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Í6K ASIA DE DiOGO DE COUTO 

ínaná , mái do Zamalucó , que era huma fé* 
¿hora muiro bcm inclinada; eindo-íe aofi- 
ího, Ihedeo conta daquillo, elhe pedio tiao 
icbníentifle tal , porque Mealecan era fiJho 
'de Cufocan , cotn quem elles tinham muitó 
parentefco. ElRey que nao fabia coufa al- 
giimá difto , (porque o Cacem Beque man- 
dava fazer aqueila cxtcu^io iem Ihe dar con- 
ta diíTo , ) mandou ccm muita preíTa hum 
Capitáo capado , pera que tomafle o Mea* 
lecan, e olevaffe áferra deBaulá, que era 
jmuito forte , e que alli ficaíTe em fuá guar- 
ida , e ie Jhe défle rodo o receíTario. O ca-^ 
pado fez tudo aflim como Jhe ElRey man* 
dou, e fefoi metier com elle naquella fer* 
ra , onde o deixaremos até tornar a elle^ 

O Vingata Rayo vendo os inimigos des» 
baratados , mandou avifar ao Idalcan , e a 
faber delle o que mais quería que fizeíTe : el- 
le Ihe mandou as grayas, e hum milháo de 
"ouropera as defpezas daquelle exercito , eal- 
'guns cavaltos formofiffimos , ricamente guar» 
' necidos ; e nao fe quiz ver com elle , por- 
qut eftes Reys nunca fe fiáo Ijuns dos ou- 
'iros. Recebida amoeda, eoprcfente, fefoi 
rVcolhendo o Vingata Rayo pera Bifnagá , 
e o idalcan ficou defalivado, efahio daCi- 
dade a ver as coufas do RejMio , e pera que 
feus vaífallos o vifiem ; c defpedio algurts 
OpiíSes em bufca dos que efcapáram , e oa^ 

tros 



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Dbc. vil Liv* II. Cap. IX. 167 

tros pera irem tomar pode da Cidade de 
Bilgao , e das mais tqrras que foraoi de Anel 
Maluco. 

C A P I T U L O ÍX. 

Do fue aconteceo a D. Antao de Noronba 
: no Concan : e dos recontros que t^ve com 
algunsCapítaesdoidalcanic^dagrafir 
-'■ de Vitoria qtie. alcan^ou do X^eoli. 

• ' » • 

PArtido D. Antáó de Noronha de Goa,. 
como atrás temos dito no II. Cap. do 
^.iv. II. , logo o Governador defpedio hum 
foáo de Lima ,.Fidalgo Gallego , por Ca- 
|)ifáo mor de oito navios , com regimentó > 
que fe folTe de longo da coila , favorecen* 
<lo D. Antáo de Noronha , e pera o provee 
demunijóes, dequemandou metter nos na- 
vios huma boa quantidade. Partida eftaAr* 
inada, chegou ao rio de Banda, onde fpu- 
be eftar D. Antáo de Noronha , e foi por 
jelle aíGma até á Cidade , onde o achou , 
provendo ñas coufas dáquella Tanadaria, q 
na arrecadagao defuas ierras. E depois que 
/ez tudo o que era neceílario , fe partió pe- 
ra Cúrale , que era dalli a tres leguas , On- 
de tambera a Armada enirou; ecoitimetten- 
do a fortaleza , a acháram defpejada , porqu^ 
o Capitáo que alii eftava pelo Idalcan (que 
jnáo quiz obedecer ia Mealec^o ) fugio , e 

nao* 



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XéS ASIA D£ DlOGO DE COITTO 

uSo quiz efperar os noíTos. D. Antáo de No¿ 
ronha fe metteo nella , e a proveo de Ta» 
nadar; e mandou apregoar leguros Rcaes^ 
pera que todos os moradores , e lavradores 
afoíTem povoar, e lavrar fuas térras, eque 
Ihes fariam todos os favores poífiveis , c que 
correlTem pelos Foraes antigos , aílim nos 
foros , como ñas liberdades. Com ido co- 
mefáram acudir todos , e D. Antáo de No» 
ronha os anima va , honra va , e favorecía 
em tudo. 

E havendo quatro días que arqui eftava , 
teve avifo que hum Capitáo do Idalcan , 
chamado Xacoli Agá , andava recebando as 
térras do Idalcan dabanda do Concan, que 
pertenciaqíí aElRey de Portugal , pela Doa- 
jáo que jJcllas Ihe tinha feito Mcalecan , c 
que detertninaya de o virbufcar, e dar-lhc 
batalha , e que trazia fcte mil homens. In- 
formado D. AntSo de Noronha do feu po- 
der , e de tudo o mais que Ihe fox neceíTa- 
rio , determinou de o efperar em campo , 
como fez , ordenando fuá gente muito bertl 
pera iflb ; lancando efpias pera o avifarem 
do caminho, eordem que o inimigo trazia; 
e foube que ficava em huma aldeia chama- 
da Anua , pelo rio de Carlim dentro , que 
he junto dos Ilheosqucimados, doze leguas 
de Goa. E tomando parecer com íeus Ca- 
pitáes fobre o que faria , aíTentáram , que 

fof- 



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Dec. vil Liv. II. Cap. IX. 167 

foíTem bufcar os inimigos , e Ihes déflcm ba* 
talha , pelo que logo come^áram a marchar 
em muito boa ordem, e com muicas cfpias 
diante, que a cada hora os aviiavam de tu* 
do ; e a Armada fe fot até o río de Acha* 
ri 3 legua e meia de Cúrale , donde tinham 
partido , onde eftava aflentado de irem dor- 
mir aquella noite. E antes da Armada che- 
gar áqueile rio , deo com duas cotias , que 
tinham fahido de dentro , que foram logo 
tomadas , e nellas achdram a mulher , e íi- 
Ihos , e recamara do Xacoli , que elle man- 
dava pera Cambaya ; porque fe receava que 
o Anel Maluco metteíle o Mealecan no Rey- 
no , por nao ter ainda novas do que lá paf* 
íava , e quería fegurar aquellas coufas , e fi* 
car efperando recado pera ver em que o ne- 
gocio parava , porque fuá peíToa a todo tem- 
po fe podia recolher pera onde qüizeíTe. 

O Gapiráo mor da Armada , vendo a 
boa preza que tinha feita , metteo em hu- 
ma fuña a mulher , e fíthos do Xacoli y e 
os mandón ao Governador , que a efiimou 
muito. D. AntSo de Noronha chegou aA- 
chará , e fóra da povoa^áo aflentou feu ar- 
raial , e o fortificou mui bem , porque ha- 
viam aili de paflar aquella noite. Diño foi 
logo o Xacoli avifado ; e entendendo que 
haviam os noífos de chegar candados, def- 
pedio hum Capitáo com mil homens y pe- 
ra I 



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I70 ASTA DE DioGo de Couto 

ra que de noite Ibe foíTe dar hum aíTalto ^ 
que efperava fer de multo eiFeito, eaílim o 
fez ; porque eQando os ooíTos na mor quíe- 
ta^áo da noite y deram os inUnigos de ío^ 
brefako nelles , e os commeitéram por on- 
de eftava O. Joao o Mourifco , CapUáo .do 
campo , que ficava a huma parte do ¿xer* 
cito , hum pouco aiFaílado ; e como era mui* 
ro vigilante , e tinha lanzadas íuas eípias , 
por quem teve recado de fuá vinda , quan-» 
do já deram fobre elle , o acháram com as 
armas ñas máos. Os inimigos cuidando que 
os tomaíTem defcuidados , arremettéram com 
aquelle impeto , dando*lhes huma furriada 
de bombas de fogo , e de arcabuzaria y gom 
que fizeram algum damno } mas o D. Joáo 
como eftava fobre avifo , fahio a elles , e 
da primeira pancada que Ihes deo , derribou 
fetenta , e ferio muitos ; e mettendo-fe no 
meló delles , fez taes coufas y que os poz 
em desbarato ; e mandando recado a D. An* 
táo de Noronha , os foi feguindo até quaíi 
pela manha. £ como os levava em desba- 
rato, e derramados, foi fazendo nelles gran- 
des crueldades , tomando-lhes muitos caval* 
los , e armas , que elles hiam largando pe» 
ra fe falvarem , cacivando muitos , que de 
candados cahiam. 

D. Antáo de Noronha em Ihe dando re- 
cado , fe poz logo a cavallo ^ e foi feguin- 
do 



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Dec. vil Liv. IL Cap. IX. 171 

do a D. Joáo , defpedindo a gente de ca* 
vallo toda , pera que o foíTe favorecendo , e 
elle fe foi apreíTando com todo o mais po- 
der até chegar a elle , que já fe vinha re- 
colhendo carregado de defpojos., e de cati- 
vos. D. Antáo deNoronha abrajou aDom 
Joáo, e Ihe diíTe palavras muito honradas; 
e a todo o piao de fuá companiíia , que Ihe 
aprefentou cabera de Mouro , Ihe deo dous 
pagodes. E tanto que anianheceo , que but 
cáram o campo , acháram antre os feus mor- 
ios hum já fem cabera , cujo tronco tinba 
oito palmos , e os brafos , e pernas láo fa- 
•^anholas , que parecía Gigante. Era liomem 
•alvo, enostrajos parecía eftrangeíro, enó- 
bre. D.^ A ntáo deNoronha vendo avitoria, 
que Ihe Déos tínha dado , porque o inimi» 
go fe nao reformafle, o foi fegúindo , e ás 
oito horas do día chegou ao rio deGarlín, 
e vio da outra banda o Xacoli com todo 
o feu éxercito pofto cm armas em hum campo 
muito grande , e largo , e linha todos os pal* 
fos , e vaos do rio tomados com efpingardei- 
ros,c bombeiros pera defenderem a palTagem. 
D. Antáo de Noronha parou de eílou- 
tra banda , e eíleve notando a ordem em que 
os inimígos eftavam, eospaílos que Ihe ti- 
nham tomado ; e depois de tudo bem nota- 
do, mandou a Jorge deMoura, que coma 
gente de fuá baodeira fe paífaíle a hutn Ilheo^ 

que 



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171 ASIA DE DiOGO DE COUTO 

que fícava no meio dorio, e que dalli va« 
rejaíle com a eípingardaria á outra banda , 
porque elle quería commetter a psflagem, E 
inandou eftender os mais Ca pitaes das ban- 
deiras tle pé ao longo do rio, metndos na 
agua pera tambeoí o favorecerem na pafla- 
gem , porque determina va de com a gente 
de cavallo fcr o pi¿me¡ro que paflafle ; e 
flífim commettco o rio, mandando diante Dom 
Diogo Pereira o mogo feu tio , que com a 
agua pelas ítllias foi paíTando á outra ban^* 
da, favorecido da noíTa arcabuzaria. 

O Xacoli vendo paíTar os noíTos , acu^ 
dio com a gente de cavallo aquella parte 
pera Ihes detender a paíTagem , e a fuá ar- 
cabuzaria , e bombaría comejou a defcarre- 
gar fobre os noflbs de feisao , que primei- 
ro que chegaflem á outra banda derribáram 
oito , em que entrou D. Diogo Pereira ; mas 
de todos eftes hum fó perigou , e os. mais 
paíTando por aquellas nuvens de pelouros , 
efréchas , e pelas chammas das bombas, ) que 
cram tantas , que parecía que todo o Ceo 
relampadejava , ) chegáram á outra banda , c 
dos primeiros foi D. Antáo de Noronha , 
que (ou fofle acafo , ou que o Xacoli o co- 
nbeceíTe por alguns linaes que nelle viíTe ) 
em pondo os pés em térra , arremetteo a 
elle com a langa no refte , e rompeo nelle 
hura faganhofo encontró j. e D., Antáo de No- 

ro- 



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De:c. VII. Liv. II. Cap. ÍX. 173 

tonha, que era muito esforzado , emui bom 
cavallciró , tambem Ihe poz a lan^a , mas 
nenhum delles recebeo damno ; e os noíTod 
de cavallo iicáram logo baralhados com 08 
Mduros em huma muiro afpera batalha. 

D. Antao de Noronha fe mecteo no meio 
pelejando mui valorofa mente , e esforzando 
os feus a fazerem o mefmo ; trabalhando mui* 
to por fe tornar a encontrar com oXacoIi, 
que andava capitaneando os leus. Os Capi« 
táes das bandeiras tanto que víram os de 
cavallo da outra banda , commettéram apaf« 
íagem , e fe puzeram da outra parte , ainda 
que comtrabalho, ecome^áram outra mai« 
to afpera batal ha com agente depé dosini^ 
migos, andando D. Joáo o Mourifco fem- 
pré diante cóm a fuá gente pelejando com 
multo esforzó. A batalha andava toda maí» 
to árrifcada , porque todos andavam mui 
baralhados, trabalhando huns porvencer os 
outros , fazendo os noflbs tantas coufas , que 
nao fe pbdem particularizar. Muitos dos mo-- 
radores de ca^rálio fizeram grandes fortes , 
e antre todos fe affinalou André de Villa-lo- 
bos , tio de D. Antáo de Noronha , Irmáo 
de fuá mái , que era hum Cavalleiró muíto 
determinado 9 robufto, ebarba^udo, que tí- 
nha já derribado quatro de cavallo ; e »- 
mettendo a outro/ queera hum Mouro , que 
elle via aiI¡nalar-:& amre ios outros » o eii- 



con- 



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174 ASIA DE DiOGO PE Coüto 

conrrou de meio ameio, e oMouro o fe^ 
a elle tambem ; mas o feu encontró fox huiiji 
pouco a huma ilharga , e paflbu a lan^a por 
debaixo do brajo efquerdo aAndré d^Vil- 
la*lobo$ , que como era muito acordado , e 
homem de grandes forjas , apertou a lan^a 
do Mouro comfigo de fel^áo , que a nao 
pode o Mouro arrancar ; e remetiendo com 
André de Villa-lobos , Jiou-le com elle , e 
lan^ando'lhe huma máo ás barbas ( queeram 
xnuiro compridas) Ihe deo huma volta , com 
que o revé fopeado. André de Villa-lobos 
vendo- fe aíBm , liou-fe com o Mouro , p 
aos rombos foram arnbo^ ao chao ; mas le- 
vantando-fe logo com muita preíTa , levo» 
do terjado , e matou o Mouro. E ao met- 
mo tempo lanfou máo das redeas do caval- 
lo do Mouro, e fez fubir nelle hura cria- 
do feu, que aUi entao cHegou , e fubindo- 
k elle no feu, tornou ábatalba., que anda- 
va muito afpera , e cruel; e como a noíTa 
•ircabuzaria era muita, fez nos inimigos tal 
eftrago , que comefáram a perder o campo , 
ea ie desbaratarem* 

Vendo ifto D. Afltáo de Npronha , <Jeo 
&m*lago , irradando Vitoria , vitoría\ e 
de tal maneira ^iperion com os inimigos., 
'^ico^ arrancan do campo, licándo*lhes nel- 
le eftirados perro de quinhentos Mourps* 
D. Joao o Moucífiío y Capitáo do c^mpo^ 

(que 



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Dec. Vn. Liv. n. Cap. rx. 175' 

(queefte dia fez coufas notaveis,) vendo 
os inimigos desbaratados, foí-lhes feguindo 
o alcance dúos teguas , favorecido das bandei«' 
ras de pé ; e foraní todos matando nelles á 
fuá vontade , derribando*lbes ainda nefte zl* 
canee mais de feiscentos Mouros , toman- 
do-lhes-muitoscavalios , armas , e outras 
coufas. D. Antáo de Noronha ficou fenbof 
do campo , e do exercico do inimigo , em 
que achou muitos defpojos, ecavailos fot'* 
mofós ,' que repartió por alguns moradores 
a que tinham morros os feus i e com ella vi^ 
toria fe recolheo a Curaie , onde fe curá« 
ram osferidos. Dos morros noflfos nao achá« 
IDOS onúmero certOy mas fabemos que nao 
chegáram a trinta. 

C A P I T U L O X. 

De como o Governador Francifco Barreta 
teve novas do desbarato de Mealecan : 
€ da vinda de alguns Capitaes do Idal'- 
can : é de como mandou recolber D. Fer^ 
fiando de Monr&y , e D. Antdo de No» 
ronha. 

OGovemador Francifco Barrero teve lo- 
go avifO' do desbarato do Mealecan , 
ede fuá fúgida, e de como oldalcan deíf? 
{ifedira aJguns CapitSps com muita gente pe^ 
la tornarein 4 tomar as fortalezas 4eBandá^ 

Cu- 



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tyú ASIA üE DioGO d£ Coirto 

Cúrale y Ponda , e outras y que eftavam jí 
por de ÉlRey de Portugal ; e receando-fe de 
algum defalire , praticou em confeiho dos 
Capitáes veilios aquelle negocio ; e foratn de 
parecer, que fe largaflem aquellas Tañada* 
rias , e fe recolheíTem os Capitáes que nel- 
las eílavam , primeiro que foíTem cercados 
dos inimigos , porque depois dariam muito 
trabalho, e arrifcar-fe-hia todo oEftado pe* 
ra os defcercar, e recolher. 

Com efta reíblu^áo fe foi o Governador 
logo por no Pago de Benaftariai ^ com to- 
da a gente que em Goa havia ; e mandou 
paflfar á outra banda o Capiráo da Cidade 
com algumas companhias de foldados , e mo^ 
radores de cavalio , pera ixem recolher Dom 
Fernando de Monroy , e efperallo ao caml-» 
nho , porque liavia já recado que os ini- 
migos eram entrados ñas térras; porque Ihe 
tinha efcrito , que tanto que yiíTe aquella car- 
ta , logo largaíFe a fortaleza , e fe recolhef- 
fe com muito tentó , porque os inimigos ef- 
tavam já perto delle ; e o mefmo eícreveo 
a D. Antáo de Noronha. 

Dada efta cana a D. Fernando de Mon-^ 
Toy , efteve duvidofo fe a cúmpriria , efoi- 
Xe detendo até o fegundo recado , qud Ihíe 
chegou logo , e apreflado. Com elle coCuer 
^ram a defpejar a fortaleza muito devagar^ 
ie mandou diante toda a bagagem , fem^ Ih^ 



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ÜEc; VIL LiVé lí. Ga>* X* ijf 

fkarcoufa alguma ; eapds iíTo fefahio coni 
toda a gente pofia em armas , por Ihe vir 
recado , que ja os inimigos chegavam á vlG^ 
ta da fortaleza ; e repartindo a gente em duas 
partes ^ tomou elle pera íi a retaguarda com 
ds Fidalgos ^ e Cavalleiros principaes que 
havia , que fe foram pera elle ; e affiíh foí 
marchando rouito devalar ^ porque viflem 
os inímigos que Ibes nao fugia , o que foi 
quaíi á fuá viíta , íem elles oufarem de o Com« 
metter; e aflimchcgouaonde Jorge deMen^ 
do^a ) Capitao de Goa , o efperava » e jun^ 
tos fe recolhéram a Goa» 

O Governador apreífou os correio» a 
D. Antáo de Norónha ^ oue eítava em Cu-*» 
rale, queja tinlia avifo dos inímigos^ que 
«ram defcidos akaixo pera a bufcarem ; pe* 
loque fe tinha fortificado em Cúrale, epro? 
vído de tudo abaftadameme , porque deter* 
minava de ós efperar alli , eíe defender del* 
les 9 tendo a Armada no rio peratudo oque 
Ihe foífe neceflario. E neíta determinadlo ef- 
tava , quando Ihe deram a primtira carta do 
Governador , ep que Ihe manda va larga fle 
tudo , e fe recolhefle j porque, eílava aíHm 
aíTentado em confelho , por nao fer poífivel 
defender-fe atenta gente, quanta tinha por 
novas , que rinha defcendo o Gate. 

E vendo elle a preíTa que o Governa- 
dor Ihe dava , refpondeo-lhe » que eftava Cu- 
Qouto. Tom. ir. P.L M » ra* 



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X78 ASIA DE D1O6O DE COÜTO 

>ra!e tnuito feguro , e que efperaya em 

> Déos de nao perder couía algiuna do ga* 
» nhado. » O Governador tomou ido mal , 
c defpedio logo oucra carta por duas vias , 
cm que Ihe mandava % que íobpena do ca* 
]g fo maior , tanto que viíTe aquella , largaí* 
31 fe logo ludo , e te recolhcííe , porque os 
^ inimigos eram tnuitos , e que nao querk 
^ Ihe acontecefle huin defaílre , e que fe re* 
^ coIheíTe á viña do mar pera ter favor na 

> Armada. E fendo cafo que os inimigos Ihe 
>tíveflem atalbados oscaminhos, e roíTe o 
^ poder tanto , que vifle o perigo certo , em 
9 tal cafo corraíle as pernas aos cavallos , 
1 e íe recolheíTe aos navios , porque pera 
iiifío Ihe mandava mais outros , porque 
ido mal fempre fefaavia deefcolher o me- 
1 ñor. » 

Dadas eftas cartas a D. Antáo de Noro* 
nha , chamou os Capitáes a confelho , e Ihas 
fco , e pedio feus pareceres , e todos votá- 
ram, que pois oGiovernador o mandava re» 
colher , o devla fazer , porque aquelle ne- 
gocio carrégaváfobreelle; e comido fede- 
terminoü D. Antáo de Noronha a partir , e 
Ibes diíTe : )» AíHrnlo-vos , Senhqres , que 
}i mais honra fora do Eftado morrefntos aquí 
)iiodos, que recolhermo-nos defta maneira^ 
Ȏ largarmos a fortaleza de ElRey ; mas 
»já que nao poíTomais^ recolher-me-hei. » 

E 



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Déc* VIL LiY. lí. Cá^ X* 179 

£ rahindo*fe da fortaleza , poz-fe no caoH 
po táo triftc ) e melancolizado ^ que iho en*^ 
Xergáram todos. 

£ concertando fuá gente , deo a diantei-^ 
ra a D.Joáo oMóurifco, e asbandeiras de 
pé com toda a bagagetn no Aieio ^ eelle 
com toda a gente de ca vallo ficou na rera^' 
guarda, c mandou ao Capitáo mor da Ar«* 
mada ^ que o fofle efperar em Bardes } e el- 
le foi marchando com muitas efpias fobre 
os ínimigos; echegando a Banda, recoibeo 
Amonio Ferráo , e mais Oificiáes , e aquel* 
la noite dormio no campó multo bem for« 
tificado ; ao outro dia chegou a Bardé» , on* 
de o Governador o efperava com toda a 
gente que havia em Goa , pera o ir foccor* 
rer , fe fofle neceflario* £ cfaegando D. An* 
táo de Noronha ao Governador , multo tri& 
te, Ihedifle: » Multo melhor fora , Senhor , 
» nSo me mandardes áo Concan , que fai^ 
)» zerdes-me vir fugindo fem ver de que. b 
O Governador teve com elle palavras rnui*» 
to honradas , dizendo-lhe )» que elle tinha 
» cumprido de fuá parte com a obrigacáo 
x de multo grande Capitáo ; que aquellas 
SI aíFromas elk as tomava íbbre íi , porque 
TU elle nao era mais obrlgado , que a cun> 
% prir os mandados de ieu Governador ; » 
e com ido fe recolhéram pera Goa. Em ík 
D. Amáo de Noronha fahindo de Cúrale , 
M ií che- 



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l8o ASIA DE DiOGO DE COÜT^ 

ehegáram os inimigos , que pela ventura eí* 
peráram que fe fahiííe elle y porque o nao 
oufáram a comnietter. 

C A P I T U L O XI. 

J)¿ como o Governador Vrancijco Barreto 
defpachou as naos do Reyno : e do que 
acQfiteceo á D. Jívaro da Siheira no 
Malavar : e das pazes que o Qamorim 
pedio y e fe lie concedéram. 

NO mefmo tempo que o Governador 
Francifco Barreto tratou de mandar re- 
colher os Capitáes , que andavam no Con*^ 
can, deo tambera defpacho ásnáos do Rey- 
no pera irem tomar a carga a Cocbim ; e. 
efcreveo a El Rey o Eílado em que a India 
ficava , e da morte do Vifo-Rey D. Pedro 
Mafcarenhas , e de fuá íuccefsáo. Nena Ar* 
mada.foi tambem a nio Efpadarte , de que 
veio por Capitáo Fernáo Gomes de Soufa ^ 
da companhia do Vifo-Rey D. Pedro Maf- 
carenhas , que tinha invernado em Ormuz \ 
< como atrás diíTemos no Cap* III. do I. Liv^) 
Eílas naos tiveram boa viagem até o • Rey- 
no , e ElRey fentio muito a mortc. de Dom 
Pedro Mafcarenhas. 

Agora continuaremos com D. Alvarada 
Silveira, Capitáo mor do Malavar , queche^ 
gando aquella coila ^ comc^ou aJazer graoi- 
u . , dcL 



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Dsc. VIL LiT. II. GaKXL i8t 

de guerra ao Camorim ; e a mor que fe Ibe 
podía fazer, fo¡ tomar-lhes todos ospórtos^ 
porque Ihe nao entraíTe arroz ^ nem aofíáo » 
( porque todos os Reynos do Malavar fé 
proveen deftas coufas dos ríos do Cañará , 
e do Revno de Cambaya , porque elles eoi 
ü nao tem mais que palmares ,) e elle ficou 
com a Armada folta , correndo toda a cof* 
ta ; e dando nos lugares della , que queí» 
mou , abrazou , e deftruio , e Ihe cortou 
muitos palmares y e desfez , e tomou muh* 
tas embarcagóes ; e os palmares fentiram ch 
les fnaís que tudo , porque elles Ihe dam 
todos os mantímentos deque tem neceílida- 
de , e de que fe fuftentam a mor parte do 
anno , que sao cocos , aíTucar , azeite , v>» 
nho , vinagre , e todas as coufas pera os 
apparelhos de leus navios^ e fabrica de fuas 
cafas. E aílim coílumava a dizer o Vifo» 
Rey D. Joao de Caftro , quando via algum 
fo!dado cortar alguma palmeira : » Ah .folr 
01 dado 9 agora mataíle hum Mouro. » 

E porque dos rios da pedra , e Canh^ 
roto fahíram alguns paros a roubar, deter* 
minou de os caiHgar ; c hum día no qiiar* 
tod'alva defembarcou nelles, eosdeílruio^ 
€ aíFolou de todo ^ fendo elle fempre dos 
dianteiros que fahiam em térra y com <:al- 
oes de cotonía a meia perna, faia de ma* 
'a, e montante oas. roaos y e pelejava cor 

mo 



t 



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i8i ASIA DE DioGo DE Covro 

fno qualquer foldado. Em ambos efies ríos 
achou grande reíiftencia , e íe vio em af» 
fronta ao recolher ; porque carregáram os 
Mouros fobre elle pera o embara^arem- , e 
fe fatisfazerem y o que nao pudéram fazer 
pela boaordem quetinha ao recolher; por» 

3ue coftumava naquelles aíTaltorao embarcar , 
eixar duas companhias de arcabuzeiros , de 
cerno cada huma , que iicavam franqueando 
a embarca^áo de huma , e outra parte , e 
defta maneira Ihe nSo aconteceo defaftre al* 
gum nunca ; porque os defarranjos , que sao 
acontecidos antre nos , nao fuccedéram fe- 
nao pela pouca ordem que alguns Capltáes 
tiveram no recolher; porque mor governo» 
e prudencia ha de mofirar o Capitáo neíle 
negocio , que no commetter , pelas defor- 
dcns y e pouca difcipHna dos foldados da 
India , que affim como no commetter pre- 
cedem a outras mukas na^6es , aílim no de& 
arranjo do recolher sao inferiores a todas. 
Em fím , foram tantos os damnos , aue D. AI* 
varo da Silveira fez por toda aquella coila y e 
poz a todos em tanto aperto de fome , que 
chegon a valer o fardo de arroz a tres pago- 
des , de que os mefquinhos , que sao os que 
mais fentem a guerra , foram chorar ao ^a* 
morim ; e os Naires , que fempre sao contra* 
ríos dos Mouros , os favorecéraní niíTo , e íi* 
seram aos Regedores muitos requerimentos. 



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Dec. vil Liv. II. Cap. XI. 183 

O Qmorim vendo o pranto dos feus , 
enfadado da guerra, que íempre fe alev^nr 
ta contra fuá vontade , (porque os Mourog 
a poder de peitas fazem cuelo o que quer 
rem , ) mandou Embaixadores a D. Alvaro 
da Silveira a pedir-lhe pazes ; dando por fa- 
tisfa^ao , que nunca foubera da guerra , nem 
por fuá ordem fe quebráram os contratos 
que efiavam feitos. D. Alvaro da Silveira ou- 
vio eíles Embaixadores na ília galé , e Ihes 
xefpondeo »que nao tinha licen^a do Go- 
01 vernador fe nao pera fazer guerra ; que 
» mandaíTe elle a Goa , e que o Governa- 
jidor Ihe reíponderia como Ihe pareceíTe.B 
Com eíla reípofta mandou o QmoriiD ne- 
gociar dous Naires de fuá cafa pera irem a 
Goa , e D. Alvaro da Silveira íhes deo alr 
guns navios pera os acompaoharem , con- 
cedendo ao C^amorim cregoas até vir recap 
do do Govcrnador. 

E vendo D. Alvaro da Silveira (jue fi- 
cava de vago , determinou de ir caftigar a 
Rainha de Oíala , Senhora da Cidade de 
Mangalor na cofta Ganará , que eftava re- 
belde 9 e faavia anoos aue nao pagava pa» 
reas ; c voltando pera lá , chegou áquelle 
porto huma madrugada , a defembarcando 
«m térra , cQpimetteo a Cidade com grande 
determinando ; e poílo que achou grande re- 
üílenciá ^ a eatrou com morte deoiuitos 

Mou* 



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t84 ASIA DE DioGo n£ Cauvo 

Mouros ; e fendo dentro , Ihe inandou por 
o fogo por 4lgumas partes , porque os íoU 
dados fe nao definandaíTem ñas prezas delia } 
e ateando-ie , ardeo a mor parte deila , e 
hum formoíb pagode de rouita devo^ao fua« 

Feito ifto , recollico-fe aos navios pele^ 
jando com os inimigos , de que fe ajuntou 
hum grande efquadráo pera á embarca^á^ 
darem fobre os noíTos; mas D. Alvaro da 
Silveira com as duas mangas de arcabuzei*- 
ros os deteve , e íe embarcou muito a feu 
falvo , deixando no campo mui(os dos ini«- 
migos eflirados. E depois de embarcado fe 
paflbu da outra banda , onde lioje temos a 
noíTa fortaleza ; e mandou queimar outre 
pagode muito formofo , e algumas povoar 
$6es pelo rio aífima , em que Ihe fez mui«> 
tos damnos , e deo muitas perdas ; e com iír 
to fe recolheo pera o Malavar a efperar o 
recado do Governador. 

Os Embaixadores do Camorim chegá^ 
ram a Goa , e foram ouvidos ; e pondo-fe 
aquelle negocio em confelho , fe aíFentou , 
que aínda que fe entendía que o Qmorim 
nunca guardava fé , nem palavra , e que ca*- 
da vez que osMouros opeitavam, quebra<- 
va as pazes , que todavía fe Ihc concedeG- 
fem , porque fempre nefta parte era bem fa-^ 
^er do ladrao fiel , por efcufar os gados das 
Armadas grandes daquelia cofta. E que o 

Vea* 



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Dec. VII. Liv. II. Cap. XI. í8f 

Veador da Fazenda Antonio^ PcíToa (que 
eftava pera ir a Cochim fazer a carga das 
nios ) levaíTe comíigo os Embaixadores , e 
lá com o Capitáo mor D. Alvaro da Silvei- 
n 9 aíTentafle as pazes com as mefmas conr 
di^Óeis , com que já o Vifo-Rey D. Affbn- 
fo de Noronha Jhas íizera. E aíHm fe em« 
barcou o Veador da Fazenda, elevou com- 
íigo os Embaixadores. E chegando aoMa- 
lavar , fe vio com o Capitáo mor , e Ihe 
deo conta daquelle negocio ; e lan9ando os 
Embaixadores em térra , logo fe tratáram as 
pazes , que fe concluíram , e juráram na 
praia de Calccut , eftando o C^amorim pre- 
fente , o Capitáo mor , e o Veador da Fa- 
zenda , o que fe fez com grande folemiíip 
dade ; e logo fe apregoáram pela Cidade y 
e pela Armada. Concluido ifto , (que era na 
entrada de Janeiro deíle anno de llncoenta 
e feis , em que com o favor Divino entra- 
mos , ) fe foi o Veador da Fazenda pera Co- 
chim , e defpachou as naos do Reyno , c a 
Armada fe foi pera Goa , por nao haver 
mais que fazer , deixando aiguns navios na- 

guella cofia pera acompanharcm as naos da 
;bina^ p Mf»laQ9« 



DE- 



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t86 






DECADA SÉTIMA. 

Da Hiftcria da India. 

L I V R o III. 

■ J ■ H I I I > 

CAPITULO I. 

Da emhaixada que o Governador Francip- 
co Barreta mandou a Cambaya por Trlf- 
tao de Paiva , e fobre que : e dos navios 
que mandou a recolber o Padre Mefire 
Goncalo ^ que ejlava na Ahajfia : e da Ar-^ 
mada ^ue defpedio pera o Eftreito , de 
que fot por Capitao mor D. Jívaro da SiU 
veira : e das coulas que Miguel Rodri^ 
gues , Bios fieos ^fez pela cofia do Idalcan. 

HUma das coufas que o Governador 
Francifco Barrero defejava muito , 
era haver ás máos a Cidade de Da- 
máo , por entender que convinha ao Efta- 
do da india 9 aíluii pera feguran^a das ter- 
. ras 



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Dec VII. Liv. ni. Ca». i. i?7 

ras deBa^aim , como pera apoíentar naquel- 
la Cidade, e fuas térras muitos Cavalleiros 
honrados 9 e cafados pobres, porque fe eP 
perava que fuas aldeias foflem de mais im« 
portancia. Sobre efle negocio tere alguna 
tratos fecretos com cercos Capkáes de Cam* 
baya feusamij^os, pera que o avifaíTem da 
modo que tena naquelle negocio , e do e^ 
tado em que as coufas daquelle Reyno ef« 
tavam i e todos ie refumíram em que ha« 
via de mandar tratar aquillo com o Ithimi« 
tican^ que governava tudo; porque o Rey 
era menino , e nao fazia por íi coufa aigu* 
mayeque peitaflfe ao tutor , eGovernador, 
porque bem podia íer que Ihe concedeíTe a 
que tanto defejava. Sobre iflo tornou a man* 
dar algumas peíToas , que foram , e vierara , 
por quem mandou faber o eftado de Da» 
máo , e o poder que dentro eftava ; e foi 
certificado, que Cide Bofatá , eQde Raná^ 
Capitáes Abexins , quecomiam aquellas tér- 
ras , tinham fete , ou oíto tnil homens de ca« 
vallo , em que entravam muitos Magores , 
e que tinham aquella Cidade muico bem pro- 
vida de mantimentos , artilheria , e muni- 
$6es , e que cuftaria muito ^ fe a quizeíTem to« 
mar por armas. 

Informado o Governador de tudo muí 
bem , aflfentou de matidar hum Embaixador 
com humarrezoado prefei^e, pera ver feo 

po- 



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i88 ASIA DE DioGo DE Coxjtb 

podía tender ao que pertcndia ; c.pera ete 
negocio elegeo a TriUao de Paiva , homem 
de muito bom entendimento , e que fe I he 
podíam encarregar todas as coufas de muip^ 
ta importancia ; e Ihe mandou arniar algURS 
navios pera o pórem em Cambayete , e Ifae 
deo largo regimentó fobre as coufas que ha-» 
vía de tratar com o Ithimitican ; equequan<» 
-do pelas coufas que levava ., e por outras 
muirás promeflas o nao pudeíFe levar z ihe 
entregar a Ctdade de Damao , com ibas ter^ 
ras , e Tanadarias , que entáo Jhe ofFereceí^ 
fe ametade do rendimento xla Alfandega de 
Dio pera ElRey de Cambaya y aílim* como 
d'antes os Reys feus anteceflbres a poífuírami 
Preñes , e negociado , Triftáo de Paiva 
fe embarcou em os navios que eftavam ji 
próvidos de tudo , com grandes apparatos de 
fuá peífoa, e feis homens decavallo, e our 
tros muitos fervidores; e oprefente que le* 
vava , era de dez formofos ginetes Arabios, 
com feus telizes de damafcos de cores , e 
duas duzias de coelhos machos , e femeas 
pera ElRey lanzar em fuas tapadas ^ pelos 
nao haver em Cambaya. Embarcado Triír 
táo de Paiva ^.foi feguindo fuá jornada, a 
que logo tornaremos. 

Os Padres da Companhia , vendo que 
era neceíTarío mandar-fe faber do que o Par 
dre Meílre Goii$aIo paíTára com o Imperar 

dor 



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•Dec. vil Liv. ni. Cai^. L iSf 

ábr da Ethiopia , porque pelo regimentó 
que levara do Vifo-Rey D. Pedro Mafca* 
renhas y havia de eítar efperando , ou elle , 
ou feu recado por navios , fizeram diiTo lem-f 
branca ao Governador Francifco Barreto , 

3ue vendo que tinha obriga9áo de acudir 
quelle negocio , mandou negociar dous na- 
vios de remo 9 e elegeo pera efta jornada a 
Joáo Peixoio , hum Cavalleiro muito hon- 
rado, e bem entendido nascouías daguer* 
ra , e daquelle Eftreito ; e Ibe deo por re- 
gimentó, que entraíTe as portas do Eftreito 
de Meca , e foubeíTe novas de gales , (por- 
que corria huma fama , que fe^rmavam em 
Meca quinze,) e que fe paflafle a Magua 
a recolher o Padre Meñre Goncalo , ou car- 
tas fuas , que forjado havia de acfaar. Eí^ 
tes navios partíram de Goa entrada de Fe* 
irereiro Jefte anno de 15'5'6 , e de fuá jor-» 
nada adiante daremos razáo. 

Nefte mefmo tempo chegáram novas de 
Ormuz . ao Governador , que as gales que 
eftavam em Bagorá ( que eram fete ) fe ne» 
gociavam pera fe tornarem pera o Eftreito 
de Meca ; e juntamente com iftb Ifae deraiñ 
cartas do Rey que fora de Bagorá , e dos 
^enhores das Ilhas Gizares , em qtie ihe p^- 
4tam os foccorreíTe com huma Armada \ 
forque tinbam os Turcos de: cerco em B^ 
^orá p \.e foftos em eftrema necdüdade ,..c 
cíi ' ' Ihes 



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tpo ASIA t)£ DioQb bB Coüto 

!he$ tinham queimado duas gales , e que e(* 
tava a coufa em eftado , que com oualquer 
Armada que pelo mar os favoreceue , os 
acabariam dedeftruir; eque tomando a to* 
mar aquella Cidade , oílereciam pera ElRey 
de Portugal a fortaleza fobre o mar , e a* 
metade do rendimento da Alfandega , como 
já offerecéram , quando D. Antáo de Noro* 
nha lá fora , como na fexta Decada oo Cap. 
IV. do IX. LW. fica dito. 

Elle negocio poz o Governador Fran* 
cifco Barrero em confelho ; e aflentou-fe , 
que fe Ihe mandafle huma boa Armada , por« 
que convinha ao Eílado lan^r dalli os Tur« 
eos , que eram muito ruins vizinhos pera a 
fortaleza de Ormuz. Com efte acordó man» 
dou o Governador negociar hum galeno ^ 
quatro caravelas , e dez fullas ; e elegeo pe* 
ra cfta jornada aD« Alvaro da Silveira , que 
come^ou a correr com a Armada ; e o Go^ 
vernador Ihe paíTou todas as Provis6es que 
Ihe pedio y com poderes foberanos na Juftí«- 
$a, e Fazenda. 

D. Alvaro da Silvelra deo tanta preíTa 
i fuá Armada , que em Marjio fe fez á vé» 
la , elle no galeáo ^ e ñas caravelas D. Pe* 
dro de Mcnezes , Trlfiáo Vaz da Veiga , 
Ayres Gomes da Silva , filho de Braz Tel» 
les, eirmáo de Fernáo Tellcs , que foi Go- 
Ternador da India, e Jeronjrmo deMefqui- 

ta. 



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Dec. vil Liv. ni. Ca?. i. xpt 

ta. Os CapitSes das fullas eram , Antonio 
de Sampaio y Pero da Cruz , Vafeo Correa ^ 
Jcáo Gallego , Cifal Pinheiro , Gafpar Va¿ 
de Mefquita , Manoel de Magalháes , Joao 
Falcáo , Jorge Barrero , e Francifco Gon- 
(alves , que hia por Feitor da Armada. 

Defpedída eña frota , com que depoís 
coniinuarenios , íicóu o Goyernador defpá^ 
chando as coufas de Malaca , pera onde def> 
pedio D.Joáo Pereira, filho de D. Manoel 
rereira , fegundo Conde da Feira , pera ir 
entrar na Capirania de Malaca y por fer fa« 
lecido D. Antonio de Noronha , filho do 
Vifo-Rey D. García de Noronha , que lá 
cílava. E porque os CapitSíes do Idalcan^ 
depoís de fe recolherem D.Amáo dcNoro^ 
nha , e D. Fernando de Monit)/ , andáram 
fazendo alguns damnos ñas térras de Salfe* 
te., e Bardes, quiz o Governador latisfazer«» 
fe , e mandón Miguel ELodrígues Coutínho ¿ 
Fíos íceos , por Capitao mor de dez navios ^ 
pera andar de Goa até Dabi&l , fazendo poi* 
aquella coila dó Idalcan todbi a gueirra qué 
pudeife. 



CA- 



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1^2 ASIA DE DiOQO DÉ COUTO 

C A P I T U L o II. 

Do que aconteeeo a Triftao de Vaha eftí 

Cambaya : e de como os que jicáram nos 
' baixos de Pero dos Banbos acabdram a 
naveta , e nella vieram a Cocbimé 



DEixámos no Capitulo atrás partido Trií^ 
táo de Pdva f>era Cambaya , que che» 
gou em poucos dias a Cambayete , e dalli 
loi por térra á Corte de Amadabá , onde 
chegou com grande apparato , e muito fer« 
vi^o dé cavalios, carretas ) camelos, e ou* 
tras coufas de férvido. £ antes de entrar ná 
Cidade , o fabiram a receber muitos.Capitáes ^ 
e o leváram aqueile dia a huma quinta , on* 
de fícou , e a outro dia fez fuá entrada , a* 
companhado de todos os Capitaes que ef^ 
tavam na Corte, efói levado aEIRey, que 
o «ílava efperando com grande mageñade » 
acompanhado de Madre Maluco , (em cujo 
poder cfiava outra vez o Rey , ) e outros 
Kegedores. TriftÍP de Paiva Ihe deo a car- 
ta do Governador , e offereceo o prefente > 
que EIRey eftimou muito , e fobre tudo os 
coelhos , que logo mandou lanzar em fuas 
defezas , onde íizeram grande crea^áo , e o 
xnandou agazalhar bem , e dar todo o ne- 
cefTario. PaíTados alguns dias , entrou em ne- 
gocios coni os Regedpres , a quem eftava re- 
• > met- 



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Dec. Vir. Liv. III. Cap. II. 193 

mettido, emque gaftou niais dehuní mez» 
e por fiín Ihc refpondéram » que ElR^y era 
}i muiro contente de dar a ElRey de Portu- 
» gal k Cidade de Damao com a fuá forta* 
jleza fomente, com tanto que elle Ihe lar* 
)i gaffe ametade do rendimento da Alfande* 
n ga de Dio , aífím como já o tiveram os 
)i Reys feus antepaíTados ; e que as térras , 
%c Tanadarias dajurífdic^aode Damáo nao 
nera licito largar-ihas , por ferem da Co* 
m roa de Cambaya. » Triftao de Paiva refpon- 
deo aos Regedores » que ellenSo levava corn- 
il mifsáo do Governador pera acceitar Da- 
)» niáo fomente ; que mandaíTe ElRey em fuá 
n companhia hum Embaixador ao Governa- 
)i dor Francifco Barrero , pera tratar aquel^ 
)i le negocio com elle ; e que fendo conten* 
n te , faríam iá feus papéis. » Ido pareceo bem 
aos Regedores , e mandáram logo negociar 
hum Turco , chamado Xeque Eftabolim , da 
obriga^áo de Madre Maluco ( que era o que 
governáva tudo ) por quem ElRey , e elle 
efcrevéram ao Governador , e Ihe mandá- 
ram tambem feus prefentes de pe9as ^ e brin^^ 
eos curiofos. 

Efte Turco fe ¿mbarcou em companhia 
de Triftáo de Paiva em outro navio , cooi 
grande cafa , e acompanhamento , e chegá- 
ram em breves dias a Goa y onde foi mui- 
to bem recebido, e agazalhado; e entran^ 
Couto.Tom.ir.P.L N do 



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194 ASIA DE DiOGO DE COVTO 

do em negocios com o Governador , decla- 
rando a ten^ao de ElRey , que era largar- 
}he fó a Cidade^ de Damáo , Iha nao quiz 
acceitar , porque nao fervia de mais , que de 
fazer defpezas ao Eftado , fem proveito al« 
gum , e que ficava fendo de mais impor« 
tancia a EIRey ametade do rendimento da 
Alfandega de Dio ; e mais eícufava penden* 
$as , e enfadamentos dos OíEciaes della com 
outros Mouros , que ElRey de Cambaya lo- 
go havia de metter nella ; e que tambem nao 
convinha ao Eftado ter naquella Ilha nunca 
já mais o Rey de Cambaya coufa alguma ^ 
por acabar de Ihe perder as faudadef. 

Coufíderadas eítas coufas , defpedio o 
Governador o Xeque Eftabolim , e em fuá 
companhia mandou Chriílovao de Couto » 
lingua do Eílado , pera tornar a ttatar de 
novo aquelle negocio com o Madre Mala« 
co, e eícreveo-Ihe por elle ique muito me- 
}i Ihor vinha a ElRey de Cambaya tcr fegu- 
}i ro ametade do rendimento da Alfandega 
» de Dio , que a Cidade , e térras da jurif-* 
j dic^áo de Damao , porque fempre Ihas ha- 
)i viam de comer Capjtáes alevantados. M Ef* 
tes liomens chegáram a Cambayete por ñm 
de Mar^D, e achár^m alli por novas , que 
ElRey tornara a fugir do Madre Maluco 
pera Ithimitican , e que o Madre Maluco 
era recolhido pera a Cidade de Baroche , que 

era 



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DjEa VIL Liv. III. Gap* It tjf 

era fuá , (porque andavam efles tyrannoa 
com o pobre Rey itiogo , dando-lfae xaqiie 
de hum pera outro , porque o que o tinhaett» 
feu poder, eíTegoverna va tudo,) pelo que 
o Xeque Eílabolim fe foi Jogo pera elle » 
deixando alli Chriílováo do Couto , que fa** 
bendo do negocio, fe foi áCidade deAim^ 
daba, edeo asearías doGovernador alihii» 
mitican, que Ihc refpondeo AqueEiRcy erob 
IB menino , que como tiveíle idade pera eo* 
9 vernar , Ihe mandaíTe o Goveroador leus 
» Embaixadores fobre aquelle negocio ^ quo 
)» elle Ihe refponderia. n Com ifto le torooit 
Chriílováo do Couto pera Coa, e dea re* 
la^áo ao Governador Francifca Bairreto de 
tudo o que paíTára. 

Deílas coufas foi logo IX Oíogo ás Ko^ 
ronha , Capitáo de Dio , avifado y e tomoii» 
fe muíto de o Governador maiidar tratar hii* 
ma coufa de tanta importancia fem Iho h^ 
zer a faber , edando elle táo perto de Csaü^ 
baya ; pelo que defpedio faum catur com 
cartas pera o Governador , em que Ibe di^ 
zia )i que fe efpantava muito delle » e dot 
]iFidalgos do Confelho , commetter huma 
n troca táo deíigual , e offerecer ametade do 
» rendimento daquella Alfandega , que dle 
» cavara pera El Rey de Portugal , á cufta 
)ide tanto fangue, e trabalho feu; que Ihtf 
» nao quizeífem roubar fuá lloara j e fezer 
K 11 »pou- 



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t$6 ASIA DE DiOGO DE COUTO 

9 pouco cafo de coufa que Ihe cufiara tan<^ 
» to , e que elle tinba pela de maior fervi-r 
% 90 de ElRey , que rodos os da India, Que 
^fedefejava a Cidade de Datn^o , pouco ha- 
» vía que faz^r em a romar ; porque feguiH 
1 do o Reyno de Cambaya eftava divifo , tU 
31 U feoíFerecia a Iha entregar, porque com 
>dous ipil homens que Ihe défle , iría ató 
^á Corre de Atnadabá iem reíiftencia. » E 
com ido efcreveo a todos os Fidalgos do 
Confelho , pedindo-lhes nao confentiíTem ao 
Governador huma tamanha femrazáo ^ e xzn* 

10 contra o férvido de EIB^ey y dando^lhcs 
pera iflfo muirás raz6es. 

' Eftas cartas foram dadas ao Governador , 
e a elles ; e como os mais eram parentes de 
D. Diogo de Noronha , c Ihe tinham mui« 
to grande refpeito , parecéram-lhes bem fuas 
raz5es , e fízeram lembran^as ao Governa^ 
dor , que deíiftio do negocio , e rcfpondeo 
a D. Diogo de Noronha » que eftimava mui^ 
31 to aquelle zelo do férvido de ElRey, eos 
1 oiFerecimentos que Ihefazia, e que nove* 
1 rao feguinte fe veria com elle em Bagaim. » 
Com eftas cartas fe quietou Df Diogo de No^ 
Tonha , e as coufas paráram, E nos o fare^ 
mos tambem neftas , por contarmos o que 
aconteceo aos que ficáram nos baixos de Pe« 
ro dos Banbos« 

peix^mos tcfda aquella gente tr^balhaiw 

4q 



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I 



Décí. vil Liv. IIL Ga>. It 197 

¿o na naveta com tanta diligencia , vonta- 
de ) e gaño , qué nó íitn de Már^ó a puze- 
tzm no mar muito bem apparelhada ; e eit^ 
barcáram nella os mantimentos que tinham 
guardados , e fízeram aguada dá muita que 
«a liba havia y e últimamente fe embarcá- 
nm com grandes promeflfas ^ e romarias a 
noíTa Scnhorá de Guadalupe de Coehim^ a 
úuem oíFerecéram a nao , e foram fazendo 
iua Viagem muito beni j e com teiítpo próf- 
pero ; e a Virgem Senhora noíTa , qué he a 
verdadeira ¿uia^ os encaminhoü de feijáo^ 
3ue os poz em Cochim no íim de Abril ^ 
lem paflarem trabalhos , nem tormentas. Che^^ 
gados ao porto, aeudíram embarca$6es , eni. 
que todos fe defembarcáram ; e pdftos na 
jbraia , fe ordenáram em proeifsáo i indo os 
Padres da Companhia diante cantando as La^ 
xlainhas ; e por efta ordem foram alé á Cat 
ia de noíTa Senhora com grande devo^áa ¿ 
€ muitas lagrimas > levando apos fi toda a 
Cidade ^ que fahio a ver aquelfe devoto ef^ 
pedlaculo ; e a naveta foi mdttida dentro no 
tio , e defcarregada do cabedal de ElRey ^ 
^ de muita fazenda que nella mettéram ; e 
a nao foi oíFerecida a noiTa Seiihora. E fet 
gundo nos parece , ella íe vendeo , e o dir 
nheiro fedeo áConfraria: baíiiaque ella foi 
feita em fea nome^ e acaboií bem. 

CA-' 



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19^ ASIA DH DiOGO DE COVTO 

CAPITULO III. 

J)o que Miguel Rodrigues Coutinbe fez pe^ 
¡a cofia do Ida lean : e do que aconteceo a 
JoSo Peixoto na jornada do Efireito: e 
de como deo em Suaquem , e matou aquel- 
Je Rfy y e cathou algrnna gente , e roun 
hm os Fa£os. 

P Anido Miguel Rodrigues Coutinho de 
Goa , cofDo atrás diíTenios no Cap. L 
defte III. Liv. , foicorrendo toda a coila do 
Idalcan até i Cidade de Dabul ; e defem* 
1>arcou em todos os lugares maritimos del- 
. les , c os metteo a ferro , e a fogo , cari- 
nando , e macando muita gente , conando 
os palmares, eaíTolando asfazendas, quei<* 
nando navios grandes , e pequeños , e fa*» 
zendo oueros muiros damnos , com que a 
ter^^a ficou deflruida , e defpovoada ; e dei- 
atando tadofeito pó , e cinza , fe paíTou a Da-t 
l>ul pera eíwrzv as naos que havlam de vir 
de Meca, É eftando furto no mar , Ihe foi 
cahir ñas maos huma do Idalcan , que vi* 
Dlia de Meca carregada de multas fazendas , 
€ dinbeiro; e pondo-fe os navios emarmas^ 
a foram commetter com muita determina* 
^o , >e a rodeáram , e batéram por todas aa 
partes tnuitas bocas , de&ndendo-íe ella mui- 
to valorofam^ute ^ í^m querer amainar , in« 

do 



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Dec. vil Liv. III. Cap. III. 199 

do fempre com todas as velas demandar a 
térra , onde fe ouviaai as bombardadas mui« 
to claramente. E como o vento era frefco , 
e os mares pequeños , determinou-íe Miguel 
Rodrigues Coutinho ainveñilla, como fez^ 
com todos os navios , repartidos e(n duas 
partes. E pofto que acháram em os Mou* 
ros (oue eram mais de duzentos ) mui gran- 
de rehñencia , todavia a poder de golpes fe 
puzeram em íima , e dentro nella tiveram hu«* 
ma muito aípera , e arrifcada bacaliía , e de 
muito fangue de ambas as partes , em que 
os nodos moítráram tanto leu esforzó, que 
com morte da mor parte dos Mouros rendé- 
ram a nao , cuitando tambem aos noíTos a 
vida de oito , ou dez homens , a fóra mui* 
tos feridos; e voltando com ella pergGoa» 
furgíram na fuá barra , onde as fazendas for 
ram defembarcadas , e a nao mettida dentro » 
e repartidas as prezas pelos Ca pitaes » e foU 
dados. Couberam fó á parte de ElRey mais 
de trinta mil cruzados. 

O Idalcan com os damnos que Ihe fize* 
ram por fuá colla , e com a perda defta nao , 
íicQu, táo quebrantado , e aíTrontado > que de^ 
cerminou de profeguir na guerra de Cíoa ; e 
inandou defcer abaixo m^is alguns Capitáes , 
do que p Governador Francilco Barreto foi 
logo avifado , e mandou prover os rjos to- 
dos de guarda I de navios, e njanchuos, e 

os 



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aoo ASIA DE DioGO de CoutÓ 

os paíTos de Capitaes , e ígldados , e deíV 

})achou os provimentos pera todas as forta^ 
ezas ; e pera a de Maluco foi hum formo* 
fo galeáo carregado defazendas, muni^óes, 
e outras couías pera aquella fortaleza , de 
quem foi por Capítáo Francifco de Barros ^ 
que era próvido daquellas viagens. 

Agora he neceflario que continuemos com 
JoáoPeixoto, quedeixámcs no I. Cap. def* 
te III. Liv. partido pera o Eftreito de Me- 
ca ; que leguindo fuá derrota com os levan^ 
tes que curfavam , foi haver vifta da coda 
da Arabia , e de longo deila foi embocar 
as portas do Eftreito , que entrou de dia , 
por fufpeitar que nellas eftavam as gales do 
Cafar , o que nao era ; e entrando dentro ^ 
tomáram algumas gelvas , emque cativáram 
alguns Mouros , de quem fouberam nao ha* 
ver em Meca mais que as gales do Cafar ^ 
que eilavam varadas. Comeftas novas atra* 
vefsáram a coda da AbaíCa , e foram haver 
viíla da Ilha Cuaquem , já de noite. E en* 
tendendo Joáo Peixoto oue baviam de eP- 
tar defcuidados de poder na ver embarca^Óes 
de Portuguezes , determinou de ver fe po- 
dia fazer huma boa preza ; e parecendo bem 
aos companhelros , foram no quarto dame 
alva demandar a Ilha , onde deíembarcáram 
fem ferem íentidos. Ecomo osPa^os deEI* 
.Re/ iicavam fobre o mar ^ os demandáram^ 

em 



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Déc. vil Liy. m. Cap. III. lot 

em xnuito (Ilencio ; e fentindo tudo quieto ^ 
os entráram , c foram mettendo á efpada al« 
guns , que acháram dormindo ñas primeiras 
cafas. E cbegando á porra da cámara, em 
que EIRey dormia , aabalroáram comgran*» 
de determina^áo , e prefteza ; e tomando o 
Rey de fobrefalto , fem cuidar que Ihe ef- 
tava aquelle damno apparelhado , o matáram , 
e com elle algumas peflbas , que acudiram aos 
gritos , e algumas mulheres , e outras peC* 
foas foram cativas , e faqueáram o que na 
cámara havia ; e com eíle profpero feito íe 
recolhéram aos navios , fem Ibes acontecer 
deíaftre algum ; e a(Faftando-fe da Ilha , fo* 
ram furgir de longo da cofta , onde deícan-^ 
^ram a mor parte da noitc ; e tanto que en-» 
trou o dia , foram correndq de longo del* 
la , abrazando , queimando , e deftruindo al-^ 
guns lugares , faqueando , e roubando mui* 
tas couías , com que os foldados bouveram 
o trabalho por bem empregado ; e aflim fo* 
ram ter ao porro de Arquicó , pera recolbe- 
rem o Padre Medre Gonzalo , onde iicáram 
efperando por elle ; que como foi tempo , 
em que Ihe pareceo que era bem que foíTe 
pera o mar , (porque conforme ao régimen-^ 
to oue levava , bem fabia que haviam de ir 
navios da India em bufca delle, ou de feu 
recado , ) fe foi dcfpedir do Imperador , e 
Ihe pedio ücen^a pera fe vir ^ e ^le Iha deo , 



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%o% ASIA DE Dioao de Covto 

f mandou efcrevcr a El Rey , c ao Govcrna- 
dor cartas de grandes agradccimemos y do 
amor y e vontade que moftravam pera fuas 
coufas , e do trabalho que cinhain levado 
em baver do Summo Pontifice , Patriarca , e 
Bifpos pera aquelle Imperio ; que elle Ihe 
£cava por iflb em grande obriga^áo de o 
(ervlr , e de o ter a elle Rey de Portugal 
em conta de pai i e que elle ficava preftes 
pera neceber o Patriarca como elle merecia : 
mas nao fe penfaorou em paiavras na mudan- 
za dos coftumes. 

Recebidas «5 cartas > íe defpcdio o Pa- 
dre do Imperador , que o mandou acom* 
panhar , e prQver de todo o neceíTario em 
abaftan^a ; e fio fim de Marco chegou ao 
porto de Arquicó, ondejoaoreixoto o ef- 
taya efperando ; e recolhidos ñas galeotas , de* 
ram á vélz^ e chegáram a Goa na entrada 
de Malo. E o Padre Medre Gonzalo deo ao 
Gpvernador rdt^áo de tudo o que paífou 
com aquelle Imperador , e Ihe affirmou , que 
ienáo mudaría I de fuaten^áo; oque elle, e 
os Padres fentírim muito , pelo pouco frui^ 
to que feeTperava tirar do grande trabalho , 
e defpe^as que EÍRey tinha feito naquelie 
«egocio ; e do que niíTo mais paíTou y adí- 
ente em feu lugar daremos larga conta. Com 
a chegajda-d^& navios fecerrou o invernó » 
e o>^OYeroa4Dt[ ordenou finco Capitaes per 

ra 



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Dec. vil Lvr. IIL Ca>. IV, 20j 

ra darem mezas a todos os Toldados , e eír 
tes fbraní Pero Barreto Rolhn , Martim A£- 
fonfo de Miranda , Jorge da SUva » Pama-> 
Jeáo de Sá , e Ruy Barreto Mafcareíahas. E 
todo o invernó gaftou o Governador na re^ 
forma^áo da Armada , que de tiovo fazia , 
cujo trabaiho , e meneío repartió pelos Fi^ 
dalgos , e todos os dias vificava^a ribeira, 
e lá jantava ; e aflim ié corm oom a obra 
com muita prefteza , e alegría » porque <o» 
<los andavam fatisfeítos , e cootenees^ 

CAPITULO IV. 

Do que fuccedeo a D. Alvaro da Silveira 
na viagem : e das defavencas que teve 
com Bernaldim de Soufa , Capitao dafor^ 
taltza de Ormuz : e do que Ihe aconte'^ 
ceo no Eflreito de Bacora. 

DE todas as coufas dcíie f eráo oot 6ca 
íó por continuarmos oom D.Alvaro da 
Silveira , que deixámos partido pera Oran»? 
no Cap. L defte IIL Liv. , e agpr^i o far^^ 
utos , porque cabe aquí indSiQr. £fte Capir 
-táo foi fegttindo fuá derrota até Sba^ver viOg 
-da cofta (k Arabia ; edobran^o Preaho Rp- 
íalgate , tomou agitada tm Teivc 9 onde fe 
apercebeo de agua , e dalli & paÁpu a Oi?* 
muz, e furgio defroate daqiidía forialezji, 
onde foi logo vifitado da parte, de Bernalr 

dim 



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•&04 ASIA üE DioQd tít Couf b 

tlim de Soufa , Capitáo della , que era mvá 
grande feu amigo , e Ilie inandou pedir que 
quizefle fer fcu hofpede. D« Alvaro » que já 
vinha. em outro bordo , por mexericos que 
tocavain em ciumes de huns amores, (com 
fer hum dos mores amigos que Bernaldim 
t]e Soufa tinha , e que já em Goa tomara 
bandos por elle, afté contra o Governador^ 
i^om quem teve paixóes fobre coufas fuas , ) 
em Ihe dando o recado de Bernaldim de 
Soufa, refpondeo »que náovinha peradet- 

> embarcar aquelle dia , e que ao outro o 

> faria , » e amm o fez i porque tanto que 
¿manheceo , fe metteo no batel do feu ga- 
jeáo , acompanhado de aiguns Fídalgo^ '^ 
que com elle hiam embarcados , e foi de« 
mandar a térra. Bernaldim de Soufa fertdo 
avifado que deferübarcava , o foi efpefar á 
praia muito alvoro^ado pera o ver ; liíasi 
£>• Alvaro , que levava diíFcrente penfamed^ 
to , fendo já perto da térra , que vio Bef^ 
naldim de Soufa , voltou com o batel , e fdi 
correndo a ribeíra pera a banda da Alfai>- 
^ega , e foi defembarcar á porta do Moí«- 
teiro de S. Domingos , que eftava huma c2H 
ünha pobre , ( que hoje he Hofpital pelos Pa» 
^res já nao efiarem nefta térra J deixando Bei^ 
naldim de Soula na praia, porque de pro^ 
poíito Ihe quiz fazer efie tiro , pefa que eiH 
lendefle que nao vinha íeu fervidor. Be^ 

Daí- 



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Dec. VII. Liv; III.<:aí. IV. lof 

iialdim de Soufa tanto que o vio voltar dé 
táo perto , logo o entendeo , e diffimulou 
com o negocio , e abalou com toda a gen« 
te pera S. Domingos , onde acliou D. Al* 
varo da Silveir^ á Mifla , e foi*le pera el* 
le, e falláram*fe, adiando aD. Alvaro feo 
€o, e diíFerente do que dantes moftrava. 

Acabada a MiíTa , fe fahiram pera fóra ^ 
e Bernaldim de Soufa o convidou pera o 
jantar, que Ihe elle acceitou ; e indo pera 
a fortaleza, chegando áFeitoria deElRey^ 
Ihe diífe D. Alvaro da Silveira » que tinha 
hum negocio com o Feitor , que Ihe déíTe 
licenga pera fe deter , que logo feria com 
elle. Bernaldim de Soufa fe foi, e diíle pe^ 
ra os que hiam com elle: «Nao ha de vir^ 
» porque fe nos tiveramos a vacca preza , 
3» o novilhinho entrara no curral. y D« Alvaro 
ficou negociando com o Feitor algumas cou* 
fas pera o provimento de fuá Armada , e 
deo ordem pera fe armgrem mais alguns na** 
vios , por ProvisÓes que para iíTo levava ^ 
porque determinava de paflar logo a Ba^o* 
rá ; e acabando de fazer aquelle negocio , fe 
foi embarcar , mandando da praia dizer a 
Bernaldim de Soufa , que nao efperaíTe por 
elle, porque felheofFerecéra hum negocio, 
que Ihe era forjado ir-fe pera o galeno. Ber* 
iialdim de Soufa nem entáo Ihe quiz dar a 
entender quq o entendía , (porque na verda^ 

dQ 



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^o6 ASIA DE Diaoo dé Cquyo 

de eftara íem culpa na materia , por que elle 
vínba eicandalizado , ) e Ihemandou dejan* 
tar zoRzldío idqíco bem. D. Alvaro da Sil-^ 
veira loi dando preíTa ao aviamento de fuá 
Armada , defembarcaodo todos os dias em 
térra , e fempre Bernaldim de Soufa o ef* 
perou , mas nunca quiz entrar na fortaleza i 
€ armou mais feis navios de remo , e os pro* 
veo de Capitáes , que foram , Henrique Soa-» 
res y Francifco Jorge , Gafpar do Amaral j 
Antonio Nunes , e Antonio Gon^alves ; e ou^ 
tro , a que nao achámos o nome. 

Prefles tudo , fe partió D. Alvaro da SiU 
veira pera Baforá em Junho ; e antes de che^ 
^ar á fortaleza de Reixel do Eftado da Per* 
lia , que fica fobre a boca do rio Eufrates , 
encontráram huma terrada , que levava car- 
taz de Bernaldim de Soufa; e fendo levada 
ao Capitáo mor , mandou recolher no feu 
galeSo rodos os mercadores , e fazendas com 
huma boa copia de dinheiro , fem Ihe que« 
rer guardar o cartaz , com os mercadores 
Ihc fazerem fobre ido muitos proteftos , e 
requerimentos. £ eftando furto hum pouco 
fóra do rio Eufrates , cfperando por recado 
dos Cizares , e do Rey , que foi de Ba^rá , 
Ihe deo huma tormenta tamanha , que a nao 
pudéram aguardar fobre a amarra, efoi-lhes 
JFor^ado darem i vela , e correrem com os 
traquetea á vontade dos ventos pera Ormuz } 

e 



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Dec. VII. Liv. III. Ca>. IV. 207 

e de fei^áo , que fe dividíram todos os na* 
víos , e os mais delles chegáram deílroga* 
dos , e alagados a Ormuz , como tambem 
fez D» Alvaro da Silveira no feu galeáo ^ 
que furgio no porto fem querer defembar- 
car,' porque logo foi avifaoo , que Bernal- 
dim de Soufa eftava muito tomado de Ihe 
nao guardar o feu feguro á terrada que to* 
mára, do que fe havía por táo afTrontado, 
e oíFendido , que esbravejava de ira de fei- 
$ao', que a paixáo Ihe nao dava lugar al« 
gum ao foffrimento. E affirmáram algumas 

Eeflbas f que defejira de fe encontrar com^ 
>• Alvaro da Silveira , e que o fora eipe« 
rar de noite , cuidando que deíembarcafle , 
e foíTe a parte onde o encontraífe ; mas 
D. Alvaro da Silveira nao defembarcou. E 
depois de tomar alguns provimentos , e re* 
formar a Armada , f^ partió pera Mafcate ^ 
onde efteve até 1er tempo de fe partir pera 
Goa , e recolher as naos de Ormuz pera Ihe 
ir dando guarda. Bernaldim de Soufa ficou 
táo apaixonado, edefgoftofo> que cabio em 
cama , e de fei^^ío » que defia feita veio a fa* 
lecer^ como adiante diremos. 



CA. 



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208 ASIA DB DlOGO DE COUTO 

CAPITULO V. 

Das coufas que ejle anno acontecéram em 
Ceildo: e da guerra qtie je profeguio cofH 
ira o Tribuli Pandar : e de como elle fu^ 

' ^0 pera y af añapa t do y onde foi mortox e 
da guerra que o Madune tornou afasicr 
a E/Rey da Cota. 

DEixámos o invernó paflfado recolhido o 
Tribuli Pandar ñas íctc Corlas, depois 
de desbaratado ; e vendo-fe alli táo perfegui- 
do , fe foi metter com o Principe de Urun- 
guré, que he huma das Corlas, porfermui- 
to feu párente , e elle o agazalhou bem , e 
o favoreceo contra o Madune , e Ihe deo 
todas as coufas neceflárias pera a guerra ; 
mas como o Tribuli Pandar era máo , c per- 
verfo , etn pago defte grande beneficio , ma- 
tón huma noite o Principe , apoderando-fe 
da Cidade , em qué íe fortifícou com os fcus , 
fazendo-fe Senhor dos Pacos , cafa , e the- 
Iburo do Principe. Vendo-íe efte tyranno com 
pofle , e fenhor de Urunguré , deierminou 
fenhorear todas as fete Corlas , que era hum 
Eftado grande , e em que os Portuguezes , 
nem o Madune Ihe podiam fazer damno, 
por fer todo de Térras altas , e de paíTos ef- 
treitos , e diíEcultofos. Determinado niño» 
ajumou gente > ecome^ou a entrar pelas ou« 

tras 



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De<2. vil Liv* III. Caip. V. ao9 

tras Corlas com máo armada a toinar*lbes ^ 
e deftruírolhes feus lugares* 

Vendo osnaturaes tamanba tnaldíade eni 
hum hornero i como foi matar hum Princi- 
pe , que o agazalhou em feus trabalhoS) e 
perfeguigóes , e tanto feu párente » fe cartea* 
ram todos , e fizeram huma liga geral con<^ 
tra dle > jurando com fuas ceremonias de 
morrerem todos aíüm na defensáo de fiia* 
Cidades » como na vingan^a da mortc 4a<* 
quelle Principe ; eajuntando todo o poder ^ 
cccupáram , e fortificáram os paíTos por on- 
de efte tyranno os podia entrar ; e pera mor 
feguran^a , mandáram Embaiitadores a A& 
Ionio Pereira de Lacerda ^ Capitáo de Ceí* 
lio j a pedir-lhe foccorro de foldados , pro- 
mettendo que a todos os que lá foíTem 9 pa- 
gariam a quinze pardáos de ouro por mez 
á cada hum* 

Vendo Áfibnfo Pereira de Lacerda fea 
nequerimento > e razáo , havendo que era fer* 
VÍ90 de ElRey favorecerem aquelles póvos ^ 
porque fe nao vieíTe aquelle tyranno a fazer 
feobor daquellas Cidades /porque daría mul- 
to grande opprefsáo ^ e trabalho a toda aquel- 
la liha,) defpedio logo hum Joáo Fernan- 
des Columbrina , foldado velbo , e bom Ca- 
valleiro, com feíTenta Portuguezes , quefol- 
gáram de ir áquelle negocio , pelas groíFas 
pagas que Ibes promettéram i e foram-íe ajun- 
Qut0. Tom. IK P.L O w 



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SIÓ ASIA DE DiOGO DE COVTO 

tar com ósnátüraes daquellas Corlas , e co 
me^áram a fazer guerra ao Tribuli Pandar 
pela parte ddíldia , e o Rajú , íilho doMa* 
dune ( de quetn fe tambem valéram ) pela 
^aite debaixo ; e aíliiti perfeguíram aquelle 
tjrranno , que de fe Ver perdido , tratou de 
íalvar fuá peíToa , como fez huma noite , le^ 
Vando fuá íbgra , e a mulfaer , íilha do Ma^ 
iSune , com es thefouros que pode ; c por 
caitilnhos efcufos fe foi pera Jafanapatáo a 
pedir foccorro áquelle Rey , pera tornar a 
Yoltar com mót poder ; c el te o recebco hu" 
itiañameñte. E praticando depois em feu ne- 
goció ^ e dando-lhe conca de fua$ confás , 
a volcas dellas Ihe difle a obrigagáo que ti- 
nham todos os Reys daquellaliha , de lan- 
parem fóra della os Portuguezes , fazendo- 
Ityo tio fácil ^ q^e o moveo a Ibe dar íoc^ 
corro contra clles , e a folicit^ar todos os 
Reys amigos , e parentes.' E para mor fe- 
guran^a <ii()o , ajuntáram-fe ort hum Pago«- 
dé , perd neile juriarem aqutlk liga com as 
Ceremonias atitré elles couuttiadas. Mas co- 
tilo a cbufa , que mais aborrece a Déos , sáó 
iiémehs falfos^ etyrannós, qui2 lago cañi- 
zar efte "íríbuli Pandar, quando elle eñava 
Thais embebido na vingan^a 4o feu odio i e 
íbi déíla ntáM^ifa. 

Eftando éftes Principes diente de íetís Ido- 
iOs p6ra fazere:m feus juramentos coiti gran>* 

des 



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Dec. vil Liv. III. Caí* V* 41 1 

¿es feítas , c regozijo^ y acertou de cahir i 
hum Toldado huma pouca de pólvora do fraf« 
co da efpingarda ^ e outro traveflfo ^ que ef« 
tava junco delle ^ a Ihe por o fogo » o c|ue 
fuccedeo pegado cotti lambos aquelles Prin- 
cipes. E como o Tribuli Pandar anda va receo* 
fo y e de todas as coufas fe temia ^ (que he 
•o pezo que os máos trazem íempre fobre q 
cora^áo ^ em pena de fuá maldade») tanto 
que vio a labareda da pólvora ^ cuidando 
que era trai^So, arrancou da efpada contra 
ÉlRey ; e antre todos fe ateou huma gran^ 
de briga , em qué o Tribuli Pandar foi mor* 
to , ficando defta feita a Rainha velha 5 o ne« 
to , fuá ñora , e thefouros em poder, daquel* 
le Rey ; e por aqui fe acabáram toda$ fuas 
guerras , e trabalhos, (que os Capitáes de 
Columbo perfeguirdm ^ tendo pela ventura 
no principio pequeñas culpas i pormie fe che* 
gou a morder 5 foi porque oKOÍiáráOé) £ 
depoisque elleacabou^ come^áram osgran^^ 
des trabalhos daquella Ilha ^ e fe percho o 
Reyno da Cota i e houve tantos cercos fo-» 
brc aquella fortaleza , e fobre a de ColunH 
bo y como pelo decurfo das Decadas cita* 
va y nona , e decima fe veram ; porque ntin# 
ca o Madune fe defaverganhára tanto y fe 
o Tribuli Pandar vivera , por fer o que Ihe 
quebrava , e abatía fuá iboerba , e tyrannia^ 
Vendo oMa^uhe morto o Tribuli Pao» 
i O ii * dar^ 



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2X1 ASIA DE DiOQO DE COUTO 

dar , e o Camcreiro mor de EIRcjr da Co- 
ta , e feu cunhado Alan^ Modehar , e o 
filho do Capitáo preto prezos, e homizia* 
dos com os Portuguezes , ( tudo ordenado 
por fuá indufiria a eñe fim , ) ordenou logo 
de profeguir na guerra da Cota , e nao le- 
var mSo della , até fe fazer Senhor daquel- 
h Reyno , pera fe coroar por Imperador li- 
vrementc. É ajuntando feus exercitos , man- 
dou feu íilho o Rajú , que elle foi creando , 
e dando azas , e brío pera depois o matar 
a elle 9 e afeusirmáos legitimos, e a fefa* 
zer Rey , ( como na undécima Decada dire- 
mos , pagando o Madune fuá tyrannia por 
roaos de feu proprio filho , ) que fcíl'e pro^ 
íeguir na guerra , e puzeíTe cerco a Cota ; 
o que elle fez , fahindo de Ceitavaca com 
hum groíTo exercito ; e entrando pelas ter* 
ras daquelle Rey, foi fazendo grandes da- 
íunos, e eftragos. 

Eftava neite tempo na Cidade da Cota 
com aqaelle Rey Attbnfo Pereira de Lacer- 
da com pouca gente , e com eíTa que tinha 
proveo os paíTos da Cidade , e os fortificoo- 
o melhor que pode , e pelos ríos ^fpalhou 
dez , ou doze navios , de que eram Capí* 
tSes Fernáo de Caftro , Domingos Rapoío , 
Joáo Rodrigues Correa , Antonio de Efpin* 
dola , Diogo Juzarte , Chriílováo das Ne- 
ves, Gafpar Lopes , Vicente Bello ^ Anto- 
, * i nio 



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Dec. vil Liv. III. Cap. V. iij 

nio Fernandes , Gonzalo de Chaves , AotO' 
nío de Araujo , Antonio Jorge , Domingos 
Dias ; e por Capitáo mor de todos Fernáo 
Peres de Andrade« Eftes liavios andáram de* 
fendendo.a paflagem ás gentes do Rajú , dan* 
do'^he tambem em alguns lugares do pal ^ 
<]ue deílruíram , e abrazáram. ElRey da Cgn 
ta, podo que efiava desbaratado , ajuntou tam* 
bem fuas gentes , e Ian90u no campo alguns 
Modeliares ^ que ti vera m muitos recontros 
com os inimigos , em que houve damno de 
parte a parte. E porque eftes aííaltos foram 
muitos, emiudos, enao achámós lembran* 
^a de coufa notavel , paíTaremos por elies i 
baila que ficáram parte do veram , e todo eí^ 
re invernó, fazendo*fe toda a guerra que puf> 
déram ^ e aifim os deixaremos até tornar a 
elles. 

CAPITULO VL 

Da Armada que ejie anno dejlncoenta efeh 
partió do Keyno , de que era Capitao mar 
D. Joao de menezes de Siqueira : e de 
que Ihe Juccedeo na viagem : e do em que 
o Governador Francifco Barrero proveo 
fobre as eoufas do Patriarca : e da via^ 
gem que Jizeram as ndos até o Reyno. 

PEla Armada do anno de fincoenta e qua- 
tro , que chegou em A godo de fincocn;- 
la e finco ^ foub^ ElRey ficar na India q 



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214 ASIA DE DíOGO DÉ COUTO 

Vifo-Rey D* Pedro Mafcarcnhas , que nél- 
la foi , o que eítimou multo ; e na entrada 
de Janeiro de íincoenta e feis mandou dar 
preíTa á Armada que bavia de ir pera a In^ 
día , de aue era Capitáo mor D, Joáo de 
Menezes de Siqueira. E porque defejava de 
defpedir eftas naos cedo , ( porque as da Ar-» 
mada do Vifo-Rey D. Pedro Mafcarenhas 
por partirem tarde arribáram humas , e ou* 
tras tiveram muito ruim viagem , ) entrou lo* 
go no defpacho das coufas da India, e na 
embarca^áo do Patriarca da AbaíTia , e Bif* 
pos , que haviam de ir aquelle anno. E pe- 
ra mais authoridade , e obrigar com iíTo 
muito áquelle Imperador , ordenou de Ilie 
mandar hum Embaixador , e dizem que com- 
snettéra pera iflb D, Antonio de Noronha o 
Catarraz , que havia de ir pera a India net 
ta Armada , e que por pedir multas coufas 
fe defa viera , e elegeo El Rey pera iíTo a Fer^ 
nao de Souía de Caftello-bianco , e o deC- 
pachou com a Capitanía de Chaul , e com 
mil pardáos de tenga , em quanto nao en- 
trafle nella ; e mandou efcrever áquelle Im- 

f)erador cartas de muita obrigajáo , eiñ que 
he pedia quizeíTe dar a obediencia á Sant3 
Sé Apoílolica , e receber o Patriarca , co- 
mo huma tamanha dignidade merecía. £ paí^ 
fouProvisóes aó Governador pera dar aFer^» 
«^Q de Soufe de Caftellp-branco quinhe* 



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Dec. vil Liv. III. Cap, Vi. aiy 

tos homens, e Armada bailante pera elles^ 
pera por o Patriarca , eBifpos na Abadía, 

Ellas naos deraníi á vela a quinze .de Mar*^ 
50, oCapicáo mor D.Joáo deMenezes de 
Siqueira na Garga , Jorge de Brito cm Flor 
de la mar , Pero de Goes no g^leáo S. Vir 
cente, Marrim Aflonfo de Soufa, íilho úq 
Veador do Cardeal D. Henríque , e que dc^ 
pois foi Governador de Angola , em Sá^ 
Giáo , e Antonio Fernandez em S. Paulo ^ 
cujo (enhorio elle era» Neíla nao feembar- 
cou D. Amonio de Noronha o Catarra? , 
<]ue tinha arribado na nao Flamenga , de que 
era Capitáo D. Manoel Tello , como atrá^ 
diflemos. 

Tanto que D. Antonio de Noronha ehe- 
gou ao Reyno , fe foi recolher em SL Fraur 
cifco; e fendo EIRey diffo avifado, raaflr 
dou faber delle , fe aquillo era fazer mudan*- 
(a na vida , ou fe por outro algum refpeir 
to; ao que Iherefpondeo y que fe rigcoíbéi^ 
3» ra com os Frades por pobre ; porque ante^ 
31 quería acceitar delles huma ragao , que pe- 
> jar , nem enfadar párente algum feu. » V^íir 
doEJRey aquillo, o mando» chamar , elh^ 
fez mercé da Capitanía de Dio, por Ihe ca- 
ber logo após D. Diogo de Noronha , qu^ 
^Ila efiava , e Ihe mandou dar dinheiro pe* 
^'a fuas defpezás , em quanto fe nao embarcar 
va^ e agora pera 6^9l eml>ar<;agáo Ihe man- 
dou 



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^i6 ASIA DE Dioao de Covto 

dou empreílar dous mil cruzados do cofrtt 
do cabedal , que hia pera a pimenta , pera n4 
India os tornar ; porque os Reys de Portu* 
gal fempre andáram efpreitando as neceíli* 
dades de feus vaíTallos , pera as remediarem 
como pais ; porque fabiam muito bem , que 
ellcs como íilhos no amor» e como vaílal* 
losleaes naobriga^áo, arrifcavam as vidas, 
todas as vezes que era neceíTario por feu fer^ 
viyo , a todos os perlgos que fe oflfereciam* 

Neftas naos proveo ElRey em muitas cou« 
fas , que Ihe parecéram neceflarias ao bom 
^overno do Ellado da India , e encommen* 
dou muito ao Vifo-Rey , que mandarte hu* 
ma peíToa de confianza acorrer ospórtos da 
Ilha de S. Lourenco, pera ver fe achavam 
por elles algum raito da gente das naos Bur«- 
galeza , e Santa Cruz , que defapparecéram , 
vindo pera o Reyno , o anno de fincoenta 
e tres-, porque fe prefumia que deram por 
aquella coila ; e que notaílem em todo^ a<- 
quelles pórtos o que foíTe mais accommotla*- 
do pera nelle íe fazer huma fortaleza ; c 
que aíIentaíFem pazes, ecommercio comog 
Senhores dos pórtos de mar , e viíTem fe 
aquella gente era capaz de receber a Ley de 
Chrifto, 

Edas naos foram íeguindo fuá derrota y 
ora com bonanzas , ora com contrates , 
até paíTarem q cabo dg Santo Agoftinho » 

que 



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Dec. vil Liv. III. Cap. VI. 117 

que foram em demanda do de Boa Efperan* 
^'y fomente a nao S.Paulo, depois de paí^ 
far o Cabo de Santo Agoftinho , ( que foi 
já muito tarde , ) comecou a haver antre os 
homen$ do mar alteragoes y e requerimentos 
aoCapitáo, que arribafiem , porque a nao 
fiáo levava agua ; e chegou a coufa a efta«* 
do 9 que nao quizeram acudir, nem obede- 
cer ao Medre. A ifto acudió D. Antonio de 
Noronha , e ajuntando-fe com o Capitáo , 
elegéram alguns horaens honrados y e de ver- 
dade pera darem bu fea á nao, e faberem a 
agua que havia ; e defcendo ao poráo , e ás 
cubertas, em que íe metteo a agua de ElRey , 
acháram táo pouca , que nos aífirmáram nao 
ehegar a vinte pipas ; pelo que Ihcs foi ne* 
ceíTario arribarem ao Brasil , e foram tomar 
a Bahía de Todos os Santos , onde efiava 
por Covernador D. Duarte da Cofia , que 
mandou recolher os doentes no Hofpital , e 
aos saos ordenou darem-lhes mezas ; e Dom 
Antonio de Noronha recolheo comíigo per* 
co de trinta foldados , criados de EIRey , 
elhes deo de comer áfua cufia todo o tem* 
o que alii efieve , e depois até os por na 
ndia. As mais naos paflTáram á India , e to- 
oiáram Coa , e nellas vieram as novas da 
morte do Infante D. Luiz , que todos gerai* 
mente fentíram , porque perdéram nclle os 
Fidalgos tamanbo terceiro pera feus defpa- 

chosy 



i 



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aiS ASIA DE DioGo DE Covto 

ehos , que depois de declarados Ihe hiam ber^ 
jar a máo por elles , porque fempre foi re* 
querente de todos. £ as coufas da India , 
por ella fer deícubcrtá-^or ElRcy D. Ma* 
noel íeu pai , favorecco fempre , e amou fo* 
bre todas ; e aílim dizeni que defejou funiT 
mámente ir a ella , mas que civera a iSo 
grandes inconvenientes. 

Foi efte Principe por fuá boa , e real na- 
tureza muito amado de todos y nao fó dos 
naturaes , que o tinham em conta de pai ^ 
mas ainda dos eftrangeiros ; e aífim todos o 
fentíram j e choráram. £ eu tambem o fiz 
ao efcrever diílo , porque toda a honra , fer^ 
e creajao que tenho , me veio delle i por- 
que de idade de dez annos o comecei a ferr 
vir y e me achei na cafa em que faleceo com 
huma tocha ñas maos ; e por fícar defampar 
rado por fuá morte, mepaflci á India, on- 
de atégora fempre fer vi , e militei. Tambem 
vieram neftas naos novas de como o Im- 
perador Carlos V. de gloriofa memoria , fe 
recolhéra á Religiao ijo Convento de S.Je- 
ronymo dejufte, por fer lugar íadio, eac^ 
commodado a quem larga governo , e inr 
quictajóes do Mundo , e deixára o gover- 
no de £eus Reynos ao muito Caiholico Pria^ 
cipe D. Filippe feu filho. 

Chegadas as naos a Goa , logo o Gover- 
nador fe come^ou a fazer preftes pera ir ao 

Nor- 



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Dec. vil Liv. IIL Cap. VL 219 

Norte , pera o queefcreveo a ElRey de Co* 
chiin , e aquella Cidade y que liie mandaíTe 
alguns Naires 1 navios , e gente pera o a* 
companharem ; e o raefmo eícreveo a Ca-^ 
nanor, e que efperava de partir na entrada 
de Novembro ; e comegou logo a entender 
no defpacho das naos , que haviam de ir pe- 
ra o Reyno, E porque faltava a nao S. Paur 
lo , que ficou invernando no Brazil , nao 
querendo que foflem menos naos , e carga , 
o feu primeiro anno, em que pertendia ficar 
acreditado com ElRey , comprou huma mul- 
to formofa, e nova doeftaleiro, que eftava 
BO porto de Goa , a Efteváo Pereftrello , Ca- 
pitáo de Carania , e deo a Capitanía della 
a Francifco Nobre , que ficou em Goa, por 
fe perder nos baixos de Pero dos Banhos , 
(como atrás diflemos no Cap, VII. do IL 
Liv. ) por fcr da obrigajao do Conde da 
Caflanheira ; e defpedio com muiía prefla 
as naos pera irem tomar a carga a Cochim , 
pera ficar defembarajado , e entender fó na 
lúa Armada , em que pertendia ir ao Nor- 
te. Eñas naos tiveram muito ruim viagem , 
c fó a Capitanía chegou aoReyno; Flor de 
la mar , S. Giáo , e o galeáo S. Vicente in* 
vcrnáram em Mojambique , e depois em No- 
vembro partíram pera o Reyno , aonde che*' 
gáram; e a nao S. Giáo , em que hia por 
Capitáo Martim Aífonfo de Soufa ^ pelejou 

na 



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120 ASIA DE DioGo DE Cóuro 

fia cofta do Algarve com quatro gales dé 
Turcos muitas horas , e íe aparráram auafi 
desbaratados , ficando tambem a nao Dem 
deftrogada , e aíEm entrou pela barra de Lis* 
boa dentro. 

CAPITULO VIL 

De como o Patriarca , e o Embaixad9r do 
Prejie tratdram com o Gobernador Fran^ 
cijco Barreto Jobre fuá ida : e dos entre^ 
timentos , e efcufas dé que ufou , e do con-- 
felho que ¡obre ijjo tomou , em que fe ap- 
Jentou fojfe o Bijpo D. André de Ovie* 
do : e de como mandou d liba de S. Lou* 
renfo Baltbazar Lobo de Soufa. 

VEndo o Patriarca , e Fernáo de Sou- 
fa de Caftello-branco y Embaixador da 
Ethiopia , que o Cíovcrnador Francifco Bar- 
reto le fazia preftes pera ir ao Norie, fem 
tratar das coufas da Ethiopia , que ElRey 
tanto Ihe encommendava , foram-fe a elle» 
c Ihe aprefentáram as inftrucgóes , e Provi- 
s6es de ElRey , e Ihe requeréram que as 
cumprifle , e Ihe déflTe a Armada , gente , e 
todas as mais coufas que ElRey niandava » 
pera paíFarem á Ethiopia , coufa , em que el- 
le le^ava tamanho goílo , e tinha mettido 
táo grande cabedaL O Governador vendoi- 
fe apertado dellcs ^ refpondeo n que aquelle 

3ine- 



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Dkc vil L IV. IIL Cap. VIL iit 

^ negocio era de muiro grande coníidera^o , 
31 e que o Eftado nao eftava pera poder ti-* 
31 rar de (i feiscentos homens , e Armada baf» 
31 tante pera elles , tantos niarinheiros , ar« 
n til hería , muni^Óes , e outros petrechos , de 
31 que os Armazens eftavam faltos; que pri« 

> meiro havia de dar relagáo a ElRey do que 
31 o Padre Meftre Gonzalo paflara com aquel- 
>le Imperador , e de como o achara duro 
» na mudanza de feus coílumes ; e que v&o 
3» era licito , nem horTra da Sé Apoftolica , 
31 que huma tamanha dignidade , como era 

> a do Patriarca , fe abalaíTe a coufas duyi« 
31 dofas , e fe arrifcaífe a fer defprezado , e 
31 maltratado de homens , que profeflavam 
31 íerem Chriftaos ; e que eicrever elle que 
3ilhe mandaíTem o Patriarca, e Bifpos, fo- 
31 ra mais por cumprimento , que por vonta* 
31 de ; )» e com ifto fe concluio. 

Os Prelados, e Padres da Companhia, 
que fe acháram prefentes , fkráram muito d¿P» 
contentes da pouca vontade que yiram no 
Governador , e íizeram queixas aos princi- 
paes Fidaigcs da India , como D. Alvaro da 
Silveira , D. AntSo de Noronha , FernSo 
Martins Freiré , Martim Affbnfo de Miran* 
da, eoutros, que íizeram fuaslembranjasao 
Governador íbbre aquellas coufas, quefem- 
pre infiftio em nSo fer bem ir o Patriarca ^ 
oem o Éílado Uie poder dar a gente ^ eAr^ 



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til ASIA DE DlGGO DE COUTO 

mada que ElRey mandava , refumindo^fe ^ 
útie todavía fe o Patriarca quizelfe paíTar á 
Éthiopia , que faria huma Armada confor- 
me ao tempe ; mas que havia de ir nella 
Fernáo Martins Freiré por Capitáo mor ^ 
( nao tratando couía alguma de Fernáo de 
Soufa , ) que o poria em Arquicó , e Ihe da* 
ría feíTenta Toldados pera o acompanharem 
Até á Corte do Imperador , que iíTo ihe baf- 
tava. Diftoficáram o Patriarca, eFernáo d^ 
Soufa aggravados do Governador y e refpon^ 
deo o Patriarca n que fe nao havia de abalar 
)i de Goa , fenáo na forma que EIRey man- 
31 dava , e tm companhia do Embaixador que 
> com elle viera ; » e o Padre D. Gonzalo 
da Silveira , Provincial da Companhia , deC» 
goftofo difto , fe embarcou logo pera Co* 
chim , fem querer mais ver o Governador , 
que cuidando devagar naquellas coufas , e 
vendo as inftrucjóes , e AÍvarás de EIRey , 
e o multo que Ihe encommendava aquelle ne- 
gocio, e as diligencias que o Embaixador^ 
e Patriarca fobre iíTo tinham feito , nao quiz 
que efcrevefliem a EIRey , o pouco que na- 
quelie cafo iizer3«. 

Pelo que m^ndou chamar a confelho get 
yai todos os Prelados Theologos , e Fidal- 
gos velhos , e ihes diíTe » que elle eftava pre& 
:i» tes pera fazer ñas coufas do Patriarca , o 
ji-que Ihe EIRejr mandava ^ mas que bem 
. jíviam 



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Díc. VIL Liv. IIL Cap. VIL 22} 

^ viam , que o Eílado nao eftava pera tirar 
H de íl tanta genre , e Armada , porque nem 
9 roldados , nem dinheiro havia ; que fe tor* 
% naíTe a ouvir alli o Padre Medre Gon^a- 
)) lo , e que com a informa^áo que tornafle 
» a dar das coufas do Prefte , affim votaíTem y 
31 porque elle eftava preftes pera por em or- 
>^cm tudo o que fe aíTentaíTe. 1» Sobre iílo 
tornou o Padre Meftre Gonzalo a dar rela- 
jo das coufas daqueUe Imjperador , e de co* 
4no o achara frió ñas coufas da Fé , e das 
ínquietagóes que aquelie Imperio padecia com 
os inimigos ; mas que tambem era lá mui^ 
to necaflária a prefen^a do Patriarca 1 por» 
que podia íer que com aquelie Imperador 
o ver , fe movefle ao que ElRey pertendia. 
Sobre ifto tornáram a votar todos y e os maís 
foram de parecer , que fe nao arrifcaffe a 
peflba do Patriarca por cntSo , porque o Ef- 
tado nao eítava pera o mandar com o ca* 
4>edal que ElRe^ mandava. E que & ñzeí^ 
íe primeíro a faber ; mas que tambem fe nao 
delamparaíTe aquella Chriftandadc , porque 
Ac huma hora pera a outra podia Déos mo* 
ver o corá^áo daquelle Imperador , e que 
pera iíío fe mandafle o Bifpo D. André de 
Oviedo , com alguns compaoiieiros , e Pa* 
árcs da Companiíia , pera verem , e confo* 
larem aquélla. Chriñandade , p«)rqQe dfi vo^ 
do fe nao apagaíTe. E que achando fitio, e 

dif- 



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224 ASIA Ds Dioao de Couto 

d¡rpofi9áo pera fefazer algumfruito nolm-^ 
perador , e nos naturaes , cotáo poderla ir 
o Patriarca , como ElRey mandara* 

Com efta refolu^áo mandou oGorcrna- 
dor Francifco Barrero negociar quatro naf* 
vios , de que deo a Capitanía a Manoel 
Travaflbs , e deo ao Bifpo todas as coufas 
neceíTarlas pera a jornada ; e ordenou que 
foíTe em fuá companhia a modo de Embaí* 
xador Gaípar Nunes , que de lá tinba vin^* 
dó com o Padre Mefire Gonzalo , que fot 
dos que ficáram da companhia de D« Chr¡« 
fiovSo da Gama ; e como o Governador eí^ 
lava apreflado pera ir ao Norte , deixou or« 
dem pera partirem em Janeiro. 

£ porque EIRey Ihe encommendava mul- 
to , que mandafle á Ilha de S. Louren^o a 
faber le havia por feus pórtos novas aJgu* 
mas da gente aaquellas n¿os perdidas , de 
que atrás fízemos men^áo no (Jap. VI. del* 
te IIL Liv. y e pera outras coufas , que man- 
dara por fuas inftrucfóes , elegeo pera eña 
jornada Balthazar Lobo de Soufa com hu- 
ma caravela , e duas fullas de remo , de que 
eram Capitáes Joáo Gallego , e Pero Rodri- 
gues Barriga , e Ibes deo o traslado do re- 
gimentó de EIRey , e outro feu fobre as 
mefmas coufas , e com ordem que partiífe 
no meímo tempo que Manoel TravaíTos. 

' CA- 



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Década VII. LiV4 III. izy 

CAPITULO VIH. 

Da Armada que o Governador Francifca 

. Barreta mandau ao Malavar : e de ro- 

mo elle partió pera o Norte ^ e Dom 

Diogo de tíoronha Je fot ver 

com elle a Bafaimé 

DEfpedidas as naos pera Cochim > pfo» 
veo o Governador Francifco Barrero a. 
cofta do Malavar com fó* fete navios , poc 
nao haver por entáo neceílidade de maís Ar- 
mada , de que fez Capitáo mor Miguel Car-^ 
neiro , irmao de Pero de Alcajova Carnei- 
ro , Secretario de ElRey ; e os mais Capi- 
taes eram , Belchior Carvalho , Joáo Rodri- 
gues de Soufa , Antonio Pimenta y Luiz Men-*. 
des de Vafconcellos > Jorge Gonjalves > o 
Pero de Figueiredo. £ porque a Armada nao 
fez coufa notavel , mais que eoxotar alguns 
ladróes formigueiros , acabaremos aqui con\ 
ella , por nao tomarmos o tempo a outras 
coufas. £ logo após eda Armada defpcdio 
Pero de Ataide Inferno cora huma gáleo-, 
ta Latina , e finco navios pera ir ás Ilhas de 
Maldiva efperar as naos de Meca , onde Ihe 
fiáo aconteceo coufa notavel. 

Partidas eftas Armadas , fe embarcou o 
Governador em Novembro , e deo á vela 
com huma frota decentó efincoenta navios , 
Couto.Tom.IF.P.L P em 



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lió ASIA DE DiOGO DE CoüTd 

em que entravaní treze gales , e oito ga« 
leóes , e rudo o mais galeotas , fuftas , e ca- 
tures. Os Capitaes das gales eram , Fernáo 
Martins Freiré , D. Fernando de Monroy , 
Martim Affbnfo de Miranda , Pero Barre- 
ro Rolim , Baftiáo de Sá , Pantaleáo de Sá 
feu irmáo , D. Pedro de Soufa , Ruy Bar- 
reto Mafcarenhas , e o Governador na ga- 
]é Reliquias , <me era a mais formofa pe^a 
que havia , D. Francifco Mafcarenhas , Al- 
varo Paes de Sotó-maior, e D. Filippe de 
Caftro. Em galeotas Latinas D. Martinho da 
Cunfaa, D. Alvaro da Silveira , que tínba 
chegado de Ormuz , D. Pedro de Menezes , 
Ayres Gomes da Silva , e Triftáo Yaz da 
Veiga em galedcs. Os Capitaes das fuftas 
eram , D. Joáo de Ataíde , que efte anno 
veio defpacJiado com a Capitanía de Ormuz 
pera logo , D. Joáo Coutinho , D. Pedro de 
Noronha, D. Joáo Tello , D. Pedro Dega , 
Ayres Telles de Menezes , D. Diniz , Gon- 
zalo Falcáo, Garda de Sá, Antonio de Sou- 
la Coutinho , D, Francifco de Moura , An» 
dré Pereira , Alvaro Pires de Tavora, Jor- 

fe Pereira Coutinho , Chriftováo de Soufa , 
fanoel de Mello, Martim Affonfo de Mel- 
lo Hombrinhos , Alvaro de Caftro , Jerony- 
mo de Soufa , Luiz Cabral , André de Sou- 
fa , Joáo de Mello de Brito , Antonio de 
Noronha ^ D. Luiz de Almeida ^ Antonia 

Fer- 



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Dec. vil Liv. IIL Cat/VIII. I27 

Perráo, Fernáo Peres de Andrade, que ti- 
nba viíldo de Ceilao , Pero Mafcarenhas , 
Luiz Freiré de Andrade , Lopo de Briro , 
Alvaro Reinel , Triíláo de Paiva , Antonio 
de Sampaio, Cifal Pinheiro, Nuno Vaz de 
Villa*IoDos , Ruy de Mello da Cámara , Pe- 
ro Fernandes de Carvalho, Ayres Falcáo^ 
Cofnio de Caflro , Antonio Gomes da Sil- 
V3 > Jorge Tofcano , Fernáo de Sá , Jero- 
nymo deMefquita , Ruy Dias Pereira , Joáo 
Alvares Pereira , Vafeo da Silva , Gonzalo 
Guedes de Souia , Diogo de Miranda de 
Azevedo > Martim Lopes da Fonfeca , Bel- 
chior Correa , o Ouvidor Geral , o Secre- 
tario Antonio Coelho , Antonio Martina , 
Joáo Rodrigues , Antonio Borges , Joáo Pei* 
xoto 5 Joáo Freiré , Manoel Boto , Fernáo 
Paes , Aleixos Malho , Simáo da Cunha i 
André Coelho , Anadel mor dog efpingar- 
deiros , Antonio de Siqueira , Capitáo da 
guarda do Governador, Balthazar Montei* 
ro , Manoel Mouro , Antonio de Arzila, 
Manoel Pinto, André de Villa-lobos, Ma- 
noel Affonfo , Francifco Dias , Belchior Go- 
dinho, Miguel Rodrigues CoutinhoFios fec- 
cos , Pedro Alvares de Cananor, Antonio 
de Almeida , Gonzalo Sanches , Jorge Go- 
mes , Ruy Godinho de Cananor, Vafeo Mar* 
tins, Capitáo de tres navios, que ElRey de 
Cochim mandou com Naires, Braz Frago- 
P ii fo 



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aaS ASIA de Diogo de Couto 

fo de Couláo , Joáo Freiré , Francifco Ro-^ 
drigues cmhuma galeota fuá, Francifco de 
Alboquerque , Eftribeiro do Governador com 
os feus cavailos , Diogo Banha , Chrillovao 
Fernandes, Capítáodeduásfuílas, queaCi- 
éade de Cochim mandou ; e outros muiros 
Capitáes , a que nao achámos os nomes. O 
Governador foi tomar Chaul com toda eSa 
Armada , e de paflagem deo ordem a algu- 
mas coufas ; e defpachou Bafliáo de Sá pe* 
ra ir entrar na Capitanía de Cofala , e Mo- 
^mbique , que Ihe cabia entrar naquelle Fe- 
vereiro, por acabar feu tempo D. JJiogo de 
Soufa 5 neto do Conde do Prado , que de- 
pois foi General da Armada de El Rey Dom 
Sebaíliáo na defaílrada paíTada de África. 

^ Defpachadas eflas coufas » paíFou o Go- 
yernador a Ba^aim, onde defembarcou , e 
íe Ihe fez o mor recebimento quepodiafer, 
porque fora alli Capitao , e eílava muito bem 
quifto nella. Poucos dias depois chegou á* 
quella Cidade D. Diogo de Noronha , Ca- 
pitáó de Dio , em qiiatro , ou finco navios ^ 
(porque do caminho ihe mandou o Gover- 
nador recado pera que fe fofle ver com el» 
k a Ba9aim,).que foi bem recebido dellc; 
e depois pedio ao Governador , que o ou- 
viíTe , prefentes os Fidalgos do confelho. E 
fcndo todos juntos, fallou muito largamen- 
te fobre a troca ^ que o Governador querjd^ 

'.. > . . fa- 



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Déc. Vil. Liv. III. Cap: VIH- 129 

fazer da ametade do rendimeiíto da Alfan«* 
dega de Dio com a Cidade de DamSo , a- 
ponrando grandes inconvenientes , e deíer- 
VÍ50S , que niflb fe faziam a ElRey ; por* 
que naquellallha nao era razáo tornafle El- 
Rey de -Cambaya a ter quinháo , porque 
perdeíTe de todo as faudades della, E que 
fe pareceíle que cumpria ao Eftadó accref- 
centar-fe a elle a Cidade deDaroao comto- 
tia fuá jurdifáo , e térras , que alli a tinha i 
mao ; porque pelas diíFerengas que havia aii- 
tre os Governadores de Cambaya , fer-fhe- 
hia müito fácil tomalla y porque a poíFuia 
hum alevantado , que tinha multo pouca pof- 
fe ; e que ainda diziá mais : Que pelo ella- 
do em que as coufas de Cambaya eftavam . 
elle fe obrigava chegar até á Corte deAma- 
dabá com fó dous mil homens dcp¿) etre» 
talentos decavallój c fobre iffo dille rauitas 
coufas , com que venceo a todos , e votáram , 
que fedefiftiíTe daquelle negocio ; eque pois 
as coufas cñavam tao difpoftas , que pera o 
anno tornafle o Governador fobre Damao^ 
€ que entre tanto trabalhaíTe por haver as for- 
talezas de AíFari , e Manorá , que eram da 
jurdijáo de Damáo , pera fegurarem as ter- 
ras de Ba^aim ; porque os alevantados que 
as poíTuiam /faziam dcllas muitas entradas 
ñas térras, ealdeias deBa^aim. E que além 
iiiifo lanjariam máo. de muitas aldeias dajuiw 



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ajo ASIA DE Dioao de Couto 

di^áo daquellas fortalezas , que eram multo 
groflas , e muito importantes a ElRey , e 
dariam de comer a muítos homens. Attén^ 
tado ifto , defpedío o Governador a D. Dio* 
go de Noronha pera Dio , e elle ficou en* 
cendendo em outras muitas coufas, 

CAPITULO IX. 

De bum Embaixador de ElRey do Cinde , 

que veto ao Governador Francifco Barre^ 

to: edotempo^ em que os Magores con^ 

quifláram aquelle Reyno da mao 

dos antigos Gentíos* 

PArtido o Governador Francifco Barre* 
to deGoa, ficou- fe negociando Manoel 
TravalTos pera levar o Bifpo á AbaíDa , que 
fe embarcou com elle no feu navio , e le* 
vou comfigo feis Padres da Companhia de 
Jefus , e tod^s as coufas neceíTarias pera na* 
quellc Reyno celebrar o culto Divino com 
a mageftade neceífaria á fuá dignidade , pe* 
ra que viífem aquelles Chriñáos a diíFeren* 
ja que havia dos coftumes , e ceremonias Ro* 
manas das fuas. Eíles navios fe iizeram á vé« 
la em Dezembrq , e de fuá jornada adianto 
daremos razáo. 

No meímo tempo chegou aBagaim hum 
navio, em que vinha hum Embaixador do 
Rey do Cinde a tratar certas coufas com o 

Go- 



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Dec. vil Liv. IIL Cap. IX. 231 

Governador , que elle mandou deter na a- 
guada , etn quanto fe Ihe negociara feu tcp- 
cebimento , que foi com grande mageftade ; 
porque o Governador erahumFidalgo mui- 
to apparatofo. Depois o ouvio , e elle Ihe 
deo huma carta de EIRey do Cindc , em 

5ue Ihe mandava pedir Ibccorro de huma 
Lrmada pera contra hura tyranno alevanta^ 
do, eque pagaria todas asdefpezas de gen- 
te , e navios que lá foílem ; e que fempre 
em feu porto achariam os Portuguezes fa- 
vor , e recolhimemo , e ficaria antre elles 
commercio, e amizade perpetua. O Gover- 
nador Francifco Barreto poz aquelle nego- 
cio em confelho ; e aíTentou-fe , que pois os 
gados da Armada eftavam feitos , e elle ie 
havia de deter alli todo o veráo , que de- 
via fatisfazer áquelle Rey , porque era ami- 
go do Eílado ; e de feu commercio refulta- 
vam a todos grandes proveitos , além dos 
que fe efperavam da jomada y que feriam 
bons , pera forrar parte das defpezas , que na- 
quella jornada eftavam feitas. 

Aílentado ido , come^ou o Governador 
a dar ordem á Armada , que havia de man- 
dar , e elegeo pera Capitao mor della a Pe*- 
ro Barreto Rolim , e Ine nomeou vinte e oi- 
to navios, efetecentos homens.; pera o que 
nao foi neceflario rogar aigum , porque os 
foldados fe oB^recéram pelos proveitos que 

cf- 



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^3* ASIA DE Dioao de Couto 

<fperayam ; c antes do Natal fe fez Per<> 
Barreto Rolltn á vela , levando comfigo 9 
JSmbaixador. 

Os Capitáes que nefta jornada o zccftn* 
panháram , sSo os feguintes : D. FrancifT 
co de Noronha , Diogo de Miranda de Azer 
vedo , Jorge Pereira Coutinho , Ayres Te!»* 
les de Menezes, Jeronymo de Soufa , Mar 
noel de Mello, André de Soufa, Diogo Ju^ 
izarte Tifáo, Chriftováo de Soufa, D,Joáo 
Tello , Joáo de Mello de Brito , D, Luiz 
de Almeida , Antonio de Noronha , D. Pe^ 
dro de Noronha , Gil de Goes de Lacerda ^ 
Mariim Lopes de Faria , Pero Mafcarenhas , 
Luiz Freiré de Andrade , Gonzalo Sanchcs , 
Alvaro AíFanfo , Sebaftiáo da Cofta , Joáq 
Rodrigues de Soufa , Chriftováo Cordeiro , 
Jorge Gomes , B^ílchior Godinho , Cifal Pi- 
nheiro , Antonio Godinho , Antonio de Sarai- 
paio, GafparLuiz, Pero Fernandes deCarf 
yalho , e o Feit,or da Armada. 

Partidos eftes navios , foram feguindo fuá 
viagem , a que logo tornaremos , porque he 
tieceílarío dar razao defta embaixada , e pe- 
ra que mandava aquelle Rejr pedir efte focí- 
corro. Pelo que fe ha de íaber, que eftan^ 
do por Governador da Cidad^ Cahandar , 
e fuas térras ^ que partem com o Rey no Cot 
rajone , hum Magór , chamado Xabec , ñ^ 
ihp de JaQube^ ^ mtiiiiQ párente dos Reyg 



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Dec. VII. Liv. ni. Cap. IX, 235 

Magores , que ElRey Babur Paxá , pai de 
Hamaú Paxá , e avó de Hecbar , que hoja 
reina antre os Magores , tinha podo naque]« 
Je Eftado , que era fcu. Efte Xabec era ho- 
mem prudente , grande Capitáo , e defejo- 
£0 de fubir a mais , e de fe fazer Rey de 
algum grande Reyno. E querendo-o a for» 
tuna favorecer nifto , oíFcreceo^Ihe huma oc-^ 
caíiáo , de que logo lan^ou máo , aue foi 
fabcr que havia divisóes no Reyno do Cin- 
de antre EIRey, e os Capitáes. £ ajuntan- 
do hum gránele exercito , foi defcendo de 
longo dorio, indo abaixo, quañ nosannos 
de 1525' , íendo Governador da India D. 
Duarte deMenezes, fenhor da cafa deTa* 
rouca , e foi ter ao Reyno do Cinde , que 
entáo era coufa muito grande , e o come- 
i^ou a conquiítar. Rcinava entáo nelle Jara- 
paros , Caíla Camal , dos antigos Reys Gen- 
tíos , em cujo poder havia muitas centenas 
de annos aquelle Reyno andava, e tinha fea 
aíTento , e Corte na Cidade Tanta , princi* 
pal do Reyno , e das maiores , e mais ricas 
do Oriente , aífim pela groíGdáo de íéus mer* 
cadores , como pelas lou^ainhas , e fubcile* 
sza de fuas mecánicas , om que preccdiam ^ 
e faziam vantagem a todps , tirando os Chins. 
E fabendo elle que Xabec Ihe entrava 
por feus Reynos , ajuntando fuas gentes , o 
foi bufcar i e depois de ter.muitos recoa* 

tros • 



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^34 ASIA DE DiOGO DE Coütó 

tros , e baralhas , em que os Magores rece* 
béram bem de damno , iicou elle roto , e 
desbaratado de todo , e com alguns poucos 
ferecolhcoperaocertáo doRcyno deCam- 
baya , onde foi recolhido de alguns Rey» 
Resbutos feus parentes , que reinavam em 
ierras afperas, e fragofas. OXabec vendo* 
fe vitoriofo , foi entrando pelo Reyno , e 
fujeitou tudo até a Cidade de Tanta , onde 
fe fez alevantar por Rey ; e como era pru- 
dente , focegou , e quietou os naturaes de 
feijáo, que já o amavara nao como eftran- 
geiro , íenáo como natural. Viveo eíle Rey 
dous annos , e deixou o Reyno pacifíco , e 
quieto a feu íilho Mirzachan o Hocen , em 
cujo tempo morreo Babur Paxá Rey dos Ma- 

f;ores , e Ihe fuccedeo Hamaú Paxá feu fi- 
lio , de quem na quarta , e quinta Decada 
demos larga relajo , quando conquiítou os 
Reynos de Cambaya. 

Efte Hamaú Paxá como era cubijofo de 
grande Monarquía , e defejava de fer outro 
Tamorláo , (cujo quarto neto era , ) determi- 
nou conquiñar os Reynos vizinhos todos , 
c depois os do Decan. E fabendo no prin- 
cipio de feu reinado , como oXabec, fendo 
vaflallo de feu pai , e Governador do Ca- 
handar , conquiftára o Reyno do Cinde ; e 
que pelas obrigagóes ditas ficava feu vaíFal- 
lo^ enviou-lhe adiz¿r por feus Embaixado<^ 

res> 



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Dec. VII. Liv. III. Cap. IX. 23^ 

res « queaquelleReynoforaconquiftadopor 
» feu pai Xabec , que era vaíTalio de Babur 
)i Faxá feu pai , com gente , e cabedal feu ; 
)i que fiooya tambem obrigado a fer feu vaf* 
» lallo , e a Ihe reconhecer fuperioridade ; e 
11 que fó com iflb o deixaria ficar no Rey- 
» no. ]» O Mírzachan ouvindo a embaixada , 
Ihe refpondeo comefcufas, e entretimentos , 
que entendidos pelo Hamaú Paxá , ajuntou 
groíFos exetcitos , e entrou pelas comarcas 
do Cinde ( no principio das diíFerenjas de 
Pero Mafcaren has com Lopo Vaz de Sam- 
paio)nos annos doSenhor de 1527. O Rey- 
do Cinde íabendg como Ihe entrava por fuas 
ierras , como eílava muito profpero , e bem 
quiño de todos , o foi efperar , e Ihe deo 
batalha, onde o desbaratou , e o fez fugir 
a unhas de cavalio , ficando com iílo paci« 
íico , e temido até á entrada deñe anno de 
íincoenta e feis , em que andamos , que fa- 
leceo, depois de reinar trinta etres annos; 
e dizem alguns que de pegonha. 

Morto efte Mirzachan Hocen , por Ihe 
nao fícarem íilhos , alevantáram os naturaes 
por Rey hum párente feu , chamado Mir- 
zamhifá Magor , Argii de najáo , que era 
Capitáo geral de todo o Reyno , a quem 
obedecéram todos os Governadores das Pro- 
vincias; fomente Soltáo Mahamude , queef- 
tava por Governador na Provincia Sachar , 

que 



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-2^6 ASIA DE'DlOOO DE COüTÓ 

<\ue tanto que teve novas da morte do Re^ ^ 
e da fucceísáo de Mirzamhifá , grangeou os 
grandes , e alevantou-fe por Rey daquclla 
parte. O Mirzamhifá tanto que teve avifo 
difto , mandou-Ihe Embaixadores , que de* 
iiíliíTe do titulo de Rey , e íicaíTe naquella 
parte por Governador , como eftava , reco» 
nhecendo-lhe obediencia. Ao que Soltáo Ma- 
hamede refpondeo, que affim como elle fe 
alevantára com o Eftado do Cinde , que go- 
vernava , aífim elle o íizera com aquelle do 
Bachar por vontade de todos ; e que o mef* 
ino direito que elle linha no Cinde, otinba 
elle tambem naquelle em qye era Rey. Ven* 
do Mirzamhifá aquella refpoíla , tratou de 
ir fobre elle, e de o deílruir de todo; epe* 
ra iíTo fe quiz valer do brajo Portuguez , e 
mandou ao Governador aquelle Embaizador ^ 
que atrás temos dito. 

CAPITULO X. 

Da famofa liba de Salfete de Bagatm : e 

do Jeu ejpantofo Pagode , chamado da 

Cañar i : e do grande labyrin- 

tbo que a liba tem. 

ESta Cidade de Ba^aim tem o mor ter* 
mo , e jurdi^áo de todas as da Indias 
porque pera o Levante fe eftende aié ás for- 
^talezas de AÍTarim > e . Manara ^ que feram 

oi* 



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Dec. VII. Liv. IIL Cap. X. 137 

oito leguas , em que ha fertiliílimas aldeias í 
e de grandes rendimentos. Pera o Norte fe 
eftende até o rio de Agajaim , e para o Sui 
até o rio Bombaim , ou ainda mais abaixo 
até outro bra^o íeu y que fe chama de Ca* 
raniá , por fe fazer antre hum , e outro hu- 
ma Ilfaeta , em que temos hum caftello deí^ 
le nome. O rio que faz efta Ilha de Salfe- 
te , faz duas bocas : a do Norte he o rio 
que entra ao longo da Cidade de Ba^aim y* 
e vai correndo ao Sul em multas voltas ; e 
a meio caminho , que ferá pcrto de tres le* 
guas , fe faz huma colonia , que os Portu-* 
guezes alli fundáram y que fe chama Tana y 
em que faaverá quaíi feíTenta Portuguezes , 
que naquella Ilha tetn fuas aldeias y que sao 
muito rendofas. Aquí faz o rio dous palios 
inuito eftreitos , e que fe podem paíFar a váo 
i outra banda de maté valia da térra dos 
Mouros até efta Ilha de Salfete. Ñeñes paf- 
fos ha dous caftelios roqueiros fundados fo- 
bre a agua , pera defenderem aquella paí^ 
fagem. Continuando o rio ao Ponente ou- 
tras tres leguas , vai fazer a formofa barra 
de Bombaim, que íahe ao mar mais demeia 
legua de largura , onde fe recolhem naos 
do Re^no , e de outras partes , por fer de 
bom fundó , fem banco , e impedimento al- 

fum. E antes dechegar aoxnar, lanp hum* 
ra^o ao Sul y que taz a Ilha de Caranjá y 

e 



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ajS ASIA DE DiOQo de Coüto 

c outra ao Norte , que fe chama 'Banderas 
Defta boca de Bombaim vai correndo a cof- 
ia pera o Norte perto de quatro leguas até 
tornar a entrar pela barra de Ba^aim , fican^ 
do-lhe efiallha deSalfete peía banda defó-* 
ra , que ferá de quinze leguas em roda^ e 
duas de largura. 

No meio defta Ilha eftá aquelle admira- 
vel Pagode do Canari, que fe prefume fer 
obra dos Cañarás y e por ido fe chama af- 
fítn , que eftá feito ao pé de hum arrezoa-^ 
do monte, todo depedra de cor pardo cla- 
ro , e á entrada delle fe faz huma formo- 
ía fala , e no pateo de fóra da porta de hu- 
ma , e da outra banda della , eftam duas fi- 
guras de vulto entalhadás na mefma pedra y 
tamanhas como duas vezes os gigantes que 
vam ñas procifsóes da fefta do Corpo de 
Déos de Lisboa 9 taoformofas, táo primas ^ 
e táo bem lavradas , que nem em prata fe 
podiam entalhar melhor , nem mais perfei- 
tas. Aporta da banda de fóra tem alguma^ 
cifternas feitas na mefma rocha , que rece- 
bem a agua do invernó , que no vcráo ef- 
tá táo fria , que nao ha máo qué a foíFra. 
Pela ferra aílima até o cume della , a modo 
de caracol , fe fazem mais de tres mil cá- 
marinhas pequeñas , a modo de cubiculos, 
cortadas na mefma rocha y e cada huma del- 
las tem á porta huma cifterna da mefma agua» 

£ 



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Dec vil Liv. III. Cap. X. 23^ 

E o que he mgis pera admirar , he , que ha 
hum cano feito por tal artificio y que corre 
por todas eüas tres mil camarinhas ; efte ca* 
no recolbe todas as aguas vertentes daquel* 
la ierra , e a reparte por todas as cifternas ^ 
que eftam ás portas das camarinhas. 

Aqui neñePagode habitavam muitosjo- 
gues y que fe fuftentavam de muitas efmolas , 
que Ihes davam em todas aquellas aldeias » 
cuja cabeca era hum ¿e cento e fincoenta 
annos de idade , que os Padres de S. Franr 
cifco , que primeiro foram habitar na Cida- 
de de 6a9aim , fizeram ChriQáo , e fe cha-^ 
mou Paulo Rapofo ^ e aíEm bautizáram ou- 
tro y chamado Caleie , de mais fama que o 
Paulo Rapofo , a quera puzeram por nome 
Francifco de Santa Maria , e vivco depois 
niuito chridamente , e com iquita fatisfa9áa 
dos Padres , e ainda iicou fendo Prégador 
Evangélico , e converteo rouitos daquelles 
Jogues , e outros Gentíos. Viveo efte horoem 
depois de bautizado íinco annos y ou pode 
dizer como Similo , que nao viveo mais que 
aquelles íinco. O Padre que andou por efta 
Ilha naquelle principio convertendo aquel*» 
les Jogues , chamava-fe Fr. Antonio do Por- 
to , da Ordem dos Menores , Varáo Apof» 
tolico , e de vida exemplar , que penetrou 
todos os fegredos daquella Ilha , que eram 
muitos. E nefte Pagode que digp ^ chama*¿ 

do 



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tjp ASIA DE Dioao dé CoirTd 

do do Canari , fe aflentou , e o confagroU 
em Templo da invoca^áo do Anjo S* Miguel ) 
e no tempo que alli efteve , foi informado 
do mais novo , admiravel , e intrincado h^ 
byrincbo de todo o Mundo , que por efpan-^ 
to fe pode relatar, como o farei aquí bre-« 
remente. 

Bftando o Padre Fr. Antonio do Porto 
nefia Igreja de S. Miguel , foi informado dos 
Chriftaos , que alli converteo , que naquella 
ferra havia hum labyrintho , a que nunca pu«t 
deram achar fim , e que fe affirmava , que 
hia correndo até o Rejno de Cambaya. K 
defcjofo o Padre de o enfacar , e penetrar 
por ver as maravilhas , e grandezas que del-i 
Je fe diziam , tomou comíigo hum compa- 
nheiro , e negociou yinte homens com ar* 
mas , e efpingardas pera defensáo das beí^ 
tas féras , e outros fervidorcs , que levavam 
as coufas neceííarias pera a jornada , como 
agua , arroz , bifcouto , legumes , manteiga ^ 
e outros mantimentos , e alguns almudes de 
azeite pera tochas que levavam pera fealu- 
miar , e verem por onde biam , e tres peC- 
foas carregadas de noveles de cordeis grof- 
fos, que pera iíTo fe fizeram pera irem lar- 
gando pelo caminho, como íizeram os que 
entráram no labyrintho de Creta. 

Preftes tudo, foram entrando por aquel- 
las grutas , cuja boca feria de quatro bra- 

ja^ 



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Déc. VII. Liv. ItL Cap. X; 141 

j^as dé largura , onde deixáram a ponta do 
fio atado a huma grande pedra } e por aquel*» 
le labyrifitho caminháram fete dias continuos 
pbr caminlios huns largos , e outros mais e& 
treítos y tudo cortado em tiva rocha ; hiam 
vendo de huma ^ edeoutra parte camarín has 
pequeñas, como as doPagode queja diíTe^ 
« á porta fuas cifternas , fem me faberem di^ 
zer fe tinham agua , e como a podiam re^ 
colher, pois por todo aquelle caminho nao 
havia buraco y agulheiro y nem outra algu^ 
ma coufa , que pudeíTe dar algutna claridad 
de. Tudo por íima era huma abobada de pe<» 
dra viva da mefma rocha , e as parefles dú 
hutna y e da outra parte de todo efte cam¿^ 
nho era da mefma fortei Vendo o Padre que 
tinham gaftados fete dias fem acharem f;^ 
liidá alguma y e os mantlmentos , e agua que 
kvavam quafi acabados , foi-lhe neceflario 
tornarem a volcar pera fóra y guiando-fe pe¿ 
ló fío , fem faberem por todo efte caminho 
fe fubiam y ou defciam , ou a que rumos na^i 
vegáram y por nio levarem agülha por on¿ 
díe fe goVernaíTem* 

E praticando eu com Géntios muito an^^ 
tigos lobre ido, me aífirmáram , que pora¿ 
quélle caminho podiam ir até Cambaya , e 
ainda até ás térras do Magor , e Cidade de 
Agará y e que fora eíle caminho antigamen«¿ 
te muito ufado , e continuado ) e que affifü 



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t4^ ASIA DE DiOGO DE COVTO 

o affirmavam as efcriruras dos amigos Gen- 
tíos i e que outros muitos caminhos como 
files por baixo da térra havia em muitas 
partes de Cambaya , e no Decan > e que ícm 
dúvida fora ido mandado fazer por hum po* 
tentiíHmo Rey Gentio , chamado Bimelaoien- 
ta , que havia mais de mil e trezentos an* 
nos reinara em todos os Reynos defle Orieo* 
te , defde Bifnaga , ou Bengala até o Ma- 
gor , e ainda até Ormuz ; e efte tem fuas ef- 
crituras , que viveo trezentos annos , e que 
deíles reinou cento e tantos. 

£ como em todas fuas coufas mettem 
muitas fábulas , e pacranhas , pera darem prin« 
clpios honrofos a feus Reys , como muitas 
vezes temos dito , affirmam que eíle Bime* 
lamenta era hum Gentio , bomem prudente , 
e de muita boa razáo , natural das térras do 
Magor , Cidepur , e Patán, por onde an- 
dava fazendo vida religioía , a quem appa^ 
Tecéra hum ídolo da antiga Gentilidade ^ cha- 
mado Ambani , e Ihe revelara muitos the* 
íburos I e Ihe dera muitas leis pera fazer 

guardar áquelles Gentíos qqe viyiam fem el* 
s , e pera que os governafle em policía ^ 
• trouxeíle j^ e ajuntafle em lugares commiH 
oigaveia > porque «ndavatn efpalhados pelos 
matos y vivendo como brutos ; o que elle 
íizera , e os ofdenára , e mettéra em razáo % 
fundando Cidadet^ Villas ^ e povoa$^r « 

fue 



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Dec. VII. Ltv. TIL CAf. X* l4j: 

?ue fora por rodos alevantado oor feu Rey. 
>efte homem contam fuas biuorias tantas 
grandezas , que caufam efpanto. Affirmám ^ 
que fez eftes lab/rinthos^ e que mandara fa« 
bricar infinitos Pagodes de admirare] artiA- 
cío , e que efte do Canari ^ e do Elefante 
era obra fuá. 

E eftando eu efcrevendo actualmente iT*" 
to , vieram ter comigo buns Baneanes de 
Gambaya , mercadores ricos , que continuaos 
eíla Cídade de Goa ; e praticando com eU 
les fobre iíto y me aíBrmáram fer rudo rer- 
dade , e que elles víram » efcrituras que 
diítb tratam , e que com Cavfá olhos vírany 
tambem alguns Pagodes famoíiífimos por eí^ 
fes Reynos do Decan , Cambaya y e ÍAagot 
feitos por efte Rey , e que fobre fuas portas' 
tinham lium letreiro, que diziaaíGm: )iEf- 
9 te Pagode mandou fazer ElRey Bimela- 
)i menta » eque elles oléram muitas vezesé 
E fe aíHrn he , a pedra que eftava fobre a 
porta do Pagode do Elefante j que tinha 
aquellas letras , que fe mandou a ÉlRey Dom 
Joáo o III. y que nunca fe acboa quem as 
pudeífe 1er , dcvia de ter efte mefmo letrei* 
TO de Bimelamenta* Eícreve-íe tambem det* 
le j que mandara fazer muitos > e íbrmofot 
tanques y e alguns tamanhos , que mais fe 
podiam chamar grandes alagóas , de que to^ 
dos eftes Reynos eftam cheiosi £ em alguna 

Q, ii • páem 



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344 ASIA HE DlOQO DE COUTO 

p6ein algumas virtudes ^ como em hum qu« 
eílá a meio caminbo de Ba^aim pera Aga* 
^aim , onde hoje eñá a cafa de nofla Senho-* 
ra dos Remedios , em que i'eíidem Padres 
Dominicos , huma Senhora , que tem obta« 
éo tantas maravühas , e milagres , que e& 
tam todas as paredes do Templo cubertas 
de paineis deiles* Defrpnte fíca eíle tanque , 
ebi queelles poem tanta virtude, que affir* 
mam , que toda a peíToa que fe metteo nel-> 
kí farará de toda aenfermidade que tiver, 
fpbre quem tem os Padres tanta vigia , que 
BÍo deixam chegar a elle nenhum Gentío y 
por nao fazerem fuas fuperfti^óes. 

Ora deixando ido , e tornando ao la-^^ 
byrinthp , vendo que andáram eftes Padre» 
por elle dentro fetedias continuos^ íém re^ 
póüfarem rnais que a hora de comer , e dor*. 
mir ; e quero que nao andaíTem mais cada 
dia que íeis leguas^ que vem a fer nos fe** 
te días quarénta e duas leguas^ me faz pa* 
recer qye pudéra fer vefdade o que ós Gen- 
tios dizcm delle , que vai até Cambaya ; por- 
que a Ilha de Sallete ^ quando muito , tem 
quatro leguas, de comprido , e o labyrlntho 
efiá no meló, della^ £ pera dizermos que po* 
4eriam aquelles caminhos ir em tantas vola- 
tas ^ e fer táo intrincados , qUe Ihes fizeífe 
gaftar aquelles dias, nem iííbpóde fer^ por- 
(comp dUns).a Ilha fer muito pequeña , e. 

cf- 



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* Dec VII. Liv. IIL Ca?. X» i4f 

eftreita. Em fim , como quer que (eja , a cul* 

5)a de fe ido nao enfacar he da muita mi* 
eria, epouca curioíidade defta nofla na^áo 
Portugueza, que ató hoje nao houve Vifo»* 
Rey, nem Capitáo de Ba^aim , nem ourra 
^Iguma peflba, que mandalfe faber, eenfa* 
car eftes íegredos , que sao muito pera fe 
faberem. O que nao houvera de acontecer 
^os eñrangeíros , que sao tanto mais políti- 
cos , c curiofos qu« nos , que nao digo ea 
couías deda qualidade , mas aindá outras 
muito mais pequeñas nao deixam de ver, íb 
ievallas ao cabo até as enfacar , e faber. Cer- 
Ko , que efta obra fe pode ter por huma das 
maravilhas do Mundo , e aínda pela maÍQr 
delle. 

Havia tambem nefta Ilha de Salfcte ou- 
tro Pagode , chamado Manazaper , que tam- 
-bem era talhado na rocha viva , cm que vi- 
via hum Jogue muito affamado antre elles, 
chamado Ratemnar , que tinha comíigo ou- 
frosíincoeniajogues, que os moradores da- 

?uellas aldeias os fuílentavam. E fabendo o 
adre Fr. Antonio do Porto dcfte Pagode , 
foi-fe a elle ; e como <ra muito temido de 
todos os Jogues daquella Ilha , tanto que 
aquelles ovíram, largáram o Pagode, efo- 
ram-fe pera a térra firme j o que devia de 
fer pela forja Divina, que víram que Déos 
xinha pono em leu íervo^ que ouu'a faumá* 

na 



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«4^ ASIA DE DiOGO J>E CouTo 

na nao a havia pera a poderem temer ünr 
coenta hotnens , vendo los dous Frades vel^ 
(idos nuns faccos , fero arma alguma com 
que os pudeíTem oíFender. O Padre fe met- 
teo no Pagode , e logo o confagrou em Temr 
pío da invoca^áo de nofla Senhora da Pie- 
dade ; e depois Se fez nelle o Collcgio Real 
de toda a II ha de Salfete , onde fe recolhem » 
e enfináo os fiihos de todos os Chriftaos con<f 
vertidos áFé, a quemEIRey D.JoSo con- 
cedeo as rendas , e coufas que o Pagode dan* 
tes tinba , de que os Jogues fe fuftenravam , 
oue be hoje adminiftrado pelos Religiofos 
ao gloriofo , e Serafíco Padre S. Francifco» 
Tendo eu algumas práticas com alguns 
Chriíláos muito velhos, edaquelles primeir 
ros , que allí converteo o Padre Fr. Antonio 
do Porto, indo ver eftacafa deManapazer, 
hum delles , que aífirmava fer de mais de cen^ 
to e vinte annos , que fallava muito bem Por- 
tugu^z , e o lia , e efcrevia , e continuava í 
li^So dq Fk)s Saudorum , e as Vidas dos 
Santos , me aíHrmou , que fem dúvida a obra 
do Pagode Canari fora mandado fazer pe- 
lo pai do Principe , e Sanio Jofafat , que 
Barláo converteo á Fé de Chrifto pera nel- 
le o recolher, c encerrar, por Ihe dizerem 
íeus Aftrologos , que aquelle Principe havia 
4e receber a Fé dos Chriftaos. E aflim fuá 
fiaícen^a^ e vid» ^ fegundo fuos efcrituras^ 



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Dec VII. Ltv. IIL Cap. X. 247 

e aínda boje canteo em fuas cantigas eñtú 
Gentios , he táo femelhante á do Santo Jo^ 
fafat , fegundo temos cniF fuá Icnda , que fi- 
quei admirado quando macontáram; epor^ 
que nao ferá defaprazivel , a trarei aqui o 
mais brevemente que puden 

Dizem fuas Efcrituras, que hum Rejr , que 
reina va fobre todo eíle Oriente, (que cuidos 
deve de fer oBioielamenta, de que atrás fallci ^ 
que affirmam mandar fazer oPagode do Car 
nari) ) nafcendo-lhe hum íilho multo formo- 
fo , íhe tiráram feus Aftrologos feu nafci- 
mentó , e acháram que aquelle menino fe-* 
ría fanto, e defprezaria os Reynos dopai^ 
c que fe faria Jogue ; de que o pai poftd 
em cuidados , querendo atalhar aquillo , taiH 
to que fahio do leite das amas , o mandott 
recolher em huns Pa^os , que mandou faze^ 
pera iíTo , de obra maravilhofa , mui fecha^ 
dos, e guardados 3 pera que nao fallafle fe» 
nao com as peflbas que Ihe ordenafle , nerif 
viíTe coufa que Ihe défle pena , e Ihe cati* 
faíTe trideza , e paixáo* AUi efteve até ida« 
da dedezoito annos, emque mandou pedir 
ao pai o deixafle ir ver as Cidades , e pó* 
voafóes , que Ihe elle concedeo. E indo cer- 
cado dos que o creáram, vio hum homenf 
manco fobre huma muleta ; e perguntandc» 
o que aquillo era , Ihe diíleram , que et^m 
coufas mui ordinarias ix> MuBdo hayer ftfaiH 

COS. 



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%jfi ASIA DE DiQQo QS Cquto 

cps ) CPX09 , € cegos , e potros defe¡ro$ dc& 
ta qualidade, Outra vez que fabio fóra en* 
contrpu hum liomem muito veiho decrcpi* 
to enf:Qflado a hum bordáo todo tremendp ; 
e efpaniado o Principe daquella visáo , per- 

Í juntando o que era , Ih^ difleram , que aquil* 
o procedia dos muitos annos que aquelle hor 
jncm tinha vivido. Outrp día encontrou com 
!|ium tnprtp , que levavam a enterrar com 
grandes prantps dos filhos ; e dizendo-lhp 
ps feus o que aquillo era , Ihe perguntou el<- 
le : Como ? eu ^ e todos havemos de morrer 
aíliro ? e dizendo*lhe que aquillo era muito 
prdinario noshomens, porque todos nafc^r 
ram pera morrer , ücou muito melancoliza- 
do, £ andando com eila imagina^áo , dizem 
que Ihe appareceo hurajogue; e tendo prá^r 
ticas cpm elle y o perluadio ao defprezo do 
Mundo y e á vida íplitaria, £ como elle an- 
dava abajado ^ e tinha já mais largueza na 
vida y teve modo com que defappareceo , e 
íe fora p^lo Mundo. Sobre efte dcfapparp- 
cimento cputam muitas coufas no modo del- 
le 9 e mettem muitas fábulas y cpmo fazem 
cm todas fuas efcrituras. 

£fte Principe dizem elles qpe fpra ter 
i Itha de Ceiláp y levando já comíigo gran- 
de número ) e coneurfo de Jogues feus dif- 
>^ipu!os, eque íeapofentára naquella ferra, 
ondeeílá ppicp deAdáo, oüde vivera mifi- 

tos 



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. Dec. vil L IV. III. Cap. X. 249 

tos annos , fazendo vida fama. E querendo- 
fe partir dalli , pedíram-lhe os dífcipulos , que 
alÜficáram» que Ihes deixaíTe alguma meiiior 
ría fuá : ao que. fixando o pé em huma la- 
gea , imprimió nella aquella pegada , como 
fe a fizera em huma pouca de cera molle , 
que veneram » e reverenceam por de noHb 
pai Adáo ; e he tida de todos em tanta vc- 
nera^^o , como tenho dito no Cap. XX. do 
VI. Liv. da minha V. Decada , onde con^ 
to efte negocio defta pegada muito particu* 
larmente , e moftro como efia Ilha de Cei« 
láo he aTapobrana de Ptholom'eu , em que 
trato muitas curioíldades , que nenhum ef* 
critor efcreveo. A efie Principe nomeam fuas 
cfcritüras por muitos nomes ; mas o princi- 
pal he Drama Rayo ; e depoís que o tive- 
ram por fanto , Ibe chamavam Budon , que 
quer dizer Sabio , a quem toda efta genti- 
lidade tem alevantado por toda a India mui« 
tos , e mui cuftofos , e fumptuofos Pagodes ; 
e contam em fuá lenda grandes maravilhas , 

3ue por nao enfaftiar^ ecan^r aosleitores^ 
eixo de. trazer. 



CA- 



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%j;o ASIA DE DioGo de Covto 

C A P I T U L O XI. 

Do muito notavel , e efpantojo Pagode 
do Elefante. 

ESte notavel , e fobre todos cfpantoíb 
Pagode do Elefante eílá em huma Ilhe- 
ta pequeña, que rerá menos de meia legua 
em roda , que faz o rio de Bombaim já quan* 
áo quer fahir aomar da parte doSuL Cha^ 
ma-fe aílim , por hum Elefante de pedra gran-- 
de , que fe vé entrando pelo rio dentro. Di- 
zem que fol mandado fazer por hum Rey 
Gentío j chamado Banafur , que fenhoreára 
tudo o que havía do Gange pera dentro* 
Nefte Pagode íe affirma , ( e aílim o moftra , ) 
que íe defpendéram mui grandes thefouros , 
c que andiram na fabrica delle muitos mi- 
Ihares de obreiros , e que gaftáram muitos 
annos» O íitio deíle Pagode fe eílende de 
Norte a Sul , he quaíi aberro por todas as 
partes , principalmente da parte do Norte , 
ffafcente , e Ponente , porque as coilas deí^ 
te grande templo íicam pera o SuL Será o 
corpo delle de oitenta paíTos de comprido , 
e de feíTenta de largura. He todo tal hado 
em viva rocha ; e todo o tedio de fima , que 
he o cume da rocha , fe fuftenta fobre un- 
coenta columnas lavradas do mefmo mon- 
te^ que eílam por tal ordem, e compaflb, 

que 



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Dec. vil Liv. III. Cap. XI. i^t 

que fazem o corpo defte templo de Icte na* 
ves. £ cada huma deftas columnas até o meio 
he quadrada de vinte e dous palmos de qua- 
dro , e do meio pera íima sao roli^as ^ e de 
dezoico palmos em roda. A pedra defte mon- 
te , em que fe entalhou eíle Pa^ode ^ tem a cor 
f)arda ; mas todo o corpo de dentro , co* 
umnas , vultos de Pagodes , e tudo o mais 
era antigamente cuberto de huma fina tea de 
cal comcerto betume, econfei^Óes, quefa* 
zia o Pagode de todo táo claro , que era 
coufa formofa , e muíto pera ver ; e nao fó 
fazia as figuras muíto formofas y mas fazia 
divifar muí diftintamente as perfei^Óes dos 
vultos , e fubtilezas da obra : de maneira , que 
nem em prata , nem em cera fe podía fazer , 
nem efculpir com mais primor , nem com 
mais lindeza, e perfeicáo. 

Entrando por efte ragode , á máo direi*^ 
ta delle eftá huma Capella , cuja porta he 
de dezefeis palmos e meio de largura , e 
quínze e meio de alto ; dentro no corpo del- 
ta eftam muitos ídolos , e no meio da Ca* 
pella fe vé hum de altura de dezefete pal- 
mos , com huma grande , e formofa tiara na 
cabera , kvrada de tantas lasarías , lavores , 
e fubtilezas, que mais parecem debuxadasi, 
que entalhadasem pedra comefcopro. Tem 
efta figura oíto bracos, e fó duas pernas« Em 
huma das máos direitas tem hum iceptro aler 

van- 



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^$1 ASIA DE DiOGO DE COVTO 

vaneado , e nelie enrofcada huma cobra de 
capello , aílim como pintam o de Mercurio ; 
Ibbre a ponta do fceptro eftam tres ¡dolos 
pequeños de covado cada hum ; e em hu- 
ma das maos efquerdas , que tem alevanta-» 
das , fúñenla com os dedos tres ídolos dó 
famanho dos outros. Ao lado efauerdo de(- 
te Ídolo grande cftá outro com num cútelo 
na máo, e aífima defte outro muito grande 
com o corpo de homem , e a cabera de Ele- 
fante, de quem eu cuido que a Uha tomou 
o nome« Nefie veneram a memoria de hutn 
Elefante, a que os Gemios chamamGaves, 
de quem contam muítas fábulas. Apar deí- 
te Ídolo fahe da róclia hum aflento de pe- 
dra , em que efiá aíTentado hum ídolo de 
hum fó corpo com tres cabe9as, e em cadia 
huma dellas tem hum fó bra^o, falvo a do 
meio, que témdous, e na efquerda tem hum 
Jírro. E ao lado efquerdo defte ¡dolo eftá 
huma figura de mulher de tres palmos arri- 
mada com o brajo efquerdo fobre o hom^ 
bro de outro ídolo mais pequeño tambem 
de figura de mulher , e com a mao direita 
travadó de outro mais pequeño. Logo aífi- 
ma defte ídolo edá outro cavalgado lobre a 
cabeca de hum Elefante , e apar defte outro 
cavalgado fobre o pefcop ae outro ídolo. 
Defta Capella a finco paífos pera a par- 
te domeíodia vaiefteFagode alargando pd-, 

ra 



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Dec* Vil. Liv. III. Ca?. XI. 2^3 

tn o Ponente onze paíTos , e no fim del les 
torna a profeguir pera o Sutoutros onze paf* 
ios ; e daqui voltando outra vez pera o Po« 
nente onze paíTos á máo direita , eftá huma 
Ca pella aberra na rocha , cuja porta tem vin^ 
te e feis palmos de alto , e de váo ao com- 
primentd fete pés e meio , e de largura dez« 
efeis. No meio defta Capella eftá aíTentado 
hum Ídolo , que da cinta pera íima tem do-^ 
ze palmos , e fobre a cabera tem outra tia* 
ra la V rada com muitas perfei^Óes , e linde* 
zas. Tem oito bracos , e duas pernas , com 
huma das máos direitas , e com outra das 
efquerdas eftende por íima da cabera hum 
manto , ou fobreceo da mefma pedra muí-» 
to fubtil , e fica eftendido por íima delle no 
ar hum efparavel , e fobre efte efparavel ef«« 
tam muiros ídolos de covado , machos ^ e 
femeas. Na fegunda máo direita tem huma 
grande efpada de dous gumes , e na tercei- 
ra hum ídolo pequeño pendurado pelos pés. 
A quarta mSo direita com a parte do bra- 
$o eftá quebrada pela traveíTura dos Tolda- 
dos que allí vam das Armadas, como oeí^ 
táquaíitudo. Na fegunda máoéfquerda tem 
hum chocalho , e a tiracolo hum colar mul- 
to grande de muitas cabecinhas humanas en- 
fadas hum^s com outras , e todas cortadas 
ná mefma pedra , e lavradas ao buril no 
mefino pefco;a £ naterceira naáo tem ha«: 

ma 



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t^4 ASIA DE DiOGO DE CoüTO 

ina caldeira , e fobre ella hutn idolozinho. A 

3uarta máo efouerda com o bra^o eftá to* 
a quebrada* Dum ]ado , e do o^tro defte 
ídolo , e por roda a Capella em rodaeftam 
trinta ídolos pequeños em pé. Defta Capel-^ 
la a nove paflbs á mSo efquerda , que he 
pera a parte do Sul , eftá huma cafa búa- 
drada de dez paflbs em comprido , e outros 
tantos de largo , toda aberra na rocha ^ e do 
tal feí^áo , que toda fe anda á roda , e tem 

Suatro porras y huma em cada lango do qua- 
ro , e entra-fe nefta cafa por cada huma 
deílas portas , fubindo por finco degráos , e 
no meio da Capella eftá hum poial quadra- 
do de vinre e quatro palmos de quadro : fo- 
bre elle eftá alevantada huma figura de hum 
ídolo y que por deshonefta fe delxa de no-> 
mear y a que os Gentíos chamam Linga , e 
adoram aquitlo com grandes fuperfti^ócs ; e 
afiim a eftímam tanto y que os Gentíos Ca« 
na ras as trazem bem afiguradas aopefco^o* 
Efte torpe coftume tírou hum Rey Ganará > 
homem de razSo , e juftí^a. 

E tornando ás quatro porras defta cafa ^ 
cujas couceíras aínda hoje apparecem , nao 
ie abriam pera mor venera^áo , fenáo huma 
vez noanno no día da fuá mor fefta« Aden- 
trada de cada huma dellas eftam dous gran* 
des Gigantes de vinte e quatro palmos de 
altos y i&itos com muito pímor ^ e perfei^ 

jSo. 



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Dec. vil Liv. III. Cap. XL ajrsr 

^áo. Defta cafa a dez paíTos , profeguindo pe» 
ra o nieio dia , eílá outra Capella com hum 
formólo portal de obra Mofaica de vinte e 
quatro pes de largo, e vinte efeis de alto; 
no meio delia eflá hum ídolo de dezeíeis 
palmos de alto , com quatro bra^ , e duas 
pernas , travado pela máo com outro ¡dolo 
de figura de mulhen A' máo efquerda defte 
Ídolo eftá afrentado outro de igual grandeza ^ 
e feitio , e abaixo outro pequeño com tres 
caberas y quatro bracos , e duas pernas ^ e 
por toda efla Capeila em roda outros mui- 
tos Ídolos. Oefta Capella ao Ponente efti ha* 
ma cífterna de agua excellentiflima , a que nun- 
ca fe acha fundo , de que vulgarmente cor* 
re eíla fama , e affim íica fendo femelhante 
ao que feconta dasfontes deAlfeo, eAre* 
tufa. 

Aquí acabou o lan; o Occidental , que he 
o da m^ díreita do corpo defte Pagode : 
voltando daquí pera o Ponente ^ vam dar em 
huma Capella muito curiofamente lavrada 
de quatof ze pés de largo , e dezoito de com- 
prido ; no meio della eñá hum ídolo agi« 
gantado com pernas cruzadas com huma tía^ 
ra na cabejia Javrada fubeilííEmamente ^ e de 
ambas as partes tem muttos Pagodes de ho^ 
mens y e muiheres , e alguns a cavallo. Da- 
qui vai o Pagode alargando pera o Nafcen- 
te^ onde cflá outra Capella como as mais^ 



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ayo ASIA de Dioqo de Couto 

edebaixo della fabe humidolo da cinta pe-^ 
ra íima agigantado com finco rodos propor* 
cionados aocorpo, com fuas tiaras ñas ca-^ 
becas , e com doze bracos y e com as niaos 
fuuenta hum aíTento de pedra fobre qucni 
ettá outro idolo Gigante de hum fó rofto com 
feis bracos , e duas pernas , e huma das máos 
direitas rem íbbre o pefcofo de huma mu- 
]her tambem agigantada , que eftá aífcntada 
junto a elle ; e a cada lado defte idolo tem 
outros quafi do feu tamanho aflentados nó 
mefmo aflfento^ epelomnis corpo deftaCa-» 
pella ha outros cem Ídolos de homens , 6 
mulheres. Caminhando daqui ao meio dia , 
dam em outra Capella , em cujo meio eílá 
aflfentado outro Gigante com fuá tiara na ca- 
bera com quatro bracos y e duas pernas, e 
a cada ilharga tem hum idolo tambem agi-« 
gantado , hum de figura de mulher , e ou» 
tro de homem ; e ao lado da mulher eñá 
outro idolo Gigante , a fóra outros muitos 
Ídolos que ha por toda a Capella« 

Aqui fe acaba o lan^o Oriental da mÍo 
efquerda defte Pagodc. No fim defies douft 
landos Oriental , e Occidental eftam tres 
grandes Capellas ; e a do meio , que he mals 
interior, tem trinta pés de largo , edezefeis 
de comprido. Do pavimento defta Capella 
ie alevanta hum corpo da cinta pera fima 
de táo disfcurme grandeza y que fo elle en-? 

che^ 



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Dec. VII. Liv. III. Capí XI. ifr 

che o váo , e largura da Capella : tem tres 
milito grandes roflos , o do meio olha pe? 
ra o Norte y o íegundo pera o Ponente , c 
ouiro pera o.Nafcente ; cada hum deíles rofr 
tos tem dous bracos , e ao pefco^o dous gran? 
des collares lavrados com admiravel rubcile<^ 
za. Sobre eítas tres caberas tetn tres formón 
fi (limas tiaras; e eíleroílo do meio ^ que h^ 
o maior , tem na mSo hum grande Globo ^ 
e o que quer que tinha na direita nao ie em 
xerga poreftar desfeito. Orofto da parte di^ 
reita tem na máo direita huma grande co<^ 
bra de capello , e na efquerda huma roía , a 
que chamam Golfo , que nafce ñas alagóa^ 
grandes. A' entrada da porta defta Capellat 
eftam dous Gigantes a pé de cada lado , e, 
encoílados cada hum em feu idolo de dez. 
palmos de alto^ A fegunda Capella , que c&. 
tá ao lado direito y tem dezenove pés de lar-», 
go , e onze de comprido ^ e trínta de alto ;> 
no meio della eílá hum ídolo agigantado de, 
quatrp bracos i e duas pernas y como todas^ 
asmáis, com huma formofa tiara na cabera ^ 
e fobre ella eftá outro idolo mulher de vin^ 
te palmos de altura ; e por toda a Capella 
de huma , e de outra parte eftam outros muit 
tos Pagodes pequeños. Ao lado direito de&. 
ta Capella efiá huma porta de iete palmos: 
de alto , e íineo e meio de largo , por onde, 
fe entra em huma cámara quadraaa efcuta 
Outd.Tom.n^.P.L R de 



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ijS ASIA DE Di 060 DE Coufb 

de dez palmos de largo, eoutros tantos dt 
conipHdOj em que nao ha coufa alguma, Vol- 
tando ao lado defla Capelia do meio , eftá 
« terceira , que tem viñte e tres pés de con> 
prido y e rrinta de largo ; e no meio della 
eflá outro idolo de vinte e dous palmos de 
aíto dé quatro bragos*, e eftá fobre hum íó 
pé , e a cabega com huma formofa tiara , re- 
ciinado fobre a de hum touroé Efte idolo tí«- 
nham os amigos por meio homem , e meia 
mulher, porque tem huma íó teta á manei- 
ra das amigas Amazonas , e tem em huma 
das máos huma cobra de capelio , e na ou« 
tra humefpelho, e ao redor mais de íinco* 
cnta idoloí. Ao lado efquerdo defta Capelo 
la «efiá huma porta de íeis palmos de alto ^ 
^ fiíaco de largo , por onde fe entra em hu- 
ma cámara quafi quadradá , e multo efcura.» 
onde nao ha que ver : com efta fe acaba a 
fabrica defte grande Pagode , que eftá des» 
leita em müitas partes ; e iíTo que deixáram 
es foldados , tSo mal tratado , que he má- 
goa ver allim deftruida huma das coufas ad- 
xniraveis do Mundo. Agora faz íincoentaan<« 
nos que fui ver efte eftrahho Pagode; e co- 
mo Tiiú entrei nelle com a curíofídiide com 
'X]ue hoje o podía fazer ,»náo notei muitas 
'toufas, qué fe acabáram já ; mas íembra-me 
todavía, que achei huíná Capelia , que hoje 
üt fiáo vé^ aberta pela fronteria toda> que 

te- 



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Dec VIÍ. Liv. ílt Cap. XI. 2^9 

feria u)ais de quarenta pés de compridb , é 
ao longo dá rocha fe fazia huih taboleira 
do compriraénto dá cafa á maneira dos m>& 
ios Altares , allim de largura , eomo de aU 
tura } e rteíle taboleiro Iiavia multas coufas 
notaveis pera ver. Eeiitre ellas ttielenibrai 
que note! a hUloria da Rainha Pacifae com 
o touro , e o Aiijo cotii liuitia efpada nuá 
lanzar fóra de debaixo de huma árvóre duas 
figuras muí fórmofas de hoitiem> e de mu* 
Iher, que eftavam nuas , como no-lo pinta 
ú Sagrada Efcritura eiii noíTos primeiros paiis 
Adáo , e Eva* 

(iKiando logo os Portuguezes tomáraiit 
eftas térras de Ba^alin ^ e de fna jürdic^ao ^ 
que foraiii ver efte Pagode , Ihc tiráfam hti* 
ñia forrtiofa pedfa , que eftava fobre a por^ 
ta ^ que linha hum ktreíro de letras mui oeni 
^bertas ^ e talhadas , e foi mandada a EI« 
Rey , depóis do Governador da India , qué 
entáo era;, a mandar ver por todos osGcri^ 
tios , é Mouros defte Orienté ^ que já^háo 
conhecérañi aquelles caradleres ; e ElRe^ 
i). Joáo oIIL tfabalhou muitó porfaber ó 
que eílas letras diziam , mas nao fe acboU 
quem asleíFe, eaílimficott apedra por ahí ^ 
€ hoje mú ha já memoria della. 

Na Ibmbada da ferra 5 em qué éílá eílé 
Pagode do Elefante pera o Nafcente á dous 
tiros depedra, eftá outro Pagode abcrio por 

R ii di- 



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a6o ASIA DE DioGO de Couro 

idiante , e o teAo de íima fe fufienta fobrc 
multas columnas formoíiíTimamente iavradas y 
de que já nao lia mais de duas , que sao de 
dezenove palmos de alto , e doze de grof- 
fura. Tem o Templo quarenia e tres paíTos 
de comprido , e treze de largo , e a huma 
parte tem huma camarinha muito bem la* 
vrada. Nella adoram a fuá Decía Paramifo» 
ri. Foi eftePagode, que eflá hoje todo des- 
feito , de obra efpantofa naquelle feu tama* 
iiho# 

Ñoütro monte deña Ilheta pera o Naf» 
cente , a refpeito do Pagode grande na lomr 
bada delle quaíi no meio , eíiá outro Pago- 
de, em que amigamente fe entra va por hu- 
ma formoía porta , que tinha hum portal dé 
marmore curioíiílimamente lavrado. Temeír 
te Pagode huma cafa grande , e tres cama- 
ras :. na prlmeira da máo direita nSo ha já 
coufa ajguma; na fegunda havia dous ido^ 
los fobre hum grande poial quadrado. Hum 
dedes Ídolos íe chamava Vithalá Chendai , 
tem feis bracos , e huma fó cabera , c efiá 
arrimado a dous Ídolos pequeños^ que tem 
a cada partCé 
• Efte Pagode grande ^ e osoutros peque*, 
nos , fe fahe por iuas elcrituras dos/jentíós ^ 
que os mandou fazer hum Rey Cañará , cha- 
mado Banaíur, e que os mandara fabricar ^ 
ejunto a elle huns lormofos Pa^os > em que 

fe 



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Dec vil Liv- IIL Cap. XL 261 

fe apoíentava quando alli hia ^ de que aín- 
da em meu tempo feachavam alguns veftí- 
gios, e muirás ruinas de pedra decantarla, 
e adobes mui grandes. Cliamavam^fe eftes 
Pajos , ouCídade, que dizem que foi mui 
formofa , Sirbali ; c a ferra , em que cÜá ó 
Pagode do Elefante , fe chamotí Simpdeo. 
Aquí yiveo alg^ins annos huma íilha defte 
Rey , que fe dedicou a efte Pagode a perpe- 
tua virgindade , que fe chamava üquá, Dizem 
os antigos , que ncíla Ilha do Elefante eni 
tempo deEIRevBanafur, choveo ouro por 
cfpago de tres ñoras, eporiíTo Ihepuzeram 
nome Santupori , que na iba lingua quer di- 
zerllfca do ouro. Nao relato todas as coufas 
dcfte grande Pagode particularmente , porque 
$Ío tantas , que fe n^o podem particularizar , 
e porque nao enfafiiem aos que as lerem, 

CAPITULO XIL 

JDe com9 o Governadar Francifco B^rrfta 
houve ds nidos as fortalezas de AJJari ^ 
e Manar d : e de c§mo Antonio Moniz Bar'- 
reto foi tomar poffe dellas por mandada 
do Governador : e de outras coufas , em 
que proveo até fe partir pera Goa* 

ASfentado em confelho que fe tomaífe 
a fortaleza de Affari , que era táo inex- 
pugnavel por natureza , que k havia por cou- 

fa 



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%6% ASIA OE DiO.QO DE COUTO 

Ja impoífiyel tpmar-fc por.forja, múz oGo- 
vcroador Francifco Barrero ver fe por da* 
¿ivas > e peita$ a po4ia haver. Communicoq 
i^íle negocio com hum Cog^. Mah^mede » 
^ouro ancigp do tpmpo de Soltao Badur, 
que já DO do Governador Nuno da Cunha 
^dára na entrega da Cidade de Ba^aim., t 
ficou nella yiyendo ri^o , e honrado. Elle 
Mouro , que era prudente , aíluto , p muitp 
conhecido do Capitao , que eílava em AíTa- 
n , foí-fe ter com eHe ; p primeiro que tra-? 
temos do em que ido parou , nos pareceo 
bero darmos ra?.áo do ílcio deíia ierra ^ e da 
quem e(Íav4 nella por Capitao. 

Ella efia ierra de AíTarl quaíi tanta dií^ 
lancia de Ba^aim ^ como de Damap , e es- 
tará do mar pera o certáo perto de.quatro 
leguas : tem a mefma fórma , e fei^áo da 
ierra de Dama na Aba/fia , de quem no Cap» 
X. do VIL Liv* da V. Decada demos ra* 
záo, n^ jornada de D. Chriílováo da Gama, 
que he a em que aquelles Imperadores en- 
jcerram todo§ os filhp§ , tirando p herdeiro , 
pornáp haver antre e|les alguma alterafáoj 
e aílím ps tem alli táo fechados , que em fuá 
vida nao podem fahir fdra. Da mefixi^ ma- 
neira eftá a ferra de Aflari. 

Sobe ingremp pera íima quali huma le- 
gua , e rao direita de todas as parres , que 
parece, que a foráa^ talhaodo ao pjcao afé 

hum 



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Dec vil Liv. IIL Cap. XIL %6^ 

hum pouco antes do cume, onde faz bum 
releixo á roda , e delle pera Albir ao plano 
nao rem mais que dous paíTos ; hum tSo iiH 
greme , que nao pode fubir por elle mais 
que huma peflba , com tanto trabalho , e úí* 
co , que parece defatino querer hum homem 
trepar por alli, ao menos por curiofidadei 
porque de ambas aspirtes fica táo ingreme^ 
que fe vai olume dosolhos ahuma peflba, 
le olha pera baixo. Ooutro paíTo fe chama 
das Vacas , porque ppr elle as levam aíli* 
ma , pera mantíroento da gente que alli re- 
íide. Efte paíTo , tanto que chegam áqueiie 
releixo , ficam como debaixo da aba de hum 
fombreiro, com huma abertura emiima, pof 
onde lap^am cordas pera levarem afuma o 
que querem , como fazem de huma eícotir 
Iha de huma nao is pipas , que eftam em bai- 
xo das cubertas. Nede releixo debaixo , que 
corre á roda , e que iica como huma iapa , 
tem os foldados das vigias fuas eftancias i 
que sao doze ; porque em tantas partes ^Ceiti 
as aguas do invernó feito algumas quebrar 
das , por que fe pode fubir , ainda que cooi 
tnuito rifco ; porque em todas eftas efiándas 
tem os foldados grandes galgas de pedras, 
com hüns efpeques amarrados por Iminas! oof* 
das, e prezas ñas fuas camas ; e fe de noi- 
te fentem rumor , affim deitados , nao fa<^ 
zem mais que foltar as cordas com oi^, 

e 



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»64 ASIA DE DiOGO DE CoüTO 

e dando ñas galgas , vam pelo caminho abai« 
Uo com tamanho eftrondo , e terremoto , que 
mettem medo, e tudo o que acham diante 
de íi levam , e nao tem neceífidade de QUr 
tras armas pera fuá defensao. 

£m íima no cumc faz eAa ferra lium pía-!* 
no redondo y onde eílam os gazalhados y e 
apofento doCapitáo, armazens, cifterna de 
agua, e a Igreja; e notempo da guerra fe 
recolhem aqui mantimentos perahum anno» 
e na paz fe provém das aldeias á roda , que 
sao rcrriliíGmas » e de continuo refidem em 
£ma feíFenta foJdados , a que pagam feus 
quarteis, e mantimentos , que Ihe o Feitor 
oe Ba^aim leva , como fe Ihe acaba o tem-^ 
po. 

Vigia-fe efta ferra de noite com grande 
cuidado j e os dos quartos sao obrigados cor* 
relia por fírna toda em roda , com tochas 
aCcczas de hum pao , como preto , que fe 
dá naquelles matos , que arde como tochas 
de cera , e nao fe apagam nem com vento , 
uem com agua. Ao pé da ferra tem huma 
tranqueira de madeira em forma quadrada 
com feus cubelios , onde reílde hum Naique 
from cem peles, e hum Capitao do campo 
Portuguez com alguns foldados. 

Eftava nefte tempo por Capitáo da fer- 
ra hum (Jenrio , chamado Condixá , e em 
}AñnoTÍ hum Turco por nome Agader , e 
> . por 



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Dec. vil Liv. III. Cap. XII. i6^ 

por Veador da Fazenda de todas aquellas, 
térras hum Gentío y chamado Calegi , e to- 
dos póftos da máo de Cide Boíatá , que fe 
tinha alevantado com a Cidade , e térras de 
Dainiío no alevantamento geral» (como na 
VI. Decada no Cap. XVI. do X. Livro fi- 
ca dito. ) O Coge Mahamede , de quem hia* 
mos tratando , chegou á ierra de AÍTari ^ co- 
mo que biavifitar oCondíxá, de quem era 
grande amigo; edetendo-íe com elle alguns 
días , o veio a apalpar com diffimula^o ; e 
achandoK) difpofto , Ihe commetteo , queen« 
íregafle a ierra aoGovernador, que Ihe da- 
ría o que foíTe razáo logo em dínhciro , e 
2ue Ihc faria outras honras , e mercés. O 
rentio vencido das muirás raz6es do Coge 
Mahamede , e niais do inrereffe , (gue he o 
que faz render tudo , ) abrio-fe-lhe todo , af- 
íirmando que o faria ; mas que nao pode- 
ria fer fem o Calegi , Veador da Fazenda , 
que fe viíTe com elle , e trataflem fobre a- 
quelle negocio , e que qucrendo , elle eña- 
va preftes pera fervir o Governador ; e com 
ido fe víram ambos com elle\ e praricdram 
aquelle negocio, fobre que o Coge Maha- 
mede nao foi avaro ñas promeflas ; e por 
tal modo os levou , que os rendeo , e aíien- 
táram que dando*lhes o Governador feismil 
e quinhentos pardáos logo em dinheiro , Ihe 
entregariam aquella fortaleza ^ e fe paifariam 

a 



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^66 ASIA DE DiOGO DE COUTO 

a viver a Ba^aim. E como tiveram rendida 
oCalegí y Ihe pedio o Coge Maharoede , que 
tracaíTe com Agader, Capitáo de Manorá, 
fe quería enerar naquella liga , eque Ihe da- 
riam o que elle pediíTe, porque pera fegu- 
ran^a das térras de Ba^aim era neceflario fi* 
carem aquellas forjas ambas pera o Eftado 
da India. 

Sobre ¡fto fe foi o Calegi ver com Aga- 
der; e apalpándolo fem fe Ibe declarar , o 
achou duro , e de táo roim digeftáo , que 
nao apertou com elle , e o deixou , e cleo 
conta de tudo aos outros , que diííeram ao 
Coge Mahamede , que depois de elles en- 
tregarem a ferra , poderia o Governador man- 
dar tomar por for^a Manorá , porque Aga- 
dertinha pouca poíTepera fe defender. Com 
efta refolugáo voltou o Coge Mahamede pe-» 
ra Ba^aim , e deo conta ao Governador de 
tudo o que tinha paíTado com o Condixá ^ 
e Calegi, dizendo-lhe quáo fácil elles Ihefi- 
zeram a tomada de Manorá ; porque tanto 
que Aflari eftiveíTc em feu poder, (que era 
o mais duvidofo , e importante , ) logo Ma- 
norá fícava fcndo mais fraco , e o Agader 
nao teria remedio pera fe defender. 

Vendo o Governador quáo barato Ihe 
ofFereciam. o que elle tanto defejava , poz lo- 
go em obra aquelle negocio ; e porque EI- 
Rey nao tinba dinheiro , maadou vender a 

fuá 



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Dec. VII. Lit. III. Cap. XIf. 267 

fuá prata , e ajuntou a quantia dos feis mil 
c quinhentos pardáos , que fecarregáram por 
cmpreftímo íbbre o Feitor de Bacaim Duar- 
te do Soveral , em cuja arrecada^ao adiamos 
pfta receita , com a declarajao do pera que 
íiquelle dinheiro foi empreftado; cdefpedio 
o Coge Mafiamede com recado a Calegi , 
eCondixá, pera faber o modo que queriam 
ter na entrega da ferra , e no recebimento do 
dinheiro, O CogeMahamede negociou iílo 
(de feijáo , que veio o Calegi tomar o di- 
nheiro a Bajaim , e ficou ern refens até Con-» 
idixá entregar a fortaleza de Aflari. 

Como o Governador teve comfigo o Ca- 
legi , e Ihe deo o dinheíip, defpedio logo 
Antonio Moniz Barreto peta ir tomar entre- 
ga da ferra , levando cartas do Calegi de co- 
mo já linha o dinheiro cm li ; e chegando 
ao pé da ferra, fe foi o Condixá ver com 
elle, e ihe fez entrega della , mandando ti- 
rar de dentro todas as coufas que nella ti- 
Bha. Entregue Antonio Moniz Barreto da 
ferra , deixou nella hum Capitáo com feíTen- 
ra foldados , e a proveo de mantimentos , le- 
jiha , c vsccas em abaílan^a , e ordenou guar- 
da pera as térras, que foi humNaique com 
duzentos peáes , e mandou lanzar pregóes pe- 
las aldeias «que todos os lavradoreá culti- 
» valfem , e íavraflem fuas aldeias , é que re- 
» fpondeffem com os foros a ElRey de Por- 

]» tu- 



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268 ASIA DE DlÓGO DE CotJTO 

>tugal , como Eiziam ao de Cambaya pe- 
llos mefmos foraes, e coftumes, lem Inés 
> innovar coufa alguma , íenao em íeu fa« 
>vor: it com o que corae9áram acudir ás 
aldeias,, e Ihes ordenáram recebedores, pe- 
ra correrem com a arrecada^áo de feus fó* 
ros. 

Negociadas eftas coufas muito bem , vol- 
tou pera Bafáim , e o Governador o tornou 
a defpcdir com feiscentos homens pera ir to- 
mar a fortaleza de Manorá , e mandou D. 
Aníáo de Noronha com dez navios pera ir 
pelo rio allima favorecendo-o , e Antonio 
Moniz Barreto foi entrando pelas térras de 
Manorá fem ach^r reíiflencia ; e indo de- 
mandar a fortaleza , a acliou defpejada , por- 
que o Agader o nao oufou a efperar ; mas 
nao foi iíto tao fecco , que os noíTos da di- 
anteira nao tiveflem algumas efcaramu^as 
com os inimigos , cm que Ihes derribáram 
alguns. Defpejado o forte , tornou Antonio 
Moniz Barreto poffe delle , e poz nelle por 
Capitáo hum Jorge Manhaas, Cavalleiro hon- 
rado , di obrigagáo do Governador , com 
cento e vimé íoldados , e alguns Naiques , 
e peSes da térra , e deo ordem á arrecada- 
jáo das térras , como fez a Aflari. 

Acabado efte negocio , fe tornáram pe- 
ra Bajaim , onde o Governador já eftava 
preftes pera fe partir pera Goa , por Ihe te- 

rem 



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Dec. vil Liv. IIL Caí. XII. 269 

retn chcgado cartas , em que o chamavam 
com multa preña , por ferem entrados ñas 
térras vizinhas a Goa alguns Capitáes do Idal« 
can com muita gente , e que cílavam arrií^ 
cados Salfete , e Bardes a fe perderem. E 
dando defpacho a algumas coufas, (princi* 
pálmente as de Ormuz , por Ihe terem vin* 
do novas íer falecido Bemaldim de Soufa , 
que lá eñava porCapitao, pera ondedelpa-^ 
chouD.Joáo deAtaide,) fecmbarcou, dei* 
xando fetccentos homens em Ba^aím com or« 
dem pera Ihesdarem mezas, deque deixou 
Capitáes nomeados pera iflb. Antonio Mo- 
niz Barreto , Capitao da fortaleza , a trezen- 
tos e íincoenta. D« Martinho daCunba/ir- 
jtiSa de D. Pedro da Cunha , Capitao geral 
das gales do Reino , a duzentos. E Duarte 
do Soveral , Feitor , e Alcaide mor de Ba- 
gaim, acento eíincoenta; e cm breves dias 
cbegou o Governador a Goa ; e paíTando 
pelo rio aíGma com todos os navios de re* 
mo , fem querer deíembarcar na Cidade , 
foi viíitar os paflbs da Ilha , que proveo de 
Capitáes , e íoldados pera fuá guarda , e de 
Davios ligeiros pera correrem os ríos -y e ñas 
Ilhas de Joao ChorSo , Divar , e ñas mais 
metteo gente deguarni^áo, e na fortaleza de 
Racol poz D. Jorge de Menezes Baroche , 
e D. Pedro de Menezes o Ruivo , com qua* 
crocentos homens pera guarda daqueiias tér- 



ras ¿ 



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ayo ASIA de: Diggo de Coüto 

ras; edcpois deprover rudo iílo mui bertí, 
fe foi pera Goa , e defpedio Amonio Pe- 
reira Brandao com feis navios ligeiros pera 
andar por aquella coila até Dabul , fazeñdd 
toda a guerra que pudeíTe ao Idalcan ; e el- 
le fe foi apofentar em humas cafas , que ef- 
táo adiante de Santa Luzia pera da 1 11 correr 
os palios j e entender ñas coufas da guerra ^ 
que depropoíito determinava fazer aoldal* 
can. 

CAPITULO XIII. 

Do que aconteceo na jornada á Pero Bar^ 
reto: e do engaño que com elle ufou oPriñ' 
cipe do Cinde : e de huma fáganhofa fer-- 
pente , que hum foldado chamado Gafpaf 
de Mont arroto matoü. 

PArtido Pero Barrete Rolim de Báfaim i 
(como atrás diíTemos no Capitulo IX¿ 
defte III. Livro,) foi atraveflando aenceada 
de Cambaya até Dio, onde chegou vefpe- 
ra de Natal. E depois de paíTada a fefta ^ tor* 
nou.á fuá viagem, e foi de longo da coíta 
^té a poma dejaquete, onde fe acabam oá 
limites do antigo Reino Guzarate, e dalli 
foi atraveífando aquella énceada , e foi to- 
mar a barra do Cinde , que commummente 
fe chama a de Cambaya , por entrarém por 
ella todos os navios , quevam aquellas par*^ 
tes ) porque a putea boca ^ que tem niais ao 

Noí- 



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Dec. vil Liv. IIL Cap* XIII. 271 

Norte , fe chama de Ormuz , por fahirem 
por ella todos os navios que navegam por 
aquelle Eftreito ; e chegada a Armada , foi 
entrando pelo rio ás toas , pelas grandes 
correntes de fuas aguas , e puzeram oito dias 
até a Cidade de Tata , nSo fendo maís de 
trinta leguas* Efiava na Cidade o Principe 
Miraban Baba , nio^o de doze annos , que 
o pai alli tinha deixado com alguns tutores 
pera governar o Reino , porque havia pou- 
co tinha partido com feus exercitos em bu& 
ca do inimigo. £ fabendo o Principe fer 
aquella Armada , que feu pai mandara pe- 
dir , mandou vifitar o Capitáo mor , e a fa- 
zer-lhe a faber , como feu pai Ihe deixára 
ordem, pera que como chegalTe aquella Ar- 
mada a fizeíle efperar até feu recado. Pero 
Barreto recebeo eñe Enviado , e mandou a 
térra o Embaixador , que o fora bufcar ^ e 
com elle hum homem honrado , por quem 
mandou dizer ao Principe que elle vinha com 
aquella Armada em. férvido de ElRey feu 
pai , e que cftava preñes pera tudo o que 
Ihe itiandaífe , e que défle ordem pera ir 
hum homem a EIRey , que elle queriu man- 
dar; o que o Principe fez , e Ihe mandou 
dar aviamento de tudo pera ocaminho. Ef- 
te homem , que Pero Barreto mandou , to- 
mou a ElRei fobre a Cidade de "riguir , 
ijue hé no eñremo daquelles Reinos , e fi« 

ca- 



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a73^ ASIA DE DioGo de Couto 

cava da parte do Soltáo Mahamede Bacha- 
ri , que a tinha multo fortiñcada , e alli o 
buvio, e o tornou a defpedir logo com rer 
.cado a Pero Barreto t em que Ihe pedia que 
% fe eocretiveíTe alguns dias , e que neiles 

> Ihe mandaría refolugáo do que havia de 

> fazer , com o que fe deixou Pero Barrer 
% to íicar no rio daoutra banda defronte da 
» Cidade. » 

ElRei Mirzanhifá foi continuando o cer«- 
•co de Tiguir , em que teve muitos recontros 
trom os inimigos , de que houve damno em 
-ambas as partes ; e Bachari , que era valen<- 
te cavalleiro , fempre Ihe teve o encontró , e 
proveo os de dentro daCidade, fem o ini- 
migo Iho poder defender. Vendo o Rei do 
Cinde que porfor^a nao podía tomar aquel« 
la Cidade, e que o inimígo eftava podero- 
fo , veío a entrar com elle em partidos , por 
meio de Capitáes , que fe mettéram antre 
elles , e por fim fe vieram a concertar , que 
o Bachari IhelargaíTe a fortaleza de Tiguir ^ 
por ficar, como diílemos, nos eftremos de 
ambos os fenhorios , e que ficaíTe com o que 
mais poíTuia ; e com ifto fe Ihe entregou a 
fortaleza , que elle proveo de Capitáo , c 
foldados , c voltou pera o Cinde* 

Todo efte tempo efteve Pero Barreto no 
rio eíperando o recado de ElRei ; e porque 
nao he razáo que pafiemos por hum cafo 



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Dec» VII. Liv. m. Cap* XIIL 275 

^rpantofo 9 que aqui aconteceo ^ daremos con<* 
ta delle. Coftumavam os nodos Toldados ir 
a térra á ca^a ; e défyiando^fe hum delles ^ 
diamado Gafpar de Montarroio 5 natural da 
Cidade de Faráo ^ com fó fuá eípada ^ e ro-^ 
dclla, fohfe aiFaftando por hum matoj een« 
contrando com huns Gentíos , Ihe difléram' 
que nao paíTafle avante ^ porque eftava alli 
huma ferpente ^ que acabara de comer hum 
bezerro. O Gafpar de Montarroio defejofo 
de a ver, Ihes pedio Ihefoílemmoílrar olu« 
gar onde e(la\ra , o que elles fizeram ; e che** 
gando pcrto , a vio eftar deitada no mato 
com acábela fobre ocaminho^ e eftava far^ 
ta , epejada ^ e pela cabera entendeo qud 
devia ícr coufa fa^anhofa ) porque o corpo 
iicava efcúndido no mato } e defejofo de a 
ver bem 5 le foi chegando tanto a ella ^ qud 
Ihe pode chegar com a efpada com fef cur«» 
ta: ella em o fentindo alevantou a cabera ^ 
a tempo que elle hía com hum golpe ^ e 
quiz íua boa ventura que a tomafle pelo de^ 
golladouro , onde nSo tinha fortaleza ; e co** 
sno a efpada era larga , e cortadora , a de^ 
gollou toda, eella com ador damorte deo 
com o corpo tamanhas pancadas , que pu« 
iiha efpanto , e medo , até que acaoou de 
morrer. Os Gemios, que eítavam de longe 
vendo aquillo, ficáram pafmados, e foráo 
fugindo ; e o Gafpar de Montarroio voltou 
Gmío. Tom. ir. P. I. S pe- 



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^74 ASIA DE DiOQO DE COUTO 

pera a praía ; e tomando alguns marinhei* 
ros da fuáa , em que hia embarcado com 
remos ^ e cordas , fe foi cora elles aonde 
eftava aíerpente, e a fez amarrar, e áscof* 
tas de todos a levou á praia , onde Pero 
Barrero fahio pela ver, que foi coufa, que 
admirou a todos , por fuá groíTura , e gran- 
deza ; porque era táo groíTa como hum ho* 
mcm ordinario y e de compridQ tería trinta pés , 
f dizilo os naturaes que era ainda .crian^, 
Pero Barrero mandou fazer huma forca na 
praia , e a mandou dependurar por cfpanto : 
c por efte feiro íicou oGafpar de Montar** 
roiq táo nomeado dos Gemios do Reino do 
Cincle , e Cambaya , que o bufcavam , e Ihe 
Icvav^m prefentes , e pegas. Viveo efte ho* 
mem até os annos de noventa e quatro , que 
fe foi pera o Reino, e no caminho nos pa^ 
rece que dePappareceo a nao em que hia. 

Vendo Pero Barrero Rolim que o reca- 
do de EIRey tarda va muito , e que todo o 
inez de Fevereiro era paíTado , mandou re- 
querer ao Principe, que poisElRey fcu paí 
nao Jhe manda va o que havia de fazer , c 
que fe hia o tempo gaftando , que Ihe man- 
dafle cumprir os contratos fobre que viera 
aquella Armada, ppis debaixo da fé, epa- 
lavra de ElRey feu pai fizera o Governa- 
dor com ella tamanhas defpezas. O Princi- 
pe depois de alguns recados > e requerimen- 

tos 



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Dec vil Liv. III. Caí, XIII. ^7% 

tos defles , a que fempre refpondeo com eí- 
cufas , Ihe mandou dizer ce que fe fe quizef* 
» fe ir o podia £azer y porque elle nao tlr 
01 nha ordem de ElRey leu pai pera iríais^ 

> que pera prover a Armada de mantimen-* 

> tos , que . fe os quizeíTe , Ihos mandaría 

> dar. )i Defte defengano fícou Pero Barre* 
to enfadado ^ e come^ou logo a baver uíiiáo 
por toda a Armada , porque quizcram os 
toldados que logo felhedera ocaíligo; mas 
Pero Barreto diifimulou com aquillo , por- 
que defejava de nao chegar a rotura , até 
•^er o queEIRey mandava. E como os fol- 
iados da India sao muito foltos , e Hvres , 
davam denoite grandes matracas aoCapitáo 
mor; eavoltas de multas palavrasdefordena- 
das Ifae chamavam fraco , puiliianíme ^ c que 
<ie medo nao víngava tamanha oíFenfa ; e tan* 
tas vezes Ihe difleram eílas coufas , e outras , 
que Ihe deo a defconfianga de maneira , que 
lem tomar confelho com alguem , mandou 
-dizer pelas fuftas que fizeííem peIouros« Com 
eñe recado fe alvoro^áram os foldados , e 
t:ome9áram a guarnecer feus arcabuzes , « 
filimpar fuas armas ; e entre tanto mandou 
o Capitáo mor com muita di0¡mula^o com- 
prar mantimentos á Cidade^ de que proveo 
a Armada baftantemente* 



ii CA- 



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276 ASIA DE DiOQO DE CoüTO 

CAPITULO XIV, 

De como Pero Barreto Rolim dejiruio a Ci^ 
da de de Tatá^ e todas as Villas^ eLu'- 
gares de huma j e outra banda do Rio : 
e donde nafceo o erro aos Geógrafos mo^ 
demos chamarem á Provincia do Cinde 
Dulcinda. 

EMquanro fcosnoflbs preparavam cora 
diílimulagáo ^ fuccedeo daquella banda 
donde cftava a armada , efte cafo. Coftuma- 
vacn os da Cidadc ir á outra banda a ven- 
der fuas mecánicas aos Toldados ; e como 
elles já fabiam que fe ha vía de dar na Ci- 
dade , hum delles mal foíFrido tomou huns 
couros do Cinde a hum mercador fem Ibos 
querer pagar , e ainda fobre iíTo o esbofe- 
teou ; e a noice feguinte , eílando os noíTos 
navios furtos , bem cozidos com a térra ^ 
ajuntáram-fe huns poucos de Diulis , (que 
sao huns Gentíos , que vivem daquella ban- 
da ,) e de iima das barranceiras , que í¡ca«> 
vam altas , defcarregáram fobre os noíTos 
navios grande fomma de arcabuzadas, efré- 
chadas , com que encraváram muitos foIda<» 
dos; e foi a coufa tal , que fe levantáraní 
os navios, e foram furgir no meio do rio » 
e dalli esbombardeáram bem os que Ihesíi- 
zeram aquclle dañino. Ao outro dia pela 

ma- 



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Déc. vil Liv. m. Cap. XIV. Í77 

manhá mandou Pero Barrero chamar osCa* 
pitaes a confelho , e Ihes diíTe c que era ne« 
» ceífario cafiigarem aquella aíFronta , e def- 
» trnirem por ella a Cidade , e que pera ií- 
» fo fe foíTem logo a tomar as armas , o 
» que todos fizeram com grande alvorofo. n 
Tomando o remo em punho , foram def* 
embarcar na face da Cidade , e puzeram 
fuas bandeiras em térra , onde fe ordenáram ; 
e com grande determinajao commettéram a 
Cidade , por onde forani entrando , e met- 
fsendo á eípada a toda a peíToa viva que 
achavam , levando diante de í¡ alguns ma« 
gotes de inimigos , que acudiram a Ihe de- 
tender a entrada y com quem aperráram tan- 
to, que de todo os puzeram cm desbarato, 
E hum efquadráo de cavallo de mais de du- 
zentos fe foram com a prefla rccolher a hu- 
ma formofa Mefquita , que hum foldado 
noíTo vio ; e vendo que o Capi;áo mor hia 
paíTando avante , Ihe diíTe c que volrafle y 
> porque Iheficava aquella gente ñas codas, 
» e que o feguifle , porque elle p levaría 
» aonde fe recolhéram. » PeroBarreto vol-* 
tou logo, e ciiíTe ao foldado que oguiaíFe; 
echegando á Mefquita, acommettéráo comí 
grande furia , fendb Pero Barrero o primer- 
fO que quiz entrar j mas atraveíFou-fe-lhe 
diante Cifal Pinheiro , dizendo-lhe , « que fe 
9 detiveíTe y que aquelle nao era o feu lugar ^ 

I nem 



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^7* ASIA DE DiOGO DE COUTÓ 

» nem offieio , que Toldados levara ^ que 
» fariam aquillo muiro beiq feiro. i E aí^ 
fim o deteve j e foi cotninettendo a entra* 
da com alguns companheiros* A Meíquita 
era inuito grande , e da feigao de noflbs Tein* 
píos y e tinha tres portas ^ huma principal ^ 
e duas traveíTas j e na froríteria havia tres 
Capellas grandes todas de abobada , como 
tambetn o era o corpo da Meíquita , que fe 
fuftentava íobre mais de trinta formofas co« 
lumnas depedra. Os noflbs trabalháram tan* 
to , que entráram da porta pera dentro , e 
come^áram a laborar com a arcabuzaria, 
que fez nos Mouros grande eftrago , e fe 
feram recolhendo pera as Capellas* E como 
o corpo daquelle Templo era todo de abo- 
bada, e arcabuzaria , fazia humeftrondo eí- 
pantofo , andavam os cavallos de huma pera 
eutra parte, fem darem pelois freios, e co- 
sió defatlnados iaziam tamanho eftrepito , e 
terremoto ^ que parecía huma confusáo, e 
aífim a nofla arcabuzaria nao fazia fenao 
derribar nelles á yontade ; e o que foi mais 
cruel que tudo, foi chegarem alguns Tolda* 
dos com panellas de pólvora , lanzando an* 
tre os Mouros huma fomma dellas ; e des- 
fazendo*íe em labaredas , foram dar emhuns 
cailóes de pólvora , (que sao tamanhos co-> 
mo grandes cantaros ,) que elles tinham den* 
troj X tomando fogo , rebentáram cona tan* 

ta 



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Dec. vil Liv. III. Cap. XIV. 279 

ta braveza , que parecia arder algum grande 
forno de cal. Os cavallos com aquelle ef* 
trondo, eefpanto davam cómosdonos pe^ 
los efteios , e pelas paredes ; outros fe Jm« 
pinavatn , e cahiáo lobre elles ; e alguns» 
quequizeram commerter as portas, fe Foram 
efpetar ñas agudas alabardas , e ]an9as , de 
que os noflbs tinham feito grandes batidas ; 
de maneira , que todos os que dentro eíla- 
vam acabaran! no inais cruel , e mileravel 
genero de morte, que fe podía imaginar. 

Concluido ede negocio , foram os noP» 
ios entrando a Cidade , e mettendo á efpa« 
da toda a coufa viva que achavam , até 09 
brutos aninuies ; e como nao tiveram em 
que executar fuá furia , mandou o Capitád 
mor que faqueaíTem a Cidade , como logo 
fizeram , tomando todos tantas fazendas , que 
fecarregáram os navios, náotoubando nem 
a qiiarta parte do aue havia nella , e a' tu* 
do o mais fe deo rogo , que fe apoifou de 
toda a Cidade em tanta maneira, e comtSd 
grande braveza , que parecia abrazar-íe o 
mundo ; porque além de ella fer das iti»kH 
res da India , eftava recheada de fazendas 
groíTas , e ricas , de drogas, manteigas, alen 
te , cifas , e outros materiaes , que faziaiíi 
fübir 0s cbammas aos Ceos ^ táo efcurts , 
negras, efpeíTas , e fedoremas , que fe na 
térra hayla cojufa y que reprefencaíle a fkmé^ 

Ihan- 



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'i8o ASIA DE DiÓQO DE COUTO 

Ihan^a do inferno, era efta montaría, O qu9 
íe roubou , e queimou emfazenda , era paffan-^ 
te de dous niilhóes de ouro , e morréram 
perto deoiio mil peíToas, a mor parte del- 
la gente inútil , íem cuñar da jioíTa partQ 
inais que alguns feridoa. 

Feito efle negocio , fe tornáram a emt 
barcar , e foram pelo rio abaixo queiman-? 
do j e deñruindo todos os lugares que havía 
de huma , e outra parte daqúelle famofo rio 
Indo , achando em alguqs paflbs eñreitos 
muita gente , que ao paliar Ihes deram gran* 
de trabalho com a multidáo de tiros , que 
defcarregavam fobre ellcs , e em hum mais 
eftreito de todos osmettéram em grande con-* 
fusáo , por Ihes ficarem os navios debaixa 
das barranceiras , donde elles de íima em«^ 
pregavam feus tiros bem áfua yontade, com 
que derribiram alguns dos noflbs , largando 
os mariqheiros os remos , e efcondendo-fe 
debaixo , porque as frechas cahiam fobre eU 
les tio efpeítas, que parecía que choviam, 
¿cando os navios todos anhotos, e embara- 
zados huns com osoutros, Vendo PeroBar-í 
reto quefícava defta maneira arrifcado alhe 
matarem piuita gente , brádou aos Capitáes 
que puzeflem as proas em térra , e que com 
Sí artilberia franqueaíTem a defembarcayáo » 
e eaminhaflem de longo da ribeira ; porquQ 
aínda (jue faífrm fempr? pelejandg com ot 

ini- 



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Dec. vil Liv. III; Cap. XIV: aSr 

initnigos , nao poderiam receber tanto da«* 
niflo como por mar ; e virando todos as 
proas á térra , fizeram affaíbr os inimigos 
com os falcóes; e faltando todos fóra, piH 
zeram fuas bandeiras em fima das barrancei*^ 
ras á vida dos inimigos ; e alli ordenou Pe-> 
roBarreto dous efquadróes, hum detrezen<« 
tos homens , de que fez Capitáo hum da* 
quelles Fidalgos, a que nao pudémos faber 
o noo^e , e Ihe mandou fe paífaíTe da outra 
banda , e foíTe caminhando por térra , e de 
longo della ametade dos navios pera osfa-^ 
vorecerem , e elle com o outro efquadráo 
de quatrocentos homens foi marchando de 
longo da agua muito á fuá vontade, tendo 
lempre muitas efcaramu^as com os inimigos, 
que os hiam feguindo de longe » por fe fa- 
tisíazerem em parte de tantos damnos , co-» 
mo eram os que fe Ihes tinham feito. E os 
noíTos a todas as povoagóes a que chega** 
vam Ihes punham logo o fogo, e as abra* 
zavam ; e tanto que anoitecia , aííentavam 
feus exercitos nos lugares mais accommo^ 
dados 9 e com as coilas no mar, e os na« 
vios com as proas na térra , e com as poppas 
de huns nos outros , e em térra de cada ban^ 
da dous berros , que a cada quarto fe deí^ 
paravam , e após elles toda a efpingardaria 
dos foldados da vigia , e della maneira ca- 
mioháram pinito feguramente. Os Mouroa 

Ven- 



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aSi ASIA DE DiOGO de Couto 

vendo a boa ordem que os noflbs levavam ^ 
adiantaram^fe , eforamatéoBandel , que era 
perro da barra , c deram em dous navios de 
alto bordo, que os Portuguezes alii tinham 
abicados , matando alguns , e cativando to- 
dos os mais , e aos navios tiráram as efco* 
ras , e deram com elles em baixo , onde íe 
quebráram , roubando toda a fazenda que 
nelles acháram. Os noflbs foram caminhan- 
do por térra na ordem que diflemos , finco 
días , até chegarem ao Bandel , onde os 
Mouros tinham huma arrezoada fortaleza. 
Pero Barreto fe ajuntou com a outra com<» 
panhia , e acommetteo á efcala vifta , ar« 
rombando-lhes as portas com vaivens , por 
onde entriram os noflbs com grande deter* 
mina^áo , fazendo recolher pera dentro os 
Mouros que nella eílavam ; e entrando todo 
o poder , mettéram á efpada toda a coufa 
viva que fe achou , fem efcapar hum ló« 

Rendida, e deípejadla a fortaleza , foi 
eícalada , e Taqueada dos Toldados , em que 
acháram multas fazendas, e alguns dosPor* 
tiiguezes das naos prezos, que logo foraoi 
foltos ; e nao tendo mais que fazer , deram 
fogo á fortaleza, emque toda feconfumio^ 
e íe embarcáram. Nefle caminho gaftáram 
os noflbs oito dias , em que fízeram pelo 
rio abaixo os mores damnos , e perdas , que 
nunca aquélie Reyno r^ebeo, porque Ihes 

nao 



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Dec. vil Liv* III. Cap. XIV. 283 

nao ficou Villa , nem lugar em pé« Pero Bar- 
reto vendo que já nao faavia que fazer , ía* 
liio*fe do rio , mandando primeiro por fo- 
go aos navios dos Portuguezes^, queeftavam 
quebrados , porque fe nao ferviflem os da 
Ierra da fuá inadeira , «e pregadura ; e deo á 
vela pera Goa. £ allim o deíxaremos nefta 
viagem , até tornarmos a elles , pera d^rmos 
razáo donde nafceo a confusáo dos Geógra- 
fos modernos chamarem a efta Provincia 
Dulcinda , ^omo nos penhorámos no prin* 
eipio do Capitulo. 

Pelo que fe ha de faber , que os mor- 
cadores Italianos , e outros da noíTa Euro- 
pa 9 que pafsáram á India por térra , muito 
antes que ella fe defcubriíTe por mar , na- 
vegando de Ormuz , e de outros portos pe- 
ra o Cinde , que fempre foi huma das mais 
celebradas feiras do Oriente, como chega- 
vam á boca do rio Indo, acli^avam da ou- 
tra banda do Ponente aqueiles póvos Diulis , 
chamados aíTim da fuá principal Cidade cha- 
mada Diul , onde elles faziam fuá habi- 
ia;áo, e dalli paíTavam ao Cinde, e hiam 
fazer fuas mercadorias «r Cidade de Tata; 
e como eram homeñs idiotas naquellas par- 
fes, enáo fabiam fazer diíFeren^a dosnomea 
daqueila Provincia , dando lá na Europa ra- 
záo das térras por onde andáram , . diziam 
que foram ter a Dulcinda , confundindo hu- 
ma 



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2^4 ASIA DE DroGO de Couto 

ma coufa com a oucra , fendo Diul nome 
da Cidacle , e Cinde de todo o Reyno ; e 
daqui ficáram os Geógrafos modernos cha* 
mando a todo efte Reyno Dulcínda. Defta 
mcfma maneíra confundió Marco Polo Ve- 
neto , ou leus trasladadores , o nome da Pro- 
vincia da China , fazendo de huma fó duas ^ 
por efta maneíra. 

Aquelie Imperio da China fe chama an« 
tre os naturaes Cin , Macin ; e dividindo 
elle eñe nome (que he todo hum) em dous , 
chamou a huma parte China , eá outra Man- 
gi. E ainda Abraháo Ortelio paflbu adian- 
to , que deo limites aeílas duas Provincias, 
lanzando no feu Theatrum Orbis a Provin- 
cia Mangi mais ao Norte da da China. E 
tornando aos povos Diulis , nelles fe come* 
ja a Provincia Gedrofa , que Aitón Arme- 
nio, e Sabellico chamam Tarfe. E Jofefo 
Moletio , e Cadamoílo Guzarate , (cujo erro 
Da V. Decada fica declarado , ) e Jeronymo 
Rufceli,. fallando nefta Provincia, diz que 
todos os delia sao Chriftáos , e nao fabemos 
com que fundamento , nem porque informa-% 
^6es^ porque hoje na India nao temos no- 
ticia algumadlífo, nem por efcrituras , neoí 
por memoria deavós, e netos, em que ne& 
tas partes fe confervam por multas centenas 
de anuos fuas antiguidades» 

DE^ 



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i 



DECADA SÉTIMA. 

Da Hiñoria da India. 

L I V il O IV. 

CAPITULO I. 

Do que aconteceo d ndo S. Paulo até G/» 

cbitn : e de como Pero Barreta Rolim 

deftruio a Cidade de ÜabuL 

AN A o S. Paulo , que tinha partido do 
Reino na companhia de D. Leonar* 
do de Souía, (de que era Capido, 
c fenhorio Antonio Fcrnandes , ) que deixá- 
mos invernando no Brazil , onde efteve fin* 
co mezes ; c tomando-fe parecer coin os Of* 
ficíaes della , e com os que Iiavia na térra , 
aflentáram todos c que repartiíTém dalli etn 
31 Outubro , poderla muito largamente paf- 
> far á India , e tomar aínda as naos pri- 
p' meiro que partlíTem pera o Reino. » Con*' 

clui- 



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¿86 ASIA DE DlGGO DE COVTO 

cluidos nifto , (Jeo-lfaes D, Duarté da CoC« 
ta todo oaviatrienro poflivel, e fe fez ávé* 
la na entrada de Outubro paíTado de íln- 
coenta e fínco. Efeguindo íua derrota, de* 
pois de paíTarem o Cabo de Santo Agoíli* 
nho , aflentado de ir por fóra da Uha de 
S. Lourengo , foram*fe pondo em quarenta , 
quarenta e hum griáos do Sul , parageni, 
que por andar o Sol aifaftado pera a par- 
te do Norte , íicava o dia táo pequeño , que 
nao havia tempo pera oíais , aue pera faze* 
rem de comer huma vez ao día , o que deo 
grande trabalho a todos. E depois de vín- 
garem a altura do Cabo de Boa Efperan^a, 
tomáram a derrota por fóra da II ha de S« 
ILouren^o, e aínda de todos os baixos^ pe- 
ra irem demandar a ponta de Camatra. , e 
dallí voltarem cóm as naos de Malaca , o 
que fizeram fem trabalho , porque os tem- 
pos ds favorecéram bem. E como eñivéram 
na altura de Camatra fem quererem ver a 
térra, voltáram com os levantes em outro 
bordo , e foram na derrota de Ceiláo , e 
houveram vifta da ponta de Cale , fem pode- 
rem ferrar térra; e atraveífando aoutra co& 
ta, foram tomar asaréas gordas juntó aoca«* 
bo C^amorim. E de longo daquella cofta com 
os ventos, que eram bonan^ofos , chegáram 
a Cóchim aos trinta do mez de Janeiro de 
mil quinhentos fincoenta^ e fete , onde ainda 

achá- 



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Dec VII. Liv. IV. C AP. T; 1^7 

acháram a nao Capitánia , de que era Capi- 
táo D. Joao de Menezes , que deo á vela 
ao día feguinte , muito contente por levar 
novas daquella nao , porque fe tinha della 
muito ruins fufpeítas. A nao S. Paulo tan- 
to que furgio , dcfembarcou D. Antonio de 
Noronha , e tomou logo alguns navios de 
remo , em que fe embarcou com feíTenta 
Toldados , e fe foi pera Goa , onde foi bem 
recebido doGovernador Francifco Barrero, 
e Ihe fez mercé de dous mil cruzados , que 
ElRey Ihe tinha mandado empreílar do co- 
fre do cabedal , pelas multas defpezas que 
naquella jornada tinha feito ; e a nao S. Pau- 
lo fe partió logo pera Goa, pnde invernou^ 
c fe concertou pera citar preftes pera o ap* 
no feguinte. 

Agora deixaremos eftas coufas , e torna- 
remos a continuar com Pero Barrero Ro- 
lim , que ficou partido do Cinde , por le- 
var aíEm a hiftoria enfíada. Eña Armada , 
depois que deo á vela , foi feguindo fuá der- 
rota ; e antes de chegar a Dio , Ihes deo 
humtempo táo groíTo, que Ihes foi neceí^ 
fario alijar ao mar tudo o que traziam do 
Cinde , porque os comiam os mares ; e af«^ 
íim tornáram a perder com muito rifco da 
vida o que com tantas mortes dos inimigos 
rinham ganhado naquella Cidade^ vendo-fe 
muius vezes alagados ^ e perdidos. Mas quiy 

Déos 



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a88 ASIA üe Diogo de Cotfro 

Déos que ceflTafle o tempo , com que de& 
trocados , e alagados foram tomar Chaui ^ 
onde feajuntou toda a Armada, quetomott 
diíFerentes porros. Alli achou Pero Barrete 
Rolím cartas do Governador , em que Ihe 
mándava « que de paflagcm defembarcafle 
3» em Dabul , onde acharia Antonio Pereira 
3» Brandáo , e que deftruilTe aquella Cidade 
^ de todo , porque era do Idalxá ^ com quem 
> íicava de guerra. » 

Com eílas cartas fe refez , e ajuntott 
mais alguns navios , e gente , que eftava pe« 
ra ir pera Goa , e deo á vela com vento 
profpero ; e chegando aquella barra de Da* 
Dul , achou Antonio Pereira Brandáo com 
os feus navios , que Ihe deo hum régimen?* 
to do Governador fobre o mefmo negocio; 
Gom iño fe negoctou , e deo recado a to- 
dos os navios , pera que eíliveíTem preíles 
pera o outro dia de madrugada : e tanto 
que íbi meio quarto de alva rendido , foi 
entrando pela barra dentro ; e pondo as proas 
na praia da face da Cidade , faltáram em 
térra com fuas bandeiras , e guióes , e Pero 
Barreto por derradeiro com a de Chrifto^ 
e em müito boa ordem foram commetter a 
Cidade com grande eftrondo de artilberla 
dos navios , e dos inftrumentos militares. E 
Antonio Pereira Brandáo , quelcvava adian*- 
teira , achando hum grande efquadráo de^ 

Mou- 



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Dec VIL LiVi IV. Ca^. I. 289 

Mouros , que fahíram a Ihes defender a de& 
embarcado ^ táo determinadamente oscom«* 
metteoí e efcandalizoa , que os foi levati^ 
do de arrancada , e mettendo pda Cida^ 
de , entrando todos elles de volta. Pero'Bari^ 
reto chegou á entrada ; e fabendo que An« 
tonio Pereira Brandáo hia vitoriofo , recean*^ 
do alguoi defarranjo , mandou por fogo á 
jGidade por algumas partes , pera que os fol« 
dados fe nao embara9aírem com oroubo, dd 
que hiam já táo eubifofosé Os moradores 
lanto que fentiram o fogo ^ e viram o eftra^ 
go que os noflbs hiam fazendo ^ tomando 
9S mulheres Os filhos ás cofias ^ foram fogin^ 
do pera fóra da Cidade ^ deixando os noíTog 
jfenhQres deUa i e como já hia amanhecen*» 
do, c elles viam tudo, mettéram á efpada 
toda a coufa viva que acháram ; e os qu9 
mais pafsáram efte tranfe, foram mulhei'esi 
meninos , e gente liiefquinha , porque a da 
guerra foube-fó pdr eril fálvo ; e neila fól 
tamanba a crueza , que corriam pelas ruaa 
áfroios de fangue. 

Taíitó fe iñettéfart) os rioflbs pela Cida-> 
de , após ós que hlánl fogindo , düe fofaiit 
hibindo até Oinoñte, oñdéeílava numafor-» 
mofa Mefquita de abobada , que defribáram , 
r puzeram por tei'ra ^ féni deixarem coufa 
em pé. Pero Barrero Rolim mandou por al** 
guns Capitáes^ que déflem fogo a toda a 
a§utQXom.JF.P.L T a- 



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apo A5IA DE DioGO de Couto 

Cidade, como fe fez, porque os Toldados 
fe nao Rietteflem pelas cafas a roubar , o que 
Iho nao eftorvou , porque a mor parte doló- 
les fe recolhéram carregados de razendas, 
por cftar efta Cidade muiro rica y como aquel* 
la, que era a principal efcala de toda acoí^ 
ta do Idalxá. Feito efte negocio , fe embar* 
cou Pero Barreto Rolim, c mandou Anto- 
nio Pereira Brandáo com os feus navios. 
Sera (]ue foíle pelos ríos aílima queimar , e 
eftruir todas as povoa^Óes que por elles 
houveíTe : o que elle fez rouito bem , dei^ 
xando tado táo aífolado , e deílruido i que 
nao havia emque por olhos. Acabado iílo, 
fe recoiheo Pero Barrero Rolim pera Goa , 
onde o Governador o recebeo com honras , 
e aíEm o merecía , porque deixara aíTola-* 
das , e derruidas as mores , e mais ricas duas 
Cidades da India. 

C A P I T U L O ir. 

JDe como o. Governador Francifco Barreto 
pajjou d térra firme em bufia dos Qati-^ 
taes do Idalxá : e da batalba que Ibes 
deo y em que os desbaratou : e de outras 
coufas. 

VEndo o Idalxá o damno que os nof» 
fos Ihe íizeram por toda fuá cofia , e 
que Ihe. defiruiram j e abrazáram a Cidade 
- . de 



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DEa VIL Liv. IV* Cap. IL 191 

de Dabul , etn que feus vaflallos recebéram 
camanhas perdas, e elle tanta aiFroma, de^ 
terminou de fe vingar , e de fazer guerra 
ao Eftado ^ por ver fe podia lanzar mao das 
térras firmes de Salfete , e Bardes. Pera if* 
to fez chamamento de feus Capitáes » e ibes 
fez fobre ííto huma grande falla y emquc 
Ihes reprefentou a obriga^áo em que elles, 
como vaíTallos tao leaes , eftavam de fatisfa* 
Eerem as affrontas , que tinham recebido dos 
Portuguezes ; e como faavia tantos annos que 
Ihe comiam as fuas térras firmes de Salfete ^ 
e Bardes y que Ihes deram por mandar Mea«» 
lecan pera Portugal , o que nunca os Gover* 
fiadores da India Ihe quizeram cumprir : e 
que elle agora , pois Ihe tinham dado tama* 
nha occafiáo , quería lanzar máo do que era 
leu y e que determinava de mandar defcer 
feus exercitos abaixo ; e commetteo logo alli 
aquella empreza a Nacer Maluco, feu Ca«» 
pit^ geral ; e com elle outros quatro Capí* 
tie^y Calab^tecan o fegundo , e hum filho 
feu efquerdo chamado Cahircan , Miabcru ^ 
e outro ; e deo por regimentó a Nacer Malu* 
co y que fe foíTe ajuntar com Moratecan Go« 
vemador do Concan , que tinha defcido o Ga« 
te contra D. Antáo de Noronha , como já 
atrás contamos no Cap. X* doILLiv. , pera 
que ambos com igual mando fizeflem guerra 
aGoai e ás térras^ e Ubas de fuá jurdi^áo. 
T ii Ef* 



\ 



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^92 ASIA DE DioGO DE Couto 

Enes Capicaes chegáram a Ponda na en« 
trada de Abril , e allí fez Nacer Maluco 
alardo de fuá gente , e acbou vinte mil ho* 
mens , em que entravam dous mil de caval* 
lo, e cfcreveo aMoratecán , queeftava em 
Carule , que fizeífe elle por aquella banda 
guerra contra as térras de Bardes , e fuas 
Tanadarias , e que elle ficaria deftoutra ban- 
da de Sallete , pera aíC^p darcm mais que 
fazer áos Portuguezes. O Governador foi 
logo avifado da Cidade dedes Capitáes , e 
acudió logo a prover todos os paífos da Ilha 
de Goa , e pelos rios efpalhou muitos na« 
vios, e manchuas pera defenderem a paíTa- 
gem aos inimigos ; e o mefmo fez pelos pal* 
ios das mais libas , e lan^ou efpias fobre 
aquelles Capitáes , pera que o avifaíTem de 
como eflevam , e do poder que tinham. A 
primeira coufa que fez o Nacer Maluco ^ 
foi deípedir Calabatecan y e feu filfao com 
finco mil homens , pera irem tomar pofle 
das térras deSalfete, earrecadarem orendi« 
mentó daquellas aldeas ; o que elles fizeram , 
mandando diante grandes feguros pera os la- 
vradores , e naturaes fe nao alterarem , nem 
dffugentarem , mas que grangeaflem fuas tér- 
ras pacificamente , e pagaífenñ feus foros ao 
Idalxá , cujas eram , porque elles vinham pe- 
ra os favorecer , e defender de quem Ibes 
ijuizeíle fazer injuria ^ damno ^ ou affronta. 

Fei-. 



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Dec. vil Liv. IV. Cap. H. 29J 

Feito ifto , e quietos os moradores , fo« 
ram aquelles Capitáes dar vifta á fortaleza 
de Rachpl , onde eftava D. Pedro de Me- 
nezes , o Ruivo , por Capítáo , que Ihes fa- 
llió com duzentos foldados , e quinlientos 
peáes da térra , e travou com os da dian- 
teira algumas efcaramu^as , em que Ihe ma- 
tou alguns Mouros , deixando-fe ficar no 
campo com as codas na fortaleza , e dallí 
Ihes fahio muitas vezes a dar toques , em 
que fempre os efcalavrou ; e todavía de al- 
gumas o fizeram recolher á fortaleza com 
trabalho , por carregar íobre elle todo o po- 
der , íicando os Mouros comendo as aldeias , 
que fe Ihes nao pudéram defender por fer 
o poder groflb. O Govcrnador teve logo re-. 
cado de fuá entrada ñas térras de Salfete, 
c que as gentes deMoratecan appareciam já 
pelas de Bardes , pelo que determinou depaf* 
far a Salfete em peíToa, edar*lhes batalha, 
porque o can^ariam muitó, íe !he fícaíTem 
invernando ñas térras ; e aílim fez lo^o alar-* 
do de toda a gente que ha vía em Goa , e. 
achou tres mil foldados muito ludrofos , e 
duzentos de cavalío ginetes , que cram os 
moradores , debaixo da bandeira de Jorge 
de Mendoza, Capitao de Goa, e o Tana- 
dar mor fez pelas Ilhas mil peaes , que o 
haviam de acompanhar naquella jornada. 

Preítes tudo y paflou-fe o Governador a 



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194 ASIA DE DiOGO DE COUTO 

Ga^aim , porque eftava aíTentado que paiTaC- 
fem por Dorubate , por chegarem as efpias , 
e affirmarem que o^acer Maluco eftava em 
Ponda , e que tinha tomado todos os caini« 
nhos , que vam de Benaílarim pera lá , e 
impedidos com multas tranqueiras , por íe 
recear que o foíTcm lá bufcar. Alli em Ga- 
^aim repartió o Governador toda a folda- 
deíca por feis bandeiras , cujos Capitaes eram 
D. Aniáo de Noronha , Jeronymo Barrete 
Rolim, Martim AíFonío de Miranda, Pan« 
talego de Sá , D, Fernando de Monroy» 
D. Alvaro da Silveira , e Alvaro Paes de So- 
tomaior. Com o Governador hiam mais de 
íincoenta aventureiros de cavallo , a fóra a 
gente de fuá obriga^áo , em que entrava D. 
Antonio de Noronha o Catarraz, que leva- 
va feis homens de cavallo. Toda efta gen- 
te paflbu aSalfete em mukas barcas^ e jan- 
gadas , que pera iíTo eftavam feitas ; e der- 
radeiro de todos paíTou o Governador , e 
foi marchando até o paflb de Dorubate^ 
por onde pafsáram á outra banda da térra 
firme, 

Pofto lá o Governador , comejou a mar-^ 
char neda ordem. D. JoSo Bellez , que foi 
Mouro y que era Capitáo do campo diante 
de todos, com mil e quinhentos lafcanns> 
pera ir <tefcubrindo tudo , e logo os CapK 
taes da Infantería ;, e pelas pootas do efqua- 

dráo 



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Dec. vil Liv. IV. Cap. II. 29 j 

drao a gente de ca vallo , cento de cada 
banda : no Hieio toda a bagagem com aU 
gumas pe^as de campo, e na retaguarda o 
Governador com todos os avenrureiros , e 
a fuá guarda , que era de cem efpingardas. 
E porque os noflbs peács Gentíos coftuma- 
vam metter nastoucas ramos verdes notem-» 
po da batalha pera ferem conhecidos dos 
Portuguezes, e fe defenferenyarem dos ini- 
migos , (que coftumavam , quando fe viam 
perdidos , pórem ñas toacas os mefmos ra- 
mo; pera paflarem por noíTos , ) mandou o 
Governador fazer a todos cara pu?6es d^ber- 
tangil vermelho pera ferem diferentes do$ 
outros. 

Partidos de Dorubate , chegáram antes 
do meio dia á fortaleza de Pondái, e acbá* 
ram em campo a Nacer Maluco com qua-^ 
torze milhomens, queja oeñava efperandq 
pera Ihe dar batalha , e eílava podo a huma 
ilharga da fortaleza , com as coilas em hu-r 
ma ferra , e tinha feíto huma cava de finco 
paíTos de largo , que tomava huma paífagem 
por onde os noflbs haviam de pallar pera 
onde elle eílava. O Capitáo da Infateria dk 
térra , que era D. Joáo o Mpurifco , tanto 
que deo na cava , foi-fe defvianda , e to-> 
mando o caminho pela banda de íima , pe« 
ra travar com os krimigos , e o meñno ñ% 
zeranx os Capitáes das bandeir^, que fem? 

pre 



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s^6 ASIA DE DioGo DB Cquto 

pre o foram feguindo* Osinimigos, quefi* 
cavam daqudla parte, tanto que viram que 
os noíTos os hiao demandar , lan^ram ío^ 
bre elles multas bombas de fogo , que fíze-> 
ram algum damno ; e paíTando por tudo, 
come^áram a travar huns com os outros, 
difparando a noíTa Infantería aquella primen 
ra carga , com que Ihe derribáram muitos. 
O Governador , que bia detrás com toda a 
gente de cavallo , foi-fe apreíTándo pera ir 
pegar pela parte , em que vía a bande'ira de 
Nacer Maluco , levando hum galope ap^et 
fado ; e como a cava era raíleira , e nao íe 
enxergava de fóra, achou-fe íobre ella , e 
i)áo vio outro remedio melhor que apertar 
as pernas a bum formofo cavallo mellado , 
cm que hia ; e achou*Q táo prcftes , que fal« 
tou da outra banda , e o mefmo fízeram al-^ 
guns ^uehiam junto delle, como foram D« 
Antonio de Noronha p Catarraz , e ao fal*. 
to alcanjou o cavallo com os pés na borda 
dá cava , e esbarrou de fei^ao que cahío; 
nías qulz Déos que fofle pera huma ilharga 
já da burra banda , e que nao perigaíTe o D^ 
Antonio de Noronha , antes levando as re-* 
deas n? máo , e levantando-fe o cavallo, 
tornou a faltar nelle. Antonio Soares , irmáo 
de André Soares , que era Procurador de 
ElRey , ao faltar nao vingou o cavallo á 
outra ban4a^ e^ahio dentro na (;ava d^bai^v 



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Dbc. VII. Liv. IV. Ca?. II. 297 

xo do cavallo , onde logo morreo ; e o mef- 
ino aconteceo a ourros dous , a que nao fou- 
bemos osnomes. Todavía muita parte delles 
vingáram a outra banda , e^os outros foram 
rodeando a cava. O Governador tanto que 
fe vio da outra banda com os que o feguí* 
ram , enredando a lan^a , e appellidando Saht'^ 
Jago j foi romper aquelle encontró em os 
Mouros com tanta for^a que cada hum acer- 
tou o feu , e derribou aquclle com que p&- 
gou , (¡cando já todos baralhados por todas 
as partes, fazendo a nofla arcabuzaria nel<- 
les arrezoado damno. Vendo o Nacer Ma-- 
luco a determina^So do Governador , e fen-- 
tindo medo em os feus , tocou a recoiber ^ 
e foi-fe retirando pera huma ilharga da for- 
taleza , fem fe querer metter nella , por íe 
nao haver por feguro , deixando-a ao Go- 
vernador, que allí logo a mandou derribar 
por todas as partes por muitos robadores 
que levava , o que fe fez com muita pref- 
teza. O Governador lan^ou efpias aos ini- 
sxiigos , e foube que hiam em desbarato , re- 
colhendo-fe por efle Concan dentro ; pelo 
que fe deixou alli ficar defcangando , e to-» 
mando refei^áo , e das tres horas por diante 
fe foi recolhendo pelo caminho de Benafta*» 
rim , e de paflagem foi defmanchando todas 
as tfanqueiras que achou , e aauella noite 
foi dormir daoutr^ b^nda da Una^ eaodia 

fe- 



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i^S ASIA DE DiOGO DE COUTO 

feguinte cnirou em Goa com grandes feftas^ 
e regozijos. 

CAPITULO III. 

De algumas coufas , em que o Governador 
Francijco Bárrelo proveo : e de alguns 
Capitaes que dejpachou pera fóra : e de 
huma grande vitoria que Joao Peixoto 
houve em Bardes de hum Portuguez ar- 
renegado. 

REcoIhido o Governador a Goa , por* 
que era já tarde , entrou no defpacho 
dos provimentos das fortalezas, e de alguns 
Capitaes , que haviam de ir entrar neilas , que 
foram D. Antonio de Noronha o Catarraz pe^ 
ra a de Dio , por acabar feu tempo D. Diogo 
de Noronha , que Já eñava ; e niandou com 
elle feis Capitaes pera darem mezas a mil e 
duzentos homens , que lá haviam de inver* 
nar; eeftes foram Aires Telles deMenezes, 
quehia nomeado porCapitáo mor da Arma-» 
da daenfeada deCambaya, Alvaro Pires de 
l*avora , Aires de Miranda , Joáo Lopes Lei- 
tao , Jeronymo de Sonfa , D. Diogo Rolim ^ 
Aires da Silva , e Diogo Pereira. E aílim 
defpachou Antonio Pereira Brandáo pera Ma- 
luco , por fer próvido daquellas viagens, 
que levou muitos. provimentos , e foi na nao 
Santa Maria dos Anjos ; e da me&na ma« 

nei* 



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Dec. vil Liv. IV. Cap. III. 299 

neira proveo Malaca , e as fortalezas das 
cofias do Malavar, e Norte; e com ifto íe 
cerrou o invernó , em que o Governador or- 
denou finco Capitáes pera darecn mezas aos 
Toldados , e eíles foram D. Alvaro da Sil* 
veira-, PantalcSo de Sá , Pero Barreto Ro» 
lim , Martim Affonfo de Miranda , e Alva^ 
ro Paes de Sotomaior , e ñas Uhas poz gen«* 
te deguarni^áo pera osinimigos Ihenáo en^ 
trarem nellas. ^a de Joáo Lopes , que he 
defronte do Paflb Secco, poz Aires Gomes 
da Silva, filho de Braz Telles, com huma 
companbia de Toldados. Na de Choráo, 
Gafpar Pacheco, cavalleiro honrado , dos 
primeiros filhos de Portuguezes quehouvc 
na India , com feíTenta homens , e em íua 
companhia hum Gentío valentehomem cha- 
mado Humbraná Decais ^ das aideias de 
Ponda , vaflalJo do Idalxá , que fe veio pe- 
ra o Governador. Sao eftes Decais como 
Juizes, e caberas das aldeas y e como Al- 
motacés na reparti^áo dellas , e efte tinha 
cento e vinte peaes. E pera ficar mais á máo 

Eera tudo , apofentou-fe o Governador em 
umas cafas a Santa Luzia , e dalli vifitava 
todos os dias a ribeira das Armadas , onde 
fe faziam os galeóes novos , a que dava mui-* 
to grande preíTa , e expediente , e cada fe^ 
mana corria duas , e tres vezes os paflbs , 
via as guardas delles , e das mancbuas , 

que 



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3pO ASIA DE DiOGO DE CotrTo 

que andavam pelos ríos , e ido fazia muirás, 
vezes de noite pera os tomar defcuidados, 
c ver a vigia que tinham. O Nacer Maluco 
tanto queteve rebate que oGovernador era 
recolhido , tornou-fe pera Ponda , e raandou 
reformar a fortaleza ; e porque com as aguas 
do invernó os nao podiam os noíTos ir bui^ 
car , (por eftarem as térras alagadas ,) repar- 
tió os feus pelos paños fronteiros aos nof- 
fos , donde comejiáram a fazer toda a guer- 
ra que puderam , defendendo as coufas que 
coftumavam a pallar da outra banda pera a 
Cidade , com o que come^ou de ha ver careí^ 
tia de algumas. Mas onde elles mcttéram mor 
cabedal foi ñas térras deSalfete, que oGo- 
vernador Francifco Barreto proveo mui bem , 
mandando D. Jorge de Menezes Baroche 
com duzentos homens pera fe ir ajuntar com 
D. Pedro de Menezes feu primo , c ambos 
juntos tiveram alguns recontros com os ini- 
migos, que porierem miudos dcixamos; e. 
polio que os inimigos nelles leváram o peior , 
todavía elles andavam comofenhores da tér- 
ra , e as arrecada vam fem Iho poderem de- 
fender, por ferem tamanhas que chegavam 
a vizinhar com as térras do ídalxá. Aífim 
que todo efte invernó foi aos noflbs muito 
trabalhofo , porque nunca defpíram as ar» 
mas, paflando muitas ribeiras de noite , e 
térras alagadas pera irem dar nos inimigos, 

que 



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Dec. vil Liv. IV. Cap. III. 301 

que nao dormiam eai parte alguma feguros^ 
e porque eíla guerra foi mais de trabalhos , 
que de proveitos y nao trataremos della roais 
neíla parte« 

O Moratecan , que fazia guerra ás térras 
de Bardes, tambem as inqúietou muico com 
outros aíTaltos , a que fempre rcfiílio Joáa 
Peixoto y que lá eftava por Capitáo com fin- 
coenca folaados , e muitos peáes da térra , 
com que andou fempre nos paíTos defenden-* 
do as entradas: e o que mais o inqúietou ,, 
e mais damnos fez por todas aquellas aldeas , 
foi hum Portuguez arrenegado, que andav4 
com os Mouros , que por cobrar crédito 
com elles, femoftrava muito atrevido. Efie 
fez huma tranqueira forte nos eftremos das 
térras , em que fe apofentou com quinhentos 
peáes, e dalii fahia a faitear os lavradores ^ 
e a roubar os naturaes , que já com o medo 
delle nao lavravam as térras , e a mor par- 
te delles eftavam recolhidos ñas Uhas vizi* 
nlias a Goa , com o melhor da fubftancia 
que tinham. Joáo Peixoto , que era muito 
bom cavalleiro , armou-lhe multas vezes al- 
gumas cilladasf pera o haver ás máos ; mas 
nunca pode y porque o arrenegado era mui 
precatado , e todo$ os feus faltos fazia de 
«loite , fem dar conta nem aos fcus , da par«* 
te por onde havia de entrar , nem o que de- 
termioara fazer « com o que trazia ao Jo^o 

Pet. 



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302 ASIA D£ DiOGO DE CoVTÓ 

Peixoto muito candado , e quebrantado. B 
informahdo-fe do modo da fuá tranqueira, 
determinou de o ir commetrer neila , e lan*^ 
$aIIo dalli : pera o que mandou pedir ao 
Governador alguma gente , que Ihe mandou 
cem Portuguezes de efpingardas. Com eftes ^ 
e com os que mais tinha , e duzentos peaes 
da térra , partió huma madrugada pera a 
tranqueira , que commetteo com grande de« 
terminagáo: e podo que achou no arrenega- 
do grande reíiítencia , todavía elle a entrou 
com grande damno dos inimigos , porque a 
arcabuzaria fez lugar a tiído , e o arrenega* 
do fe foi recolhendo pera os matos , deixan* 
do a tranqueira^ que foi pofta toda afogo^ 
fem Ihe fícar nada em pé. Com efte feito 
fe recolhéram os noííos com alguns cativos y 
e fáto, que na tranqueira fe achou. Oarre^ 
negado , tanto que iahio da tranqueira , foi« 
fe pelos paíTos das térras , onde os Mouros 
tinham gente de guarni^ao , e ajuntou dous 
mil peáes , e duzentos de cavallo , e foi ata^ 
Ihar o caminho a Joáo Peixoto , que ao re^ 
colher em hum paíTo bem perigofo , deo com 
elle ; mas como era cavalleiro , e determi* 
nado, nao íe embara^ou comcoufa alguma^ 
antes com muito acordó y e animo repartió 
08 íeus em dous efquadr6es , e commetteo 
a paííagem , onde tere huma muita afpera 
batalha com os inimigos ^ emque fe vio per* 

di- 



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Dec. vil Liv- IV. Cap. IIL 303 

dido i mas a efpingardaria fez caminho de 
fei^ao, que foram os noíTos paflando, aiq* 
da que com muito rifco , perdendo a]guns 
companbeiros ^ porque chegou a coufa a fe 
bat^alharem huns com osoutros^ echegarém 
ás máos y e aos cabellos ; mas como os noí^ 
fos víratli qué o remedio de todos eílava emr 
feus brajos , fizeram muito por fe ajudarem 
delles ; e aífim quaíi todos miílurados foram 
caminhando grande eípa^o , até que quiz 
Déos noflbSeahor déílem huma efpingarda- 
da noCapitáo da gente de cavallo, qye lo* 
go o derribou morto , e hum foldado Jhe 
cortoa a cabega, com o que os feus afracá- 
ram , e os noflbs cobráram tanto anim0 , que 
voháram fobre os inimigos , e os fizeram iti* 
gir , com morte de mais de cento e íincoen* 
ta 5 e muitos caballos. Joao Peixoto ven- 
do desbaratados os inimigos ^ fe foi reco« 
Ihendo até Bardes , e mandou a cabera do 
Capitáo de prefente ao Governador , qu^ 
a .efiimou muito y e Ihe mandou os parabens 
do honrado fucceífo que teve. O arrene* 
gado íerecolheo ferido, e nao fez por en^ 
táo mais aílaitos 9 nem houve mais ínquic* 
ta^s naquelias aldeas. Nefte eñado deixa-- 
remos eftas coufas , porque nos^ cabe aqui 
continuarmos com Manoei TravaíTos , e Bal^ 
thazar Loba de Soufa , que deixámos fa-* 
zendo*fe prcftes ^ hum pera levar o Bifpo 

' á 



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304 ASIA bE DioGo ún Covifo 

i Ethiopia , e o outro pera a Uha de Sáó 
Louren^o» 

CAPITULO IV. 

Do que aconteceo na viagevt a Manuel Tra* 

vaj/bs , até lancar oBtfpo no Porto de 

Ar quicé : e do que fuccedeo ao Bif- 

po até Barod. 

Por tnuita preíTa que em Goa íícáram 
dando aos navios, que bariam delevat 
o Bifpo , e os que haviam de ir á Ilha de 
S» Lourengo , nao puderam dar á vela , fe« 
nao Balthazar Lobo em Janeiro ^ e Manoel 
Travaflbs em Fevereiro* Efte levava quatro 
navios , de que a fóra elle eram Capitáes 
Pero de Siqueira , Vaíco Correa j natural de 
Alcacer do Sal, e Antonio Yaz, com quem 
hia embarcado o Bifpo D« André deOuvie-* 
do, e hiam com elie dous Padres da Com<^ 
panhia , o Padre Manoel Fernandes pera Reí« 
tor, e o Padre Gonzalo Gal tamas Cordo vez 
com alguns irmáos. Dadas ellas duasArma? 
das á vela , foi-fe Balthazar Lobo íeu cami* 
nho , a que depois em feu lugar tornaremos ^ 
e Manoel TravaíTos por outra derrota de-^ 
mandar a coda de Arabia, eaos vinte efeis 
deFevereiro (que foíQuarta feira deCinza) 
chegáram á Ilha de Sacotorá , onde o Bifpo 
defembarcou com oa companheiros ^ e em 

htt- 



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Dec. vil Liv. iV. Caí. IV. 36^ 

huma Ermida que alli eilava , deo Cinza ^ 
e fe fez o Oñicio conforme ao tempe , e 
depois foi viíitar a Igreja , que fez o Berna*» 
venturado Ápoñolo S* Tliomé , que eílava 
dentro na povoacáo , onde o Bifpo diñe Mif* 
fa : e acháram alli hum Ermitáo dos da ter* 
ra cotA hum compánheiro y que tinha hum 
capello deS» Francifco, que parece Ihe deo 
aigum Frade ^ que por alli paíTou. Alli fe 
detiveram até o Domingo feguinte y em que 
depois de ouvirem MiíTa fe embarcáram , e 
fio fabbado dahi a feis dias foram haver vif* 
ta da Cidade de Adém , do que fícáram en^ 
íadados , e aquella noite embocáratti as por* 
tas do Éüreito pela Banda do Abexim ; e 
fendo já dentro y Ihes deo hum temporal tio 
rijo , que aparten os navios , e dalli de Ilha 
em Ilha foram tomar a de Ma^uá y onde 
Manoel Travaífos levava por regimentó i 
que nao bulüífe , nem alvorogafle a térra ^ 
por fer do Turco, e que pacificamente dei* 
taíTe o Bifpo emArquicó, fobre o que hou* 
ve antre os foldados grandes motiiis , por^ 
quedefejavam de dar naquella Ilha^ emque 
efperavam tomar boas prezas $ e o Bilpo 
com muito trabalho os apaíigou* Mailoel 
TravaíTos por nao fahir do regimentó que 
levava , furgio hum pouco aífaílado da Ilha^ 
porque quie primeiro tomar falla do que lá 
illa , e logo foram viftos da térra firme y que 
Q^uto. Tom. IF. P. L V era 



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306 ASIA PE DlOGO DíT COUTO 

era multo perto , onde acertoy de eftar huní 
jmp^o de bum Gonzalo Ferreira , que era 
Capitáo ) e Senhor do Pono de Arquicó, 

g)r outro nome Decano , que Ihe deo o 
mpenidor ; e vendo os. navios , mandou 
Jogo a elles hum mojo Abexim de hum 
FrancifcoJacomeMonteiro, porquem man^ 
dou huma carta deíeuamo aoCapitaomór^ 
em que . Ihe dÍ2Ía , que eílivera alli muiros 
días efp^rando por navios da Indi^ , por Ihe 
parecer que viria oPairiarca, eque por ter 
iiovas de Turcos fe r^colhéra. O.Bifpo a 
e^impu muito^ por faber que a térra eftava 
quieta , porque do mojo foube que em Ma^ 
(uá eñava SoU^o Ifmael , que era Senhor 
daquella liha , e da de Oalaca , que eftava 
pito leguas ao mar , e n^o tinba comfígo 
fiiais que vinte e finco Turcos» Eftando nef- 
tas perguntas, apparecco huma gelva , que 
dous. 4os noflos navios foram demandar^ 
e a íizeram varar na Hha deMajuá, elogo 
Sícudiram os Turcos coni efpingardas a det 
fcndella » o que vifto pelos noíTos , fe recor 
Ihér^m por pao amotinar a térra. O Soltáo 
jfmael , que tambem defejava de nao rom^ 
per i^m os noflos , ou pera melhor dízer 
eftav^ medrofo, porque tinha pouca gente; 
(porque eftes nada fa^em por virtude , íenao 
por neceílid^de , ) arvorou logo fobre hum* 
¿uarí» dua« ba^deicas > huma branca em íir 

. . nal 



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Dfia VIL Liv* iV. CaKIV* 507 

nal de paz , e omra veriiielha em final de 
guerra^ como que jconvidava aosnoíTos qual 
daqueüas queriam acceitan O Capitáo mót 
com o parecer do Biipo ^ e dos mais refpon» 
deo-Ihe com outra bandeira branca* Nefta 
mefaia conjungáo foi o mo^o de Gonzalo 
Ferreira , que eilara etii Arquicó por Feiror , 
e foi recebido dos Porcuguczes com caval* 
gaduras , que viviáo perro , porque logo ti» 
veram as novas dos navios ^ e com fuá vin^ 
da defembarcou o Biipo jio porto de Ar* 
quicó , e foi recebido dos Portugueses com 
grande alvoro^o. Iño foi aos dezoito dias 
de Mar^o. Manoel TravaíTos tanto que dei*^ 
tou o Bifpo em térra ^ e a todos os mais 5 

Í|ue com elle haviam de fícar, arrecadando 
uas cartas pera o Governador ^ tornou a 
fazer vela psra a India , e no camitlho Ihe 
. delappareceo a fufta de Vafeo Correa , que 
foi dar á cofta por Xael , onde os mais do$ 
Portuguezes foram mortos , e elle com os 
toáis navios chegou a Goa ^ e deo as cartas 
ao Governador Francífco Barrero , que ctA* 
moa multo ficar o Bifpo poflb em torra 
^nto a fea ¿ilvo*^ 

E tornándola continuar com elle a'quet* 
le dia, q^ie foram aos dezoíto de Mar^o; 
^jn '. que ; deiembal'cou já Sol pofio , come^^ 
a.caminhar com muito regozijo, e alvoro^ 
(o^ ^ * levándolo os Portuguezes em meio^ i 
) V ii por 



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3o8 ASIA DE Dioad de Coüto 

por todo o caminho o foraxn fervindo de 
tudo em muita abaftanpa ; e porque nao fi- 
t]ue em efqueciinento , diremos os nomes de 
todos. Antonio Goes de Santarem , Francií-* 
co Dias Machado , Pero Martins , Diogo 
Gon9alves , Jorge Vaz , Francifco Morcira , 
Diogo Moniz , Joáo Fernandes , que foi de 
D. Francifco da Gama., fegundo Conde da 
Vidigucira. Gafpar Nunes , Gongalo Soares 
Cardim , natural de Cintra , que foi em com* 
panhia do Bifpo , que aínda ao prefente vi« 
ve , e que de . lá nos mandou a relajo déíia 
jornada j e de tudo o que fuccedeo ao Bif« 
po , do dia que entrou na Ethiopia até que 
jnorreo. Ao outro dia , que foi fefta feira ^ 
chegáram ahuma aguada, onde dormiram; 
c ao labbado vinte do mez, encontráram mais 
alguns Ponuguezes ., que vinham em bu fea 
dor Bifpo , que eram Francifco Jacome Ca- 
picáo da guarda deElRey, Luiz Cufiodío, 
Antonio JLopes de Gliveira , e Antonio de 
SampaiOi que traziam formofas cavaigadui 
ras i caps de grá , chapeos de veludo pres- 
to,, muitos.lacaios, e alguns criados doBar- 
nagais com cavallos, emulas^»pera o Bifpo ^ 
e íei» cómpanheiros , que^rccebeo a todos 
inuito /humanamente y e foram caminhando 
^uito bem próvidos detudo. Aooutrodia^ 
que fbi Domingo , houve Mifla , e préga«< 
fáo com muita devo^áo^ e alegría detodoF* 

Da- 



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Dec. VII. Liv. IV. Cap. IV. 309 

Daqui foram fempré caminhando por al- 
deas^ epovoafSes profperas , e abañadas de 
maiKimentos de todas as fortes , e aos \\n^ 
te e. feís días do mez de Marjo encóntrá- 
ram o Barnagais , que jávinha bufcar pBif- 
po, e fe Ihe lanjou aos pés com muita hu- 
ittildade , e elle o recebeo niui honradamen- 
te , e Ihe deitou fuá bencáo , e voltou com 
elle, dando-lhe pelo caminho todo oneceí* 
íario a todos até chegarem a Baroá , e o 
Bifpo foi levado ahumalgreja dosAbexins 
da invoca^áo doAfjú S/ Miguel^ onde fez 
orajáo , e deitou a ben^o a todos , c depois 
foi apofentado em humas cafas mui boas ^ 
e os Portuguezes todos ao redor. Aqui fej 
detíveram até a Pafcoa , que cahio a onze 
de Abril , com muito gofto , e alvoro^o, 
que Ihes nao durou muito , porque logo a 
primeira Oitava chegáram novas apreíTadas, 
que tinba defembarcado em Arquicó hum 
Baxá do Turco com muita gente, quevinha 
em foccorro do Rey de Adel , que trazia 
guerra com o Emperador j o que o Bifpo 
íentio muito, elogo fe poz a caminho com 
mdos os Portuguezes pera a Corte, cami* 
nhando com muita preíTa ,' e tentó. Aífim o 
deixaremos por bum pouco , porque he ne-^r^ 
ceítario continuar com Bakhazar Lobo de 
Soufa , que deixámos partido pera a liha 
de S. Lourenco. 

CA- 



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JXO A'SIA BB DiOQO DE CouTo 

CAPITULO V. 

Do que fuccedeo a Baltba%ar Lobo de Sm* 

Ja na viagem até dllba deS* Louren^ 

fo: e da dejcripfae dejla liba , e 

das de ^ emaró : e qual feja a 

M^nutbias de Ptolomeu. 

P Anido Balchazar Lobo de Soufa de 
Goaí , como atrás diflemos no Cap. IV« 
deftc IVt Liv, , foi fcguindo fuá derrota até 
liaver yifta da Ilha de S, Louren^o , que foi 
codeando, pela banda de> dentro ; e mandoa 
pelos navios de remo correr todos aquelles 
portos pera os notarem , e fondarem , e ve* 
lem fe havia raito algum da gente Portu* 

fueza , que fe por allí perdeíTe , ficando 
althazar Lobo de Soufa no rio de Man- 
^alage commutando algumas coufas com os 
da térra até fer tempo de fe recolhen Al* 
guns dizem que fizera /alli hum Rey Chrif-* 
táo com alguma gente fuá , de <]ue nao te- 
mos mais certeza , que ouvillo a feu fillio 
Diogo de Souía , que Iho contara feu pai : 
e pois deíla jornada nao temos mais que di- 
seer, concluiremos efte Capitulo com a def^ 
f rip9ao defta Ilha ^ e das do Comoró , que 
eftao pegadas a ellat 

Efta.Ilha deS. Lourengo, a que os ef- 
(ritores chamam Madagafcar ^ fcrá de du-» 

zea- 



1 

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Dec. Vil; Liv. IV. Cap. V. ^it 

zentas e noventa leguas de comprido , t cera-» 
to de largo , no mais eftreito de fiñcoenta j 
comef a ém onze^ gráós e meio da banda do 
Sul , e fenece eni vinte e finco e meio. Hd 
toda efta Ilhá povóada de humas géiiceS) 
nem rao pretos como Cafres, nem táo alvos 
comoosMouro^ de toda aquella coftá.Tra-^ 
iem os homens cabellos cóinpridos , éíú ítwlI 
bcm proporcionados , e affim mefmb as mu- 
Iheí-es. Prefumc'-fe que foí já efta lilla con- 
^uiüada dos Jáos , e que sió eílas geMeá 
meftijos dantre elles, eosantigos naturaes,' 
que deviam de fer Cafres da outfa banda 
da térra firme» He roda efta Ilha fenhoréada^ 
de m'uitos Reys , que de continuo tém guer- 
ra anrre fi , de que nao -temos coñhecimea- 
to , porque o SertSó nunca fói tratado , nem? 
vifto dos noíTós , por ferem os natüraes t<W 
dos grandes noíTos inimigos , e o mefmó dód^ 
Mouros : e daqüi vertí que poi* nenilum ca- 
fo os que alli vam ter defembarcáo cm ier- 
ra , porque fe os acham , logó sao mortosr 
Os Mouros da coda de Melinde, que ártti-« 
gamente aili foram tef , fundáraní duas po- 
voacóes , em qué aínda hoJ€ vivem feos def- 
cendentes , governados por Xcqüés i hiinfva 
em huma liba , qué eftá no meio de huñ* 
fio chamado Manzalage , de que logó tra- 
taremos ; e a oütra dá outrá bándá de fór^ 
emoutro rio chamada Bittiáré. Oñ&tAepró^ 

prio 



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jia ASIA DE DioGO de Covto 

prio 4e(la liba , por que os naturacs a nor 
meáo , he Ubuque , e por eíTa a conhecem 
os Mouros que pera ella navegáo; Ptholo- 
meu Ibe chaina Minuthias y ou preíuiDem os 
(Geógrafos que he e{la a que temos asduvi* 
das que logo diremos. Os modernos Ihc 
chamao Madagafcar , e os Portuguezes a 
Ilha de S* Lourenjio , porque em tal dia foi 
defcuberta por elles» 

O rio de Manzalage , que aflima difle- 
mo6 I eílá em altura de dezefeis graos e 
ineio , he grande , e formofo , e tem no meío 
huma liba tamanha como a de Mozambique » 
chamada Sada , onde os Mouros habitam y 
porque en) toda aquella coila defde Melínde. 
até Qofala , e S» Louren^o nao fe apofern 
táram fenáo em libas, por fe recearem dos 
Cafres. He eíla parte de redoTv do rio Man"* 
?alage fenhoreada debumRey,^ que cha*- 
mam Lingi , e eflende-fe feu Reydo até ou- 
tro rio , que cometa da banda do Levante , 
9 que chamam Ouria , que eílá em quinze 
gráo$ , e atravefla pelas térras do outro Rey 
chamado Tumgumaro, que he o mais po^ 
derofo de todos osdaquella liba, efaz con« 
tinuamente guerra aps Reys comárcaos ; e a 
gente que Ibe cativa a manda vender aos 
Mouros 9 que vívem na liba Sada, e todos 
Tem ás máos de Portuguezes por refgate^ 
Pefte rio Duda pera o Norte eí» huipa ein 

cea- 



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Dbc. vil Liv. IV. Cap. V. 31} 

ceada, a que chamaní Sinamario, ao redor 
della vive outro Senbor , que fe eílende pe* 
ra o Sertáo ; e adiance pera a cabera da Ilha 
da banda do Levante corre outra enceada 
chamada Tararango , que eftá em treze graos 
c meio , fobre quem fenhorea outro Rey: 
e daqui até á ponta da Ilha , onde ella co* 
ipe^a da banda do Levante , ha outros dous 
Reys, c outras enceadas, e ríos. Veftem-fe 
os naturaes de huns pannos feitos de palha 
muita fina ; fuas armas sao rodellas , aza* 
gaias, e arcos; tem muirás mulheres, esáo 
os mores ladróes y e mais crueis que ha por 
toda a Cafraria. Trazem alguns daquelles 
rios grandes Crocodilos , e pela coda ha for* 
mofas Tartarugas , deque osMouros fazem 
grande copia de fuas cafcas , que mandam 
vender aos Portuguezes ; e acham-fe tambem 
grandes pedamos de ámbar. Dá a térra mul- 
to gengivre, infinitas canas de acucar, mul- 
to mel , multo gado vacum , e o mais for- 
mofo que no mundo fe fabe ; porque ha 
bol ramanho como dous do Alentejo , e com 
hum mamilho fobre a canga , que he couía 
fa^anhofa. Dá em feus campos multo arroz , 
milho, mungo, que he hum legume , que 
Qao ha no noíTo Portugal , e cria multas, 
minas de ferro , e os matos dáo multo San- 
dalo braneo , mas bravo , e algum vermelho , 
9 qup os Mouros cbaipaip Mitlfaque, e le*? 

vam 



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314 ASIA DE DiÓGO DE CdüfO 

vam a tender hum , e outro a Cambaj^* 
pera os Gentíos k queimarend quando mor- 
tem. Pré^áo maieo o etlanho , cu Calaim , 
ral antre j;lles tanto como prata , pera 
joias das mulheres. Fazem hum vjnho de 
ihel , e agua , curado ao Sol tres , ou quatro 
diag , com o que fica tao forte , que logo 
embebeda ; echama-fe na fuá lingua Mopata* 
Nao íe criam nella feras , rtem bichos peyó-' 
nhentos, he toda muito vijofa , e bein aC- 
fotnbrada, de bons ares, e aguas excellen* 
tes , affim de fontes , como de rios. Tem 
alguns (como já diñemos) que efta Ilha feja 
a Minuthias de Ptolomeu , ao que k nos 
oíFerecéram duvidas ; porque fe elle rivera 
conhecimento defta Ilha , tambem nao dei-' 
xára de o dar das Ilhas do Comoró rao no- 
meadas; porque fe os mercadores daquelle 
tempo , que ihes podiam dar informajóes 
por navegarem por toda aquella cofta de 
Meliiide , fe víram humas , e outras , forja- 
do Ihe houveram de dar relajáo dellas , e 
nao da de S. Lourenyo fó. 

E lanzando fobré iflb noflb juizo , nos 
parece que a Ilha Angazijá , que he a mor 
das do Comoró, (de que logo trataremos,) 
he a Minuthias ; porque parece que algum- 
navio dos da cofta de Melinde , que hia pe- 
ra Mozambique , foi com algum defgarrSo^ 
faaver vifta delta Ilha i e vendóla de fóra< 

gran- 



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Dec. VIL Liv. IV. Cap. V. jiy 

grande, e forcnoüi, daría della rela^áo, é 
iría de boca enr boca a ter a Ptolomeu 
com aquella fama de fer tao aíFaftada ao 
mar, e táo grande ; e quetmettendo-a elle 
em fuas tabeas por aquella informa^So, tbe 
chamaría Minuthias , por Ilha famofa , e 
novamente defcuberta. E quem qui^r ver 
ifto mais claro, ofará na noíía novaEthio* 
pia , onde tratamos de todas eñas llhas ; e 
quem bem coníiderar aquella Ilha que FoflÍH 
Gonio efcreve, que Eudoxo de Sirico, enr 
tempo da Raínha Cleopatra de Egjpro , dis 
que achou defpovoada nefta cofia daEthio* 
pia , verá que nao pode fer outra fenáo efta 
de S. Lourcn^o : e pera melhor declarayáo , 
fareraos hum breve diícurfo fobre cfla via*' 
gem. 

Efcreve Poflidonio , que em tempo de 
ElRey Evergente do Egypio partirá Eudo» 
xo a defcubrir a India por mar; c qoevol- 
tando de lá carregado de fazendas, ricas, fo« 
ra defgarrado tomar a cofia da Ethiopia, . 
que faayia de fer a de Melinde , porque iflb 
acontece multas vezes a quem parte de Ca- 
lecut pera o Efireito do mar Roxo , como 
efie partió , e que o tempo que alli eftivera , 
tomara conhecimento com os naturacs , e 
ainda aprenderá parte da fuá linguagem. E 
depois indo ter ao Egypto fobre con tas com 
aquella Raioba ^ em que ella o alcanzara, 

Ihe 



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3l6 ASIA DE DiOQO DE COUTO 

Ifae fora fogindo pera África , e de lá fe paf- 
fára a Cales , onde armara duas embarca^Ses 
pera ir rodeando a cofta de África a bufcar 
aquellas gentes Tda: coila da Ethiopia , a quem 
ficára affei^oado, e com oolho nos grandes 
proveitos , que de feu commercio efperava , 
a que chegára , e p.aflara o Cabo de Boa* 
Erperan9a ; e que tornando de lá , achara 
huma formofa Illia naquelle caminho defpo* 
Vbada, que Ihe parecerá multo fértil, eabaf- 
tada de aguas , e fruitas ; e que por Ihe pa«' 
recer muito frefca , depois de chegar a Heí* 
panha , partirá em huma nao carregada de 
arados , e fementes , com alguns companhei*' 
ros pera a povoarem , e cultivarem , e que 
fe fora perder na cofia da Ethiopia junto do 
Cabo de Boa Efperanja , onde dos pedamos 
da nao ordenara huma embarca^áo, em que 
fe falváram. E confiderando nos toda efta 
viagem, por fem diivida temos fer aquella 
Ilha , que acháram tamanha , e tao fértil , efta 
deS. Louren^o, porque deída cofia de Me* 
linde até o Cabo de Boa Efperan^a nao ha 
outra tamanha , nem tao fértil. 

Ejá que fallamos ñas Ilhas doComoró, 
daremos dellas huma breve rela^ao. Sao ef- 
tas libas quatro , e efiao em altura de treze 
até quinze graos e raeio. A maior de tóda$ 
be a Angarica , que íerá de quarenta leguas 
dccomprido^ dez de largo ^ he tao alta qua« 



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Dec* vil Liv. IV. Cap. V. 317 

fi como a Ilha do Pico , faz por íima hum 
comoro grande , e vai delcendo com huma 
ponta até o mar. He toda em roda muito 
limpa de baixos , e reñingas , e he íenhorea- 
da pela fralda de Mouros Arabios daquelles , 
que primeiro vierani ter á coda de Melinde ^ 
eeftá toda repartida emvinte fenhorios, que 
continuamente tem antre íi guerras : aquí he 
o principal commercio dos Mouros de Me» 
ca , porque vem todos os annos a ella muí* 
tas naos a carregar de gengivre , e de ou* 
tras mercadorias, eos Cafres naturaes daqui 
9Í0 muito pretos, easmulberes bem afibm^ 
bradas , e tem ñas fontes fogos como Abe«^ 
xins , e sao efcrayos muito eftimados de to* 
dos. As outras tres lihas fe cbamam Anjoa^ 
ne , e tem hum fó Senhor , Molalle outro i 
e Maoto, que he a maior, he tambem fe* 
nboreada de hum Rey, e ha nella trintaCi- 
dades a feu modo , de trezentos até quatro^ 
centos vizinhos: he de grandes ferras, tem 
multas ribeiras de aguas excellentiílimas , sao 
todas de ares mui fádios. Nao ha nellas bí-^ 
cho algum pe^onhento , sáa mui fértiles de 
arroz y milho, vaccas, cabras, gallinhas, e 
de tantas canas de acucar , que sao como 
matos bravos, muito groflas , e formofas; 
e fe fe ordenarem nellas engenhos , feráo 
tao profperas , como a Ilha da Madclra : 
ha nellas infinito gengivre , e tem difpofígao 

pe- 



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3i8 ASIA DE Dioao de Coüto 

pera rudo o que nelias fe qtiizer femear# 
Hum Fidalgo honrado andou alguns annotf 
em requerinjento com ElRey D; Sebaftiáo , 
quelhedéíTe licen^ pera os conquiftar , dan*^ 
do*lhe navios y e artilheria , que elle buícaria 
gente , e que daría a ElRey huma copia de 
eícravos todos os annos pera as gales ; e 
fiáo.foubemos os inconvenientes que fe nií* 
£o acháram ; porque ainda que nao fora 
mais que pera arrancar delias os Mouros^ 
e defterrar o commercio de Meca , fora cou* 
fa de muita importancia ; quanto mais tantos 
proveitos, ^como fe delias podiam efperar, 
como era o de fe povoarem aquellas Ilhas 
de Portuguezes , que alli fícariam vivendo 
ricos , e da grande Chriftandade que fe po« 
derla fazer ^ e vir por tempo a foometter as 
llhas todas debaixo do jugo deChrifto. Ha- 
via antigamente outras finco , ou feis Ilhas 
junto da de Maoto, que por ferem baixas 
as ajagou o mar , e íicam como baldos , on« 
de o mar quebra : tem todas formofiíGmos , 
e feguriflimos portos pera todps os ventos^ 
e capazes de naos grandes. 



CA^ 



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Decada VII. Liv. IV. ^x^ 

C A P I T U L O VI. 

Do que aconteceo ao Bijpo D. Mdré de 
, Oviedo Até chegar a je ver cam o £w- , 
per^dor da Ethiopia : e do que 
. com elle pajfou. 

DEixámos o Bifpo partido de Baroá com 
as novas que Ihe chegáram do Turco ; 
jC antes de chegarem á Corte , fe adiantou 
Luiz Cuftodio pera ir negociar feus recebi?- 
mentó? , e por todo aquelle caminho foram 
comendp muitas gallinbas do Peni , perdizes , 
vaccasbravas, merus, potnba?, rolas, eou- 
tras aves, deque por aquella térra hainfini^ 
dade , e o vinho que bebiam era ferveja , e 
todos 0^ dias até o Efpirito Santo coméram 
carne , fefta$ , e fabbados , por fer affitn cof- 
fume dos Abexins ; e paíTada a fefta , jejuam 
todo o oíais do tetnpo tres dias na femana* 
Aocabo dedez diga chegáram ahpmalgre« 
ja do Orago-deJ^T. Senhora de Nazaretb y 
onde refidia o Patriarca , que Ihe mandou 
9 de Alexandria , que era Neftoriano , com 
quem fe i>ao quiz ver o Bifpo, epaíTou lo-» 
go adiante ata huma feira real , que fe cha- 
ma Mantadelle » sonde acháram hum criado 
de hura Chriftováp Nunes de Serpa , natu- 
ral de Arouca , que agazalhou a todos e£» 
pkodidaineme. 

He 



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5io ASTA DE DiOGO üe CotrTO 

He efta feira de hum Mouro grande peA 
foa , e muito rico , que Ihe rende muito , e 
della vai o fai pera todo o Reyno. D^ü^i 
fe partíram huma quinta feira , e atraveíTá- 
ram buns campos muito formofos , em que 
acháram muitas vaccas , porco» , elefantes ^ 
renocerotes , e ao fabbado chegáram a huma 
térra , onde eftava o Luiz Cuftodío , que era 
fuá , e efperava pelo Bifpo com tres tendas 
armadas , e com infinitos refrefcos de todas 
as fortes de fruitas , e cafnes que na terrá 
¿avia, com que hofpedou a elle, e atodoi 
os mais mui honradamente. Era efte homem 
cafado , e tinha alli fuá mulher , que nao 
quíz apparécer ao Bifpo , porque era Nefto^ 
liana , e nunCa quiz fer Catholica ; mas lo^ 
go houve o caftigo diflb, porque paífáram 
poneos tempos que nao morreíie de pede; 
e foi lanzada no campo , onde a coméram 
os lobos. Daqui fe partió o Bifpo á fegun^ 
da feira , e foram todos caminhando por 
huma formofa eftradd , até cbegaiem a huma 
aldea de hum primo com irmao do Empe-^ 
rador , que fe chamava Abitichon Acabo; 
e eñava alli com outro feu irmáo chamado 
Abitichon Anes, (Abitichon he titulo antro 
elles , como antre nos o DomO Enes Senbo^ 
res agazalháram o Bifpo , e todos os tt\ik 
inui honradamente. Daqui foram caminhan^ 
do por campos fertiliíumos ^ e powafóea 

mui 



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Í)HC- VIL LiVi TV. Cap. VL jlt 

mui grandes i e abaftadas de tudo& Á íeñt 
feira chegos ao Bifpro o Feitor de Gonzalo 
Ferreira , que tialuan achado em Arquicó f 
^ Ihe aprefentoM daioarí^ de féu amo buma- 
¿M'mofa tenda com iua cerca á roda, e hu^ 
ma rica alcatifa ^ ehum efcrava^ e tres mu^» 
las , o que elle eftimou muito. A fegunda 
fcira feguinte chegou o meítno Gonzalo Fer«» 
ceira , (que viirha pera acompanhar o Bifpo 
até a Corte , ) e trazia huttia^ copia de cria-» 
do6 ) e oíFereceo ao Bifpo , e a todos os que 
com elle rieram da Lidia ^ ouro ^ e rudo d 
mais que hoaveífem miden 

Logo adiante achara m outro PortugueiS 
chamado Jorge de Barros , que viiiha da 
Corte i e trazia fuá mulher em huma for* 
mofa muía , veftida ao modo da térra , e poi! 
íima dos trajos hum rico bedem , e rebufada 
com huma fina beatilha , que nao appareciam 
mais que os olhos , e na cabera hum cha*» 
peo de veludo alto ^ e o Bifpo Ihes fez hon<« 
ras, e gazalhados; etornáram avoltarcooi 
o Bifpo até huma aldea de Gonzalo FerreH 
ra y que hia com elles , onde foram agaza^ 
Ihados , e banqueteados efpleíididamenteé 
Aqui veio ter com o Bifpo hum Portuguez ^ 
chamado Joáo Gon^alves , que tambem tra«* 
zia fuá mulher , que era Abexim , de cada 
principal , e rica , e vinha em huma formofa 
muía , cubería com hum panno de borcado ^ 
Cwto.Túm.lKP.L X que 



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}ii ASIA-.iíE Diotio DE Coiftb 

<|M Ibe ficáva eómo gualdrapa , e día com 
kuma roupa larga de yeliido n^o , e por 
Urna humtbrmofo bedeoí^ enacabe^ hum 
chapea de veiuda alto y e talfiSes até os pés y 
Hiourifcos de feda ^ com imiítos botóes de 
eurot tnajo que .asfenhoms Abexins usáo, 
e nos^ bracos muitas manliliaá de ouro ma«* 
eiflas } e o oiaxido vinha emhimia boa mu- 
ía y e trazia hunr formoíb guióte á deftra , e 
eUe. venido caílofamente , e na cabera bar-»- 
xete preto com golpes y e pontas dé ouro á 
Portugueza anciga. Gom elle vinha ootro 
Portuguez chamado Manoel Goricalves eni 
hum cavállo^ com huma héfia no ar^áó, e 
frinta lacalos de efpadas y rodellas y langas , 
e efpingardas. Eíta gente recebeo o Bifpo 
honradamente , e i mulher de Joáo Gon9al^ 
Tes fez particulares gazalhados , e todos 
Toltáram com elle ^ que hia louvando a Deo» 
por. ver naquella térra táo diftante , e apar- 
tada Poirtuguezes cafados , táo ricos y con-* 
tentes- y c táo. zebfos de agazaiharem , e fer« 
virem feu Prelado. 

Indo.aílimi chegáram a humalgreja da 
invoca^áo da Santiílima Trindade , rica y e 
^m, bom íitio y rodeada . toda de formofog 
acipreftes com muitos Conegos y que tcm 
arrezoada renda* £ antes deüa hum efpa^o 
fahíram hum golpe de Portuguezes vizinhos » 
^«Qoradorea da^i^eJlas aldeas^ e povoa^Óes, 



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Disc. VIL Liv. IV. Cak VL t^i^ 

é' foram beijar a máo ao Biípo , e fe ¡ht 
offerecéram pera o acompanharé EdiadaAi^ 
censáo pela manhá chegáram a huma Pro*" 
vincia muito .frefca chamada Guimitejorgej^ 
onde fizeram a fcíla ^ e todos aquelies Poiv 
tuguezes fe confeíTáram , e commungáranu 
Aqui paflaram aquelle dia , e outro , e tor» 
Dáram a camínhaf , e ao fabbado fegumtc 
encontráram Gafpar deSoufa de Lima, Ca* 
pitáo de todos os Portuguezes , e com ella 
Jium Azaguereito do confelho do Empera«^ 
dor , que da fuá parte hia vifitar o Bifpo^ 
que eílavam em hutti formofo campo em 
tendas armadas paíTando a íéÜaé O Bifpo^ 
que já fabia delies , ttiandou tambem armar 
lúas tendas huiti pouco aftañado , onde GslG^ 
par de Soufa de Lima com o Abexim logo 
o foram vifítar da par^e do Emperador ^ e 
Ihe aprcfentáram vinte muías ^ que elle man» 
dou repartir pelos que vleram com elle di 
India , e fez multas honras ao Abexim , e o 
flifentou apar de íi, eelieve fabendo dafaui'' 
de do Emperador , do lugar em que e(lava« 
Edando aqui , ao outro dia tbram ter 
com o Bifpo Affonfo de Franca Moni», 
£)iogo de Aivelos da A¿inhaga ^ Simáo do 
Sovefal , Alvaro da Cofta da Covilhá , Por- 
ttiguezcá da companhia de Dé Chriftováo 
da Gama, e eram grandes privados doEnt^ 
perador , e lodos beijáram a mao ao Bifpaj^ 
/. . / X ii c 



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3*4 ASIA'de DioQÓ DE Couro 

e elle os recebeo com muiro atnor^ e carii^ 
^ias, e todos Ihe deram a obediencia como 
ü feu Prelado. Daqui fe abalou o Bifpo acom«* 
panhado de todos aquelles Portugueses ^ que 
era coufa formoía de ver, porque antre os 
Abexins lufiravam tanto (pK^la diveríidade^ 
«riqueza dostrajos, muías, cavallos, cria- 
dos, rendas, férvido, e rudo o inais) que 
pareciam elles os fenhores da térra. £ indo 
aílini caminhando , foram dar em huma for«- 
mofa ribeira , e de longo della tinham os 
jnais daquelles Portuguezes quintas , e cafas 
de prazer muito frcfcas , principalmente Gon* 
{alo Ferreira, que o mais do lempo refidia 
^lli , e elle levou o Bifpo , e todos os que 
o acompanhavam pera fuá cafa, e os ban* 
queteou efplendidamente. 

O Emperador , que linha córrelos pofto9 
por paragens, foi logo avifado, que o Bit 
po era cfaegado á ribeira , e mandou por bum 
córrelo chamar Francifco Jacome pera fe 
informar do caminho do Bifpo , e de fuas 
£oufas , e o tornou logo a defpedir com re» 
cado de como já eíperava por elle muito al- 
voro^ado , com o que elle fe apreflbu mais , 
iué cbegar a hum formofo rio chamado 
•Áxé , que traz infinito peixe de diferentes 
ibrtes , onde armáram rendas , e deícan^á* 
ram. Alli chegáram todos os mais Portugue» 
2es 9 .que. andavam com o Emperador , que 
t eram 



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Dec. vil Liv. IV. Gaí. VI. jiy 

eram da fuá guarda, eeftavam de continuo^ 
á porta da fuá tenda , e beijáram a mao ao 
Bifpo, que folgou de os ver. NaqneUe ria 
eñiveram até o Domingo do Efpirito Santo , 
em que cliegáram todos os Senhores , e Gran- 
des da Corte .pera acompanharetn o Bifpa 
por mandado do Emperador , que eftava da 
outra banda dorio, a quem elle fez muítoa 
.gazalhados , e todos Ihe beijáram a mÍo com 
grande humildade , e no meio dos mais faonf 
rados foi levado ao Emperador , que eftava 
em huma tenda branca redonda, toda alca- 
tifada de alcatifas grandes y e formofas , e 
elle deitado em huma camilha , veftido eñ 
hum bedeiii em^ íima de huma camifa mou- 
rifca , e na cabera hum chapeo de veludo 
preto , e huns cal9Qes de taficira da Pécfía 
calfados. Era hómem largo y preto , de olhos 
grandes, e de prefenga veneranda* Q Bifpo 
entrou com os Padres junto com figo , e íe 
aprefenfou ao Emperador , e Ihe biijáraiñ 
a máo , e elle os recebeo com gazalhado , 
mandando aíTentar o Bifpo junto i camilha 
em hum coxim de cordováo , que efiava fo«» 
bre huma muito rica alcatifa de feda; e lor 
go abaixo os Padres, e Gafpar Nunes, que 
hia por Embaixador , que ao beijar da máo 
ao Emperador Ihe aprefentou as cartas do 
ElRey , e do Governador da India Francif? 
w Barreto » e hum rico roup^ de e&arlata 

com 



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3i6 ASIA 0iE DiOGo PE CoüTb 

0DII1 iDiiitos botdes de pedraria , e algumas 
foufas outras airiofas , que elle nao teftejou 
milito. O Emperador depois de faber do 
Siípo da fande de ElRey , do Governador , 
e da fuá viagem ^ o defpedio , e elle (é foi 
t fuas tendas , que eftavam a huma parte do 
campo ; e os foldádos , que da India tinhanv 
y indo com oBifpOt os leváram os da térra 
porhofpedes, mandando o Emperador pro-». 
Ter a codos de tudo em multa abundancia^ 

•■ CAPITULO VIL 

J)e €§fno A Buarte Defa Caphao ¿le Ma^ 
' hiCQ prenden ElRey de Ternate em huma 
i ^fjperiffima prizae : e das grandes guer^ 
> ras aue por ijfo fe levantar am em todas 
aquellas libas contra os nojfos P^ortu^ 
í guezeSé 

NAo parega que nos temos defcutdado 
ñas couías de Maluco , com que imo» 
fontinuando todos os inyemos, porque nao 
foi fenáo por efies dous annos atrás nSo fue- 
cederéis coufas dignas de lembrar, e de fe 
pejar o tempo com ellas, E porque houye 
muitas outras em diüerentes partes , em que 
O'houvemos mifter, o defpendemos, e gaí« 
támois nellas ; mas agora que fuccedéram muí* 
Cffi , e qoe for^m caufa de k yir a perder 
' '"' aquel- 



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Dec. vil Liv. IV. Cap/ VH. 3^7 

aquella íbrtalisza , conritmaremos com ellas 
por fui ordem 

Deixámos D. Duarte Deja o Abril pafi- 
fado de íincocnta e finco partido pera Mar 
luco , onde chegou o Novembro íeguiíite ^ 
e tomou polTe da fortaleza, come^ando lof 
^o a correr com füa obriga9áo , e a tratar de 
iust fazenda ^ como os mais dos Capitáes 
lioje fazem , pera o que já partem de Goa 
com regimentos , e ordens pera iflb , qnt 
nao fakáo curiofos que Ihas dáo , porque 
tambcm niíTo tratam defeus proveitos , ain^ 
da que feja á cufia das almas, dos meímo^ 
Capitáes, deque Ibe aelles dá bem poucQ» 
Affim efte Capitáo comegou a querer tomar 
todo o cravo dallha Maquiem, que aquel» 
le Rey tmba feparado pera as ddpezas d^ 
fuá cafa , conao já diflemos na V. Década ; 
c como elle vio que Ihe queria D. Duarte 
De^a tomar o feu, foi-lhe á máo, fabre & 
que fe comegáram os defgoftos » que foram 
o principio da perdigáo daquella fortalew^ 
como na XL Decada fe veta. D# Duarte 
que era teimofo , forte, etrabalhofo decon^ 
dif áo , e eftava cegó com fuá cubiga , ( é 
com iíTo nao faltáram máos hcmens , qw 
accendéram mais eíle íbgo) tratoo Jo^ <ie 
fe vingar deElRey , e de o prender; lenáo 
dando conta do que determinavk ^ peflca 
aiguma ^ mandQU hum dia.chaauír ElRey^ 



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5i8 ASIA DE Dio«o'dí: Coittó 

t Cachtl Guzarate feu irroáo ; e como os 
leve na fortaleza , os prendeo y e mabdoa 
metter em huma logea da torre , aue fervia 
de celleiro do cravo , qoe eflava iedorenti& 
lima , e chea de baratas , e Jargatixas , e outros 
bichos pejonhentos: e aínda aqui Ihes man** 
dou lanzar groífiíSmos adobes , e fechados 
cm cor rentes pelas azas de cameras de fal* 
cees , com o que ficáram tao ioiiabilicados ^ 
que fe nao podiam mover de huma pera 
outraparte, clamando, e gritando, edizeo^ 
do lañimas, quepuderam fazer compadecer 

S!Ítos de feras. E nao contente ainda D. 
uarte De^a com ifio , mandou tambem tra* 
zer a velha mái , que era huma Senbora 
UTuito honrada , e a metteo com elles , lan- 
zando fama , que fe carteavam com a Raí- 
nha de Japoi^ na coña da^ Jaoi , pera Ihe 
emregarem aquella fortaleza , (edando todos 
bem innocentes daquelle crime , de que os 
accufava. ) £ como fuá ten^o era matallos 
allí áfome, defendeo que ninguem Ibesdéf* 
fe de comer , nem de beber ; o que elles 
íentiram fobre tudo y porque eflavam nd ca- 
fa do cravo , de que comiam por neceíOda-f 
de , que Ibes aífava os bofes , fem Ihcs que«» 
rerem dar huma pouca de agua pera Ibes 
matar aquelle fogo, n^m fe apiedarem dos 
gritos, e laftimas que de dentro diziam. E 
ilém ddUsd«sbiuiMmdade&.9 osefcrgvos to-> 

das 



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Dec. vil Liv. IV: Gap. Vil. 329 

áas as manhans hiam purgar os veneres i 
porta da banda de fóra , o que faziam con 
iujidadc&, e pala v ras indignas de fenOmca^-^ 
rem. 

\ Vendo os Padres, e o Provedor com a 
Irmandade da Mifericordia tao aborrecidas 
cruezas, ajuntáram o povo , e foram fazer. 
frótenos , e requerimentos ao Capitáo , pera; 
que foltaffe ElRey , affirmando-lhe « aue et* 
1» tava ElRey innocente do que Ihe alevan^ 
» ravam , e que nao déíTe com iíTo occafiáo 
» a huma grande defaventura , porque já 
» iiavia.atoardas que o Rey de Tidori fazia 
n preftes fuas Armadas pera fe ajuntar com 
» os Témales em favor de feu Rey , e pera 
» pórem cerco aquella fortaleza ; » a que 
D. Duarte De^a nao deferio coufa alguma i 
dizendo « que os nao podía foltar , porque 
9 tinlia delles culpas graves. » Vendo elles 
aquella teima , e injuíli^a , Ihe pedíram « que 

> ao menos Ihes défle licenf a pera os fuften*' 
% tarem na prizáo , porque nao era jufto que 

> os mataíTe á tome , e á fcde , que era hum 

> genero demorte, que nem barbaros ada«* 
)i vam aíeusinimigos.)) Oque elle Ihescon* 
cedeo , e dalii por diante ordenáram antre 
í¡ ce que a Mifericordia déíTe huma femana 
)i de comer aos prezos , e outra os mora* 
}^ dores.» E aílim foram continuando, com 
9 que 08 pacientes fe confolavam já alguma 

COtt- 



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330 ASIA Dfi DioQO de Coütó' 

coufa. Mas como D« Doaite Dcfa eftava 
encarnizado no odio , nao quietava , nem 
repoufava em bufcar. modos peta matar os 
pobres prezos , aié ordenar « que fe Ibes 
% lan^aUe pe^onha na agua que Ihes manda* 
»*vam, como Ihesiizeram duas vezes» que 
El Rey logo conbeceo por virtude de bui» 
annel que comfigo trazia , que era de tai 
confei^ao , que fe na cafa em que eftivefle , 
entraíTe alguma pepnha , logo mudava a 
cor, como Ihe fez de ambas as vezes. Os 
Governadores do Reyno tanto que víram o 
feu Rey prezo , mandáram requerer por mul- 
tas vezes ao Capitáo c que Iho foltafle ; e 

> que nao o querendo fazer , elles protefta* 
n yam de Ihe nao prejudicar em todos os 

> modos que pera iíTo bufcaflfem ; e que dos 
» damnos que diílo refuhaíTem , elle darla 
» conca ao Rey de Portugual » a que elle 
nada deferib. Vendo elles aquillo , concer- 
tara m-fe com o Rey de Tidore feu genro , 
pera os ajudar na guerra que ordenáram de 
fazer á fortaleza , pera que come^áram a 
fazer feus preparatorios , e lan^iram fuas co* 
rocoras ao mar, e EIRey de Tidore fez o 
n^efmo, e em peífoa fe embarcou pera co** 
me^ar a profeguir na guerra. 

B como era máo , e manhofo , jogoit 
landos deladráo, que foram apoderar«fe de 
muícos lugares de EIRey de Térsate , con 
. ». ten- 



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Dec. VII. Liv. IV- Cap. VIL 331 

tendió de fe fazer fenhor de todo aquelle 
Reyno ; o que Ihc fora muíto fácil , fe top 
mára a fortaleza , como pertendia , porque 
entáo ficava-lhe ElRey ñas roaos , e elle le* 
iihor de tudo. Os Ternates ajuntáram feu 
poder , e foram por cerco á fortaleza , dan- 
do-lhe tantos, etáo continuos aflaltos, que 
fe vio D. Duarte Deja mu¡ apreíTado , e 
arrifcado ; e o em que mais cuidado puze- 
ram , foi na prohibijao dos mantimentos , 
pera que necn oor mar, iiem por térra pu- 
deílem paíTar a fortaleza; com oque come«» 
járam a faltar, e os noíTos a paíTar ñeceffi* 
dades. Vendo-fe D. Duarte Deja tSo apref- 
fado , foi*Ilie neceflario valer-fe do mor ini- 
migo que aquella fortaleza tinha , que era 
Cachil Guzarate Sangage.de Geilolo , a qnent 
Bernaldim de Soufa deñruio de todo , tiran-^ 
do-lhe o nomQ de Rey, como na VL'De* 
cada no Cap. XIIL do IX. Liv. fica dito. 
E pera mais o obrigar, Ihe mandou huma' 
Provisao em nome de ElRey de Portugal 
» em que Ihe tornava o titulo de Rey , e 
3» olibertava das pareas que era obrigado a 
Y pagar.» 

Mo moveo tanto aquelle Sangage, que 
lancou logo, fuas corocoras aó mar , pera 
ir foccorrer D. Duarte Deja , e fe comejoii 
outra vez appellidar Rey de Geilolo. No 
mefmo tempe defpedio IX Duzste De^a huo} 

Pa» 



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331 ASTA DE DioGo de Covto 

Padre da Companfaia , chamado Antonic 
Vaz ) homem letrado , e vircuofo , que ain*»* 
da hoje vive na cala dos profeílos de Goa y 
» pera que foflfe á llha de Bachao a pedir 
% ajuda áqueileRey, afltm de gente, como 
» de mantimentos j porque era amigo dos 
€ Portuguezcs. » Efta jornada foi de tanto 
proveito , que nao fó fez o Padre com EK 
key que proveíTe. a D. Duarte Def a de man- 
timentos honeílamente , mas aínda o convi- 
dou pera as Bodas do Senhor ; porque aclian^ 
da«o domeftico , e capaz , o rendeo , e ca* 
tequizou, e depois o fezChriftáo com mul- 
la ÍQlemnidade , e a outros muiros do feu 
Reyno. E por eílas Tantas obras y e por ou- 
tras , que eftes Religiofos , e os de todas as 
inais Reiigióes andam obrando por todo eí^ 
te Oriente , permitte Déos que as fortalezas 
da India eftejam em pé , e que fe fuftentem y 
deixando o caftigo das tyrannias de alguns 
Capítaes fó pera elle ; porque huns nao acá- 
bam de lograr o que dellas injuílamente ti- 
ram , e outros nao Ihes cbegáram a iuzic 
Bem emfilhos, nem em netos. 

E tornando anoflfo fio. A guerra fe foi 
continuanda por térra, e por mar, por on* 
de o Rey de Tidore andava com fuá Ar-« 
Biada^ fazendo todos osdamnos que podia. 
Ñas corocoras de Temare andava por Ca- 
pitáo toar CacJbU Xo^buza^a.» primo de EU 
• : Rey, 



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Dec. vil Liv. IV. Cap. VII. 353 

Rey , muito grande cavalleiro , que depois 
fe fez Chriiláo , e fe chamou D. Henrique » 
e por feus muiros férvidos Ihe mandou El» 
Rey D.Jolo o habito daCavalIerJa denof- 
fo Senhor Jefus Chrifto , e o cargo de Pan- 
dará de Malaca $ onde víreo cafado , e com 
filhos, e fez rentos íervicos , quantos pelo 
decuríb de noíTas Décadas fe verlo. Eñe 
homem fez muita guerra entao aquella for<* 
taleza , e pelejou com algumas ñiflas , que 
D. Duarte De^a armou ; e com ellas , e com 
os foccorros que Ihe vieram de Geilolo , de 
Bacháo , e de outras partes , a que tambem 
acudió Gon9alo Pereira Governador deMo» 
mohia com algumas corocoras , e mantimen<* 
tos , fe foi fufientando. E como foi tempo y 
defpedio a nao S. Joao ', de que era Capi* 
tSo Francifco de Barros com a carga do 
cravo pera a India , por quem efcreveo ao 
Capitao de Malaca , que o mandafle foccor- 
rer com muita preíleza: e o mefmo fez ao 
Governador , dando-lhe conta de tudo o paf- 
fado y pondo áquelle Rey crimes que elle 
nunca commetteo ; mas nao faltou tambem 
quem Ihe efcrevefle a verdade defte cafo. 
Nefte eftado deixaremos a guerra, que deo 
bem de trabalho aos noíTos. 



CA- 



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3^34 ASIA DE DíoQo D£ Covtb 

CAPITULO VIII. 

Da dífferen(a que ha antre Per fas é Ara^ 

bes /obre a opiniao de fuas feitas : e de 

como o Rey da Perjia tnandou aos Reys 

do Decan o titulo de Xas , com con' 

difao que JeguiJJem fuá feita. 

NA noíla IV. Decada no Cap, I. do 
Liv. X. 9 onde fallamos na feita que 
feguem os Magores , demos brevemente con- 
ta de fuá leí ; agora ferá neceíTario declarar^ 
IDOS iílo mclhor pera a materia que have- 
mos de tratar. Pelo que fe ha de íaber que 
por morte de Mafamede (em que os mais 
dos efcritores variam na conta do anno em 
que foi) deixou nomeado erafeu teftamento 
por feu fucceíTor, e cabeja da fuá doutrina 
Alé filho de Sabutabel , irmáo de leu pai; 
aíllm por fer feu primo com irmáo , como 
por fer feu genro , cafado com Fatima filha 
de fuá primeira mulher , de que tinha dous 
iilhos nafcidos de hum ventre , .chamados 
Hacem, cHocem, e Ihe deixou encommen^ 
dado que tomaíTe a dignidade de Calila, 
que he como a do Summo Pontífice antre 
nos. Iño tomou mal Abubar fogro de Ma- 
famede, em cuja cafa elle morreo, porque 
houve que Ihe pertencia a elle melhor aquel- 
la dignidade ^ aíTun por fogro delle Mafa- 

me- 



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Dec. vil Liv. IV. Cap. VIII. 33J 

mede, como por fuá idade , authoridade, 
epoffe, porque cramuito poderofcj: eajun* 
tando-fe com dous parentes feus 4c muica 
pofle chamados Homar , e Otbomáo , per«> 
leguíram o Alé de fei^áo , que o deílerrá- 
ram ^ e por coníentimento de todos foi lo*- 
go levantado o Abubar por Califa. Nefta 
dignidade viveo pouco , e fuá morte nao 
carcceo de fufpeitas de pe^onba.^ qlie diziam 
mandar Iba dar Homar ; porque tanto que 
elle faleceo , fe alevantou com o Califado 
quafi por forga. Efte viveo cora aquelle xU 
tulo dez annos e meio ^ e foi morto , eftando 
na Mefquita , por hum efcravo feu ^ e affii^ 
mou-fe que por ordem do Até, que eftava 
recolhido na Cidade de Cufa , e por fqa^ 
morte fe alevantou Othomáo , allegando pe* 
ra líFo que fora duas vezes genro de Mafa* 
mede> como de feito foi cafado com duas 
filhas chamadas Cofulma, e Roqu^a, que 
oiorréram em vida dopai. Efte tambem vi- 
veo pouco y porque foi morto em humas 
altera^óes que houve no Cairo , e por feu 
falecimento fe ajuntáram os Grandes a con- 
felho , e por parecer de todos (tirando o de 
Mauhia Opitáo de Othomáo) foi chamado 
Alé, cujo era de direito o Califado , e o 
aírentáram lía cadeira daquella dignidade j 
e o Mauhia , que íicou de fóra , e erar po- 
derofo , o perléguio com guerras grande* 

men* 



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336 ASIA DE DiOGO OE CoüTo 

mente, e por fixn o inandou matar aos féii 
ffiezes de leu governo , e lá teve induftria 
€om que fubio á dignidade do Califado ^ 
em que viveo doze annos , e tres iDezes : em 
fuá vida renunciou a dignidade em feu fílho 
Lazit que governou , temendo*fe deHocem^ 
que era outró íilho de Alé, e teve induftria 
com que o mandou matar* Efte Lazit foi 
ssuitomáo homem, perverfo, ehavido por 
herege, porque vivia como Gentio. 

Ora vamos a Hocem , que elle fez matar ^ 
aquemlicáram dozefilhos chamados Zeinat ^ 
Mahamed , Bager Mahamed , Jafart y Mufá 
Caíim, Muíi Ali, Mufera Ali , Mahamed 
Tangui , Mahamed Alivaugi , Ali Hocem , 
Afqueri Hacem, e Mahamed Mahedi mais 
mo^o: affirmam osPerfas que nao morreo 5 
e que eíle ainda ha de vir declarar a verda* 
de de todas as opinióes , que antre elles , e 
os Arabios ha , e que ha de converter o 
mundo todo á fuá doutrina , e que efia con* 
versáo ha de come^ar em Maxadali , onde 
Alé feu av6 eílá enterrado. £ efta he a ra* 
záo, por que naquella Mefquita tem conti- 
nuamente hum cavallo fellado efperando por 
elle , pera como alli cbegar , cavalgar Iogo« 
£(le cavallo tanto que fe efconde o Sol, 
logo o levam á Mefquita com muitas la^ 
minarías , e em huma fefta feira do ahno o 
fazem com. grandes ceremonias y e ora$6es 



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Deo. Vil. LiV* tV. Gap* VIIL 337 

d Mafamede , pedindolhe que acabe já de 
mandar feu neto a declarar as düvidas qut: 
tintre elles, e 03 Ferias havia, fóbre quem 
fora o rerdadeiro Califa t íbbre o que na vía 
de continuo antre elles guerras ^ porque os 
Perfas fuílentavam , e ainda hoje o fazem i 
que fó o Alé o foi. legitimament^ , e qu« 
osmais foram fcifmaticoS) tyrannos, e ale* 
yantados ) e poriíTo tomáram aquelie appel^ 
lido de Xiai , que quer dizer uniáo de hum 
corpo y-porqueeftavajm fcmpre com as armas 
ñas máos pera fufientarem lúa opiniáo. 

Os Arabios pelo contrarío aíErmam ^ 
que elle úáo fora Califa ^ e que os outros 
o foram legitimamente eleitos , e que os 
Perfas sao os que vivem errados em fuá 
opiniáo , e contra elles tomárám aquello 
appellido de Sonijs , de que fe tanto prezam , 
que quer dizer feguidores, ou fuílentadores 
da verdade; e quando nomeatti os Perfas^ 
Ihcs chamam Rafaíls , que he o mefmo qua 
chamar^lhes homens errados , e defencami- 
nfaados. Eílaa duas opinides feguem rodos 
os Mouros aos Arabios dafquella parte de 
África , Mauritania , Berbería » e todos os 
que fe efpalháram por Hefpanfaa , e os que 
yivem por toda a Provincia do Egypto^ 
Abaílta, Cofia de Melindip, Mozambique > 
C^ofala, e em todas aquellas libas $ e todos 
«s Turcos > Rumes , e todos os defias patr 
Goíito.TonulKP^L Y /tes 



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338 ASI A DE DiOGO DE CoüTO 

tes da India até Maluco } porque como ot 
Arabios foram hotnens , que fe deitáram á 
Jiavega^áo , e paíTáraní até o Oriente , e por 
todos os Reynos delie , aflitn ñas térras ñr^ 
mes , como ñas libas todas , achando os 
Gentios fáciles , e domefticos ^ Ibes prégárain 
a largueza de fuá feita , a que logo todos 
fe convertéram , e aílim os feguem todos 
eíles Reys do Decan , de que já demos ra* 
tío , quando tratamos do tempo , em que 
os Mouros conquiftáram aquelles Reynos. 

Nefta lei vivéram até efte invernó de fin* 
coenta e fete, em que andamos, até que o 
Xatbamás Rey da Períia , fílbo de Xaifmael , 
zelofo da obferva^ao de fuá feita , mandou 
no principio defte anno algunsPerfas muito 
doutos em companbia de Embaixadores muí* 
to graves; e com grande apparáto a todos 
os Reys do Decan pera os perfuadirem a 
receber fuá feita ^ e a feguirem Até feu Ca- 
lifa; e pera mais os obrigar, Ibes mandou 
a todos a titulo de X^s , de que Ibes paíToYi 
fuas patentes. , e formóes. Eftes Embaixado^ 
res foram ñas naos de Ormuz ter aDabul^ 
e dalli corréram 4s Cortes do Miráo, Ve- 
rido, Zamaluco V Iclalcan , eCota Maluco, 
e deram áquelles Reys fuas Embaixadas , 
prégáram iua opiniáo, a que foi mui facíí 
de os render , e comegáram logo ertí fuas 
Mefquitas a rezar de Alé ;|^ e a clamáreni 

por 



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D»c. VIL LfV* IV. Cai^i Vill. 33^ 

]K>r elle em fetis Alcoióes ^ appellidando-íb 
aalli ein diante Sonijs ^ e com Hfo fe inti- 
tularais Xas, que elles houVefaro por muU 
to grande honra ., e nos aíGni Ihe chamare^ 
inos ñas noíTas Decadas daqui em diante ^ 
deixando o titulo deCais, de que até agora 
ufáratís ^ e que com nnais razáo fempre Ihes 
cabe deftes do Zamalüco Rey de Chaul^ 
(que fcrá de agora por diante Niíamotá*) 
Faremos aqui huma breve rela^ao , já que 
a temos fcito de todos os Reys de Vifapór ¿ 
que sao eftes , que vízinham comnolcó nefta 
parte deGoa, o que faremos nefioütro Ca^ 
pitulo por fer mais folgado aos leitores* 

CAPÍTULO IX. 

De hma relacHo de_ Ki&afnoxd^ e de fuá 

morte : e de como o que Ihe fuccédeo ño 

Rey no fe ajunUti com o Cutubixd con^ 

trá o ídalcan , é largou o Iñi^amo- 

Ád ao Mealecán ^ gue tinha preZfóé 

■^TOCap. IV- doX.Liv* dalV.Decadar 
XN demos larga tíontadaquelles finco Ga-f 
pitaes, que fe alevantárám comitodo oí)fi* 
cari, que antre fi n^partíram em Rejmos^ « 
deftes coube aquella parte- que jaz díeCM^n* 
dSó até o rio Hagotana ^ que he pelo rid 
át Carania dentro, a Nizamati Maluco , a 
quem erradamen te chamamos Zatnaluco -5 oo» 
■ Ya jo 



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340 ASIA DE DiOGO DE COUTO 

jóproprio nome, era Boran. Eftediziam que 
erafilho deDaudar Soltáo, legitimo, ever-* 
dadeiro Rey de todos eílesRcynos; porque 
affirmain que huma mulher^ que elle deo ao 

Eai defte Boran , oue era feu Capitáo , já 
ia prenhe delle. E affim depois que efte 
herdou o Reyno , tomou por appellido , e 
por armas hum faicáo , dizendo , que aílim 
como efta ave era mais real que todas, af- 
fim elle ,o era antre os Reys do Decan , que 
foram eícravos de feu pai. Efte Boran Sol« 
tao foi o mais valorofo, franco, liberal, e 
siaís juQi^ofoRey de todos os de feu tem- 
po, e dos . viztnhos. E em principio do go« 
verno de AfFonfo de Albuquerque foram ter 
ao porto de Chaul *( que era íeu , e onde 
elle acertou de íe acbar) doze Portuguezes , 
que vinham de Cambaya em hum navio feu ; 
e vendo-fe com EIRey , elle os agazalhou 
bem , folgando tanto de os ver, que Ihcs 
quitou os direitos de fuas fazendas , e Ihes 
rogoii « que fe apofentaíTem naquella par* 
ai te , £ih que hoje eftá aTnofla Cidade de 

> Chaul, e que elle os libertaria dos direi* 

> tos, e nao Ib a elles, mas ainda a. todos 
» 08 mais que alli foífem viver , e que Ibes 

> fiíria outras honras , e favores » de que 
Ihes mandou paíTar hum largo formáo* 

Por eftas liberdades fe deixiram alli fi- 
car aquelles homens, e íe. apofentáram na- 

quel- 



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Dec. vil Liv. IV. Ca#. nC 341 

quella parte , em que ]ioje eftá a Cldade , 6 
depois poucos c poucos fe Ihes foram ajun« 
lando outros , e fízeram allí huma colonia 
de Portuguezes, e daqui teve principio efta 
povoa^áo de Chaul , e as liberdades que feud 
moradores, e todos os tnais tem em osdi«» 
reitos defuas fazendas, fegundo humalem* 
branca que nos mandou , tirada dos tombos 
da Corte daquelle Rey , hum Antonio dé 
Aguiar y que ha muito vive nella Mouro ^ 
chamado Islancan , homem efperto , e pra* 
tico em muitas linguas , com quém commu^ 
nico por cartas , e delle me informo das 
coulas daquella Corte , de que fempre deo 
tnuito boa razSo. 

Eñe Rey Boran Soltáo ücou fempre fio 
affeigoado aos Portuguezes , que paiTando 
por<Zhaul o Governadof Diogo Lopes de 
Siqueira , Ihe concedeo lugar pera fazer for-^ 
taleza , onde ainda hoje eftá , porque folgou 
de ter os Portuguezes em feu Reyno pela 
fama que corría de feu valor , e é^forjo; 
porque era tao aíFeÍ9oado aos bous cr^vallei-- 
ros , e aos horneas doutos , que cm-ihe vin* 
do fama dealgum nos Reynos vizinhos , lo^ 
go o mandava bufcar , e Ihe fazia muitasi 
honras, e mercés; com o que concorréram 
em feu tempo todos os bons Capitaes , e 
doutos em fuas fciencias , que paflfáram de 
todos os Reynos eftranhos a efte, E de deiw 

tro 



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^^t ASIA DE DiOQO D£ CotTTO 

tro de Conftantinopla mandou trazer hum 
afamado fundidor , que Ibe fez duas mil bom* 
bardas de bronze , e ferro y com que fe fez 
temido a todos os vizinhos. Foi muito doen- 
te do mal de S. Lázaro , pera o que bu& 
cou codos os remedios poíüveis , ate fe ba- 
lihar em fángue de meninos , mandando ma« 
tar muitos pera efte eíFeito , e encher grandes 
banhos delíe, (por Ihc fazer crer Iiumfeiti* 
f eiro que com iíTo fararia ;) mas nao Ihe va- 
jeo , porque veio a morrer aborrecido do 
mefmo mal táo nogento os annos paíTados 
de i^SSy tendo reinado fincocnta e oito« 

Tinha eñe Rey muitos filhos , e já em 
fuá vida fentia altera^áo nosCapitáes, ean* 
darem bandeados huns a buns , e outros a 
outros ; e receando*fe que por fuá morte hou- 
veíTe mui grandes divisóes , mandou chamar 
})um Portuguez , que defdo tempo de Nuno 
da Cunha andaya em feu Reyno , que di« 
zem alguns que fora bombardeiro , c fe cha« 
inava Sanchp Pires , e iá fe fez Mouro , e 
Ihe puzeram nome Tringuican; e Ihe pedio, 
que tanto queelle morreíTe, fizefle alevantar 
por Rey a feu filfao roais velho chamado 
Uzen , e alli Iho entregou logo, porque fó 
delle 6ava aquelle negocio; e o Sancho Pi- 
ses. Ihe diíTe que aíBm o faria, e que niíTa 
Ihe havia de pagar as honras , e mercés que 
delle tinha lecebido. Era cfie homem táo 

va* 



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Dec. vil Liv. IV. Cap. IX, 343 

valorofo por feu bra^o , que fe pode metter 
no contó dos famofos que houve no mun*^ 
do; porque chegando fó , e homifiado aquel-- 
le Reyno , aíBna (ko logo tamanfaas modras 
de feu valor ) que lan^ouEIRey máo delie^ 
e o fez Capitáo da gente de cavallo y cm 
que tambem deo tal conta de íi , e deo úo 
verdadeiras modras de feu esforzó ^ que reio 
a fcT General de todo o Reyno , e o prin» 
cipal dos do Coníelho de ElRejr , que Ihe 
deo tantas térras 9 e rendas , que fuítentava 
dez, e doze mil homens de cavallo; e a& 
fim era táo temido de todos os Capitáes ^ e 
Mouros , que nao havia quem llie nao fí^ 
zeife venera^áo, e fe Ihe nao baquc;aíre, 

Adim qrie vindo aquelle Rey a falecer^ 
tomou Sancho f ¡res o fiiho Uzen , e o poz 
na cadeira do pai , e o fez levantar por Re/ 
a pezar de todos os outros Capi^es y que 
eftavam divididos em bandos pelos outros 
filhos ; mas elle teve tal maneira , que por 
for^a fez vír todos a dar-lfae obediencia , e 
quietou os tumultos , íicando em companhia 
do Rey , governando o Reyno com tanta 
prudencia , e valor., que nao houve vizinho 
que oufaíTe a bullir com elle , .e aífim fe fez 
podcrofo, e temido, etao refpeiíado, que 
ie fe quizera fazerRey, fem duvida ofora. 
£ fe efte homem nao efcurecéra feus feitos 
com a negajáo que fes d^ fé ^ morread^ 

Fran- 



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344 ASIA DE DioGo de Coüto 

Franguican , puderam elles fer havidos no 
mundo por eípantofos , e nos deixaranios 
delle huma memoria , que nunca fe acaba* 
ra ; porque foramfeus feitos tantos, etaes^ 
que Dem puderam occupar a mor parte de& 
ta nofla VIL Decada; mas fique aílim com 
ifio , pois nao foi merecedor de máis. Huma 
coufa nao he bem que fe ihe negué , e foi ^ 
que todos os Portuguezes , que em feu tein-r 
po foram fogidos pera Vifápór, e fe que- 
riam fazer Mouros , elle Iho eftorvava , pon* 
do-lhes diante as obriga^oes que tinham á 
Leí de Chrifto , perfuadinda-os a viverem 
nelIa; eaosque fe n^o faziam. Mouros, re* 
colhia , e trata va muito bem , e os outros 
Ihe aborreciam tanto que os nao quería ver. 
Quietados os tumultos , e feguro Soltáo 
Uzen em feu eílado , detcrminou de fe fatis- 
fazer.de algumas aflPnontas, que tinha rec&p 
bido do Idalcan com a vizinhanga que tinha 
com a fuá fortaleza de Calibraga , que eí^ 
fava noseílremos dantre ambos osReynos: 
pelo que determinou de Iha tomar, e con* 
vocou em fuá ajuda o Cota Maluco , que 
reinava naquella parte de Galecunda contra 
Mafu'epatao, quetambem foi hum dosCa* 

Íiiráes alevaneados , que eílava inimigo do 
dalcan, efoi ajudar o Uzen com vinte mil 
de cavallo , dando-lhe o Veridó paíTagem 
fot fuas tQiras ^ que jazem ao Norte das do 

Idal- 



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Dec. Vil. Liv. IV. Cap. IX. 345: 

Idalcan. E ajuntando*fe ambos em huma 
Alefquita y juraran) a liga com grandes cere* 
tnonias , e allí naquelle auto pedio o Cota 
Maluco a Uzen te que Ihe íizeíie mercé de 

> mandar folrar oMealecan^queeftava pre-» 
9 zo na ierra de Baula , e o deixar ir pera 
Ji fuamulher, efilhos, porque bem lliebaf* 

> tavam fuas defaventuras. n Vendo Uzen 
que aqüelle Rey Ibe pedia aquillo naquelle 
tempo , em que nao era licito negar-lho , 
ihe diíTe , que pelo fervir o faria. E nao 
querendo o Cota Maluco, que aquelle ne* 
gocio ficaíTe pera depois, Ihe diíTe « que lo* 
7^ go Ihe mandafle paíTar hum formáo pera 

> o entregar a ham Capitáo , que a iíFo man- 
» daría y porque as mercés que fe logo fa-r 
31 ziam , eram de mor prego , e gofto , affim 

> pera quem as fazia, como pera quem as 
01 recebia » o que Ihe ElRey Uzen nao ne» 
gou y e logo fe Ihe paflbu o formáo que pe* 
4ia 9 em que « o mándava foltar , e que Ihe 
01 déíTem dinheiro peraasdefpezas, ealguns 
3» cavallos pera fqa peíToa n com o q^ue Co* 
ta Maluco defpedio hpm Capitáo leu y a 
quem o Amircan ( que o tinha em poder ) 
o entregou com tudo o que Ihe mandavam 
dar , e com elle fe partió logo pera Chaul , 
e lá o entregou a García Rodrigues de Ta- 
vora , que era Capitáo , que como veio. o 
yeriOy o mandou peraGoa ao Governador. 

* . Fei. 



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546 ASIA bfe DioQO DE CovTo 

Feítas , e juradas as conjuradles , abala- 
ram aquellesReys contra a fortaleza deCa- 
libraga , e aíTentáram de redor delta feus 
exercitos , e a comerá ram a bater , tudo por 
ordem de Sancho Pires y q"© ^^^ GeneraK 
O Idalcan fendo avifado da conjura^áo , def* 
pedio muiros Capttáes dos que tinha pera 
mandar fobre Goa , e os mandou foccorrer 
aquella fortaleza , e elle fe poz em campo 
pera o fazer em peíToa , fe foífe neceflario* 
O Sancho Pires na batería que deo i forta- 
leza, Ihederribou hum lan^o de muro, por 
onde commetteo a entrada , fendo elle o 
primeiro ^ mas os tíe dentro a defendéram 
tSo bem , que os lan^áram fóra , iicando allí 
o Sancho Pires morto de huma efpingarda- 
da. Vendo osReys aquelle eftrago , alevan- 
táram o cerco , em que perdéram quatro 
mil homens , e alguns Capitáes , em que en- 
travam Jamaldican , e Rumecan , com o que 
o Idalcan ficou defalívado pera mandar pro- 
feguir na guerra de Goa , pera onde defpe* 
dio mais alguns Capitáes. 



DE- 



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347 



DECADA SÉTIMA. 
L I V R O V. 

Da Hiftoria da India. 

^ ij 

CAPITULO I. 

Das coufas ^ que acontecéram na guerra de 

Goa : e de bum ajjalto que os noffos de^ 

. ram na outra banda , em que houve ah 

\ gum defarratyo : e de como os inimigos 

entrar am a liba de Joao Lopes. 

AGuERKA de Goa fe hia continuando , 
ainda que com pouco perigo , e 
dañino , todavía com trabalho , por- 
que come^áram a faltar na Cidade muitas 
couías , de que ella fe prové das aldeas da 
outra banda, e miferavelmente fe aqhavam 
frangáos , e gallinhas pera os doentes , por* 
que chegou a valer hum duas tangas , e hu« 
ma gallinha hum cruzado, de que fe havia 
jniñer grande quantidade pera enfermos , e 

Holr 



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^48 ASIA DE DioQo DE Cotrro 

Hofpitaes. Só cbm a lenha fe rcriiediavatif 
melhor , porque fe córtava dos matos da Ilha , 
^ue pera eflas neceflldades fe gparda , e pou* 
pa com grandes penas , que no teaipo da 
paz nao poíTa peíToa algutna cortar lenhüt 
nelles, e nem aínda dos quintaes particula- 
res (e pode derribar buiíía arvore, fob p<;na 
de dez pardaos pera o rendeiro do verde. 
Aílim que com eíles trabalhos fe foram re- 
mediando o melhor que puderam das Ilhas 
circumvizinhas , e das aldeas da de Goa ; por- 
que, os inimigos fó na defensáo dos mantí^ 
mentos puzeram toda fuá diligencia ; pofto 
que tambem nSo deixáram de inquietar os 
hoílbs com alguns aíTahos miudos , e de pou^ 
ca importancia , dando rebates nos paífos , fó 
a fim de divertir osnoíTos , e os quebrantar. 
Mas a iíTo tinha o Governador dado ordem y 
e próvido mui bem , com mandar por ba- 
chos ñas Ilhas de Juan , e Chorno , e em 
Urna do outeiro de N. Scnhora do Monte, 
donde fe defcobre tudo , onde eftava hum 
Baülifco pera fazer final. £ tanto que em 
qualquer parte daquellas fentiam Mouros, 
derrubavam os fachos , e os que vigiavam 
o Bafilifco y vendo o final , defparavam hu^ 
ma bombardada , a que acudiam logo aon« 
de Ihe davam o final. Mas onde os inimi- 
gos deram mor trabalho , foi ñas térras de 
Sallete 9 cade eftavam D. Jorge ^ eD. Pedro 

de 



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Dec. VII. Lrv. V. Cap. I. 349 

d^Menezes, qufrtodo efte invernó andáram 
com as arniai ás coilas , guardando , e de- 
fendendo as térras , tetido alguns recontron 
com os inimigos muito arrifcados , em que 
hou\redamno de ambas as partes, ainda que 
todavía muitas das aldeas le deixáram de la- 
vrar , e íemear , e os lavradores deltas fe 
recolhéram ás partes feguras ; e algumas co* 
méram os inimigos , que foram as de Co- 
col! y e Afolona , e outras , que eflam pega- 
das ás fuas térras , e algumas vezes foram 
dar vida á fortaleza de Rachol ; mas reco- 
lhéram<^(e eícalavrados das máos dosnoflbs; 
Nos paíTos da Ilha de Goa continua ram 
elles com mais rebates , a fim de can^arem 
os que os guarda vam ; e nao fe contentan^ 
docomiíTo, determináram de entrar na Ilha 
de Joáo por ordem do Calabatecan , que 
tinha fuas eftancias defroíite , do que logo 
o Governador foi avifedo: pelo que deter- 
minou de IJie mandar dar hum aíTalto , por-^ 
que nao fó defconfiaflem de entrar ñas tér- 
ras do Eílado , mas pera que fe receaíTem 
de Ihes irem lá quebrar as caberas , porque 
nSo viveifdm com tanta fegurdn^a ; e pera 
iflb elegeo alguns Ca^tSes ; de quenco adia- 
mos o nome , a mais que a rantale^o de 
Sá, elhedeo quinheiítos liórhens pera irem 
dar no Calabatecan , que paíTáram pela liha 
4^ Joáo |l.opes defrotite do paíTo fecco y e 

no 



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3J0 ASIA DÉ Diocio OB Cottto 

no quarto da Lúa foram demandar ase(tail«* 
cías dos Mouros , levando diante os efpin* 
gardeirod. OCalabatecan efiava ]i avifadot 
porque dantre os noflbs havia quem Ihe tnan^ 
da va cada dia avifo do que fe paíTava , e 
eftava efperando com as armas ñas maos^ 
e tíabam lanzados em ciliada feiscentos ho^ 
mens , em parte que ficavam ñas codas aos 
noíTos; que tanto que osviram paíTaradian*» 
te, Ihes arrebeotáram por huma ilharga, e 
deram na retaguarda, que era Pantaleáo de 
Sá , e da príméira carga derribáram , e fe** 
ríram algiins , e depois traváram com elles) 
e po8io que os.achou , e tomou defcuidados f 
voltando com grande animo , coiíoe^áram 
huma muito afpera , e perigofa batalha á 
efpada, porque 1 bes faltou aarcabuzada que 
hia diante- Pantaleáo de Sá fe vio de todo 
perdido , m^s pom por iíFo fe defcuidou de 
liía obrigacáo j antes com muito valor , o 
esforfo fuftentou o pezo da batalha., pono 
diante dos feus, ammando*os acada pafío, 
etrázendo oolho nelles, porque fe nao deí^ 
HiandaíTem* Nefte tranfe acudíranní os que 
biam na dianteira com a arcabusaña ^ (por« 
qu^ tiveram rebaja áó apeno em que efla^ 
vam ,) é dando em os inimigos ^ ospuzeram 
em desbarato com morte dealguns. E por- 
que o poder toda vinha já contra ellos , fe 
forata recolhcndo q melhor que pudéram f 



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Dec. vil Liv. V. Cap. L 35:1 

ücando no campo perto devinte dos noflbt 
morros » a fóra miíitos feridos , que nao pe? 
rigáram* 

; PaíTado efte focceíTo y de que os lnimi« 
gos ficáram mui ufanos , determinaran! de 
tízer huma entrada pela Ilha de Joáo Lopes» 
B hufna. noite muko efcura a commettéram ^ 
e paíTáratn a ella mais de quatrocencos , de 
maré vaíia , com a agua pelos peitos » e 
huns poneos dellesforam de longo dapraia^ 
onde Ayres Gpmes da Silva tinha a íua el^ 
tancia , porque eílava alli com feííenta ho* 
(nens. E como o efcuro era grande , e elles 
hiam em muito filencio , entra ram alguns na 
cozinha de Ayres Gomes da Silva , <^ue eA 
tava apartada, cm que nao havia mais que 
humelcravo cozinheiro, queéftava dormin- 
do , em quem déram algumas emuladas ; e 
íahindo della , foram dar com dous Toldados 
quevjnham de fóra, quefentlndo ferem ¡ni^ 
migos, voltáram com muita prcíTa, ele fo- 
ram pera hum rezo , que efiava a íima das 
efiancias , em que havia duas pe^as de arti- 
Iheria , com que varejavam as dos inimfgos , 
que eítavam da outrá banda , e de fima co- 
me^áram a gritar, queacudiflem áartilheria. 
Ayres Gomes da. Silva ouvindo a revolta, 
acudió com os feus Toldados aquella parte , 
e fez final com hurta pe9a , pera que fou** 
beíTem nos paíTos: qae.havia Mouros na Ilha. 

E' 



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^jrX ASIA DE DlOGO DE CóÜTO 

E tanto que fe ouvio , fe lan^áram logo 
muitos á agua , pera paíTaratn a ella ; tns» 
os inimigos fentindo já os noífos , fe foraiu 
recolhendo. E Ayres Gomes da Silva,. que 
teve rebate , fe foi apds elles , e ihes deo taih^ 
ta prcíTá que os fez lanzar ao rio, onde íe 
aíFogáram alguns , íicando a Ilha deípejada y 
a que eratn paflados já mais de feiscenios 
dos que eftavam em os paflbs , mas nao ti* 
veram que fazer. E acudindo o Governador ^ 
mandou logo paflar Jorge deMendo9a Ca« 
pitáo da Cidade pera a Ilha de Joáo ( que 
nca antre a de Joáo Lopes, e a térra firme) 
com feiscentos homens , e alguns miradores 
de Coa , porque fe receou que os inimigos 
entraíTem nella. 

C A P I T ü L O IL 

J)a Armada que ejie anno dejincoenta efe-- 
te partió do Reyno , de que era CapitSo 
mor D. Luiz Fernandes de Vajconcellos : 
e de huma breve reía cao da devogao , que 
o^mareantes tem ao Bemaventurado S. 
Fr. Pero Gonfalves , a que elles cbamam 
o Corpo Santo. 

POucos dias depois do aflalto paíTadoy 
furgíram na barra de Goa tres náós de 
finco , que tinham partido do Reyno : e por-» 
que defta viagem he neceflario darmos moi* 

to 



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I>EG. VII. Liv* V. Cap. Ih jfj 

to particular razSo , o faremos aguL No 
principio defte anno defincoenra e tete, em 
que andarnos , inandou ElRey D. Joáo ne- 
gpciar ílnco naos pera mandar á India , de 
que deo a Capitanía mor a D. Luiz Fernan- 
des de Vafconcellos , filho do Arcebifpo de 
Lisboa D. Fernando de Menezes , que eG- 
colheo a nao Santa Maria da Barca y eni 
que D, Leonardo de Soufa tinha chegado 
da India pera ir nella. As outras quatro 
naos eram , Santo Antonio , cujo Capitao 
era Cide de Soufa ; a AflumpjSo , que leva- 
va por Capitáo Braz da Silva. Da Framen- 
ga era Antonio Mendes de Caftro ; e di 
Aguia Joao Rodrigues (galerna de Carvallo. 
Eftando eftas naos preftes, e carregadas pe- 
ra darem á vela, abrió a nao Capitanía hu- 
ma agua táo grofla, que fe hia ao fundo, 
e chegou ater emíi quatorze palmos deila: 
e acudindo os oíHciaes pera a remediarem , 
náó lómente Ihe nao puderam tomar a agua , 
mas nem faberem por onde a fazia , antes 
viam que cada vez Ihe crefcia mais , porqué 
nem bombas , nem barrls , nem Outras va* 
filhas, quecorriam por andaimes , Iba pude^ 
ram efgotar em muitos dias , trabalhando 
de día ^ c de noite. Vendo EIRey que fe 
hia gaftando p tempo , raandou fazer as cu* 
tras naos á vela , c que aquella fe defcarrci; 
gaíTe, o que elles fizcram já era Abril. A 
Outo. Tm. IF. PX Z Ca- 



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35*4 ASIA DE DioQo de Coüto 

Capitanía fedefpejontoda com muirá prefla , 
pera vefem fe ihe achavam por onde fazia 
eíia agua. Vendo D. Luiz Fernandes queja 
naquellc anno nao podia fazer viagem , no 
querecebia multo grande perda, porque era 
Jiúm Fidalgo pobre , e tínha gallado muito 
cm fe aviar, andava mui trifte , e defcon» 
tente. A nao foi revolvida , e bufcada de 
poppa a proa, fem Ihc poderem dar coma 
agua, e andava huma grande borborinha an* 
tre os pefcadores de Alfama fobre aquel- 
la negocio , que affirmavam publicamente 
que Déos N. Seniídr permitiíra aquillo , 
porque aquelle anno^iáte. tirara o Arcebifpo 
aiquellas fuas tao antigás, ceremonias,, com 
que ,veneravam, efellejavam odia doBem- 
aventurado S. Fr. Pero Gonfalves , levan» 
d0'O..¿s hortas de Enxubregas com nwiiías fo- 
lias , cargos de fogatas , e outras interiores 
de alegría , e de lá o traziam enramado de 
cocntros frefcos , e elles todos cora capel- 
las ao redor delle, dancando , e bailando. 

E' porque nos nao lembra vernK)S efcri^ 
tas eftas ceremonias em alguraa parte, ofa- 
rem4iS'aqui brevemente. Tem todos os ho- 
mens do mar tamanha devo^áo , e v<riiera^o 
ao Bomaventurado S. Fr. ^Pero Go&9aIves ^ 
e o tem por táb íeu advogado ñas tormen- 
tas 'do mar, quecrera deíodo feo corai^áo, 
que aquellas exhalaydes , que nod tempes for«i 
.. ^ tul- 



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: Dec; vil Lrv. V. Cap. H. 35'^ 

tiilfos y c tormentofos apparecem fobre,o$ 
maíloü, Olí em outras partes das naos, qw 
be o Santo, que osvem viíltar, econfokr; 
e tanto que acerram de ver aquella exhala* 
jáo, acodem todos aoconvés aofalvar cpfli 
grandes gritas, e alaridos, dizendo: Salva. f 
Jaiva ^ éeorpo Santo. Eaffirmam que quan- 
do apparece ñas partes alcas, e duas étres^ 
cu mais daquellas exhala96e3, que he iinaí 
que Ihes dá de bonanga ; mas fe apparece 
huma f(>,e pelas partes balxas ^ que demín* 
cía naufragio* E tao c.rentes , e firmes eftam 
nido, que quando aquellas exhalagóes appar 
recem íbbre 0% maílareos , fobem os trnúr 
nheiros. aíTima , e aííírmam que acham píflr 
gos de cera verde.; maselles nem os trazem , 
fiem os moftratn. Ao menos nos os nao vír 
mos alguma hora , paflando por muitas y^ 
zes efta carreira, . É fe os Religiofos , que 
vem ñas mcfmaí naos , Uiés querem ir á 
máo , dando^lhes razóes pera Ihes moftrav 
qua aquillo sao icichalagdes , e dando ascaur 
fas naturaes , porque fe geratti , e porque 
apparecem, nao falta mais que tomarem as 
armas ,' e ütlevantarera-fe contra qucm Ihes 
contradiz aquella fuá fé, que portal otem. 
A fefta defte Santo fe faz , e celebra ñas 
Oítavas da Paícoa , e aqueíle dia he o de 
maíor triunfo de todos os pefcadores, que 
todos^ 09 ouíjFÓs y eem querelles faseio ^ó« 
2 ü res 



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35'<5 ASIA DE DiOQo de Couto 

re& gaftos , e defpe^as , que em todos os 
mais. Efta pequeña luz , que enes mareantes 
Ptírtuguezes venerain em nome de S. Fr. 
Pero Goncalves , e os eftrangeiros no de 
Santo Anlelmo , he táo aritiga fuá venera- 
dlo , que já em tempo dos Gregos fe cele- 
oráva ; porque fegundo muitos Authores íeus 
contam , quando aquelles famofos Argonau- 
tas hiam na demanda do Velloíino de ouro , 
em huma grande tormenta que tiveram no 
mar, appareceo aquella luz fobre a cabera 
do Caftor , e Pollux , e que logo llies cef- 
fára a tormenta ; o que moveo aos homens 
a terem eftes dous irmáos em tanta venera- 
do , que os contáram no numero dos Deo- 
hs. E affim Plinio no II. Liv. da natural 
lijftoria , fallando nefta luz , aífirma que fe 
TÍra multas vezes ñas pontas das langas dos 
foklados em os exercitos , e que o mefmo 
apparecia em as naos , e Ihe chamáram 
Stelía Cajlaris , porque appareceo fobre a 
cabera de Caftor, como aíTima diñemos. 

E tornando aos noíTos mareantes. Quan- 
do viram que fó a nao do filbo do Arcebif- 
po deixára de fazer viagem , créram que o 
Santo fe quizera fatisfazer niíTo da oíFenía 
qw óArcebifpo Ihesfizera emihes defender 
loas táó antigás feftas ; c aílim o affírmáram 
ao mefmo Arcebifpo , que vendo tamanha 
íé '^ e 4evo9ao, movido daquellc zelo y Iha 

: tor- 



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Dec. YII. Liv. V. CJAP. II. 35:7 

tx)rflou a conceder , depois que fe achou 4 
agua , porque ñas voltas que ihe deram fqí 
hum marinheiro dar com hum furo dehucn 
)régo na quilha , que eftava deílapado , quQ 
3or defcuido deixáram os Calafates de ÍJie 
)dr prego, e quando a breáram fe tapou o 
>uraco , e por alli fazia aquella agua. E 
permitcio Déos N. Senhor que aconteceífe 
ifto a e(la nao , eftando no porto , porque 
fe nao perdeíle á ida , que íe fora no mar , 
jienhum remedio tinha. Aíliiri que a agua 
foi tomada, com grande alvoro^o a tornou 
a carregar , porque diíTeram os oificiaes que 
ainda tinha tempo} e que quando nao pu« 
defle paflar á India , ficaria invernando em 
Mozambique i e aíllm deo á vela a dous 
dias de Maio , e foram feguindo fuá derro- 
ta , e na cofta de Guiñé acbáram tantas cal« 
marias , que os déte ve fetenta dias ; e to- 
mando parecer fobre o que fariam , aíTentá* 
ram , que foflem invernar ao Brazil, por- 
que era muiro tarde , e logo fe fizeram na 
volta da Bahia de todos os Santos , aonde che- 

fáram a quatorze de Agcilo vefpera de N» 
enhora da AÍIump^áo. D. Duarte da Coila ^ 
que alli eftava por Governador, foi logo defr 
embarcar o Capitáo mor , e os Fidalgos que 
hiam na nao , que eram Luiz de M^Ilo da 
^ilva , D. Pedro de Almeida , defpachado 
com a Capitaaia de Ba^aim^ D, Filippe d^ 

Me- 



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3jrí ASIA PE DioGO DE CouVo 

Ménczes ^ irmáo de D. Joao Tello , Imnt 
dos Governadores do Reyno, filhos de D¿ 
Henrique de Menezes , que eftivera por Em* 
baixador em Roma , e trouxe a Santa Ii> 
quilicao a Portugual ^ e de Dona Brj tes de 
Vilhena , filha do grande Ruy Barrero , Fron- 
teiro niór do Algarve, D. Paulo de Líma^ 
¡Nuno de Mendoca , e Henrique de Men- 
doza feu irmáo, Jeronymo Correa Bárrelo , 
Henrique Moniz Barreto , e outros Fidai- 
gos , que agazalhou , banqueteou , e deo pou*- 
fadas á fuá vontade ; e o mermo fez a toda 
a mais gente da nao , a quem deo manri- 
nientos emquanto allieíteve. Asmáis naos, 
que tinham partido diante , a Frsmenga de 
que era Capitao Antonio Mendes deCaftro, 
foi tomar Melinde , onde invernou : a Aguia , 
exn que hia Joao Rodrigues de Carvalho , 
invernou em Mozambique , por chegar tar- 
de : as duas AÍTumpjáo , e Santo Antonio 
chegáram a Goa. Foi eüe anno aflinalado^ 
feílim pela morre de ElRey D. Joao , que 
falecéo , depois das naos partidas , em onze 
de Junho dia de S, Barnabé Apodólo, em 
idade de fincoenta e lineo annos , tendo rei- 
nado trinta e finco ; como pela morte do 
Emperador Carlos V. , de gloriofa memo^ 
ria , que falecco o Outubro íéguinte , em 
ídade de fincoenta e oito annos e leie mei- 
ttBj deixando -pOi- herdeiro de íetts Eftado» 





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Dkc. vil Liv. V. Cat». ir; ^^^9 

o muito Catholico , c poderofo Principe D. 
Filippe feu filho , que foi o fegundo deÓe 
nome em Caftella , e o primeiro depois nos 
Re/nos de Portugal* 

CAPITULO III. 

Das coufas quefuccedéram em todo ejle an-^ 

no em Maluco : e de como os morado-' 

res prender am D. Duarte Defa , 

e foltdram aquelle Rey. 

DEixámos as coufas de Maluco o anno 
paflado na guerra , que os Ternates 
faziam ánoíTa fortaleza, pela prizáo deEl- 
R^y , e de como defpedíra D. Duarte Deja 
o galeáo , de que era Capiíáo Francifco de 
Barros, a pedir foccorro a Malaca; agora 
continuaremos com as coufas que fuccedé* 
ram todo efte anno , pelas nao contarmos* 
por pedamos. Partido o galeáo da carreira , 
ficou correndo a guerra com muito grande 
aperto , porque fe metteo nella o Rey de 
Tidore , que era genro do de Ternate ^ e 
deitou fuas corocoras ao mar , c mandou 
leus Capitáes humas vezes, eelle era peíToa 
fe embarcou outras, e foram pela cofta da 
Ilha de Ternate ; e á coma de dizer qup 
favorecía o fogro , Ihe tomou alguns lugares , 
em que deixou feus prefidips ; porque como 
os Mouros nao guatdam f¿ em materia de 
* rei* 



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^6ó ASIA DE DroGO de Cottto 

reinar , todas as vezes que o filho , o imiáo , 
e^ párente pode tomar oReyno aooutro^ 
nao perde cccaíiáo , como eíle fez , que ven- 
do o fogro prezo , e o Reyno revolto, por-» 
que defejou de fe fazer fenhor delle , in« 
tentou o que fez , pera ficar fó com o loi^ 
perio de todas aquellas Ilhas. Os noíTos pa<» 
decéram com eíla guerra traba Ihos excelli- 
vos de fomes , e perfeguiyóes , fem D. Duar- 
te De^a fe mover a compaixao , nem que* 
Tcr foltar o pobre Rey , antes Ihe eftreitava 
mais a prizáo, e Ihe mandava fazer avexa- 
$6es , e aíFrontas , indignas de animo Chri« 
fiáo ; e todavía trazia fuas embarca^des no 
mar y com o que fuftentava a guerra , e ou* 
tras mandava a Geilolo a bufcar mantimen* 
tos , e .o mefmo a Bachao , donde fempre 
]he acudiam , e foccorriam com eiles ; por- 
que aquelIesReys, por vercm acabado o de 
Ternate, nao íó oprovéram comelles, mas 
ainda Ihe mandáram navios , e gente em fa- 
vor de D. Dúarte Dega. 

Hilando aílim as coufas no peior eñado 
que fe podia imaginar , chegáram áquelle 
porto D. Jorge Deja , e D. Diniz de Me- 
nezes , que lúam de foccorro ; porque tanto 
que ogaleáo deFrancifco de Barros chegou 
a Malaca , e que D. Joáo Pereira Capitao 
daquella fortaleza vio pelas cartas de D. 
Duarte Pe^a o trabalhofo cílado , em que 

aqueí- 



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Dec. vil Liv. V. Cap. IÍL 361 

«<)uel]a fortaleza eílava , logo negociou eíles 
dous Capitáes pera Ihe írem de foccorro^ 
D. Jorge Dega na nao Coiicei^ád com íin» 
coenta Toldados , e rouitos mantimentos ^ mu- 
ní^Óes , e roupas , e D. Diniz em huma ga-< 
kota com trinta homens; porque os Capi- 
táes das fortalezas naquelle tempo nao ti- 
nfaam as máos táo atadas , como neftc , em 
que ifio efcrevemos , nem havia tantos regi-^ 
memos , e defezas fobre nao tocarem na 
fazenda de ElRey ; porque boje póde-fe 
perder huma fortaleza á mingua , fem os Ca- 
pitáes das corras Ihe poderem valer , por 
eftarem atados a tantos regimentos , que fe 
sao podem menear: em tanto queaconteceo 

Serder-fe hum galeao de ElRey na barra de 
umaCidade por falta de huma amarra , por 
o Capitáo dcHe , nem os Officiaes da fazen- 
da poderem fazer defpezas , nem comprar- 
Iha , porque Iha fariam pagar. £ a coufa 
que neíla materia mais eícandaUza he, que 
ouvimos dizer a alguns OíHciaes dafazenda^ 
e juíti^a , com quem praticáraos fobre efta ma- 
teria , que deixaílem perder as fortalezas , e 
as naos , e que nao tocaíTem na fazenda de 
ElRey , em que nao vimos até hoje luzir 
efies accrefcentamentos , mas íim cada hora as 
perdas, e rífeos, que peja pouparem acon*> 
l^cem por toda a India. .E podo que edr^!- 
&hamos.lfto com muita razao>y tambem 9 

nao 



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362 ASIA DE DiOGO DE COVTO 

nao deixaremos de fazer as grandes defor- 
dens , e defpezas exceíGvas , que os Capi- 
taes , e os Oíficiaes faziam á conta de man* 
darem foccorros , que foram tantas , qué 
quiz ElRey antes por fuas fortalezas a rit 
eos, que diífimulallas ; e porque os exem- 
píos diño sao muitos , e nos em algumas 
partes os apontareraos, os deixamos agora/ 
Gom a cbegada defte foccorro come¿áram 
os noíTos a resfolegar , c D. Duarte Dega 
fez a D. Jorge Deja Capitáo niór daquelle 
mar, elhedeo huma fulla pera andar ndle, 
e com elle D. Diniz deMeneies na fuá ga- 
leota , e Chriftováo de Sá em outra fufta , 
e Henrique de Lima , e Francilco de Araujo, 
e Gonzalo Fernandes em outras embarcajóes ; 
e as corocoras de EiRey de BachSo y, e Gon- 
zalo Pereira Regedor de Momoia com tres 
corocoras fuas , com que havia pouco tinha 
vindo de foccorro. 

Depois que efta.^ Armada fe ordenou, c 
andou nomar, ficou a fortaleza alguma cou- 
fa raaisdefa nombrada dosinimigos, que ca- 
da dia Ihe faziam fobrañ^arias , porque lo- 
go elles fe retiráram , e rcforgáram fuas Ar- 
madas, ordenando os Regedores de Terna- 
te por Capiráo mor de todas as fuas coro- 
coras a Cachi! Labufaíá , que fe foi logo 
rer com o Rey de Tidore, pera com elle 
aílentar o modo de como le procedería na. 

guer- 



y^ Digitized 



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Dec. vil Li.v. V. Cap. IIL 363 

guerra contra os noíTos: que affentou, que 
peiejaflem cora a noíTa Armada , pera o que 
mandou negociar de novo toda a fuá , e a 
proveo de muita , e luftrofa gente , e fez 
deHaCapitáo humRegedor feu, e Ihe man- 
dou que fofle com Cachil Labufafá bufcar 
a noíTa Armada , e que pelejaíTe com ella , 
pera o que tambem Ihes deo as fuas coro* 
coras mui bem negociadas. Edando as cou- 
fas neíle eftado , chegou aquella fortaleza o 
galeáo da carreira , que tinha partido de 
Goa , de que era Capitáo Antonio Pereira 
Brandao , que trazia multas roupas , provi* 
mentes , e munifóes , que chegáram a mul- 
to bóm tempo; e depois de elfar na térra, 
e foube as coulas da guerra y e de como fe 
efperava pela Armada dos inimigos pera 
pelejar com D. Jorge Deja , fez preftes ' o 
batel do feu galeáo , com os foldados que 
comfigo trazia , e ie foi metter na Armada. 
O Cachil Labufafá , depois que ajuntou a 
fuá Armada á deTidore, foi bufcar a noí- 
fa, que eftava á viña da fortaleza já preftes 
pera o efperar ; e chegados huns aos outros , 
defcarregáram aquella primeira falva de ar- 
tilneria , * que fez em huns , e outros bem 
de damno , e logo ainda no meio daquellas 
nuvcns de fumo enveflio o Labufafá o navio 
de D. Jorge Deja , a que fe lanjou logd 
dentro com mais de cem homensefcoliiidps , 

e 



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^¿4 ASIA DE DioGo DE Couro 

e antre elles fe ateou huma multo arrlícada 
batalha , e o mefmo fe fez por toda a mais 
Armada , e a Capitanía de Tidore inveflio 
D« Diniz de Menezes , e todas as maís ce** 
rocoras as noíTas embarca^óes , em que ie 
come9áram alevantar moi cfpeíTas labaredas 
de fogo , e fumo das multas panellas de pól- 
vora , que de huma , e outra parte fe lan^a* 
vam , e atroar o ar com os eftouros da ar* 
cabuzaría que nao defcanjava , ecaufavahum 
grande eílrondo , que ajunrado a ifto o re- 
tiñir das armas, e os gritos de todos , pa« 
recia que fe acaba va o mundo y e que ler- 
via o mar. D. Jorge De^a , que era multo 
bom cavalleiro , vendo-fe entrado do Labu« 
fafá , que era multo determinado , arremetteo 
a elle com grande valor pera o fangar fó* 
ra , o que nao pode fazer por fer ajudado 
dos mais efcolhidos Mouros de Ternate» e 
Tidore* Todavía aprefentando*íe-lhe diante 
com alguns que tambem efcolheo y come^ou 
com elle huma multo perigoía, e arrlícada 
batalha y onde fe pclejou com multo valor ^ 
e esforzó. D. Diniz de Menezes , e Antonio 
Ferelra Brandáo tambem foram inveftidos de 
multas corocoras y mas elles como esforza- 
dos cavalleíros que eram , fizeram tantos e(^ 
tragos nos inimigos , que Ihes caufou graii«» 
de eípanto , axorando aigumas das coroco- 
ras» Todas asmáis embarcacées da nofla 

Ar- 



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Oeo. VII. Liv. V. Cap* IH* 36^ 

Armada edavam travadas com outras dot 
iñimigos , pelejando com grande furia , n 
efpanto ; mas onde á batalha eftava maig 
arrifcada , era no navio de D, Jorge Deja ^ 
onde era tamanho o humero dos morros, e 
feridos , que quaíi faziam eftorvo aos vivos. 
Eftando auím a coufa tSo duvidofa , fem 
fe faber declarar a vitoria por nenhuma das 
partes , quiz a defaventura que tomaíTe fo* 
go huma pouca de pólvora na fufta de D. 
Jorge Deja, cuja rorja lanjou ao mar to» 
dos os que nella peJcjavam , tirando D. Jor# 
ge Deja , e hum Belchior Lopes , que ficá* 
ram ambos fós nella, defendendo-a dealgu« 
mas corocoras que acudíram pera a levarem 
i toa , íóbre que ambos pelejáram muí va* 
lorofamente com multo damno dos iñimigos. 
£IRey de Bacháo , que eftava da parte dos 
noíTos y e Gonjalo Pereira Regedor de Mo* 
moia, axoráram muitas corocoras. D.Diniz 
<Je Meñezes , Antonio Pereira , Henrique de 
Lima y e todos os mais Gapitáes Portugue- 
ses nefte dia íizeram coufas dignas de fe 
engrahdecerem com mais eloquencia da que 
em nos ha. D.Jorge Deja, fobrequem car» 
regava todot>pezo defta batalha, foi oque 
mais fez , e o que mores trabalhos paíTott 
que todos , porque elle fó com Belchior Lo^ 
pes défendéram o Xeu navio de feijáo , que 
de medo delks oáe oufavam os iaitnigos ao 

«n- 



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3)56 ASIA DE Dioao de Couro 

entrar ; e fempre fe perderá , fe Déos nao 
encaminhára hutn pelouro de hum ber^o de 
huma das noíTas embarca9Óes , que deo no 
Labufafá, Capltáo mor dos ínimigos , e o 
derribou como morto. O que vifto pelos 
feus , cuidando que o eílava , fe aíFafiáram ; 
efazendo (inal ámais Armada, fefoi toda 
recolhendo com grande damno , deixando 
porém os noíTos tao de(lro9ados ^ que Ihes 
roi neceflíario recolherem-fe pera a fortale- 
za , pera fe curarem os fétidos, que eram 
muicos , (icando affim a guerra ainda viva ^ 
e os noíTos em muíto grande aperto , por- 
que os inimigos tornáram a reformar fuas 
Armadas, e a continuar em feus analtos. 

Vendo os moradoras que D. Duarte De- 
ja porteima nao quería foltarEIRey, eque 
eñavam arrifcados a grandes defaventüras , 
ajuntáram- fe todos, eaírenráram de o pren- 
der , e folrar a El Rey , pera fe acabaren^ 
todos aquelles trabalhos , e íizeram pera 
ifto cabera a Henrique de Lima. E cón- 
fuitando em fegredo o negocio y eftaodo o 
Capitáo hum Domingo á Mifla , éntfáram 
os da conjurajao na Igreja , e remcttendo a 
tile j o liáram, e aílim nosares foi leTado 
i torre da menagem , onde foi fechado ^ e 
as chaves entregues a tíenrique de Lkna. 
Dalli fe foram logo á: prizap , onde EiRejr 
eílava , e ó. f^liár¿n> cam Ihe^pedifefl^ gran^ 

de$ 



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Dbc. VII. Liv. V* Cap. III. 367 

tles perdóes y e darem inuitas defculpas ,: e 
o acoropanháram até fuá caía , o que Uies 
elle agradeceo , aífiroiando a todos « que 
^ náoreriam parte osaggravos, eavexa^Óes 
n que D. Duarte De^a Ihe tinha feito , pe* 
:» ra deixar de fer muito grande fervidor de 
n ElRey de Portugual ; que ñas defordens 
» de feus Capiíáes nao tinha culpa , e mui^ 
9» to particular amigo de todos os moradores 
n daquella Ilha , e fortaleza » e aíGm o moA 
trou em todo o tempo que viveo. 

Feito ifto , quizeram os da conjurajáo 
eleger por Capitáo a D. Jorge De^a ; o que 
elle nao. quiz acceitar, ainda que todos I ho 
pedíram com muita inftancia. Nem o nieC- ' 
it)o quiz Antonio Pereira Brandao por mui- 
to que fobre iflb trabalháram; e tanto, que 
eílando hum dia á porta da Igreja , vieram 
todos os moradores com os Padres , e hum 
Crucifixo alepantado, e ihepediratii dapar** 
te daqueJle Senhor quizefle acceitar a cargo 
diquella fortaleza até o Governador prover, 
fazendo-'lhe fobre üTo proteftos , e requerí* 
mentos. O que viflo por elle , diíTe «'que 
» acceitava íer olheiro da fortaleza , e da ar* 
» rilheria de ElRey , já que affim era nece& 
31 faria, e nao Capitáo; 1» eaíiimdizem que 
mandou fázer logo feus papéis, etirou feu$ 
inftrumentos. Entregue elle da fortaleza, e 
o D. Duarte De$a. na naefma pri^áo^ tuaui 

que 



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368 ASIA DE DiOGO DE COUTO 

que chegou a xt^on^io pera a India , o eiTl« 
barcáram no galeáo da carreira prezo em 
ferros , com os autos de íuas culpas , e na 
India foi fentenciado que fe foíTe apreíentar 
a ElRey ( fegundo ouvimos a algumas peí- 
loas ) como fez , e lá no Reyno fe livrou ; 
e deo taes querelas contra Antonio Pereira 
Brandáo , que o mandou EIRey ir prezo , 
eque Ihe confífcaífem afazenda, eaífim foi 
entregue a peflbas de confianza , e elle met- 
tido no caítello y. onde D. Duarte De9a o 
accufou de alevantado , e Ihe poz outros cri* 
roes, porque diziam tivera votos que mor- 
reíTe i em que fe nao fez execu^áo , porque 
veio com embargos , em que provou que 
nunca fe nome«ira por Capitáo , fenao por 
olbeiro da fortaleza , do que aprefentára cer*» 
tidóes de todos os Officiae?. Com tudo foi 
fentenciado emalguns annos de degredo pe« 
ra África , e que pagafle os ordenados a D. 
Duarte Depa. O degredo Iheperdoiram de- 
pois , por ir cora Francifco Barreto á con- 
qutda de Manamotapa y onde morreo. B 
contava Antonio Pereira Brandáo que o meí^ 
mo D. Duarte De^á Ihe mandara rogar que 
accdtaíTe a Capitanía', do que depois de ma- 
goado Ihe contrafez aquelle Romance velho 
de Darandarte em D. Duarte , mal cavalbero 
provado. E tornando ás coufas de Maluco* 
Com a foltura de EIRey ceíTou á guerra ^ 



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Dec. vil Liv. V. Cap. III. 369 

e torniram as coufas a feu lugar, correndó 
ElRey em tudo muito poncual com o fer^ 
VÍ50 do de Portugal , tendo fó trabalho cni 
tornar a tomar alguns lugares , que Ihe o Kcf 
de Tidore tinha tomado com cor de o fa- 
vorecer, e ajudar , como já diíTemosr Nefté 
eñado deixaremos as couías de Maluco até 
tornar a ellas. 

C A P I T U L O IV. 

Da embaixada aue o Governador Franctfcó 
Barreta mandou a ElRey de Chaul , e 
fobre que : e de como os Mouros entrd- 
ram na llha de CborSo , domie foram lan* 
(ados com grande damno feu : e de coma 
o Governador mandou metter nella D. 

. Franctfcó Mafcarenbas. 

POr hum navio Ugeiro , que veio de Or-^ 
muz , teve o Governador Francifco Bar- 
reto recado , que em Suez fe faziam preñes 
g^lés pera paííarem á India , o. que o poz 
em grande cuidado, pelo que logo defpedib 
fecado ás fortalezas do Norte , e a Dio , 
pera que eftiveflem fobre avifo. Com iíld 
mandou dar muita prefla á Armada , e lan- 
zar ao mar os galeóes novos , que tinhá fei¿ 
tos em o lugar em que fe os óutros quei- 
máram, porque determinava delr bufcar os 
Turcos , onde qiier que elliyeflejín ,;cfoífeni 
Couto.Tom.lF.P.L Aaí tcr^ 



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370 ASIA DE DioGo de Couto 

íer, E pondo eftascou Ais emconfelho, aíTen- 
tou-fe « que mandaílem hum Embaixador 
7^ ao Inizamoxá Rey de Chaul íobre algu- 
» mas coufas neceíTarias , em que entravam 

> duas principacs. Huma períuadillo a fa* 

> zer guerra ao Idalcan , e que tornalTe fo- 
^ bre a fortaleza de Calabraga , que I he fe- 
» ria fácil de tomar , pela gente que tinha 
» em baixo fobre a II ha de Goa ; e iño a íim ^ 
» que como o elle foubeíTe , devia mandar 
}i recolher feus Capicaes , pera mandar acu- 
31 dir aquella fortaleza , e que añim ficaria 

> Goa dcfapreflada. A outra era , pedir-lhe 
31 lícen^a pera fazer hum caftello roqueiro 

> no Morro de Chaul , que fica fobre aquel- 
% la barra, pelas novas quehavia de Gales, 

> pera dalli Ihe defender a entrada, fe qui- 

> zeíle tentar commetter aquella Cidáde; o 

> que a elle mefmo Inizamoxá vinha bem ; 

> porque fe os Turcos meiteflem pé naquel- 

> le porto, nunca mais havia de ter delle, 
)» nem dos mais de fuá coila proveito al* 
» gum.» 

Concluido o confelho , levantou-fe em 
pé D. Diogo de Soufa, (que tinha aquelle 
verSo vindo de fervir a Capitanía de CJofa- 
la , e edava pera fe embarcar naquellas naos 
pera o R^yno ,) e diíFe ao Governador Fran- 
cifco j^arrcto « que fe tinha as novas das 
^ gi^lés por cortas^. Iho diíTeíTe, porque d^o 

. í» era 



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Dec. vil Liv. V. Cap- IV. 371 

yt era elle homem , que fehavia de ir éoECr 
j» tado da India , deixando-a em trabalhos , 
)i que elle e(la\ra nouita rico demercés^ que 
3» IheEIRey fizera, eque em tempe de ne^ 
pi ceílldades quería, elle moílrar agradecimen- 

> to dellas , e tornar a gaílar tudo em íeif 
» férvido , porque elle , que Ihe deo o que 
» tinha , Ihe faria outras mercés ; e que as 
)» defpezas , que tinha feito pera fuá embar- 
» cagao , imporcavam pouco , porque a ma- 

> ralotagem allieftava oHofpital deElRey, 
» onde fe defpenderia, t O Governador Ihc 
agradeceo departe deElRey aquelle oíFere- 
cimento , certificando-lhe « que elle o fabe<- 
» ria por fuas cartas , pera que elle Ihe fi- 
» zcííc a mercé que merecía , que efperava 
» pelo fegundo recado, e que nao fe desfi- 
» zeífe decoufa alguma até elle o avifar.» 

PaíTado iflo , ordenou o Embaixador que 
havia de mandar , e elegeo pera iífo Jorge 
Correa de Antas, hum cavalleiro nobre, e 
rico, de grande peflba, e a\r¡fo, e Ihe deo 
as coufas neceflarias pera aquella jornada, 
que elle fez com. grande apparato , e com- 

{)anhia ; e mandou por elle de prefente áquel- 
e Rey feis formólos ginetes com feu« tejlír 
zes ricos. Efte Embaixador partió emiiavips 
ligeiros , e de fuá jornada adiante daremos 
razáo. A guerra de Coa hia por diwte, 
aínda que nao havia nelia mais tráb^ho^ 
Aa ü qqe 1 



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572t ASIA 43B DiaGo pe Cotrro 

3ue ó da* falta das coufas , e as inquieta^Óes 
os rebates , que os inimigos davam em to- 
das as partes. Succedeo quafi no fím deOu* 
tubro querer hum dos Capitaes chamado 
Miaberü dar hum aflalto na Ilha deChoraa^ 
por fer avifado que ella va nella reccihida 
muita fazenda dos naturaes das libas do der-* 
redor; eaílim commctteo a entrada humdia 
DO quarto da álva por hum paíTo , que fe 
chama Sacoria, que eílá da outra banda da 
térra firme, qic chamam Vangani, que he 
a parte mais eftreíta do rio , que terá perto 
do vinte brajas de largura , e de maré vafia 
de aguas vivas fe paña com agua pela cinta. 
Por aqui foram paíTando perto de quinhei> 
tos Mouros, huns a nado, eouiros era ca* 
bajas 5 e foram tomar o valado da Varzea 
de Choráo , (que he na ponta que fica pera 
a banda da liba Divar , que fe divide da 
outra por hum pequeño cñeiro , ) e ao pat 
far víram alguns eftar huma fafta furta no 
lió , (de que era Capitáo hum Portuguez. cha- 
mado Jpao Marrao , que eftava quafí fó , 
porque aíHm o Capitáo , como os foldados 
eram idos a Goa ,) e feniindo-a os Mouros 
ícm gente , a foram demandar , e entráram 
nélla, e'os que dentro eftavam (que erara 
tres,'ou quatro foldados) acordáram ágri* 
la dos marinheiros; ecom aquelle fobrefal- 
|o íe lancárasQ ao mar . e fe foram pera a 

Ilha 



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Dec. vil Liv. V. Gap. IV. y;^ 

Uha Divar , fienndo os Moutos íenhores do 
navio. Os que paííáram á liha feriam per» 
to de quinhentos , e foram demandar a po* 
voagáo , onde refídia hum Gon^^alo Pacheco , 
e com elle dous Gemios chamados Zeita^ 
rané ^ e o outro Humbraná , tío , e fobrí« 
jiho , que eílavam alli de vigia com muiros 
peáes ; e em fentindo os inimigos > tomáram 
as armas ^ e foram-fe fahindo, é pelejando 
com elles ^ e ao eñrondo acudió Domingos 
Rodrigues , que eftava na mefma Ilha por 
AnadeJ dos efpingardeiros da térra ; e ajun- 
tando-fe todos, foram pelejando com os Mou- 
ros valorofamentc , e rccolhendo*fe pera o 
aho.da Ilha. Os que tinham cuidado dofa- 
cho que nelle eftava , em fentindo Mouros 
fizeram final , e atiráram huma bombarda- 
da , a que logo acudió o Governador ao 
caes , e mandou embarcar álguns Fidalgojs 
com foldados pera foccorrerem os da Ilha. 
O Capitáo de Naroá Ruy t)ias da Silveira 
tambem defpedio ao final algumas embarca^ 
^6eR , que alli andavam em guarda daquelles 
rios , e a primeira foi huma almadia , em que 
hiam dous companheiros fílbos da India cha- 
mados Símáo Rodrigues , e Gon9aIo Vaz ; 
e prepaflando pela fuña de Joáo Marrao , 
logo que os Mouros a entráram , e fentindo- 
os fallar, conhecendo pelallogua que ^ram 
inimigps, pu^eram-fe de fijr^ á? efpiogarda- 



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374 ASIA DE DloGó de Couto 

daS) com que derribáram alguns. Os Moa» 
ros em os fentindo , cuidando que era o foc* 
corro niaior, faltáram no roar, e añado íh 
foram pera aterra firme. Ao mefróo tempe 
chegou Langarote Picardo , Capitáó de bum- 
Catur ; e fentindo p^ra a ponta do cfleiro , 
que vai anire a Ilha de Divar, e Cboráo, 
reboUi^o, foi pera aquella parre, c chegou 
a teoipo que os Mouros apertados dos noí^ 
fos , que pelejavam com elles , e por fenti- 
rem granoe rebolligo da outra banda da Ci* 
dadé do foccorro que vinha , fe hiam reco- 
Iheñdo; elancando ao mar pera fepaflbrend 
á outra banda, e dando Langarote ricardo, 
e os compánbeiros da almadia nelles , foram 
matando muitos , queja acháram a nado. Ao 
m'efmorcmpo chegou Heñrique Jaques , Ou- 
tidor geral da India , que andava em huma 
galeota , e vinha dé rodear os ríos de noite : 
íebtindo pera aquella parte o rebollijó , acu- 
flio depreíTa lá , e chegou a temf)o que já 
os outros andavam á pefcaria dó mar, co« 
ti\o aíGma diflemíos , e ájudou por fuá parte 
^ fazer ntlles huma muí grande deftruijáo, 

'O Governadór Francilco Barretó , queef* 
tat^á no taes , defpedio Jorge dé Méndoja 
CipitSo da Cidade , e outfos Fidalgos , e 
Hi^all*eil"ós , que fe émbarcáraiti em muitas 
íftibartas^es , qut ó Governador mafidbu 
f 6f W tiats péirá aqufelle éffeito^ é thcgan* 

do 



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Dec. vil Liv- V. Cap. IV. 375: 

do á Ilha já de dia, deretnbarcáram Helia ^ 
e acabáram de arrematar a viioria ; porque 
os Mouros vendo o poder , fe lanjáram ao 
mar por onde pudéram , ondemuitos acabá- 
ram ás máos dos nolTos , e outros chegáram 
á outra banda bem efcaldados , e efcalavra* 
dos , e muito mais arrependidos do feito. 
Langarote Picardo , e o Ouvidor geral , e 
os dous compaoheiros da almadia fe cuché- 
ram de caberas de Mouros , e fe foram lo^ 
go ao Gobernador, que eftava no caes , e 
os foldados que as levavam Ihas puzeram 
aos pés , e elle os abraf ou a todos } e met- 
tendo a máo na bolfa, a cada hum que Ihé 
aprefentou cabera, deo afinco, e afeis pa- 
godes , tirando a hum homem Ibldado , qüei 
íe chamava Belchior Callaba , que foi dos 
primeiros , e Ihe aprefentou duas ou tres, 
deo o Habito de Chrifto , que tirou do fcu 
pefcofo , botando-lho no do foldado , a 

Í[uem depois mandou quarenta pardaos. Paf- 
ado iño , mandou o Governador Francifcó 
Barreto a D, Francifcó Mafcarenhas, (que 
depois foi Conde de Santa Cruz , e Vifo- 
Rey da India,) que fe foíFe metter naquel- 
la Ilha com trezentos foldados , e nella ef- 
teve emquanto foi neceíTario, fem os Mou- 
ros quererem outra vez provar fuá ventura 
nella. Com eñe fucceíTo fe comejáram os 
Capitáes do Idalcan a aíFaítar pera dentro 

com 



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370 ASIA DE DiOGO DE CoüTO 

com teo^o de nao provarcm outra vez a 
mao, nem fazerem mais que defcnderem os( 
inamimentos ^ que nao palTaíTem a Goa* 

C A P I T U L O V. 

De r&wo o Governador Francifco Barreta 
defpachou as tuLos pera o Reyno , e os 
Mauros come(dram a fallar em pazes , 
que fe Ibes conceder am : e de como o Ini'- 
zamoxd prendeo oEmbaixador que oGo^ 
mernador Ihe mandou : e do exercito que 
logo defpedio pera Ibefazer buxna jorta^ 
¡ezd no Morro: e de como Alvaro Paes 

'■ de Sptomaior partió pera o FJlreito , é 
ficou em Cbaut por caufa da guerra. 

NA entrada de Novembro dcpois do 
_ fucceíTo paíTado chegáram 3$ náós de 
Ormuz , por quem o Governador teve novas 
certas das gales, que nao fahíram ; pelo que 
logo deo dcípacho ás naos do Reyno, pera 
irem tomar a carga aCochim, que partiram 
até quinze de Janeiro defte finno de (incoen* 
ta e oúp , em que com o favor Divino en* 
tramos, e todas chegáram afalvamento, fó- 
niente a nao Patifa; , por outro nome a Aguia , 
de que era Capitao Joao Rodrigues deCar^- 
valho , arribou a Mozambique , onde inver- 
iiou. O Governador ficou profeguindo na 
guerra de jGoa, Mas vendo os Ca pitaes do 

Id^- 



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-*í¿.Oi^- 



Dbc. Vn. Liv. V. Cap. V. 377 

Idalcan quáo nml Ihes fuccedia nella^, e que 
nSo faziam mais que defpezas, come^áram 
a fallar em pazes , poroue puxáram , com 
ordem deEiRey, e de/ei^áo que os ouvio 
oGovernador^ c Ihasconcedeo cora ascon- 
di^Óejs com que antes eflavam feitas ^ com 
que fe alevantáram , e cpmegáram a correr 
os mantimentos , e tornáram as coufas ao 
que dantes erara , eoGovernador teve tem- 
po pera entender em outras , e dar prcfla á 
Armada toda , porque determinava de partir 
na entrada de Setembro pera o Achcm , por 
l9char huma inñruc^ao de ElRey , em que Ihe 
encommendava fizeíTe aquella jornada « pera 
tirar aquelle inimígo de tao perto de Mala* 
ca, e pela fama da riqueza daquella Ilhay 
e thefouros daquelle Rey , pera oque fe hia 
apercebendo de todas ascoufas quelhceram 
neceflarias pera a jornada. Deixando agora 
iílo por hum pouco, porque he razáo con-- 
linuemos com o Embaixador , que no Ca* 
pitulo paíTado deñe V. Liv. deixámos def- 
pedido pera o Inizamoxá. 

Partido elle deGoa« chegou aChauI em 
breves dias, edalli paflbu logo pera a Cor- 
te de Amadanager , onde foi muitobem re* 
cebido daquelle Rey , que o ouvio prefentes 
todos os do feu Confelho. E quando chegou 
a Ihe fallar na fortaleza de Morro, (de que 
elleeftava táociofo, pareccndo-lhe que com 



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378 ASIA DE DiOQO DE COÜTO 

O achaque dos Turcos fe quería fortificar 
nelie , pera depois por Alfandega naqueile 
porto, do que elle receberia muitó noiavel 
perda , ) defpedio o Embaixador pera fuá 
cafa , fem o acabar de ouvir, e depois por 
confelho dos feus o mandou prender , e a 
todos os que com elle foram : e defpedio 
com muita preíTa a F«iratecan com vinte mil 
homens , em que entravam finco mil de ca- 
▼alio y dando*lhe por regimentó , que fe fof- 
fe metter no Morro , c fiíeflc nelle hurtí for- 
te pera defímaginar oGovernador. Eftá gen- 
te chegou aChaul de quinze de Margo por 
diante, e oFaratecan fe foi logo metter no 
Morro , e o comegou a fortificar com mui- 
ta pteíla , fem bollir com coufa alguma da 
noíia fortaleza. Aquelle dia que chegou, 
apparecéram os montes da outra banda cheios 
de tendas , e gente , o que poz náquellés 
moradores tamanho efpanto , que comegou 
a havcr antre ellcs grandes defconíiangas , a 
que acudió Garcia Rodrigues de Tavora , 
Capitáo da fortaleza , aos animar , e esfor- 
zar, mandando logo fazer tranqueiras mui- 
fo fortes ñas bocas das rúas pera fe defen^ 
der do inimigo , fe o quizefle commetter; ef 
os moradores todos mandáram logofuasmu-' 
Iheres , e filhos pera Bagaira , e Goa , pera 
ficarem maisdefembaracados, e defaflbmbra- 
dos. Mas como o Faratecan nao trazia maisr 

re- 



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Dec* vil Liv. V, Cap. V. 379 

regimentó que pera fe fortificar no Morro , 
íiio bollio con) outra coufa alguma. 

Aqui aConteceo huma coulá maravilhofa ^ 
e digna de fe íaber, pera edificagáo noíTa , 
e pera darmos a Déos noflb Senhor multas 
gracias, elouvores pelas grandes maravilhas 
que cada dia obra ñas partes do Oriente, 
pera gloria íua , e confusáo dos infieis , que 
o nao adoram , nem conhecem , e foi , que 
em os Mouros entrando o Morro , vendo 
eftar huma Cruz na poma de!le , que ficá 
fobre o mar , foram pera a cortar , e nenhum 
machado demuitos que ihe puzeram aopé, 
quiz cortar por ella , e todos a acháram táo 
dura, como fefora dehum muito forte dia- 
mante. O que vino pelos mefmos Mouros , 
chegáram hum elefante a ella pera a arran- 
car , que póz niflb toda fuá forca , más nao 
a pode mover , cóm fer táo pequeña , de 
pao , é feñar mal entaix&da em huma pedra 
grande, tom o que a deixáranii ficar, ealli 
efteve ftiuito tempo. O Cápitáo de Chaul 
tiefpedió recado ao Goveríiador , e foi-fe 
fortifítanfló O mélhór que pode, ajudando-o 
os moradores com muitb cuidado, edefpe- 
2as, dando alguns delles tnezas, epfovendo 
ósfoldadós, queacudíram de fofa tom todo 
6 heCeífarib. E hum delles chamado Mein 
Lopes Carrafco , homefn rico, e abaftado^ 
armou biazas püblitas pera todos os que á 

cl- 



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jSo ASIA DE DiOQO DE COUTO 

filas quizeíTem ir a todo tempo , em quan* 
to efla neceílidade durou; quedeo de comer 
a mais de cem homens muito abaftadamen- 
te , fervindo-os a elles em peíToa com fcus 
criados , e efcravos , e efe ra vas, 

O recado que o Cnpitao tinha defpedí- 
do chegou a Goa em menos de rres dias , 
e fo¡ a tempo que o Governador eftava pe- 
ra fazer á vela buma Armada de galeóes ^ 
e fullas pera a mandar ao Eílreito de Or- 
niuz, (e pera invernar naquella fortaleza ppr 
haver novas de gales y) de que era Capillo 
mor Alvaro Paes de Soto-maior ; e fabcndo 
aquella^ neceffidadej o defpedio logo, pera 
que fe foíTe por fobre aquella barra , e que 
íicaíTe alli favorecendo aquella Cidade até 
elle chegar , porque logo determinou.de a 
foccorrer em peífoa. Alvaro Paes de Soto? 
maior deo logo á vela com toda fuá Arma? 
da , que era de tres galeóes , de que a fóra 
elle eram Capitáes Joao de Mello. deBrito» 
e Henrique de Vafconcellos , e feis fuftas 
mais 5 em que hiam Diogo Ferreira , Duartc 
Pereira , Diogo de Sá , Cofmo Faia , AíFon- 
fo Coelho, e Gonjalo García, 

Partida efta Armada, foi-fe o Governa- 
dor por na ribeira , e mandou lanjar ao mar 
todos os navios que bavia, e tomar os que 
alli eñavam de fóra pera fe embarcar , é 
mandou dar muito grande prciTa a rudo , a 

que 



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Dec. vil Liv- V. Cap. V. 381 

que acudíram os Fidalgos, e Capitács, ea^ 
vallciros, eCidadáos princípaesi e tomando 
quaefquer que logo achavam negociados , fe 
embarcáram com muita preíía , com muiros 
Toldados que pera iíTo Ihes acudíram , que 
naquelle tempo fe ofFereciam pera o fervigo 
de ElRey , e andavatn grangeando os Ca- 
pitaes pera os levarem comíígo , fem paga , 
e lem inais interefle que aquella inclinajáo , 
que enrao tinham todos aquellas coufas. O 
que fe vero depois a trocar de feigáo , que 
já hdje nao ha hum, ou inui poucos y qtie 
fe queiram embarcar, fenáo mui bem com- 
prados, e alugados dos Capitáes ; porque 
além do foldo que Ihes ElRey paga , nao 
quercm ja menos de dous , ou tres quarteis 
ínais dos Capitáes , que fe empenham pera 
iflb ; e efta he a razSo , por que o fervifo 
de ElRey cufta já hoje finco , e feis vezes 
dóbrado , do que naquelle tempo , em que 
tambem pela barateza das coufas a ordinaria 
que ElRey dava baftava pera as defpezas 
da jornada , e das mezas que nos invernos 
davam pelas fortalezas , e aínda muitas ve- 
zes poupavam hum pedap pera fe prove- 
rem deoutras coufas* Mas tambem naquelle 
tempo pagavam aos foldados feus quarteis 
ordinarios de verao , e invernó , e Ihes da- 
yam mezas mui abaftadas ; e os Fidalgos tí- 
ijiham fuas cafas 1^0 clieas de foldados , que 

quao- 



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3S2 ASIA DE DiOGO DE COUTO 

quandq fe embarcavam nao bufcavam ou- 
tros , porque já os tinham em cafa, e fém- 
pre pelas deftes Fidalgos haviam neftaCida- 
de deGpa nos invernos mais de quinhemos 
delles agazalhados , porque ellas eram feus 
hofpítcies. O que tambem anda mudado , por- 
que já ha muico poucos que rccolhaní tnais 
que feus criados 5 porforrarem gaftos, edef- 
pezas, até os que faliem ricos de fuas for- 
talezas, que antigamence defpendiacn a mor 
parte do que deilas tiravam no fervijo de 
ElRey. E por ElRey D. Joao entender que 
era aüim neceíTario, tinha feito regimentó , 
que nenhumCapitáo, que fahiífe da fuá for- 
taleza, fefoíTe pera oReyno dentro émtres 
annos , porque os quería ter na India , aíHm 
pera hofpitaes de foldados , como pera a 
authoridade do confelho do Eftado. Mas 
tudo o bom liq táo acabado , que hoje fe 
nota por erro todo opaíTado ñas coufas do 
governo ; e corre antre elJes pratica geral , 
que o ántigo já nao he licito ; e que fe os 
Governadores andavam todos osveróes em- 
barcados , que hoje já nao era crédito do 
Eftado fiízerem-no , no que vam contra a 
opiniao de todos os doutos antigos , que 
affirmam que os Eftados pera fe nao desfa- 
lecerem fe háo de coníérvar com aquellas 
artes com que fe ganháram. Mas deftes ma- 
les y c.deíús miíerias tem culpa a cubica ^ 

que 



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Dec- vil Liv. V. Cap. V. 383 

que tem tomado pofle na India de todo o 
eftado de peíToas , acreditando-fe com a cou- 
fa , que mais vituperada foi dos antigos Ca- 
pitaes que todas , que he ede adquirir , e 
guardar, authorizando aquelle amigo adajo 
^ito pelo demonio , de quanto tens tanto 
vales. 

E tornando á noíTa ordem, OGoverna- 
dor foi dando muita preíTa á fuá embarca- 
cao , afliílindo de continuo no caes , e na ri- 
bcira pera dar defpacho as partes. E pera 
maior avia mentó, paíloií mandados aosQífí- 
ciaes , e Almox^rifes pera darem aos Capi- 
táes dos navios tudo o que Ihes foíTe necef* 
fario , de mantimentos , muni^Óes , cotonías , 
e todos os apparelhos de navios , de que 
tinham junto huma grande fomma. 

Em quanto fe faz preftes efia Armada » 
continúenlos com a de Alvaro Paes de Sor 
to-maior, quehia feguindo feucaminho pe- 
ra Chaul devagar por cauía dos NorocUes 
que curfavam , que Ihe eram contrarios ; e 
chegando aquella barra , entrón por ella com 
toda fuá Armada formofamente embandei- 
rada , falvando a Cidade com muitos tiros y 
e inftrumentos guerreiros , e alegres ; e ven- 
do o grande exercito pono da outra banda , 
e a preíTa que os Mouros davam na forti- 
ficagáp do Morro , furgio em parte donde 
ppadeíTe baterj oque fez com tanto eílrQin^ 

do, 



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384 ASIA DE DiÓGO DE COUTO 

do ^ e terremoto , que os que andavam na 
obra da fortifícalo , a foraní fazendo rouita 
devagar , porque a noíTa artilheria Iha im« 
pedía. Poucos días^ depois difto chegáram 
áquetla barra duas gales daquellas grandes^ 
e antigás, que vinham deBa^aim, c^rrega- 
das de madeira i e adiando a coufa naquel- 
le eftado , furgíram roais pcrto do Morro 
que os gnleóes , e fe puzeram á batería com 
elle : o que acabou de inquietar os Mouros , 
porque totalmente Ihe impedíram ofervifoj 
e fe alguma coufa faziam , era de noite , 
cufiando ainda defta maneira as vidas a mui-* 
tos; mas todavía naodefiftíram do negocio , 
e fe forara fortificando ó fnelhor que pude^ 
íam com muito trabalho, e perigo. 

CAPITULO vr. 

Da Armaia com que o Qovernador Fratt'^ 

, cifco Barreta partió pera o Norte , e che^ 

gou a Chaul: e das pazes que Ihe ps 

inimigos viandáram commetter , c 

do que nijpí pafjou. 

DEfpedido x^lvaro Paes de Sotomaior, 
ficou o Governador dando prelTa á Ar- 
cada com que havia de partir ; e os Fidal- 
gos, eCapitáes, que mais deprefla fe pude- 
ratñ negociar, nao quizeram efperar porel- 
}ej e fizeram vék pera Cbaul ^ onde -entra* 

vam 



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DEd VIL Liv. V. Cap. VL 385^ 

tram todos os dias , de finco em finco y e de 
cito em oiro navios , carregados de muirá , 
eJufirofa foldadefca, Gónt ó que já lii^es da^- 
ya a todos pouco do poder dos inimígosv 
O Gov^mador de tal mraneira fe apreflbuy 
que em menos dequinze dias feembarcouV' 
e deo á vela com toda a Armada que havia^, 
E porque nao he razao que íiquem eni e& 
quecímento osCapitáes que neda jornada fe 
acbáram , dárenK>s os nomes de (odos , afiím 
dos que foram.diañte , como dos que ficá* 
ram pera aeompanharem ,0 Governador } 
neta taremos diftinfáo de peífbas , riem de 
navios , porque tuda foram fuftas de rem^^ 
P* Diogo de Narorrfia o Coreos, D/ An^ 
fonio de Noronha o Catarraz , D. Antáó de 
Nofonha , D^ Alvaro da Silveira ,« D. Pedro 
de Menezes o ruivo , Gonzalo Falcáo , D. 
Affonfo Henriques , D/ Jorge de Menezes 
Parodie , Pantaleáo de Sá , D. Filippe de 
Caftro , Ayres Gomes da SHvst , D. Vafeó 
Fernandes de Ataíde , Maftim AiFonfo de 
Miranda ^ D.- Alvaro* de Ataídc, Fernáó de 
Soüfa de CaftcUo-branco , D^ Mariinho da 
Cunhá, D. JoáoCoütinho^ D.Lóurenjo de 
Soufa , Pero de Atáíde inferno ,♦ D. Luiz de 
Almeida , Ayres Telley de Menezes , D. Jor- 
g9 Pereira , D. Diogo de Ataíde , Antonio 
de Soufa Coutinbo o Lángara , Manoel de 
Mello y Lourenco de Soufa ,: Jeiron/mo Ba^ 
Coun.tomJK.P.t Bb re- 



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^26 ASIA DE DioGo bE Covto 

reto , Trifláo Vaz da Veiga , Gil de Gcc^j 
Alvaro Pires de Tavora, Joáo Lopes Lei- 
táoy Diogo de Miranda deAzevedo, Hen* 
ríque de Macedo , Manoel Travaflbs , Jorge 
Barrero, Manoel de Vafconcellos, Antonio 
Rabello , Jorge da Silva Correa , Manoel de 
Mendanha , Henrique Jaques Ouvidor geral , 
Cofmo Faia , Jorge de Mello , Alvaro Gon- 

SI ves Pinto , Efteváo Perefirello , Barnabé 
iafcarenbas y Cfiriflováo Pereira Homem , 
Duarte Paim de Mello , Luiz Cabral , Agof« 
tinho Nunes , Jorge de Moura , Gafpar de 
SáPínheiro, Francifco de Fjgueiredo , Dio- 
go Pereira , Manoel Fernandes de Manar y 
Ruy Fernandes , Antonio de Efpindola , 
Manoel Mouro , Antonio Martins , Baltfaa- 
zar ddCofta, Diogo Banha^ Balthazar Fer* 
«andes , Meftre Pedro , o Secretario , o Ca* 
pilSo da Guarda do Governador, o Feícor 
da Armada ^ Joáo Peixoto , Belchior Correa , 
Domingos Borges , Míigoel da Cofta , Bel- 
chior Godinho, Mariím Rodrigues, André 
Gon^alvcs de Dio , Braz Fragofo de Cow- 
)áo , Francifco Correa , Pedralvarez , Gon- 
plo Sanches , Ruy Godinho , Chriftováo 
Cordeiro , e outros muitos a qtie nao fabe- 
nios os notnes. E primeiro que o Governa- 
dor partiíFe de Goa , entregou o governo 
ao Bifpo , e CapitSo da Cidade , e deixou 
pelos tíos deGoa^ efuasllhas muitas niai>- 

chuas f 



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ÜÉtí. VIL Liv. V. Cap. VI. 3?/ 

chiras , e catures pera fuá guarda , dp que 
ficáram Capitáes Roque demandes , Antonio 
Carrilho, Diogo Gonyalves, Lancarote Pi- 
cardo , Diogo Madeira , Luíz Caftanho^^ 
Eytor Soares, Gonjalo Correa, Balthazar 
Soeiro, Antonio Feríeira , Arídré GorjSo , 
Antonio de Arzila , e ouiros. 

Partidp o Governador ^ foi íegtíindo fc» 
jornada até chegar a Chaul , e entrou pot 
fuá barra com toda a Armada formofamente 
embandeiradaf, efoi falvandó a:Cídade fem 
fazer cafo do Morro, e fe foi ao caed, oír* 
de defembarcou , fendo muito bem receñido 
daCrdade, eapofenfado em^ cafas, que pctz 
elle eftavam preftes ; e íogo comefbü n fer 
confellios fobre dar nos ininugoí , e ós deí- 
tar fóra do Morro, na que osmais dós^Caí^ 
pitaes concofdáram ; porqué nÍo fabednos 
que efpirito dav^a Déos aos homens daqoelle 
^empo , que todas as coufas Ibüs pareciam 
fáciles , fem nunca já mais refuzarem* bata^ 
íha que fe liles oflfereceíTe/ 

Concluido em darem nos inimrgps logó 
em frefco ^ comejáram a fazer feüs petre- 
chos , e aperctbimentos pera íflb^ e o Go- 
vernador fet alardo da gente que havia, fe 
acfíou quatró mil Fortuguezes , afóramuitoi^ 
Chriftáós , e efcravos , qye pddiam multa 
bem pelejar ; é aílím eftavam todos táo al- 
voroyados^ que defejavam de íe Janear a 
Bb ii n»* 



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.388 ASIA DE'DlOG'O DE COUTO 

«nado 4s.eftancj3s dos inim¡gos« OsCapitácg 
do Iflizamoxá vendo aquella potencia da 
Armada, c o rio , e o mar todo cheio de 
navios embandeirados , e cheios de muirá , 
• e muí luílrofa gente , e de muicos inftrumen- 
tos alegres , e guerreiros , que de continuo 
atroavam eíTes ares , com que IJies davam 
•os noíTos a entender o nlvoro^o com que 
cftavam , por fe verem j¿í ás maos com elles , 
receando aquclle poder ; c fendo avifados 
por efpias , como o Governador fe fazia pref- 
.tes pera lliesdar b¿^ialha, havendo feu cof>- 
felho , aflentáram , que feria melhor pedir-Ihe 

fazes y e fahirem-fe dalli com fuá honra.^ 
elo que deípedíram logo hum Mouro em 
Jiuma almadia com huma bandeira de paz , 
que foi levado ao Governador , e Ihe diflc 
.> que os. Capitacs deEIRey ihe mandavam 
> pedir licenja pera Ihe manda rem humEm- 
% baixador , pera com elle tratar coufas , 
j^ que Ihe convinham.» O Governador o de- 
teve; e ajuntando osCapitaes do confeUio, 
.aflentou-fe que fe ouviíTe , e que foubcíTe o 
.que quería , com o que o defpediram* £ 
.logo fobre a tarde tornou o Embaixador , 
que era hu^Ti Mouro criado do Faratecaa, 
.e vinba bem acompanliado y que logo foi 
Je vado ao Governador, queja eñava avifa- 
.do da qualidade de fuá peílba ;. e em che- 
gando ^ íhepoz aospés. hum fárdete debea- 



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Dbc. vil Liv, V. Cap- VL 38^ 

tilhas finas , que Ihe mandavam de prefcnte , 
(porque antre elles nao fecoftuma fallar em 
negocio algum femaquillo, que he final de 
amor, e ainizade.) O Governador mandou 
tomar o fárdete , e dc¡tar*lho por huma ja* 
nella fóra ; e müiro menencorio Ihe mandou 
dizer pelo üngua « que o nSo lan^ava tam* 
» bem a elle, porque nao linha culpaj mas 
» que difleíTe a feu amo que a die o havia 
9 de fazer. » O Mouro pafmado da paixáo 
do Governador , fem refponder coufa algu* 
ma , fe foifahindo , e recolhendo a fuas- 
embarcaf6es; epaflbu-fe logo daoutra ban- 
da táo amedrontado , que ainda depois de 
eftar com os Capiíáes no exercito > nao po- 
dia cobrar foiego pera fallar. 

Sabendo oFaratecan oxjuepaflava, def- 
pedio logo com muita prefla hum daquelles 
Capiíáes chamado Rafarecan , muito bem 
acompanhado , e com hum prelente muito 
differcnte do outro. O Governador recebeo 
efte homem bem , porque era grave /e hon- 
rado , e o ouvio , e elle Ihe difie da parte 
de feu Rey « que íua ten§áo nunca fora rom- 
» per guerra com os Portuguezes , de quem 
m era amigo havia tantos annos , e a quera 
» elle dera aquclle feu porto graciofamenrc ; 
m poreftimar muito reltos porvizinhos; mas 
n que acudirá a fe nao mandar elle Gover- 
> nador fortificar naquelle Morro i como Ihe 

n dif 



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39Ó ASIA DE 0IOQO DE COUTO 

» diíTeram que pertefldia, porque ííTo feria 
% lan^ar-lhe hum cadeado naquelle feu por- 
]i to y que era o principal que rinha em feu 
) Reyüo , pera nao podereni oíais entrar , 
» e fahir fuas naos , que eram livres. Que 
» elle efiava preftes pera guardar , e cumprir 

> os comraios das pazes feitas pelos Gover** 
}^ nadores paíTados , corno íempre fizera , 
» porque era fervidor ^e ElRey de Poriu-* 
yr gal , e muito amigo delle Governador. » 

Francífco Barrero o ouvio bem , e Ihe 
reípofideo t qucfedctiveíTe até ooutro dia, 
)i em que com o Veador da fazenda , Se-- 
)i cretario , .e mais Officiaes de El Rey tra* 
» tafle daque^le negocio , que elles o defpai» 
9 chariam.» E oenjtregou ao lingua doEf^ 
tado y pera que Q apo&ntaíTc mui b^ein y e 
íbe deHcm todo o ncceflario , cooio fe fezt 

E entrando em negocio , víeram-fí? a con-^ 
firmar as pazes que eftavam feitas. 

« E que quanto ao Morro , que logo 

> fe mandaíTe dcsfazcr o forte , em que nem 
» elle, nem os Governadores da India po* 

> deriam nunca já mais mandar fazer nelle 
» fortaleza alguraa j e que o primeiro que 
)» tentare fazella , ficafle fendo o quebrantá- 
is dor das pazes , e perdeíTe o direito.que 

> tinha nelle, e que ooutro fe pudeíle for«> 

> tincar nelJe fem Iho impcdirem, 

«t E que íoltaria logo o iEmbaixador com 



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Dec. VII. Liv. V- Gap. VL 391 

T$ todos os Portuguczes , que ElRey man* 
» dou prender. 

ce E que diante do mefmo Embaíxador 
» jurarla ElRey as pazes.i> Aflentados eftes 
contratos , e jurados pelo Governador , e 
pelos Capitáes Mouros, que pera iíTo mof- 
tráram poderes bañantes y mandou logo o 
Governador apregoallas ; o que fe fez affim 
na Gidade , e fortaleza » como na de Chaul 
de íiraa, e exercito. Com ido alevantáram 
os Inimigos o campo , e desfizeram as tran- 
queiraá , que eftavam no Morro , e fe fóram 
pera o Halágate. 

CAPITULO VII. 

De como o Governador Francifco Barreta 

mandou defapojjar D. joao de Ataíde da 

Capitanía deUrmuz , pera onde fol D. 

Antao de Noronha : e. do que mais 

fez até fe partir pera Goa. 

DEclaradas as pazes pela Gidade » toma- 
ram-fe tanto a mát dos foldados, que 
eílavam alvorojados pera fe verem ás mács 
com os inimigos , que fe comejáram a fol* 
tar em palavras contra o Governador , e a 
cantarem-lhe de noire cantigas jujas ^ e des- 
honeftas. E porqué fe hia gaflando overáo*, 
e era tempo de prover ñas coufas de Ormuz , 
mandou ver pelos Oefembargadore3 , que 

Ic- 



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59* ASIA DE DiOGO DE COÜTO 

levou ) as culpas que de \i vieram contra 
D. Joáo de Taíde , que lá eftava por Ca* 
pkáo; e foi fentenciado que fe fofle livrar 
á India ; com p que o Governador defpa^ 
chou logo a D^ Antao de Noronha , que 
efta^ira próvido daquelia Capitanía , de que 
já tinha férvido hum anno i mas tinha-lhe 
aquelle vindo do Reyno huma Provisao de 
ElRey , em que Ihe fazia mercé , que lh6 
nio correíTe aquelle tempo ^ mas que aca-^ 
ba^e os tres annos por encheio. 

E porque das culpas de D. Joáo de Tai- 
de nao temos tratado atrás , o faremos ago^ 
ra , porque feryiráó de avifo , affini pera os 
Capitáes das fortalezas fazercm nellas o que 
ílcy.em , como pera os Governadores f^ nlo 
deixarem levar da paixáo , e odio ^ couft ,* 
que tanto desfea hum Varáo , por muito fa- 
mofo qye feja, E aíllm o que mais cngran- 
dece y c fublima hum Capitáo , e o que maior 
mágoa, ecaftigo he pera feus iniroigos, he 
fázer coufas, cobrar feitos , deque ihcs cW 
lc« tcnJiam inveja. Iflo he o que aconfelha- 
va aquelle grande Diogencs a hum feu amiT 
go , qije Ihe perguntou o que faria pera fe 
vingar de hum inimigo? A que refpondeo: 
Qiie trabalhaíTe por íer bom , e que Ihe ti^ 
veíTe elle inveja. 

E tornando a noíTo fio, O cafo de D. 
^oap ele Taídg ^ feg^ndo o qqe cpnílava dos 



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Dec. Vil. Liy. V. Cap, Vil. 393 

tutos , foi efte. Era efie Fidalgo hgm pouco 
livre^ e apaixonada; e na fuá Capitana fz^ 
zia aigumas coufas , que cfcandalizavatn , 
principalmente na materia dosemprefiimos, 
que todos os CapitSes pedem em iuas Ca- 
ípitanias aos moradores > a que mais Ihe po« 
demos chamar forjas , ^ue empreftimos : no 
que elle parece que excedía o modo , do 
que fe mandáram queixar ao Govcrnador , 
e Ihe mandáram hum fummarío de culpas ,^ 
que Ihe lá tiráram cmfegredo. Ecomo elle^ 
ou nao eftava muito feu amigo, ou levadq 
do efcrupulo da confciencia , mandou em 
principio defte veráo tirar delle devaíías, 
que Ihe chegáram efiando em Chaul , epor 
ellas foi fentenciado que fe foíFé livrar a 
Goa; mas fegundo alguns homens velhos, 
e honrados daquelle tempo nos diíferam, o 
negocio nafceo diflo. Quando Pero Barreto 
Rolim foi ao Cinde , que fez aquella de& 
truigáo , (como atrás diíTemos no Cap. XII. 
do III. Liv. , ) eftava D, Joáo de Taíde por 
Capitáo em Ormuz , que recebeo grande 
perda naque! le alevantamento ; porque os 
Capitáes de Ormuz o mor commercio , tra- 
to , e proveito que tem he o do Cinde ; e 
cfaegando-lhe novas do que Pero Barreto Ro- 
lim íizera , dizem que diíTera muito apaixo*' 
nado : « Tal balcarriadá foi efta , que Fran-j 
j^áfco Barreto mandou fazer^ como a qu9 

» elle 



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394 ASIA DE DioGo t>E Coüto 

» elle fez cm gallar duzencos mil pardaos «m 
» huma groíTa Armada, pera elle ir a Ba- 
}» pim a coufas de feu gofto.v E como na 
India nunca faltam roezedores, e corretores 
de novas aos Vifo-Reys , e Governadores , 
(coufa, que elles muko haviam deedranbar 
por fuá authoridade , porque parece que em 
certo modo o defacata quem Ihe vai com 
tnexericos ; porque aílim como o oíficio da 
juftí^a he nao engañar ^ aflim o da pniden* 
cia he procurar nao fer engañado , ) foi al» 
gumcuriofo contar-Ihe oque difiera D.Jóáo 
deTaíde, do que dizem ficára táo tomado, 
que Ihe nao pezou com as culpas , que Ihe 
delle mandáram pera o depor, pelo menos 
nao Ihas quiz diíCmular , coufa tanto contra 
a obrigayao do que governa , conforme aquel* 
la fentenja de Domicío Aphro , que o Prín* 
cipe que quer íaber , e ouvir rudo , he ne* 
ceflario que diífimule , e perdoe tudo* 

Defpachado D. Antáo de Noronha pera 
Ormuz , fez vela na entrada de Abril ; c 
chegando aquella fortaleza , Ihaeniregou D* 
Joáo de Taíde , tendo férvido pouco mais 
de anno e mcio , e logo fe embarcou pera 
Mafcate, e depois em Setembro. pera Goa. 
Defpachadas eüas coufas , foi o Governador 
a Ba^aim , o que Ihe todos eñranháram mui<» 
to, emurmuráram diíFo publicamente, por* 
que alguDS dosFidalgos aáoeram feus ami«> 

gos^ 



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Dbc. vil Liv. V. Cap. VIIL 395- 

gos , e pejavam-fe com elle naquelle lugar ; 
que a inveja faz cuidar a quem a rem j que 
merecem as coufas melbor , que quem as 
poíTue , que he o de que o mundo eftá 
cheio. 

CAPITULO VIIL 

De como o Governador Trancifco Barre tú 

fe partió pera Goa : e da grande Ar^ 

mada , e apercehimentos que fez 

pera ir ao Acbem. 

DEpois que o Governador Francifco Bar- 
reto defpachou D. Antáo de Noronha 
pera Ormuz , paflbu a Bajraim , e deo def- 
pacho a algumas coufas muito depreíTa , por* 
que fe fazia tempo de fe ir pera Goa, como 
fez , pera provcr as fortalezas de Malaca , 
e Maluco , e Ceiláo. Chegado a Goa em 
breves dias , defpachou os provimentos pera 
Ceiláo , Malaca , e Maluco , e com ifto fe 
cerrou o invernó , em que o Governador 
jtratou de fazer huma Armada multo groífa 
pera ir ^oAchem, fe Ihe nao vieiíe fucceC-, 
for. E porque as cafas do Sabayo , pera ofl«^ 
de elle fe mudou por falecimento do VJfo^ 
Rey D, Pedro Mafcarenhas , Ihe diflerara: 
que eftavam pera cahir , fe mudou pera a^ 
fortaleza, que mandou concertar, e femprd^ 
íicou fendo dahi por diante o apofento dos 
Vifo-Reys , e Governadores, 

E 



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39^ ASIA DE DiOGO DE COUTO 

E porque as pazes , que eflavam feitas 
com osCapitáes doldalxá ficáram ¡mperfei- 
tas , por fe nao jurarem , defpachou o Go- 
vernador hum Embaixador pera mandar ao 
Idalcan , que foi lá muito bem recebido de 
EIRey , e diante delle as jurou , e logo o 
Governador entrón nos negocios da Arma* 
da, que dcterminava fazer pera ir aoAchemi 
a fazer huma fortaleza , como EIRey man- 
dava , pera defaflbmbrar a de Malaca da- 
quelle ¡nimigo. E pera mor aviamento re- 
partió os galeóes , e mais vafilhas pelos Ca- 
pítáes que havia de levar , pera correrem 
com feu aviamento ; e paflbu Provisóes pera 
os Almoxarifes darem porefcritos deftesCa- 
pitáes todas as coufas neceíTarias pera os na- 
vios , porque de tudo tinha os almazens mui- 
to beni próvidos. E como a ribeira das Ar- 
madas tinha ainda nefte tempo pcrto de qua- 
trocentos homens do mar Portuguezes, fo- 
ram os oíRciaes dos galeSes correndo com 
elles, fem fe embaragarem em obraalhea, 
com tanta ordem , e provimento , que quan- 
do fe acabou de negociar hum , o foram to- 
dos ; porque o Governador todo aquelle 
tempo aíTiftio na ribeira , onde elle , e os 
Capitáes comiam , e dorminm as mais das 
noites, e andava^o Governador fempre com 
a bolfa aberta pera os trabalbadores , que 
fol^ayam de fervir a EIRey com multo go& 

to. 



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Dec. VIL Liv- V. Ca?. VIIL 397 

to. £ quando foi entrada de Setembro ti- 
nha no rio de Goa a mais potente Armada , 
que a India teve , porque eram vinte e fin- 
co galedes , e cara velas , dez gales , e mais 
de iétenta gaieotas, e fuñase e osCapicáes» 
que eílavam nomeados pera os galeóes ^ sao 
os feguintes. 

O Governador no S. Mattheus , Jorge 
de Mendoca , D.Jorge de Menezes Barocbe , 
Hcnrique de Macedo , Pero de Mefquha; 
o Licenciado Antonio Rodrigues de Gam- 
boa , Manoel Travaflbs, Manoel de Vaf- 
concellos , D* Martinho da Cunlia , Henri- 
que Jaques, Ouvidor geral , Jorge deMour 
ra , Diogo Pereira , Manoel de Mello da 
Cunlia , Fernáo de Noronha , e André de 
Soufa. Os das gales , Martim AíFonfo de 
Miranda , Ayrcs Telles , Triftáo Vaz da 
Veiga , Diogo Jufarte Tijáo , D. Diogo de 
Taíde, D. Vafeo deTaíde, D. Leoniz Pe- 
reira 5 Joáo Lopes Leitáo , Antonio de 
Abreu, e Fernáo de Soufa deCaftelIo-bran- 
Co. Os das fuftas , e galeotas nao nomeamos 
por fcr infinitos. Todas eftas vafilhas eflavaní 
próvidas de ofEciaes , artilherla , munijoes , 
e mantimentos , e tao a ponto , que a cada 
hora podiam fazer . viagem* 

É quando foram yinte de Agofto chegou 
á barra de Goa D. Joáo de Taíde, que vi- 
nha dé Ormuz , e logo a tres de Setembro 

qua- 



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39S ASIA DE DioQo DE Covrch 

quatro naos do Reyno, em que vinha por 
Vifo-Rey da India D. Conftantino de Bra- 
gan^a : e por iílb concluiremos aquí com ci- 
te Governador. Foi Francifco Barrero íilho 
fegundo do grande Ruy Barrero , Fronteiro 
mor do Algarve, e de Dona Branca de Ví- 
Ihena. Foi cafado com Dona Francifca de 
Gaftro , filha de D. Luiz de Menezes , Alfe- 
res mor que foi de Portugal , irmáo de D. 
Duarte de Menezes , Senhor da cafa de Ta- 
rouca , de quem houve dous filhos , Ruy 
Nunes Barrero , eLuiz da Silva, que ambos 
morréram na India* E por fuá morre dclla ^ 
depois que acabou de ícr Governador , ca- 
íbu com Dona Britcs de Taíde , irmá do 
Conde de Atouguia D* Luiz de Taíde, 
mulher que fora de ChriftovSo de Brito. 
Depois oencarregou EIRey deCapiráo niór 
das gales , com que fe achou em favor de 
EIRey de Cadella na romada do Pinháo de 
Bellez. Depois o mandón por Governador, 
cconquiftador do Imperio de Monamotapa , 
Onde faleceo, como na IX. Decada fe verá* 



Pm DO LiVr V.^ DA Década VIL 



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NOV 2 3 1945 



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